Entre o brilho tropical dos Secos & Molhados e o glam explosivo do Kiss, a pergunta permanece: quem pintou o rosto primeiro, Ney Matogrosso ou a banda Kiss?
Antes de mais nada, precisamos fazer um pequeno exercício de viagem no tempo. Estamos nos anos 70. A ditadura militar ainda censurava tudo, os movimentos culturais borbulhavam no submundo e o mundo começava a experimentar o glam rock, com suas plataformas, brilhos e maquiagens exageradas. No meio disso tudo, um grupo brasileiro chamado Secos & Molhados surge com uma estética absolutamente fora da curva — liderado por Ney Matogrosso, que, além de cantar com uma voz aguda e potente, subia nos palcos usando roupas andróginas, maquiagem pesada e um olhar que desafiava qualquer norma de gênero.
O ano? 1973.
Sim, em pleno Brasil repressivo, Ney já causava furor com seus olhos pintados, delineados tribais e roupas quase futuristas. O primeiro álbum da banda, Secos & Molhados, estourou nas paradas e revolucionou não só a música, mas também a performance e o visual no país.
Agora corta pra Nova York
Kiss surgiu no mesmo ano — 1973 — mas com um detalhe importante: o primeiro álbum só saiu em 1974. E as maquiagens que se tornariam icônicas (o demônio, o gato, o homem do espaço e o starchild) ainda estavam em processo de lapidação quando Ney já era capa de revista. Ou seja, em termos de cronologia, Ney Matogrosso maquiado no palco chegou primeiro do que o Kiss nas lojas e nos palcos com seus rostos pintados.
Mas calma que isso não é uma competição. A proposta estética dos dois era diferente. Enquanto Ney misturava arte performática, teatro, cultura indígena, cabaré e poesia com críticas sociais, o Kiss se apoiava numa estética mais voltada ao entretenimento grandioso do rock americano — com pirotecnia, guitarras flamejantes e um apelo quase sobrenatural nos personagens que criaram. Gene Simmons cuspindo fogo e sangue era algo que Ney jamais faria (embora um rebolado dele já causasse um impacto parecido por aqui).
Mesmo assim, não dá pra ignorar o pioneirismo brasileiro. Ney não só pintou a cara antes, como fez isso em um país onde ser extravagante era um risco real. Ele desafiou normas de gênero, encarnou arquétipos próprios e influenciou gerações inteiras — de artistas brasileiros até performers internacionais.
A influência e a resistência
Enquanto o Kiss conquistava os estádios, Ney enfrentava a censura e os tabus de um Brasil conservador com coragem e ousadia. A maquiagem, nesses dois casos, servia para amplificar a persona do artista — mas no caso do Ney, era também uma forma de resistência, de questionamento, de arte política.
A comparação entre os dois até hoje gera debates e memes nas redes. “Kiss é legal, mas o Ney é arte” virou quase um lema. E com razão. Não porque um seja melhor que o outro — mas porque a trajetória de Ney Matogrosso representa algo muito maior que estética: representa coragem, revolução e expressão em sua forma mais crua e brilhante.
Então, da próxima vez que alguém disser que o Kiss inovou com maquiagem, lembra: aqui no Brasil, Ney já tinha passado o delineador antes.
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Texto revisado por Laura Maria Fernandes de Carvalho










