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ARMY Help The Planet na COP30: sobre encarar a realidade com os olhos abertos

Como o amor e a admiração pelo BTS levou fãs brasileiras a formar um coletivo que chegou até a COP30

No dia 18 de novembro, o ARMY Help The Planet, um coletivo de fãs brasileiras do BTS, foi centro de uma das maiores convenções do mundo com o painel K-pop Fans for Climate Action (fãs de K-pop pela ação climática, em tradução livre), na COP30, para discutir como comunidades de fãs podem se tornar um importante motor para mudança climática.

O evento aconteceu no Pavilhão Entretenimento + Cultura, e foi aberto por Kim Sung-hwan, Ministro do Clima e Meio Ambiente da Coreia do Sul, e Vinicius Gurtler, Coordenador de assuntos internacionais do Ministério da Cultura.

Com organização do Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB), o painel reuniu ativistas e acadêmicos ao lado de Mariana Faciroli, advogada e codiretora do ARMY Help The Planet, e Dayeon Lee, ativista e representante do coletivo KPOP4PLANET.

Foto: reprodução/Twitter @ARMY_HTP

Durante a conversa, os palestrantes abordaram o crescente impacto de fandoms na política, a necessidade de artistas se manifestarem sobre pautas como a agenda climática, influenciando seus fãs a se informarem sobre o assunto, assim como a urgência de promover uma indústria musical mais sustentável.

Os fãs de K-pop são muito proativos e têm se manifestado sobre questões sociais, como no movimento Me Too (contra assédio e violência sexual) e na luta pela democracia”, explicou Cheul Hong Kim, diretor do CCCB, em entrevista ao G1. “Então, queremos mostrar à sociedade que eles também podem ter um papel importante na conscientização sobre a emergência do clima.

Mas, afinal, o que o BTS tem a ver com política?

Para muitas pessoas que não acompanham K-pop, ou que ainda enxergam o pop coreano sob as lentes do orientalismo e de propagandas racistas, pode parecer destoante que um dos grupos mais populares tenha qualquer relação com agitação política e ativismo climático, mas as músicas do BTS contam outra história.

Foto: reprodução/Folha de São Paulo

Desde seu debut, em 2013, até seus projetos mais recentes, o BTS é orientado por uma não conformidade e uma inquietude social profundamente política. Esses interesses se refletem em sua discografia em temas como consumismo, alienação, psicologia humana, desigualdade e até luta de classes, de forma que se interessar pelo grupo vai muito além da simples tradução de suas músicas, mas muitas vezes significa ter que estudar a história e a conjuntura sul-coreana.

A interpretação da letra de Ma City, por exemplo, perpassa pela referência ao levante popular de Gwangju, em que centenas de estudantes (da mesma região que J-hope nasceu) foram mortos em 1980 por se manifestarem em oposição à ditadura militar que assolava a Coreia do Sul na época.

Da mesma forma, é impossível compreender os projetos Map of the Soul: Persona (2019) e Map of the Soul: 7 (2020), por exemplo, sem saber ao menos o básico de psicologia junguiana. Assim como o álbum Wings (2016) só pode ser aproveitado em sua complexidade através da leitura do romance Demian, de Hermann Hesse, e músicas como Paradise e Strange são baseadas em conceitos marxistas.

Spring Day, uma das músicas mais bonitas da discografia inteira do BTS, é uma homenagem às vítimas do desastre da Balsa de Sewol de 2014, em que 304 passageiros morreram em um naufrágio que expôs esquemas de corrupção no governo sul-coreano. O MV da música também faz referência ao conto filosófico Aqueles que se afastam de Omelas, de Ursula K. Le Guin, que tematiza a intrínseca desigualdade no liberalismo e os limites da violência.

Outro projeto que exigiu das ARMYs a leitura de noticiários políticos foi Am I Wrong, de 2017. Na música, o BTS respondeu explicitamente a um comentário feito na época por um funcionário do Ministério da Educação da Coreia do Sul, Hyang-wook Na, que disse que 99% dos sul-coreanos são como “como cães e porcos”: podem ser apenas alimentados e mantidos vivos, não tendo a habilidade de crescer no mundo.

Se você vê as notícias e não sente nada”, canta RM, “se esse ódio não te faz sentir nada, você não é normal, mas anormal.”

