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Coreia
Foto: reprodução/bbc

Por que existem duas Coreias? Entenda a história por trás da divisão da península coreana

Entenda como guerras, colonização e disputas globais transformaram uma nação milenar em dois países tão próximos na cultura, mas tão distantes na política

Quando pensamos na Coreia, especialmente hoje em dia com a explosão do K-pop, dos k-dramas e da cultura coreana no mundo, é fácil esquecer que ela é, na verdade, um país dividido. Ao norte, a Coreia do Norte (조선민주주의인민공화국 – Joseon Minjujuui Inmin Gonghwaguk), fechada, militarizada, com regime autoritário. Ao sul, a Coreia do Sul (대한민국 – Daehan Minguk), democrática, tecnológica e globalizada. Mas essa divisão é relativamente recente, considerando os milhares de anos de história coreana. Para entender por que a península coreana é dividida, precisamos voltar lá para os primórdios da civilização na região e acompanhar as transformações que moldaram não apenas o território, mas também o espírito de um povo.

As raízes da Coreia: do reino de Gojoseon aos três reinos

A história da Coreia começa há mais de dois mil anos. Acredita-se que o primeiro estado coreano foi Gojoseon (고조선), fundado por volta de 2333 a.C., segundo a mitologia local, pelo lendário Dangun. Esse reino antigo se estabeleceu ao norte da península e teve uma importância simbólica imensa para a identidade coreana. Com o tempo, Gojoseon declinou e deu lugar a uma fase conhecida como os Três Reinos da Coreia: Goguryeo (고구려), Baekje (백제) e Silla (신라),  que coexistiram e disputaram o controle da península entre os séculos I a.C. e VII d.C. Esses reinos desenvolveram culturas ricas, relações com a China e o Japão, e uma identidade própria coreana começou a se consolidar.

No século VII, o reino de Silla, com apoio da China, conseguiu unificar grande parte da península, dando início ao chamado Período Silla Unificada. Mais tarde, outros reinos surgiram, como Goryeo (고려), de onde vem o nome Coreia, e, por fim, o Reino de Joseon (조선), fundado em 1392. Joseon foi um dos períodos mais longos e estáveis da história coreana, durando mais de 500 anos, até o final do século XIX. Durante esse tempo, a Coreia foi fortemente influenciada pelo confucionismo, desenvolveu seu próprio sistema de escrita (o Hangul, criado em 1443 pelo Rei Sejong, o Grande – 세종대왕) e viveu uma era de grande florescimento cultural e intelectual.

Apesar disso, a posição geográfica da Coreia sempre a colocou em uma situação delicada entre grandes potências como China, Japão e, mais tarde, a Rússia. Ao longo dos séculos, a península teve que lidar com invasões e tentativas de dominação estrangeira. No século XIX, o enfraquecimento da dinastia Joseon e o avanço do imperialismo fizeram com que a Coreia se tornasse alvo direto de disputas entre potências estrangeiras. O Japão, com ambições coloniais crescentes, viu na Coreia uma rota estratégica para sua expansão continental.

Em 1910, após anos de pressão e conflito, o Japão anexou formalmente a Coreia, dando início a um período de colonização que duraria 35 anos. Durante esse tempo, a identidade coreana foi severamente reprimida: o idioma coreano foi banido das escolas, os nomes coreanos foram obrigatoriamente trocados por nomes japoneses e milhões de coreanos foram forçados ao trabalho em condições brutais. Mesmo sob opressão, o espírito de resistência não desapareceu. Diversos movimentos de independência surgiram, sendo o mais emblemático o Movimento de 1º de Março de 1919, que se espalhou por todo o país. Essa herança de luta e sobrevivência ainda é muito presente no orgulho nacional coreano de hoje.

