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Foto: reprodução/Instagram @alinebei

Quantas perdas cabem na vida de uma mulher? Conheça a trilogia involuntária de Aline Bei

Os romances de sucesso da autora paulistana permeiam assuntos complexos como luto, violência contra a mulher e as nuances da maternidade

A escritora paulistana Aline Bei, nascida em 1987, é formada em artes cênicas pelo Célia Helena Centro de Artes e Educação e em letras pela PUC-SP, além de pós-graduada em escritas performáticas pela PUC-Rio. Ela é conhecida por seus livros O peso do pássaro morto (2017), Pequena coreografia do adeus (2021) e seu lançamento mais recente Uma delicada coleção de ausências (2025).

Todos esses romances têm um assunto em comum: o universo feminino. Todos apresentam protagonistas mulheres e os diversos desafios que as cercam ao longo da vida, e com eles a autora tem conquistado leitores fiéis pelo país, marcando a nossa literatura contemporânea.

Escrita em prosa poética e a conexão com o teatro

A escrita de Aline Bei é conhecida por, além de seu conteúdo marcante, sua forma não convencional. Muitos acreditam que seja poesia, mas a própria Aline não se autointitula uma poeta, então alguns leitores consideram seu modo de escrever como uma prosa poética.

A autora tem raízes no teatro, tendo formação na área e trabalhado por um tempo como atriz após concluir seus estudos no Célia Helena. Por isso, ela sente uma conexão muito profunda com essa arte. Mas, por questões financeiras e até mesmo sociais que envolvem o mercado das artes cênicas, Aline se viu obrigada a deixar os palcos para tentar uma carreira em que tivesse mais estabilidade (situação extremamente comum entre os profissionais do teatro, infelizmente). Isso a levou à sua formação em letras.

No entanto, Aline não conseguiu se afastar totalmente de sua Arte. Assim, ela começou a escrever seus textos ainda na graduação, já em prosa poética, e na forma encontrou meios para sua expressão teatral no papel. Se você prestar atenção na forma como ela organiza as palavras, verá que não é aleatório ou algum tipo da conhecida “poesia enter”, mas sim como se as letras fossem atores ou até objetos cênicos e a folha, um palco. 

Essa característica da escrita dela é o que a destaca entre os autores contemporâneos e o que deixa seus romances ainda mais fascinantes. Ler Aline Bei é como assistir a um denso e imersivo espetáculo de teatro.

Foto: reprodução/Instagram @alinebei
Violência e perdas em O peso do pássaro morto

O romance de estreia de Aline Bei, O peso do pássaro morto, é vencedor do prêmio São Paulo de Literatura. Nele acompanhamos a trajetória da protagonista, cujo nome não é revelado, durante sua vida, desde os 8 até os 52 anos.

A história começa ainda na infância dessa protagonista, uma menina com um corpo que ainda brinca, sonha e divide a vida com pessoas que ela ama e que a amam. Mas, conforme o tempo passa, ela se vê diante de sentimentos extremamente complicados até para os adultos, em especial o luto. 

Uma das partes mais avassaladoras desse começo é perceber a inocência da menina diante de tais perdas. O quão cruel é uma criança, que nem entende o significado da morte, lidar com o fato de que não verá essas pessoas novamente? A espera dela ao acreditar que em algum momento seus entes queridos vão “parar de morrer e voltar”, como se a morte fosse apenas um estado temporário, é de quebrar o coração de qualquer leitor.

Mas essa não é a única perda na vida dessa menina. Ao longo dos anos, ela perde, além de pessoas e coisas materiais, partes de si. Ela se depara com situações que muitas de nós, mulheres, também já tivemos que vivenciar. Durante o romance, nos perguntamos com frequência quantas perdas cabem na vida de uma mulher e quanta violência nós somos capazes de suportar.

Na verdade, a pergunta que fica é: quanta violência nós somos obrigadas a suportar, assim como a protagonista?

Lar desestruturado e abandono em Pequena coreografia do adeus

O livro finalista do prêmio Jabuti Pequena coreografia do adeus traz Júlia, uma mulher marcada pelas cicatrizes de crescer em um lar extremamente desestruturado. Ela se encontra no meio de um relacionamento quebrado composto por sua mãe, uma mulher que não suporta o abandono de seu marido, e seu pai, um homem que não suporta a ideia de ter sido casado.

Ao chegar à vida adulta, Júlia ainda carrega todo o peso de sua infância, rodeada de brigas e falta de afeto, em especial de sua mãe. Isso fez com que a protagonista levantasse barreiras emocionais profundas, que afetam suas relações, mesmo com quem aparenta se importar de verdade com ela.

Essa história não é tão pesada e gráfica como o livro anterior em relação à violência, mas tem uma sensibilidade profunda quanto às relações humanas e a influência da infância, pois ela é o chão que pisamos a vida toda.