Esses são apenas alguns dos muitos exemplos de músicas e projetos do BTS que incentivam quem quer que esteja ouvindo a questionar o mundo ao seu redor, a não normalizar a barbárie e resistir a pressões sociais – e é claro que o seu próprio fandom não deixaria de ouvir. 

Foto: reprodução/Recreio
ARMY Help The Planet

Em Polar Night, escrita para o álbum solo D-Day (2023), Suga diz: “não posso viver como merda nesse mundo horrível. Eu encaro a realidade com meus olhos abertos”. E é isso que, desde sua formação em 2019, o coletivo ARMY Help the Planet tem feito: encarado o mundo de olhos abertos.

Eles são a razão e inspiração de tudo o que fazemos”, explica Mariana Faciroli, advogada e codiretora do ARMY Help the Planet, em conversa com o Entretê. “Os membros do BTS, tanto em sua arte como em suas ações pessoais, têm se manifestado sobre questões políticas e socioeconômicas que vão desde o desemprego juvenil, desigualdade social e econômica, saúde mental e amor-próprio, incluindo campanhas de ponta como Love Myself, em parceria com a UNICEF, e a promoção de doações para várias causas relevantes.

Mariana contou que “os membros do BTS têm inspirado pessoas em todo o mundo a usar suas próprias vozes, a ‘speak yourself’ e a tomar uma posição ativa, encorajando a tomada de ações, para as mudanças que desejam em suas realidades, fazendo do ARMY uma força poderosa no engajamento em questões sociais e ambientais”.

Foto: reprodução/Twitter @ARMY_HTP

E são muitas as campanhas inspiradas pelas mensagens do grupo que atravessam a história do ARMY Help the Planet desde sua formação em 2019, quando algumas ARMYs se mobilizaram diante dos incêndios florestais que aconteciam na Amazônia na época.

O coletivo soma mais de R$ 200 mil arrecadados em campanhas idealizadas pelo coletivo, mobilizou milhares de fãs a tirar o título de eleitor, organizou dezenas de campanhas de agitação e conscientização político-social sobre o genocídio palestino, o fim da escala 6×1, vacinação e acesso à saúde, mudança climática e muito mais, assim como campanhas contra o PL1904, que equiparava o aborto ao homicídio, e o PL da Devastação, que impede que os bancos sejam punidos por crimes e danos ambientais cometidos por empreendimentos que eles financiam.

E é essa inquietude que levou o ARMY Help the Planet à Belém:

Em nossos seis anos de história, nós realizamos diversas campanhas de sucesso, incluindo várias diretamente ligadas à defesa do meio ambiente e à justiça climática. Além disso, um trabalho muito importante que desenvolvemos de forma contínua desde 2021 é o acompanhamento do Congresso Nacional e do Poder Executivo”, comenta Mariana.

Foto: reprodução/Estadão

Nosso objetivo é promover a conscientização sobre o que está acontecendo no cenário político brasileiro e incentivar a manifestação popular contra projetos de lei e decisões do Executivo que são prejudiciais às causas socioambientais e à justiça climática de forma geral. Em um desses momentos, após nossa manifestação contra o PL da Devastação virar notícia na revista Veja, nós recebemos um convite do Centro Cultural Coreano no Brasil.

Até pouco tempo atrás, seria inimaginável enxergar fãs de K-pop, cujos interesses ainda são motivo de ridicularização por orientalismo e misoginia, ocupando lugares como a COP30. Espaços que continuam muito alienantes, sobretudo entre jovens, estão sendo conquistados por mulheres que tornaram seus interesses e paixões um motor para mudança real, e muito dessa transformação se deu pelo trabalho do ARMY Help the Planet e sua constante insatisfação e questionamento, com a recusa de viver inerte diante do ódio e de injustiças

Música e arte sempre foram formas de expressão, um modo que muitos artistas usaram e usam para criticar a sociedade, o capitalismo e a política”, diz Mariana ao Entretê. “O BTS não é diferente; eles sempre escreveram músicas com críticas à sociedade e aos problemas existentes em seu país. Isso motiva o ARMY a debater sobre essas questões e a usar as músicas do grupo como forma de se expressar. Um exemplo disso é que, na campanha contra o 6×1, muitos ARMYs usaram uma das canções do BTS, Silver Spoon, para criticar a jornada de trabalho.