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A divisão da Coreia: o paralelo 38 e a Guerra Fria em solo asiático

Com a rendição do Japão em 15 de agosto de 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, a Coreia finalmente se viu livre do domínio japonês, mas sua independência veio acompanhada de uma nova tragédia. Os Estados Unidos e a União Soviética, duas potências emergentes que haviam derrotado o Japão, decidiram dividir temporariamente a península ao longo do paralelo 38, sob o argumento de que era necessário administrar a transição até que a Coreia pudesse se autogovernar. O Norte ficaria sob influência soviética e o Sul sob ocupação americana. Na prática, a divisão que era para ser provisória se tornou definitiva.

Com o mundo entrando na era da Guerra Fria, as tensões entre os dois blocos ideológicos cresceram rapidamente. No norte, os soviéticos instalaram um governo comunista liderado por Kim Il-sung (김일성), um ex-guerrilheiro treinado na URSS. No sul, os americanos apoiaram a criação de um regime republicano, liderado por Syngman Rhee (이승만), um político educado nos Estados Unidos. Ambos os lados reivindicavam ser os legítimos representantes da Coreia unificada, mas suas visões de mundo eram completamente opostas.

Em 1948, a divisão foi oficializada com o surgimento de dois países independentes: a República da Coreia (Coreia do Sul), em 15 de agosto, e a República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte), em 9 de setembro. Com isso, o paralelo 38 deixou de ser apenas uma linha no mapa e se transformou numa verdadeira fronteira política, ideológica e militar. O povo coreano, que compartilha a mesma língua, cultura e história, se viu dividido por fatores externos. Milhares de famílias ficaram separadas da noite para o dia.

A situação explodiu de vez em 25 de junho de 1950, quando tropas norte-coreanas atravessaram o paralelo 38 e invadiram o Sul, dando início à Guerra da Coreia (한국전쟁). O conflito durou três anos e envolveu diretamente potências estrangeiras: os EUA e aliados da ONU lutaram ao lado do Sul, enquanto a China, com apoio logístico da URSS, entrou no conflito ao lado do Norte. Foi uma guerra devastadora, com mais de 2 milhões de mortes, cidades completamente destruídas e atrocidades cometidas por ambos os lados. Em 1953, foi assinado um armistício, mas nunca um tratado de paz. Ou seja, as duas Coreias ainda estão tecnicamente em guerra até hoje.

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O caminho das duas Coreias: um mesmo povo, dois destinos diferentes

Depois do armistício de 1953, as duas Coreias seguiram caminhos completamente distintos. No Norte, Kim Il-sung consolidou um regime socialista autoritário, com forte culto à personalidade e políticas de autossuficiência, conhecidas como Juche (주체). A economia foi inicialmente bem-sucedida, graças ao apoio soviético e à nacionalização das indústrias herdadas dos japoneses. Já no Sul, o país passou por uma série de turbulências políticas, incluindo golpes militares e governos autoritários. Mesmo assim, com o tempo, a Coreia do Sul se democratizou e se transformou em uma das economias mais fortes e inovadoras do mundo.

Nos anos 1990, a Coreia do Norte enfrentou uma crise sem precedentes após a queda da União Soviética e a perda de apoio econômico externo. Somada a desastres naturais e erros de gestão interna, a escassez de alimentos levou o país a uma grave fome (conhecida como Árdua Marcha), que matou centenas de milhares de pessoas. Apesar disso, o regime se manteve no poder, agora sob o comando de Kim Jong-il (김정일), filho de Kim Il-sung. Após sua morte, em 2011, o poder passou para Kim Jong-un (김정은), neto do fundador do país.

Hoje, a Coreia do Norte é um dos países mais fechados do mundo, com um governo que controla praticamente todos os aspectos da vida dos cidadãos, desde o acesso à informação até a mobilidade interna. No entanto, é importante evitar visões estereotipadas: embora o regime seja rígido, o povo norte-coreano é resiliente, com uma cultura profundamente ligada às raízes coreanas. Há relatos de mudanças graduais no país, como o aumento do comércio informal e uma juventude que, em parte, tem acesso limitado a filmes, música e tendências estrangeiras, apesar da censura.

