Cultura e entretenimento num só lugar!

o sucesso fala espanhol
Foto: reprodução/weverse

Quando o sucesso fala espanhol e quando não precisa: o apagamento do português no pop brasileiro

De Anitta a Luísa Sonza, cantar em espanhol virou sinônimo de internacionalização. Mas a insistência em trocar o português por outro idioma expõe uma ferida antiga: o medo do Brasil de ser ouvido como ele é

Nas últimas décadas, o português passou a ser visto como um obstáculo para o sucesso global. A indústria latina, comandada por nomes como Bad Bunny, Karol G e Shakira, transformou o espanhol no idioma dominante do pop latino. Diante disso, artistas brasileiros que miram o exterior começaram a adaptar suas músicas: gravam, lançam e se apresentam cada vez mais em espanhol.

Anitta foi uma das primeiras a seguir esse caminho, misturando idiomas e apostando em parcerias hispânicas. Ela participou de uma colaboração com o grupo de K-pop Tomorrow x Together na faixa Back for More e, mesmo tendo apenas um verso, fez questão de cantá-lo em espanhol, não em português. É um detalhe pequeno, mas revelador: até quando o Brasil chega a mercados novos, continua tentando soar “latino o suficiente”.

Depois dela, Ludmilla, Luísa Sonza e outros nomes adotaram a mesma estratégia. Mas a questão permanece: por que o português, quando finalmente atravessa fronteiras, é o primeiro a ser deixado para trás?

O espanhol como passaporte e armadilha

Cantar em espanhol virou um atalho para ser percebido como latino, uma forma de acessar o mercado hispânico sem disputar espaço direto com o inglês. É uma escolha prática, mas também simbólica: revela como o Brasil ainda se vê à margem da América Latina, tentando se encaixar em um molde que não o representa.

O espanhol soa familiar ao público internacional; o português, não. Isso faz com que um pareça comercialmente viável e o outro, distante. Só que, ao traduzir a própria voz para ser entendido, o artista também traduz parte de si e nem sempre consegue recuperar.

Essa adaptação reforça uma velha confusão sobre o Brasil: a de que todos os países latino-americanos compartilham o mesmo idioma. Quando artistas brasileiros cantam em espanhol, acabam reforçando a ideia de que o português seria uma variação ou um dialeto menor, apagando a singularidade da cultura brasileira.

Mesmo com o crescimento da música brasileira no exterior, ainda é comum ouvir estrangeiros dizendo: “Ah, no Brasil vocês falam espanhol, né?”. Essa percepção nasce de uma repetição constante de imagens e de sons que apresentam o país como extensão da latinidade hispânica.

O preço de soar “latino o suficiente”

Há algo de colonial nessa necessidade de adaptação. O sucesso ainda parece depender de agradar o olhar do outro, de cantar o que esperam, do jeito que esperam, na língua que esperam. E o português, com toda a sua sonoridade, vira ruído.

Essa lógica também é interna. O Brasil raramente se reconhece como parte da América Latina. A indústria fonográfica nacional é voltada para o consumo interno e, quando decide se internacionalizar, busca validação externa. O espanhol, nesse contexto, surge não apenas como estratégia de mercado, mas como uma tentativa de pertencimento.

Só que essa busca por encaixe reforça outro estereótipo: o de que o Brasil é “latino só quando convém”. Para o mercado internacional, é mais fácil colocar o país dentro do pacote genérico da música latina do que entender suas particularidades linguísticas e culturais. Cantar em espanhol, nesse sentido, é uma forma de simplificar o Brasil — e, ao simplificar, distorcer.

Quando essa simplificação vem de artistas de alcance global, o efeito é cumulativo. A pluralidade linguística da América Latina se apaga, o espanhol passa a representar um continente inteiro, e o português desaparece junto com uma parte essencial de sua identidade.

Quando a tradução não é submissão: o caso Pabllo Vittar

Enquanto muitos se adaptam, Pabllo Vittar faz o oposto. Em Mexe, parceria com o grupo de K-pop NMIXX, ela canta em português, inglês e coreano, uma combinação improvável, mas coerente com a sua trajetória. Em vez de apagar a própria língua, Pabllo a coloca no centro, coexistindo com outras. O resultado soa internacional sem abrir mão da origem.

Pabllo não tenta se latino-americanizar nem se americanizar. Ela amplia o significado de ser brasileira no pop. É uma forma de internacionalização que não passa pela concessão linguística, mas pela afirmação: mostrar que o português cabe no K-pop, no house, no reggaeton e, ainda assim, soa pop.

Essa escolha é deliberada, estética e política. Falar a própria língua em um mercado globalizado é um gesto de resistência. E mais: quebra o estereótipo de que o Brasil precisa se adaptar a outros países latinos para ser ouvido. Pabllo não pede tradução; ela convida o público a escutar o português com a mesma naturalidade que escutam o coreano ou o inglês.

 

O que o espanhol revela e o que o português ainda diz

A questão não é demonizar o espanhol, mas entender por que ele virou o idioma do sucesso e por que poucos artistas brasileiros ousam manter o português quando buscam o exterior.

Quando Pabllo Vittar canta em coreano sem abrir mão do português, ela abre uma porta que poucos tiveram coragem de empurrar. Mostra que a internacionalização não precisa significar submissão e que o público global entende muito mais do que o mercado acredita.

Afinal, ninguém cobra que Rosalía cante em inglês. Ninguém exige que Bad Bunny traduza suas letras. Então por que o Brasil ainda sente que precisa disfarçar a própria voz para ser ouvido?

Manter o português nas colaborações internacionais é um gesto cultural e simbólico. É reafirmar que o Brasil tem voz própria e que essa voz não precisa ser suavizada para ser valorizada. Cada vez que um artista troca o português pelo espanhol, reforça a ideia de que o idioma é periférico, uma construção de mercado, não uma verdade cultural.

Cantar na própria língua é revolucionário!

O que está em jogo não é só o idioma, é a autoestima cultural. O pop brasileiro ainda parece pedir desculpas por ser tropical, por ser português, por ser diferente. Mas o mundo já aprendeu a dançar funk, a ouvir bossa e a repetir refrões em português. Falta o próprio Brasil perceber que o sotaque é o que o torna irresistível.

A mistura entre Pabllo Vittar e o K-pop talvez anuncie uma nova fase: aquela em que o português volta a ser falado com orgulho, mesmo quando o microfone está em Seul.

Qual a sua opinião sobre isso? Compartilhe com a gente nas redes sociais do Entretê Facebook, Instagram e X e nos siga para ficar por dentro de todas as novidades do mundo do entretenimento e da cultura.

 

Leia também: Precisamos falar sobre a solidão da mulher adulta — e como ela é retratada (ou ignorada) na cultura pop

 

Texto revisado por Sabrina Borges de Moura @_itsbrinis

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdo de seu interesse. Ao utilizar nossos serviços, você concorda com tal monitoramento. Acesse nossa política de privacidade atualizada e nossos termos de uso e qualquer dúvida fique à vontade para nos perguntar!