 

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Leia também: RM coloca o BTS no centro das discussões da APEC e reforça o impacto do K-pop como força cultural e econômica

 

Texto revisado por Alexia Friedmann

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Livros Notícias

Entre saltos temporais e luta política: a jornada final de Martim e Nina

No último volume da saga, Mandi Castro mistura aventura e história para revisitar o Brasil das Diretas Já

Em Irmãos Lafayette, Mandi Castro transforma a fantasia em uma maneira de revisitar o Brasil dos anos 80 para refletir sobre os ciclos de liberdade e esperança que atravessam a nossa história.

Foto: reprodução/Instagram @_mandicastro, @loba.producoes e @luvaeditora

No terceiro volume da saga, a narrativa conduz o leitor a um país em transformação e no centro da luta pela democracia. Depois de viajarem pelo Primeiro Reinado e pela Semana de Arte Moderna, os gêmeos Martim e Nina chegam a um dos momentos mais marcantes da redemocratização: o movimento Diretas Já. Com ritmo envolvente, Mandi une aventura, imaginação e fatos históricos para encerrar a trilogia de forma impactante.

Foto: reprodução/Instagram @_mandicastro, @loba.producoes e @luvaeditora

Nesta nova etapa, os irmãos enfrentam dilemas mais profundos e desafios que ultrapassam as fronteiras do tempo. Martim, abalado pelas consequências de decisões passadas, precisa lidar com a perda do anel temporal, objeto que canalizava sua energia para os saltos intertemporais. Enquanto isso, Nina assume um papel central ao descobrir uma ligação íntima com o fluxo temporal. Juntos, os dois encaram Ettore e o enigmático Duco, inimigos dispostos a manipular linhas do tempo e alterar destinos.

Foto: reprodução/Instagram @_mandicastro, @loba.producoes e @luvaeditora

Ao revisitar o Brasil dos anos 80, Mandi convida o leitor a mergulhar em ruas cheias, vozes pulsantes e um período tomado pelo desejo de mudança. A presença da guardiã Aevum e a ambientação em marcos históricos tornam o enredo mais simbólico e ampliam a reflexão sobre coragem, identidade e responsabilidade.

Entre saltos temporais e questionamentos sobre poder, Irmãos Lafayette propõe uma viagem que ultrapassa os limites da fantasia. A narrativa examina o impacto das escolhas individuais e investiga a própria natureza do tempo.

Foto: divulgação/Luva Editora/Entretetizei

O livro é uma oportunidade de revisitar a história do Brasil enquanto convida o leitor a mergulhar em um universo distante da nossa realidade. A obra utiliza o pano de fundo histórico brasileiro para refletir sobre temas contemporâneos, unindo reflexão e entretenimento por meio da fantasia e de personagens cativantes”, afirma Mandi Castro.

Foto: reprodução/Instagram @_mandicastro

Com apoio do Governo Federal, do Governo do Estado de São Paulo, da Política Nacional Aldir Blanc, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas e do Fomento CULTSP, o livro reafirma a força da literatura nacional ao unir imaginação e memória. Mais do que o encerramento de uma trilogia, Irmãos Lafayette é um convite para revisitar o passado e refletir sobre o tempo que ainda temos pela frente.

Sobre a autora
Foto: reprodução/Instagram @_mandicastro

Mandi Castro é escritora, roteirista e produtora cultural. Formada em Ciências Contábeis e em Rádio, TV e Internet, é pós-graduada em Roteiro para o Audiovisual e em Gestão de Projetos e Negócios para o Audiovisual pela FAAP.

Finalista do Prêmio Minuano de Literatura e do Prêmio Odisseia Fantástica, venceu o Prêmio Brasil Entre Palavras em 2020. Idealizadora e presidente do Loba Festival, atua também como sócia-fundadora da Loba Produções.

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Texto revisado por Angela Maziero Santana 

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Eventos Livros Notícias

Retratos de Eva: novo livro de Ruth Levy ilumina a vida e o legado de Eva Klabin

A obra reúne 15 histórias baseadas em documentos pessoais da colecionadora e integra as celebrações dos 30 anos da Casa Museu

Eva Klabin (1903-1991) foi uma das mais importantes colecionadoras de arte do Brasil. Uma mulher à frente de seu tempo, movida pelo hábito herdado do pai e por um interesse precoce pelas artes. Ao longo de uma vida marcada por viagens, formou um acervo raro com mais de duas mil obras, que percorrem cinco milênios: do Egito Antigo a mestres como Botticelli, Ghiberti, Rembrandt, Gainsborough, Reynolds e Pissarro.

