Primeira animação brasileira selecionada para o Festival de Berlim chegou aos cinemas em setembro e apresenta imagens, sons, movimentos e situações que deixam espaço para que cada um complete a experiência
Papaya, de Priscilla Kellen (O menino e o Mundo, 2016), chegou aos cinemas brasileiros em 24 de setembro de 2026. O longa transforma uma pequena semente de mamão em protagonista de uma jornada visual e sonora sobre liberdade, pertencimento, transformação e descoberta.

Foi por meio de uma newsletter sobre novidades do mundo artístico que conheci Papaya. O nome, por si só, já despertou minha curiosidade. Quando li a sinopse, a vontade de assistir aumentou. Fui procurar se o filme estava em cartaz em Aracaju e, para minha sorte, estava.
O cartaz colorido de Papaya já funciona como uma espécie de prenúncio da experiência que o filme oferece. Mas nenhuma imagem de divulgação prepara completamente o espectador para o que acontece quando a animação começa.
Desde os primeiros segundos, é difícil tirar os olhos da tela. Papaya acompanha uma pequena semente de mamão apaixonada pela ideia de voar. Para não se tornar aquilo que acredita estar destinado a ser, uma árvore como sua mãe, ela precisa permanecer em movimento e evitar criar raízes. É a partir desse desejo que começa uma jornada de descobertas. A semente se desprende, atravessa diferentes situações, conhece outros mundos e, pouco a pouco, começa a construir uma narrativa própria.
Mas sempre que tenta seguir adiante, Papaya olha para trás e enxerga os mamoeiros. Uma contradição que a acompanha durante todo o percurso. Há algo naquele lugar que ainda a chama de volta. Para ela, ser livre é deixar para trás tudo aquilo que a prende, mas aos poucos ela vai aprendendo que nem todo vínculo é uma prisão.

No filme, não há diálogos e essa ausência amplia a experiência. Permite que cada espectador crie seus próprios diálogos internos. As cores são vivas, os movimentos são orgânicos, os cenários parecem pulsar e a direção de arte cria um universo que mistura formas bidimensionais, colagens e referências aos grafismos latino-americanos. A própria diretora definiu a estética da produção como uma espécie de “tropicalismo pós-apocalíptico”.
Outro ponto forte é a trilha; fundamental para contar a história. Ela acompanha a trajetória da pequena semente e funciona praticamente como uma narradora. Samba, forró, funk e outros elementos da música brasileira aparecem para conduzir momentos de descoberta, tensão, alegria e transformação. A cantora Tulipa Ruiz também integra o elenco vocal do filme. É uma trilha vibrante, brasileira e emocional, que não está simplesmente acompanhando as imagens e isso faz com que o filme consiga ser tão comunicativo mesmo sem utilizar palavras.

A princípio, a semente entende suas raízes como aquilo que a impede de ir embora. Criar raízes significa, para ela, perder a liberdade. Então ela se desprende. Só que a liberdade que encontra fora não é simples. Existem perigos, dúvidas, perdas e situações que fazem com que ela precise descobrir quem é e o que realmente deseja. Até que decide voltar.
Mas, ao retornar, Papaya já não é a mesma. Ela passou por experiências que a fizeram crescer, questionar, transformar e compreender que suas raízes podem representar muito mais do que uma limitação. E, nesse processo, a personagem não apenas encontra uma nova maneira de existir. Ela transforma sua própria floresta, liberta sua família e também se liberta. No fim, seu sonho de voar continua existindo, mas agora ele não precisa acontecer contra suas raízes.
A proposta de Priscilla é não entregar ao público uma interpretação única. A narrativa é deliberadamente aberta, permitindo que cada pessoa encontre seus próprios significados a partir daquilo que viveu. Uma criança pode enxergar uma aventura sobre uma sementinha que quer voar. Um adulto pode enxergar uma história sobre amadurecimento, família, pertencimento ou a dificuldade de romper expectativas. Outra pessoa pode encontrar na trajetória de Papaya uma metáfora sobre sair de casa, mudar de cidade, construir uma identidade ou aprender a conciliar liberdade e pertencimento. Papaya não determina exatamente o que o espectador deve sentir ou compreender. Ele apresenta imagens, sons, movimentos e situações e deixa espaço para que cada um complete a experiência.
Essa escolha também contribui para a circulação internacional da obra. Sem depender de diálogos, o filme consegue estabelecer uma comunicação mais ampla com públicos de diferentes línguas e culturas.
Formada em Design Gráfico pela Unesp, Priscilla Kellen construiu sua trajetória entre a animação, o cinema e a ilustração. Trabalhou em Garoto Cósmico (2007) e em O Menino e o Mundo (2013), indicado ao Oscar de Melhor Animação, além de dirigir a série Vivi Viravento (2017). Em Papaya, estreia na direção de um longa-metragem autoral, reunindo experiência artística e narrativa em uma produção que levou cerca de sete anos para chegar às telas. O filme também mantém sua parceria com Alê Abreu (Perlimps, 2022), que integra a equipe de produção.
Ficha técnica:
Papaya
Brasil | 2026 | Animação | 74 minutos
Direção e roteiro: Priscilla Kellen
Produção: Boulevard Filmes
Coprodução: Birdo Studio, Alê Abreu e Priscilla Kellen
Produtores: Letícia Friedrich, Lourenço Sant’Anna, Priscilla Kellen e Alê Abreu
Produção executiva: Letícia Friedrich
Montagem: Elaine Steola
Direção de arte: Priscilla Kellen
Desenho, edição de som e mixagem: Submarino Fantástico
Trilha sonora: Talita Del Collado
Elenco: Aretha Garcia, Tulipa Ruiz e Maria Vitória Garcia
Distribuição: Cajuína Audiovisual/Sessão Vitrine Petrobras
O longa teve sua estreia internacional no Festival de Berlim, em fevereiro de 2026, na mostra Generation Kplus, depois de também circular por importantes festivais brasileiros, como Festival do Rio, Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e Mostra de Cinema de Tiradentes.
Papaya está em cartaz em cinemas brasileiros. Vale a pena embarcar nessa aventura.
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Texto revisado por Angela Maziero Santana










