Em entrevista ao Entretetizei, a autora da série Ya Bratva conta sobre a sua carreira, a superação do câncer e o seu mais recente lançamento, Meu Lado Oculto
A autora brasileira Lucy Foster conquistou um público fiel no Kindle Unlimited com histórias intensas, que vão do drama emocionante ao dark romance cheio de ação e paixão. Sua escrita é marcada por protagonistas femininas fortes e universos interligados, que fazem as leitoras se apaixonarem livro após livro.

Seu lançamento mais recente é o quarto volume da série Ya Bratva, Meu Lado Oculto (2025), centrado em Andrei Nikolaevich e Kira Grigorieva, um dos casais mais aguardados pelos fãs. Antes de concluí-lo, porém, Lucy precisou dar uma pausa na carreira para enfrentar uma das maiores batalhas de sua vida: o diagnóstico de câncer de mama. Após o tratamento de dois anos, ela retorna ainda mais fortalecida, pronta para compartilhar não apenas suas histórias, mas também sua própria trajetória de superação.

Nesta entrevista, conversamos sobre sua vida pessoal, os desafios da carreira literária – sobretudo no que tange ao dark romance –, o poder de personagens femininas fortes e, claro, os segredos e emoções por trás do universo de Ya Bratva.
Entretetizei: Para começarmos, poderia nos contar um pouco sobre você?
Lucy Foster: Atualmente tenho 52 anos e sou casada há 28. Tenho dois filhos adultos e resido em Ribeirão Preto com meu marido, meu filho mais novo, um sobrinho e dois gatos. Vivo integralmente da escrita, mas durante muito tempo precisei conciliar a carreira de escritora com o trabalho em home office na empresa de informática do meu marido, que foi fechada durante a pandemia.
E: O que te motivou a escrever?
LF: Sempre fui apaixonada pela leitura, o que naturalmente me levou, desde pequena, a criar histórias na minha imaginação. Ainda criança, dava vida aos personagens com bonecos de papel, organizando-os para montar peças de teatro. Ao concluir o ensino médio, em 1990, enfrentei um período em que não pude ingressar em uma faculdade, ficando sem estudar ou trabalhar. Naquele momento, não percebia que a solidão e o isolamento dentro de casa estavam evoluindo para um quadro de depressão.
Foi então que comecei a escrever em cadernos. Algumas das histórias eram inspiradas em bandas de rock ou no grupo NKOTB, sem saber que aquilo se chamava fanfic, enquanto outras eram criações completamente originais. Porém, ao arranjar um emprego, acabei por deixar a escrita e, até mesmo, a leitura de lado.
Anos mais tarde, já casada e trabalhando em home office, vivi novamente aquele “vazio” da juventude, o que me fez retornar à leitura. Descobri o mercado erótico nacional e a plataforma Wattpad, onde encontrei inúmeras fanfics e histórias originais.
Foi esse contato que me estimulou a retomar um dos meus antigos cadernos e decidi publicar uma das histórias prontas. Acabei por unir dois enredos em um só, que se tornou Entre Oceanos, que publiquei na plataforma em 2018, mesmo sem compreender totalmente como ela funcionava.
Inicialmente, não tive visualizações ou comentários, o que me levou a remodelar o enredo. Dessa reestruturação, nasceu um novo personagem, que ganhou seu próprio livro: Senhor Tempestade. Publiquei essa obra no Wattpad em 2019 e, desde então, nunca mais parei. Em fevereiro daquele ano, publiquei o livro na Amazon e, desde março de 2020, essa passou a ser a única plataforma onde os disponibilizo.
E: Sua família acompanha a sua carreira como autora? De que forma eles participam ou te incentivam nesse caminho?
LF: Eles acompanham e, felizmente, já tenho filhos adultos, o que torna tudo mais fácil. Na época de escrita, sempre posso contar com eles cuidando de tudo enquanto fico trancada no escritório.
E: Nos últimos anos, você passou pelo tratamento contra o câncer, o que a fez pausar sua carreira. Como foi viver essa experiência tão intensa? O que mudou na sua visão de vida e de si mesma depois desse processo?
LF: No início, fiquei muito mal, porque descobri a doença logo após a Bienal do Livro. Eu estava vivendo a melhor época da minha carreira e, de repente, por dois anos inteiros, eu não consegui trabalhar.
O primeiro pensamento foi de finitude, seja da vida ou da carreira. Mas durante todo o meu tratamento, tive contato com muita gente passando pela mesma luta que eu. A esperança, a resiliência e o amor pela vida que eu vi durante todo esse tempo me transformaram muito.
Graças a Deus, o tratamento foi eficaz e, agora, eu só preciso cuidar de mim. E essa foi a maior mudança que experimentei: me colocar em primeiro lugar.
E: Você transita com naturalidade entre diferentes gêneros. Há algum gênero que ainda gostaria de explorar? Ou algum que represente um desafio maior para você?
LF: Na verdade, quando a história surge, eu só vou entender a que gênero ela pertence quando começo a estruturá-la. Tenho várias ideias anotadas aqui que vão surgindo com o passar do tempo, mas que não foram pensadas para ser um drama ou dark.
Talvez a única que surgiu com o propósito claro de ser uma comédia romântica foi Inesperada Sedução, que se tornou, depois, uma trilogia.
A única coisa que eu não tenho vontade de explorar, enquanto enredo, são os poliamorosos. Não consumo e, por isso, não saberia desenvolver. Qualquer outro, desde que envolva romance, pode se tornar uma possibilidade.