Foto: reprodução/Casa Museu Eva Klabin

Para assegurar a continuidade de seu legado, transformou sua residência em Lagoa, no Rio de Janeiro, na Casa Museu Eva Klabin, aberta ao público em 1995 e hoje reconhecida como um dos acervos de arte clássica mais relevantes do país.

O livro Retratos de Eva Klabin surge no contexto das comemorações pelos 30 anos da instituição e aprofunda esse olhar sobre a colecionadora, revelando aspectos de sua personalidade, estilo de vida e escolhas que moldaram a coleção e a própria Casa Museu.

Foto: reprodução/Casa Museu Eva Klabin

A obra reúne 15 textos inéditos escritos a partir de documentos pessoais da colecionadora Eva Klabin, revelando aspectos íntimos, curiosos e, muitas vezes, surpreendentes de sua vida. 

Foto: reprodução/Instagram @evaklabinoficial e @ruthnlevy

Retratos de Eva chega dois anos após o lançamento do título anterior de Ruth – A Casa da Lagoa: Arquitetura e História do Cenário de Vida de Eva Klabin –, no qual aborda a residência onde Eva viveu por mais de três décadas e que transformou em casa-museu pouco antes de falecer. No novo projeto – que traz contracapa assinada por Ruy Castro –, Ruth parte do desejo de contar histórias da colecionadora a partir do acervo documental deixado por ela.

Foto: reprodução/Instagram @ruthnlevy

Museóloga da Casa Museu Eva Klabin há mais de 30 anos, Ruth acompanhou as principais fases da instituição e desempenhou papel essencial na preservação de sua memória. Para a autora, o livro é uma espécie de biografia desconstruída:

Este livro foi muito gostoso de escrever. São tantos anos imersa no universo que Eva criou na Casa da Lagoa, que sua presença – tão forte e tão constante – faz parte do meu dia a dia. Sua vida é rica de muitas formas, seu legado é enorme, e entender mais sobre ela é quase inevitável. Encaro os documentos do arquivo como peças de um quebra-cabeça, e montar essas peças tem sido uma experiência incrível. Daí nasce a vontade de compartilhar, de mostrar quem foi essa mulher tão especial.” 

Sinopse

Retratos de Eva Kablin apresenta crônicas escritas por Ruth Levy a partir de uma imersão no arquivo pessoal de Eva Klabin. O livro funciona como uma biografia fragmentada, em que cada história é um retrato da vida multifacetada da colecionadora. 

Foto: reprodução/Casa Museu Eva Klabin

Sem ordem cronológica, os textos revelam momentos marcantes, curiosos e sensíveis da trajetória de Eva – figura fundamental para a cultura brasileira e responsável por um legado que continua despertando curiosidade e admiração.

Lançamento
Foto: reprodução/Instagram @evaklabinoficial e @ruthnlevy

O evento de lançamento do livro Retratos de Eva Kablin será quinta-feira, 4 de dezembro, às 18h30, na Casa Museu Eva Klabin. A autora do livro, assim como o museólogo Diogo Maia, irão participar de um bate-papo seguido de coquetel e sessão de autógrafos, às 19h30. O livro estará à venda na Casa Museu e na Livraria da Travessa.

Sobre a autora 
Foto: reprodução/Instagram @ruthnlevy

Arquiteta (UFF) e museóloga (Unirio), Ruth é doutora e mestre em artes visuais (PPGAV/EBA/UFRJ) e pós-graduada em história da arte e arquitetura no Brasil (PUC-Rio). Integra a equipe da Casa Museu Eva Klabin há mais de três décadas, atuando em projetos, exposições, acervo, pesquisa, publicações e programação. 

É autora de A Casa da Lagoa (2023), além de diversos livros, artigos, catálogos e pesquisas sobre história da arte e arquitetura. Também assinou curadorias como 90 anos da Exposição do Centenário (Centro Cultural dos Correios, 2013) e foi assistente de curadoria da mostra Viagens de Eva (Casa Museu Eva Klabin, 2012).

