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Foto: divulgação/A24

Resenha | Eternity explora o amor, as escolhas e as reflexões sobre a vida

Em Eternity, o pós-vida ganha forma ao nos fazer questionar o que fazemos com a vida que temos, combinando comédia leve e reflexão

 

Eternity, novo longa dirigido por David Freyne, se passa na Encruzilhada – um espaço de passagem que mistura referências, meio recepção corporativa, meio saguão de hotel, onde os recém-falecidos desembarcam para assumir a “versão mais feliz de si mesmos”. É ali que acompanhamos Joan (Elizabeth Olsen) em uma jornada emocional que a obriga a enfrentar uma escolha delicada: decidir, em apenas uma semana, com quem deseja passar a eternidade – Larry (Miles Tyler), seu marido com quem compartilhou 65 anos de vida, ou Luke (Callum Turner), seu primeiro amor, que morreu jovem, mas a aguardou por 67 anos.

A partir desta premissa simples, mas cheia de camadas, o longa entrega humor, uma certa poesia visual e reflexão existencial para discutir como seria a vida após a morte. Assim, temas como luto, memória, reinvenção e a busca por sentido ganham forma. Junto a isso, surge uma pergunta inevitável que reverbera durante o filme: o que realmente vale a pena na vida que vivemos?

Ritmo sensível, humor e questionamentos existenciais

A narrativa começa acompanhando Joan e Larry, um casal de idosos, no carro a caminho de encontrar os filhos, onde pretendem revelar a doença dela. A sequência é íntima e dolorosa, preparando o terreno para um acontecimento abrupto que muda tudo. Antes que qualquer gesto seja concluído, o destino atravessa o plano do casal: Larry se engasga de forma súbita e morre. A tela escurece e, em seguida, uma chuva de papéis cor-de-rosa cai como neve, marcando a transição entre os mundos.

Pouco depois, vemos Larry despertar, agora em sua versão jovem, dentro de um trem – confuso, atordoado, perguntando da família e demorando a compreender que morreu. É assim que somos introduzidos à Encruzilhada, esse lugar de transição antes da escolha de uma eternidade, onde cada recém-falecido assume “a versão mais feliz de si mesmo”, como explica Anna, a coordenadora pós-morte (CPM) responsável por guiá-lo nesse espaço onde as regras são claras, mas as emoções nem tanto.

Diferente de outras narrativas sobre o pós-vida, Eternity constrói sua trama diante dos olhos do espectador, sem receio de usar o humor para expressar a confusão emocional dos personagens. Anna surge, a princípio, como uma funcionária operando no piloto automático repetindo ações padrões já de costume – quase que uma servidora pública – tratando os recém-falecidos como “mais uma ficha”, como ela mesma diz. Mas a personagem ganha profundidade graças à interpretação brilhante de Da’Vine Joy Randolph, que, com seu humor seco, pouco a pouco se torna a peça que costura o caos emocional dos outros e devolve alguma humanidade a esse lugar que, por definição, já deveria ter perdido isso.

A troca entre ela e Larry começa a abordar um dos conflitos centrais: a distância entre quem gostaríamos de ter sido e quem realmente somos. Logo no início da trama, Anna pergunta a Larry o que é a alma. Ele responde que seria “a perfeição de si mesmo”; ela rebate: “a alma é apenas você”. A cena funciona não apenas por nos fazer refletir, mas por causa do timing preciso e dos diálogos ágeis, que equilibram sensibilidade e leveza. Esse ritmo acelerado, cheio de surpresas e não monótono, mantém a atenção de quem assiste o filme, contribuído para um entretenimento leve e envolvente. 

Luke, por outro lado, surge como um bartender que parece apenas simpático, mas logo revela uma série de verdades profundas – um amor interrompido, expectativas alimentadas e um cansaço existencial que Callum Turner expressa com mínimos gestos, pausas e silêncios. Paralelamente, Larry explora diferentes mundos possíveis para viver a eternidade: o mundo-praia, o mundo-fumante, o mundo-Paris, o mundo-marxista e até o excêntrico mundo-palhaço. Cada um funciona como metáfora do desejo – mas também como prisão, já que, uma vez feita a escolha de qual eternidade deseja seguir, não há volta. Sua indecisão gera empatia e ecoa um medo universal: como escolher uma única versão do infinito?

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Encontros, reencontros, rupturas e escolhas

A história se complica quando Larry reencontra Joan – rejuvenescida, recém-chegada e prestes a ser orientada por Ryan, seu conselheiro pós-morte. Ela chega à Encruzilhada com a mesma missão que ele: escolher onde quer passar a eternidade. No entanto, no caso dela essa escolha vem acompanhada de um dilema – algo que começa a se desenhar conforme novas (e antigas) presenças entram na sua vida.

Com o tempo, a personagem interpretada por Elizabeth Olsen reencontra Luke, que passa a ser apresentado como o amor perdido dela na juventude. Os três formam a espinha dorsal emocional do filme. Joan, que é inteligente e firme, se vê indecisa precisando decidir entre um amor vivido e um amor interrompido. Luke adiciona camadas importantes à narrativa ao revelar, aos poucos, uma história que vai muito além do charme e do romantismo iniciais: ele morreu na Guerra da Coreia justo quando a vida que começava a construir ao lado dela começava a fazer sentido. 