E: O dark romance tem ganhado cada vez mais visibilidade, especialmente nas redes sociais. Mas, ao mesmo tempo, também enfrenta muitas críticas e até preconceito. Na sua visão, por que histórias voltadas ao público feminino e seus desejos ainda são um tabu?
LF: Porque o patriarcado não gosta de perder espaço. Atualmente, a literatura feminina movimenta o sistema de autopublicação da Amazon, permitindo que autoras conquistem autonomia e visibilidade, impulsionando o crescimento da literatura erótica, da qual o dark romance faz parte.
Esse sucesso provocou uma mudança no cenário, ofuscando escritores conservadores que já não conseguem mais espaço no ranking de mais vendidos – mesmo tendo todo o apoio do mercado tradicional.
O preconceito muito vem desse conservadorismo, que é reflexo do patriarcado, o qual diminui os desejos femininos com a desculpa de “preocupação”. E digo isso com muita tranquilidade, porque antes do dark romance, já havia um movimento semelhante, acusando o erótico de não ser literatura.
Qualquer produto, em qualquer segmento, que for direcionado às mulheres e obtiver sucesso, enfrentará resistência da ala conservadora – a não ser que seja um homem como protagonista.
E: Para além do entretenimento, suas protagonistas costumam ser mulheres fortes, diversas e muito humanas. Qual a importância de trazer essas personagens para a ficção, considerando que muitas leitoras se identificam com suas histórias?
LF: Em toda a minha vida de leitora de romances, eu me apaixonei por diversos personagens literários. Mas o que fazia diferença mesmo era me ver nas ações das protagonistas, me identificar com elas.
E, por isso, eu acho importante criar mulheres fortes que, mesmo em meio ao caos do drama ou do dark romance, possam inspirar quem está lendo. Mesmo as mais frágeis acabam encontrando força sem se escorar no par romântico. É algo pessoal, o parceiro pode ser um companheiro para a vida, mas não necessariamente ser o nosso salvador.
E: Como é o seu processo de escrita? Você segue algum ritual ou mania que te ajuda a entrar no clima da história?
LF: Costuma ser caótico, porque não sou a pessoa mais organizada do mundo. Mas eu tento manter o mínimo de ordem antes de iniciar um livro: escolho o casal da vez e tento entendê-los, roteirizo o livro, busco referências para fazer o visual da história (filmes, música e fotografias), faço as pesquisas iniciais e, depois, começo a escrever.
Enquanto estou escrevendo, fico mergulhada apenas em coisas desse universo. Por exemplo, quando estava escrevendo os mafiosos russos, eu consumia muita mídia russa (meu algoritmo sofre). Agora, estou mergulhada em outro tema e isso influencia no que assisto ou no que escuto.
E: Suas obras costumam ter personagens que aparecem em diferentes livros, criando uma sensação de universo compartilhado. Isso é algo planejado desde o início ou aconteceu de forma espontânea?
LF: Aconteceu espontaneamente. Eu estava reformulando a história de Entre Oceanos e precisava de um personagem que fosse advogado. Logo tive o vislumbre de um enredo para ele, que ganhou o seu livro e, consequentemente, um spin-off.
Para mim, todos eles moram no mesmo país, que eu chamo de Fosterlândia. Eu não entendia como funcionava o mercado, apenas escrevia as histórias que surgiam. Mais adiante é que eu fui entender o conceito de “universo” ou o Fosterverso.
E: O livro do Andrei, Meu Lado Oculto, foi muito aguardado, mas precisou ser adiado por conta do seu tratamento. Como foi para você manter a conexão com esses personagens depois de um tempo afastada? Quais foram os maiores desafios?
LF: Eu nunca me desconectei deles, porque passei os dois anos presa a eles, tentando retomar a escrita. Li e reli os outros livros insistentemente, para não perder essa ligação e, tampouco, a voz dos personagens.
O maior desafio pra mim foi lidar com a cobrança que a expectativa causava. É o último livro de uma série aguardada, com o desfecho de um enredo geral que se iniciou no primeiro livro, Meu Lado Obscuro, e que o leitor teve dois anos para criar todas as teorias possíveis.
Então, de alguma forma, eu sabia que o leitor já tinha chegado ao culpado e eu precisava fazer de forma que fosse prazeroso mesmo ele já sabendo a resposta.
E: A temática do traidor vem sendo construída ao longo da série Ya Bratva. No primeiro livro, Meu Lado Obscuro, isso é introduzido; em Meu Lado Mortal, o leitor percebe que alguns acontecimentos não são coincidência; em Meu Lado Cruel, há a confirmação de que o problema é bem mais profundo e, finalmente, em Meu Lado Oculto, todas as respostas surgem. Você já tinha tudo planejado desde o começo ou foi algo que se desenvolveu conforme a escrita avançava?
LF: Isso já estava planejado desde o início. Contudo, o bônus do final do último livro, Meu Lado Oculto, foi algo de que me dei conta bem depois – e foi uma boa surpresa, para mim, me dar conta disso. Mas a construção do enredo da máfia foi toda feita ao redor do traidor.

A trajetória de Lucy Foster é marcada pela força de quem transforma os desafios em inspiração e compartilha com as leitoras histórias intensas, cheias de emoção e coragem. Se você ainda não conhece seus livros, todos estão disponíveis no Kindle Unlimited, na Amazon. Para acompanhar o trabalho da autora, não deixe de segui-la no Instagram.
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Texto revisado por Cristiane Amarante