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Texto revisado por Angela Maziero Santana 

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Cinema Crítica

Resenha | Eternity explora o amor, as escolhas e as reflexões sobre a vida

Em Eternity, o pós-vida ganha forma ao nos fazer questionar o que fazemos com a vida que temos, combinando comédia leve e reflexão

 

Eternity, novo longa dirigido por David Freyne, se passa na Encruzilhada – um espaço de passagem que mistura referências, meio recepção corporativa, meio saguão de hotel, onde os recém-falecidos desembarcam para assumir a “versão mais feliz de si mesmos”. É ali que acompanhamos Joan (Elizabeth Olsen) em uma jornada emocional que a obriga a enfrentar uma escolha delicada: decidir, em apenas uma semana, com quem deseja passar a eternidade – Larry (Miles Tyler), seu marido com quem compartilhou 65 anos de vida, ou Luke (Callum Turner), seu primeiro amor, que morreu jovem, mas a aguardou por 67 anos.

A partir desta premissa simples, mas cheia de camadas, o longa entrega humor, uma certa poesia visual e reflexão existencial para discutir como seria a vida após a morte. Assim, temas como luto, memória, reinvenção e a busca por sentido ganham forma. Junto a isso, surge uma pergunta inevitável que reverbera durante o filme: o que realmente vale a pena na vida que vivemos?

Ritmo sensível, humor e questionamentos existenciais

A narrativa começa acompanhando Joan e Larry, um casal de idosos, no carro a caminho de encontrar os filhos, onde pretendem revelar a doença dela. A sequência é íntima e dolorosa, preparando o terreno para um acontecimento abrupto que muda tudo. Antes que qualquer gesto seja concluído, o destino atravessa o plano do casal: Larry se engasga de forma súbita e morre. A tela escurece e, em seguida, uma chuva de papéis cor-de-rosa cai como neve, marcando a transição entre os mundos.

Pouco depois, vemos Larry despertar, agora em sua versão jovem, dentro de um trem – confuso, atordoado, perguntando da família e demorando a compreender que morreu. É assim que somos introduzidos à Encruzilhada, esse lugar de transição antes da escolha de uma eternidade, onde cada recém-falecido assume “a versão mais feliz de si mesmo”, como explica Anna, a coordenadora pós-morte (CPM) responsável por guiá-lo nesse espaço onde as regras são claras, mas as emoções nem tanto.

Diferente de outras narrativas sobre o pós-vida, Eternity constrói sua trama diante dos olhos do espectador, sem receio de usar o humor para expressar a confusão emocional dos personagens. Anna surge, a princípio, como uma funcionária operando no piloto automático repetindo ações padrões já de costume – quase que uma servidora pública – tratando os recém-falecidos como “mais uma ficha”, como ela mesma diz. Mas a personagem ganha profundidade graças à interpretação brilhante de Da’Vine Joy Randolph, que, com seu humor seco, pouco a pouco se torna a peça que costura o caos emocional dos outros e devolve alguma humanidade a esse lugar que, por definição, já deveria ter perdido isso.

A troca entre ela e Larry começa a abordar um dos conflitos centrais: a distância entre quem gostaríamos de ter sido e quem realmente somos. Logo no início da trama, Anna pergunta a Larry o que é a alma. Ele responde que seria “a perfeição de si mesmo”; ela rebate: “a alma é apenas você”. A cena funciona não apenas por nos fazer refletir, mas por causa do timing preciso e dos diálogos ágeis, que equilibram sensibilidade e leveza. Esse ritmo acelerado, cheio de surpresas e não monótono, mantém a atenção de quem assiste o filme, contribuído para um entretenimento leve e envolvente. 

Luke, por outro lado, surge como um bartender que parece apenas simpático, mas logo revela uma série de verdades profundas – um amor interrompido, expectativas alimentadas e um cansaço existencial que Callum Turner expressa com mínimos gestos, pausas e silêncios. Paralelamente, Larry explora diferentes mundos possíveis para viver a eternidade: o mundo-praia, o mundo-fumante, o mundo-Paris, o mundo-marxista e até o excêntrico mundo-palhaço. Cada um funciona como metáfora do desejo – mas também como prisão, já que, uma vez feita a escolha de qual eternidade deseja seguir, não há volta. Sua indecisão gera empatia e ecoa um medo universal: como escolher uma única versão do infinito?