Enquanto isso, a Coreia do Sul se tornou um fenômeno cultural global. Marcas como BTS, Blackpink, Parasita (2019) (filme vencedor do Oscar), dramas coreanos e até mesmo a culinária coreana se espalharam pelo mundo. Mas apesar da fama, a divisão continua sendo um tema sensível para muitos sul-coreanos. Há ainda famílias separadas desde a guerra, que nunca mais conseguiram se reunir. E embora existam momentos de aproximação (como os encontros históricos entre os líderes das duas Coreias em 2018 e 2019), o futuro da península ainda é incerto.

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A saudade que atravessa gerações: famílias separadas e memórias que não apagam

Desde 1953, mais de 10 milhões de coreanos foram impedidos de reencontrar seus familiares do outro lado da fronteira. Irmãos que não sabem se os outros ainda estão vivos. Pais que morreram sem rever os filhos. Vizinhos que cresceram juntos e nunca mais trocaram uma palavra. Ao longo das décadas, o governo sul-coreano organizou programas para localizar e reunir parentes, mas os encontros sempre foram raros, breves e intensamente supervisionados. Muitas vezes duravam apenas algumas horas e, depois, silêncio novamente. Sem contato por telefone, sem cartas, sem fotos. A saudade, nesse caso, se transforma em uma dor crônica, carregada por décadas.

As imagens desses reencontros, como os de 1985 e 2000, ainda emocionam o país. São vídeos em preto e branco que mostram idosos ajoelhados no chão, se abraçando com força, chorando em silêncio. Muitos participantes dizem que viveram para aquele momento e que, depois dele, puderam morrer em paz. Outros, no entanto, relatam um sentimento agridoce: reencontrar um familiar depois de 50 anos é como conhecer um estranho que compartilha suas lembranças. A alegria se mistura com culpa, arrependimento e impotência. E o mais cruel: para muitos, aquele foi o primeiro e último reencontro.

Hoje, com o passar do tempo, a maioria das pessoas que viveu a separação original já faleceu. Mas a memória permanece viva entre filhos e netos. Existem ONGs, como a Cruz Vermelha Coreana, que ainda mantêm registros de pessoas desaparecidas e organizam campanhas para reencontros, mesmo que simbólicos. Na Coreia do Sul, há programas de TV que tentam localizar parentes perdidos e museus dedicados à divisão da península. A saudade, nesse contexto, virou um patrimônio emocional coletivo, uma marca silenciosa, mas profundamente enraizada na identidade coreana.

Essa herança da separação atravessa gerações e está presente em músicas, filmes, livros e até na linguagem do dia a dia. A expressão “uri nara” (우리나라), que significa “nosso país”, ainda é usada no singular por muitos coreanos, mesmo que existam dois Estados distintos. Isso revela o sentimento de que a nação continua sendo uma só e apenas ferida, não partida. E enquanto os reencontros continuam raros, o que resta são memórias, orações e uma esperança persistente de que um dia, ainda que tarde, a ponte entre as Coreias volte a ser cruzada livremente.

O que sabemos da Coreia do Norte hoje?

Atualmente, a Coreia do Norte permanece como um dos países mais enigmáticos do planeta. Governada por Kim Jong-un desde 2011, a liderança norte-coreana continua priorizando o isolamento estratégico, a manutenção do poder centralizado e o fortalecimento militar. O país é frequentemente tema de manchetes internacionais devido ao seu programa nuclear, que já resultou em diversos testes com mísseis balísticos e gerou tensões com vizinhos como Coreia do Sul e Japão, além dos Estados Unidos. Apesar das sanções impostas pela ONU, o regime segue firme, com apoio interno das elites políticas e militares.

