Primeiro volume da HQ mergulha na dualidade entre luz e trevas, amor e maldição, mostrando que amadurecer pode ser o mais terrível dos feitiços
Publicado no Brasil pela Geektopia, o primeiro volume de O Mundo Sombrio de Sabrina (2019) marca uma reinvenção ousada da jovem feiticeira que muitos conheceram em versões mais leves e televisivas. Em 2018, a história ganhou uma adaptação pela Netflix que, ao longo de quatro temporadas, deu vida e movimento à jornada sombria da protagonista.

Escrita por Roberto Aguirre-Sacasa e ilustrada por Robert Hack, a HQ transporta Sabrina Spellman para um universo sombrio, repleto de ocultismo, dilemas morais e atmosferas de horror gótico – deixando-a mais próxima de A Bruxa de Blair (1999) do que da clássica sitcom dos anos 1990.

Entre dois mundos: a escolha de Sabrina
Às vésperas de completar 16 anos, Sabrina precisa tomar uma decisão definitiva: seguir o legado de sua família e abraçar o mundo das trevas, ou continuar vivendo como humana ao lado de Harvey Kinkle, o garoto por quem é apaixonada. Essa encruzilhada, central à trama, simboliza o conflito entre destino e livre-arbítrio – um dos eixos narrativos mais instigantes da HQ.

Paralelamente, a história revisita o passado dos Spellman, revelando o controverso relacionamento de Edward, pai de Sabrina, com a mortal Diana Sawyer e as consequências que esse amor proibido trouxe para toda a linhagem.
A chegada de Madame Satã, ex-amante do pai da protagonista, adiciona uma camada de vingança e perversão, colocando em risco tudo o que a jovem acredita sobre si mesma.
Horror com estética retrô
A ambientação na década de 1960 dá à obra uma estética retrô que reforça seu clima de estranheza e isolamento. A arte de Robert Hack é essencial nesse processo: com pinceladas texturizadas, cores amareladas e sombras intensas, ele constrói uma atmosfera que parece saída de um pesadelo – tornando-se um convite visual à inquietação.

Cada página transmite um senso de desconforto e decadência, em perfeita sintonia com o roteiro. A estética do horror clássico se mistura a referências ocultistas e rituais macabros, criando uma narrativa que se destaca pela coerência visual e pelo cuidado com a ambientação.
Entre o sagrado e o profano
O texto de Aguirre-Sacasa se equilibra entre o grotesco e o psicológico. A história não depende apenas do choque visual, mas investe no terror moral, aquele que nasce do conflito entre fé, identidade e desejo. Sabrina é uma adolescente dividida entre duas heranças irreconciliáveis e sua jornada ecoa as incertezas da própria transição para a vida adulta.

As tias, Hilda e Zelda Spellman, ganham novas nuances, mais próximas de guardiãs sombrias do que de figuras maternas. Salem, o gato falante, mantém seu sarcasmo característico, mas aqui é também um eco de um passado trágico – lembrando constantemente à protagonista que até a magia tem um preço.
Um começo promissor (e perturbador)
Como volume introdutório, O Mundo Sombrio de Sabrina cumpre bem o papel de apresentar seu universo. O ritmo é deliberadamente lento em certos momentos, permitindo que a tensão se acumule até explodir em cenas de horror puro.
Ainda assim, há leitores que apontam uma certa previsibilidade nos arcos ou que sentem falta de uma Sabrina mais assertiva – críticas compreensíveis, mas que não diminuem o impacto da proposta.

A HQ dialoga com temas como herança familiar, destino, repressão, identidade e encontra força justamente quando abraça o desconforto. É um terror que não busca apenas assustar, mas provocar. E, nesse sentido, entrega uma experiência densa, visualmente fascinante e emocionalmente ambígua.
Entre o horror e o amadurecimento
Mais do que uma história sobre bruxas, O Mundo Sombrio de Sabrina é um conto sobre o custo de crescer. Sua protagonista aprende que o poder sempre cobra algo em troca e que o amor pode ser tão perigoso quanto qualquer feitiço.

Com uma arte hipnótica e uma narrativa que mistura ocultismo, tragédia e coming-of-age (tradução livre: chegada à maioridade), o quadrinho se firma como uma das versões mais ousadas da personagem: uma que entende que amadurecer também é encarar o próprio lado sombrio.
Quando o terror também se revela nas páginas: a edição da Geektopia
A edição da Geektopia mantém o padrão de qualidade característico do selo do Grupo Novo Século, com capa cartonada de ótima gramatura e impressão em cores vivas, que realçam o contraste das ilustrações de Robert Hack. O papel couché oferece excelente definição às tonalidades sombrias e à textura gótica das páginas, preservando a atmosfera retrô da obra.

O cuidado editorial se reflete também na tradução, que preserva o tom arcaico e cerimonial dos diálogos sem perder fluidez. É uma edição que valoriza tanto o leitor casual quanto o colecionador, equilibrando preço acessível e acabamento de qualidade.
É possível adquirir o primeiro volume da obra na Amazon.
Sobre os autores

Roberto Aguirre-Sacasa é roteirista, dramaturgo e quadrinista, conhecido por reinventar personagens clássicos da cultura pop sob uma ótica sombria e emocional. Além de O Mundo Sombrio de Sabrina (2018), ele é o criador da série Riverdale (2017) e produziu a série musical Glee (2009).

Já escreveu gibis para a Marvel Comics, como Quarteto Fantástico: Jogados aos Lobos (2022) e O Espetacular Homem-Aranha – Volume 13. Também adaptou em HQ o romance A Dança da Morte (2008), de Stephen King.
Sua escrita combina elementos de melodrama, horror e crítica social, transformando arquétipos juvenis em figuras complexas e moralmente ambíguas.
Robert Hack, ilustrador responsável pela arte da HQ, é reconhecido por seu estilo gótico e texturizado, marcado por paletas sombrias e composições que evocam o horror clássico.

Seu trabalho em O Mundo Sombrio de Sabrina ajudou a definir a identidade visual da série, com uma estética retrô e perturbadora que mescla elegância e decadência. Hack também ilustrou capas para a adaptações de Doctor Who (2022) e Star Wars: Tales From the Nightlands (2025).
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Texto revisado por Angela Maziero Santana