Foto: divulgação/A24

Encontros, reencontros, rupturas e escolhas

A história se complica quando Larry reencontra Joan – rejuvenescida, recém-chegada e prestes a ser orientada por Ryan, seu conselheiro pós-morte. Ela chega à Encruzilhada com a mesma missão que ele: escolher onde quer passar a eternidade. No entanto, no caso dela essa escolha vem acompanhada de um dilema – algo que começa a se desenhar conforme novas (e antigas) presenças entram na sua vida.

Com o tempo, a personagem interpretada por Elizabeth Olsen reencontra Luke, que passa a ser apresentado como o amor perdido dela na juventude. Os três formam a espinha dorsal emocional do filme. Joan, que é inteligente e firme, se vê indecisa precisando decidir entre um amor vivido e um amor interrompido. Luke adiciona camadas importantes à narrativa ao revelar, aos poucos, uma história que vai muito além do charme e do romantismo iniciais: ele morreu na Guerra da Coreia justo quando a vida que começava a construir ao lado dela começava a fazer sentido. 

Larry, por sua vez, ganha densidade na interpretação precisa de Miles Teller, que transforma o “marido comum” em um homem ranzinza, vulnerável e cativante. É justamente nesse contraste entre fragilidade humana e possibilidades infinitas do pós-vida que outros personagens ganham espaço para respirar e ampliar a narrativa.

Outro personagem interessante é Ryan ( John Early), que, assim como Anna, ajuda a manter o ritmo do filme com tiradas rápidas e interações que vão se tornando ao longo do filme também afetuosas com Joan. Sua autenticidade funciona especialmente bem nos momentos em que a personagem enfrenta indecisão entre dois amores e as muitas ofertas de eternidade que surgem em telas, revistas e nas conversas com outros moradores da Encruzilhada.

A trama se abre em vários caminhos e, em certos momentos, parece hesitar sobre qual direção enfatizar. Essa impressão de suspensão – como se a história resistisse a concluir ou adiasse a decisão final – acaba ecoando o próprio tema. Eternity usa essa dilatação para reforçar que escolher é um ato humano, marcado por dúvidas, desejos e contradições, e que essa autonomia permanece mesmo depois da morte. É como se, diante da eternidade, o tempo deixasse de ser um adversário – e a pressão viesse apenas de nós mesmos.

Foto: divulgação/A24

Cenas cômicas que se intercalam com ritmo intenso do filme

Entre momentos intensos, o filme oferece cenas hilárias – sobretudo quando lembra que aqueles jovens foram idosos minutos atrás. Joan e Larry celebrando seus joelhos em perfeita forma, agachando repetidamente, é um dos grandes momentos cômicos.

Anna e Ryan equilibram a trama com tiradas rápidas, incluindo quando Anna classifica Larry como “um caso difícil” porque Luke “é gato e tem uma boa narrativa”.
Também se destacam os fracassos românticos de Larry – da serenata desastrosa ao cantor preferido de Joan ao momento em que tenta criar clima e acaba atingido por uma bola no rosto.

Estética que contribui para a construção de um pós-vida que parece feito à mão

Com roteiro de Pat Cunnane e David Freyne, o filme abraça uma estética que flerta com uma teatralidade: cortinas que se fecham para anunciar o fim do dia, carros de papel, lembranças encenadas como cenários montados. Em uma cena marcante, Joan atravessa uma máquina de lavar durante uma perseguição para acessar um quarto – reforçando a lógica onírica do pós-vida.

Esse visual alinhado à trilha sonora assinada por David Fleming, vencedor do prêmio ASCAP Award da American Society of Composers de melhor Trilha Sonora de Televisão em 2024 pela série The Last of Us, dá leveza a temas profundos, se adapta a outro momentos e faz o longa funcionar como uma comédia sensível que flerta com o drama sem se tornar pesado.

Outro elemento que complementa essa delicadeza da produção são os figurinos de Angus Strathie, vencedor do Oscar de Melhor Figurino (por Moulin Rouge: Amor em Vermelho), que abrangem várias épocas, ajudando a integrar os cenários e os personagens, reforçando essa ideia de tempo e memória do pós-vida.