Aqui, Júlia é uma mulher que tenta, acima de tudo, dançar de acordo com uma coreografia própria, mesmo com tantas marcas e tantas responsabilidades que, se pararmos para pensar, não deveriam ter sido atribuídas a ela. Por isso, Aline nos coloca em questionamento de novo sobre todas as responsabilidades e pesos que muitas mulheres são obrigadas a carregar desde sempre.

Ausência e conflito de gerações em Uma delicada coleção de ausências

Seu romance mais recente, lançado em junho de 2025, Uma delicada coleção de ausências, difere dos outros tanto em sua forma – agora mais próxima da prosa da maneira como conhecemos – quanto em seu conteúdo. Aqui temos não o ponto de vista de apenas uma mulher, mas três: Margarida, Laura e Filipa.

A história começa com Margarida, uma antiga assistente de mágico que lê mãos em uma feira de antiguidades para conseguir pagar as contas de casa e cuidar de sua neta, Laura, com a ajuda de Camilo, um senhor que vende brinquedos na mesma feira. As duas são surpreendidas com a chegada da mãe de Margarida, Filipa, que acaba ocupando todos os espaços da casa com suas angústias.

Esse conflito entre as gerações demonstra aquele tipo de relação em que uma tenta lidar com os traumas e feridas geradas pela sua antecessora ao longo da vida, ao mesmo tempo que tenta proteger a próxima desses cacos. Mas, como todas estão vivendo pela primeira vez, é claro que ninguém é capaz de dar conta de tudo, e acabam deixando marcas na próxima geração também, de maneira inconsciente.

Além dos próprios conflitos de Margarida e Filipa, também há o crescimento de Laura, uma menina na transição entre a infância e a adolescência. Aline Bei deixa extremamente palpável essas mudanças que todas as jovens meninas passam nessa fase, incluindo as descobertas em relação ao próprio corpo.

O livro que fecha a trilogia involuntária da autora traz um poético retrato do universo feminino, com seus desejos primitivos, conflitos geracionais e corpos femininos em diferentes fases da vida. Nós observamos estas mulheres em detalhes e, principalmente, as violências e ausências as quais elas são submetidas de várias formas.

Foto: reprodução/Companhia das Letras
Solidão da mulher, maternidade e violência na trilogia involuntária de Aline Bei

Os três livros de Aline Bei compõem o que a autora chama de trilogia involuntária, pois sua intenção não era inicialmente criar uma trilogia, mas as histórias se conectam profundamente. Essas mulheres poderiam facilmente estar numa mesma cidade, assim como poderiam estar em lugares opostos do país, pois suas dores são, de certa forma, comuns no universo feminino em qualquer lugar.

Essas condições as quais as mulheres são colocadas nos romances, reflexos da vida real, as colocam em um lugar extremamente solitário em certo ponto, pois, por mais que muitas de nós passemos pelas mesmas coisas, a culpa e a pressão social nos isola de tudo e todos e, principalmente, da chance de nos conhecermos e nos curarmos dessas tantas feridas.

Todas as histórias abordam a maternidade em diferentes níveis, evidenciando uma quebra naquele romantismo que conhecemos em relação ao assunto. A protagonista de O peso do pássaro morto se vê em um lugar da maternidade no qual muitas podem se identificar, pois não há aquele amor incondicional romantizado que estamos tão acostumadas a ser expostas, principalmente dadas as condições que a colocaram como mãe.

Além dela, a mãe de Júlia em Pequena coreografia do adeus é o que muitos chamariam de narcisista, embora o termo não tenha sido utilizado no livro. Aqui também é colocado em questão o estigma de que as filhas devem suportar tudo pois “apesar de tudo, é sua mãe”.

Essas histórias nos colocam diante da questão: até que ponto a maternidade deve ser tão romantizada, como algo sagrado e sublime em todos os casos?

Além disso tudo, é claro, há os mais diferentes tipos de violência contra a mulher nos três livros, desde pedofilia, violência doméstica e até estupro. Aline Bei aborda esses assuntos tão sensíveis de uma maneira poética mas, ao mesmo tempo, sem eufemismos, deixando tudo muito cru e impactante, como deve ser.

Uma característica destacável nessa abordagem é como essas mulheres são impactadas e as consequências internas e externas dessas violências. A autora inclui sensações e pensamentos que apenas aquelas que já sofreram o que é retratado sentem, e assim podem entender que não estão sozinhas. Ela nos diz que nós não estamos sozinhas, e nenhuma dessas violências às quais nós somos submetidas dia após dia é nossa culpa, por mais que a sociedade sempre nos diga o contrário.

Aline Bei, ao escancarar aquilo que nós somos obrigadas a colocar debaixo do tapete, abraça todas as mulheres. A leitura talvez não agrade a alguns, pelo estranhamento da forma e o desconforto gerado pelos assuntos abordados, mas é muito engrandecedora e todas deveriam dar uma chance.

 

 

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Texto revisado por Alexia Friedmann @alexiafriedmann

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