Larry, por sua vez, ganha densidade na interpretação precisa de Miles Teller, que transforma o “marido comum” em um homem ranzinza, vulnerável e cativante. É justamente nesse contraste entre fragilidade humana e possibilidades infinitas do pós-vida que outros personagens ganham espaço para respirar e ampliar a narrativa.

Outro personagem interessante é Ryan ( John Early), que, assim como Anna, ajuda a manter o ritmo do filme com tiradas rápidas e interações que vão se tornando ao longo do filme também afetuosas com Joan. Sua autenticidade funciona especialmente bem nos momentos em que a personagem enfrenta indecisão entre dois amores e as muitas ofertas de eternidade que surgem em telas, revistas e nas conversas com outros moradores da Encruzilhada.

A trama se abre em vários caminhos e, em certos momentos, parece hesitar sobre qual direção enfatizar. Essa impressão de suspensão – como se a história resistisse a concluir ou adiasse a decisão final – acaba ecoando o próprio tema. Eternity usa essa dilatação para reforçar que escolher é um ato humano, marcado por dúvidas, desejos e contradições, e que essa autonomia permanece mesmo depois da morte. É como se, diante da eternidade, o tempo deixasse de ser um adversário – e a pressão viesse apenas de nós mesmos.

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Cenas cômicas que se intercalam com ritmo intenso do filme

Entre momentos intensos, o filme oferece cenas hilárias – sobretudo quando lembra que aqueles jovens foram idosos minutos atrás. Joan e Larry celebrando seus joelhos em perfeita forma, agachando repetidamente, é um dos grandes momentos cômicos.

Anna e Ryan equilibram a trama com tiradas rápidas, incluindo quando Anna classifica Larry como “um caso difícil” porque Luke “é gato e tem uma boa narrativa”.
Também se destacam os fracassos românticos de Larry – da serenata desastrosa ao cantor preferido de Joan ao momento em que tenta criar clima e acaba atingido por uma bola no rosto.

Estética que contribui para a construção de um pós-vida que parece feito à mão

Com roteiro de Pat Cunnane e David Freyne, o filme abraça uma estética que flerta com uma teatralidade: cortinas que se fecham para anunciar o fim do dia, carros de papel, lembranças encenadas como cenários montados. Em uma cena marcante, Joan atravessa uma máquina de lavar durante uma perseguição para acessar um quarto – reforçando a lógica onírica do pós-vida.

Esse visual alinhado à trilha sonora assinada por David Fleming, vencedor do prêmio ASCAP Award da American Society of Composers de melhor Trilha Sonora de Televisão em 2024 pela série The Last of Us, dá leveza a temas profundos, se adapta a outro momentos e faz o longa funcionar como uma comédia sensível que flerta com o drama sem se tornar pesado.

Outro elemento que complementa essa delicadeza da produção são os figurinos de Angus Strathie, vencedor do Oscar de Melhor Figurino (por Moulin Rouge: Amor em Vermelho), que abrangem várias épocas, ajudando a integrar os cenários e os personagens, reforçando essa ideia de tempo e memória do pós-vida.

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Amor ardente x amor egoísta: um dilema 

O conflito de Joan não é apenas escolher entre dois homens, mas entre duas versões de si mesma: a mulher que viveu uma história real – com falhas, rotina, cuidados e ressentimentos – e a jovem que nunca teve a chance de encerrar seu próprio capítulo. É uma disputa entre memória e possibilidade. Anna, em uma de suas provocações mais certeiras ao longo do filme, resume bem isso ao dizer que escolher Luke seria ver Joan abraçar “a vida que ela nunca viveu”.
Do outro lado, visto quase como um azarão, Larry admite ter passado anos com medo de ser verdadeiramente enxergado – especialmente enquanto ela ainda chorava pela ausência de Luke.

A reflexão que surge desse embate, que ecoa em uma pergunta dolorosa: é egoísmo desistir de um amor acreditando que isso é o melhor para o outro? Ou é egoísmo insistir?
O filme não entrega respostas. Apenas apresenta caminhos e confia no espectador para preencher os espaços entre eles. Um dos momentos mais fortes acontece quando Joan, diante de uma decisão definitiva, se pergunta se a beleza da vida talvez esteja justamente no fato de que as coisas acabam. Essa ambiguidade – que nos convida a pensar junto com o movimento emocional dos personagens – é uma das grandes forças da narrativa.

Uma fantasia emocional sobre escolhas 

O longa de David Freyne é um bom filme que combina humor, sensibilidade e fantasia para construir uma reflexão sobre o que carregamos e o que, mesmo na eternidade, precisamos resolver. É uma história sobre amor – o que vivemos, o que deixamos de viver e o que ainda podemos escolher.

No fim, a narrativa não tenta definir o que é a alma. Apenas sugere que ela talvez seja aquilo que sobra quando papéis, memórias, traumas e expectativas já não conseguem nos definir. O desfecho reforça que o que se projeta para a eternidade não é um gesto grandioso, mas a forma como escolhemos permanecer ao lado de quem amamos.

Se Eternity fala sobre o pós-vida, sua grande sacada é lembrar que, antes de tudo, precisamos decidir o que fazer com a vida que temos.

E aí? Ficou com vontade de assistir? O filme estreia dia 4 de dezembro nos cinemas de todo o Brasil. Conta para gente nas redes sociais do EntretêInstagram, FacebookX – e aproveita para nos seguir e ficar por dentro de tudo que rola no mundo do entretenimento.

 

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Texto revisado por Simone Tesser @simone_alleotti

 

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