Foto: divulgação/A24

Amor ardente x amor egoísta: um dilema 

O conflito de Joan não é apenas escolher entre dois homens, mas entre duas versões de si mesma: a mulher que viveu uma história real – com falhas, rotina, cuidados e ressentimentos – e a jovem que nunca teve a chance de encerrar seu próprio capítulo. É uma disputa entre memória e possibilidade. Anna, em uma de suas provocações mais certeiras ao longo do filme, resume bem isso ao dizer que escolher Luke seria ver Joan abraçar “a vida que ela nunca viveu”.
Do outro lado, visto quase como um azarão, Larry admite ter passado anos com medo de ser verdadeiramente enxergado – especialmente enquanto ela ainda chorava pela ausência de Luke.

A reflexão que surge desse embate, que ecoa em uma pergunta dolorosa: é egoísmo desistir de um amor acreditando que isso é o melhor para o outro? Ou é egoísmo insistir?
O filme não entrega respostas. Apenas apresenta caminhos e confia no espectador para preencher os espaços entre eles. Um dos momentos mais fortes acontece quando Joan, diante de uma decisão definitiva, se pergunta se a beleza da vida talvez esteja justamente no fato de que as coisas acabam. Essa ambiguidade – que nos convida a pensar junto com o movimento emocional dos personagens – é uma das grandes forças da narrativa.

Uma fantasia emocional sobre escolhas 

O longa de David Freyne é um bom filme que combina humor, sensibilidade e fantasia para construir uma reflexão sobre o que carregamos e o que, mesmo na eternidade, precisamos resolver. É uma história sobre amor – o que vivemos, o que deixamos de viver e o que ainda podemos escolher.

No fim, a narrativa não tenta definir o que é a alma. Apenas sugere que ela talvez seja aquilo que sobra quando papéis, memórias, traumas e expectativas já não conseguem nos definir. O desfecho reforça que o que se projeta para a eternidade não é um gesto grandioso, mas a forma como escolhemos permanecer ao lado de quem amamos.

Se Eternity fala sobre o pós-vida, sua grande sacada é lembrar que, antes de tudo, precisamos decidir o que fazer com a vida que temos.

E aí? Ficou com vontade de assistir? O filme estreia dia 4 de dezembro nos cinemas de todo o Brasil. Conta para gente nas redes sociais do EntretêInstagram, FacebookX – e aproveita para nos seguir e ficar por dentro de tudo que rola no mundo do entretenimento.

 

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Texto revisado por Simone Tesser @simone_alleotti

 

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Atores tailandeses Mile, Apo, Son e Euro chegam ao Brasil em março com turnê da série Shine

Astros de KinnPorsche trarão evento de nova série para São Paulo

Os atores do elenco principal da série tailandesa de sucesso Shine (2025) virão ao Brasil no dia 7 de março de 2026. Mile, Apo, Son e Euro chegam à São Paulo para fan concert que faz parte da turnê mundial da produção BL. O evento acontece no Terra SP a partir das 19h30. O Brasil é o primeiro país fora da Ásia a receber o espetáculo.

Shine é uma série tailandesa lançada em 2025, produzida pela empresa tailandesa Be On Cloud. A história se passa na Tailândia do final dos anos 1960 e aborda as disputas políticas, éticas e subjetivas dos personagens durante o período. Na trama, Mile vive o músico hippie Tanwa, Apo interpreta o economista Trin, Son é o coronel Krailert e Euro o repórter Naran. 

A série também traz a temática do relacionamento homoafetivo, atravessada pelos dilemas dos personagens sobre liberdade e expressão política. Shine tem oito episódios e está disponível oficialmente na plataforma de streaming WeTV.

Foto: divulgação/Be On Cloud

Similar ao evento realizado com o elenco da série 4 Minutes (2024) no Brasil em 2025, a apresentação de Shine mistura elementos de teatro e show, com cenas inéditas da série, interpretadas ao vivo pelos atores, e apresentações musicais dos artistas. Inspirado pela temática da série, o elenco promete trazer o clima dos anos 1960 e 1970 para seus fãs brasileiros.

Os ingressos estão disponíveis exclusivamente pela internet, no site ou aplicativo da Shotgun. Além do espetáculo principal, há opções de pacotes com eventos de interação, como fotos e Hi-touch. Há também opções de ingressos com valor promocional, no mesmo valor da meia-entrada, para quem fizer doação de 1 kg de ração para cães e gatos, que devem ser entregues no dia do evento. 

 

Quem aí vai marcar presença? Conta pra gente e siga o Entretetizei nas redes sociais – Facebook, Instagram e X – e não perca as novidades do mundo do entretenimento.

 

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Texto revisado por Alexia Friedmann

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