O controle sobre a população é total: acesso à internet é praticamente inexistente, só existe mídia estatal e a educação é fortemente ideologizada. Viagens para fora do país são proibidas para a maioria dos cidadãos, e até mesmo o deslocamento entre cidades exige autorização do governo. No entanto, especialistas internacionais têm notado pequenas fissuras nesse sistema, principalmente após o surgimento de jangmadang, mercados paralelos que oferecem produtos estrangeiros, como DVDs de k-dramas e até cosméticos sul-coreanos, trazidos ilegalmente por contrabandistas.

Há também relatos de uma geração jovem mais conectada com o mundo exterior, mesmo que indiretamente. Jovens norte-coreanos que vivem perto da fronteira com a China têm maior chance de acessar mídias estrangeiras e construir uma visão diferente do mundo. Muitos crescem ouvindo músicas pop sul-coreanas ou assistindo a dramas escondidos, o que influencia sua percepção do regime e do estilo de vida no Sul.

Ainda assim, o risco de ser pego com esse tipo de material é altíssimo e as punições podem ser severas.

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Mesmo com todas as restrições, existe uma sociedade civil em funcionamento. As pessoas trabalham, estudam, se casam, sonham. Há tradições familiares, feriados nacionais e até concursos de talentos em escolas. A vida segue dentro dos limites impostos. Entender a Coreia do Norte exige olhar além dos estereótipos e reconhecer que, por trás da opacidade do regime, existe um povo com uma história profunda, que também carrega os traumas da divisão. Por isso, qualquer possibilidade de reconciliação precisa considerar não apenas os líderes, mas também os milhões de cidadãos comuns que vivem diariamente essa realidade.

E o futuro? Reunificação, tensões e esperança

A ideia de reunificação nunca saiu completamente do imaginário coreano. Muitos ainda sonham com uma Coreia unida, como nos tempos antigos, mas a realidade política e econômica torna esse cenário bastante complicado. A distância entre os dois sistemas — um democrático e capitalista, outro socialista e autoritário — é gigantesca. Além disso, há interesses geopolíticos de grandes potências como China, EUA e Rússia, que veem a península coreana como uma peça estratégica no tabuleiro global.

A Zona Desmilitarizada (DMZ), que separa as duas Coreias desde 1953, é hoje uma das fronteiras mais vigiadas do mundo. Paradoxalmente, ela também se tornou uma das maiores reservas ecológicas da Ásia, justamente por estar inabitada há décadas. Visitar a DMZ virou uma espécie de atração turística na Coreia do Sul, mas  para os coreanos mais velhos, aquele lugar representa dor e separação. Vez ou outra, famílias são permitidas a se reencontrar, mas os encontros são curtos e fortemente controlados, deixando ainda mais evidente o abismo que separa os dois países.

No cenário internacional, a Coreia do Norte continua sendo um tema delicado. O país desenvolveu um programa nuclear que preocupa os vizinhos e as potências mundiais, o que gera sanções e bloqueios econômicos. Ainda assim, o regime de Kim Jong-un continua firme no poder, com forte apoio das elites militares e da propaganda estatal. Nos bastidores, analistas observam possíveis mudanças sutis: surgimento de mercados locais, contato com bens estrangeiros contrabandeados e até influência cultural vinda da China e da Coreia do Sul.

Enquanto isso, a Coreia do Sul continua sua jornada como uma potência cultural e econômica. Mas mesmo com todos os avanços, o trauma da divisão permanece. O povo coreano compartilha uma história milenar, uma língua comum e tradições que resistiram a impérios e invasões. Por isso, a existência de duas Coreias não é apenas um dado geopolítico: é uma ferida aberta, uma lembrança constante de como o século XX moldou o destino de uma nação inteira. E embora o caminho para a reunificação pareça distante, o desejo de reconexão ainda vive no coração de muitos coreanos, do Norte e do Sul.

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Texto revisado por Larissa Couto

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