Como o amor e a admiração pelo BTS levou fãs brasileiras a formar um coletivo que chegou até a COP30
No dia 18 de novembro, o ARMY Help The Planet, um coletivo de fãs brasileiras do BTS, foi centro de uma das maiores convenções do mundo com o painel K-pop Fans for Climate Action (fãs de K-pop pela ação climática, em tradução livre), na COP30, para discutir como comunidades de fãs podem se tornar um importante motor para mudança climática.
O evento aconteceu no Pavilhão Entretenimento + Cultura, e foi aberto por Kim Sung-hwan, Ministro do Clima e Meio Ambiente da Coreia do Sul, e Vinicius Gurtler, Coordenador de assuntos internacionais do Ministério da Cultura.
Com organização do Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB), o painel reuniu ativistas e acadêmicos ao lado de Mariana Faciroli, advogada e codiretora do ARMY Help The Planet, e Dayeon Lee, ativista e representante do coletivo KPOP4PLANET.

Durante a conversa, os palestrantes abordaram o crescente impacto de fandoms na política, a necessidade de artistas se manifestarem sobre pautas como a agenda climática, influenciando seus fãs a se informarem sobre o assunto, assim como a urgência de promover uma indústria musical mais sustentável.
“Os fãs de K-pop são muito proativos e têm se manifestado sobre questões sociais, como no movimento Me Too (contra assédio e violência sexual) e na luta pela democracia”, explicou Cheul Hong Kim, diretor do CCCB, em entrevista ao G1. “Então, queremos mostrar à sociedade que eles também podem ter um papel importante na conscientização sobre a emergência do clima”.
Mas, afinal, o que o BTS tem a ver com política?
Para muitas pessoas que não acompanham K-pop, ou que ainda enxergam o pop coreano sob as lentes do orientalismo e de propagandas racistas, pode parecer destoante que um dos grupos mais populares tenha qualquer relação com agitação política e ativismo climático, mas as músicas do BTS contam outra história.

Desde seu debut, em 2013, até seus projetos mais recentes, o BTS é orientado por uma não conformidade e uma inquietude social profundamente política. Esses interesses se refletem em sua discografia em temas como consumismo, alienação, psicologia humana, desigualdade e até luta de classes, de forma que se interessar pelo grupo vai muito além da simples tradução de suas músicas, mas muitas vezes significa ter que estudar a história e a conjuntura sul-coreana.
A interpretação da letra de Ma City, por exemplo, perpassa pela referência ao levante popular de Gwangju, em que centenas de estudantes (da mesma região que J-hope nasceu) foram mortos em 1980 por se manifestarem em oposição à ditadura militar que assolava a Coreia do Sul na época.
Da mesma forma, é impossível compreender os projetos Map of the Soul: Persona (2019) e Map of the Soul: 7 (2020), por exemplo, sem saber ao menos o básico de psicologia junguiana. Assim como o álbum Wings (2016) só pode ser aproveitado em sua complexidade através da leitura do romance Demian, de Hermann Hesse, e músicas como Paradise e Strange são baseadas em conceitos marxistas.
Spring Day, uma das músicas mais bonitas da discografia inteira do BTS, é uma homenagem às vítimas do desastre da Balsa de Sewol de 2014, em que 304 passageiros morreram em um naufrágio que expôs esquemas de corrupção no governo sul-coreano. O MV da música também faz referência ao conto filosófico Aqueles que se afastam de Omelas, de Ursula K. Le Guin, que tematiza a intrínseca desigualdade no liberalismo e os limites da violência.
Outro projeto que exigiu das ARMYs a leitura de noticiários políticos foi Am I Wrong, de 2017. Na música, o BTS respondeu explicitamente a um comentário feito na época por um funcionário do Ministério da Educação da Coreia do Sul, Hyang-wook Na, que disse que 99% dos sul-coreanos são como “como cães e porcos”: podem ser apenas alimentados e mantidos vivos, não tendo a habilidade de crescer no mundo.
“Se você vê as notícias e não sente nada”, canta RM, “se esse ódio não te faz sentir nada, você não é normal, mas anormal.”
Esses são apenas alguns dos muitos exemplos de músicas e projetos do BTS que incentivam quem quer que esteja ouvindo a questionar o mundo ao seu redor, a não normalizar a barbárie e resistir a pressões sociais – e é claro que o seu próprio fandom não deixaria de ouvir.

ARMY Help The Planet
Em Polar Night, escrita para o álbum solo D-Day (2023), Suga diz: “não posso viver como merda nesse mundo horrível. Eu encaro a realidade com meus olhos abertos”. E é isso que, desde sua formação em 2019, o coletivo ARMY Help the Planet tem feito: encarado o mundo de olhos abertos.
“Eles são a razão e inspiração de tudo o que fazemos”, explica Mariana Faciroli, advogada e codiretora do ARMY Help the Planet, em conversa com o Entretê. “Os membros do BTS, tanto em sua arte como em suas ações pessoais, têm se manifestado sobre questões políticas e socioeconômicas que vão desde o desemprego juvenil, desigualdade social e econômica, saúde mental e amor-próprio, incluindo campanhas de ponta como Love Myself, em parceria com a UNICEF, e a promoção de doações para várias causas relevantes.”
Mariana contou que “os membros do BTS têm inspirado pessoas em todo o mundo a usar suas próprias vozes, a ‘speak yourself’ e a tomar uma posição ativa, encorajando a tomada de ações, para as mudanças que desejam em suas realidades, fazendo do ARMY uma força poderosa no engajamento em questões sociais e ambientais”.

E são muitas as campanhas inspiradas pelas mensagens do grupo que atravessam a história do ARMY Help the Planet desde sua formação em 2019, quando algumas ARMYs se mobilizaram diante dos incêndios florestais que aconteciam na Amazônia na época.
O coletivo soma mais de R$ 200 mil arrecadados em campanhas idealizadas pelo coletivo, mobilizou milhares de fãs a tirar o título de eleitor, organizou dezenas de campanhas de agitação e conscientização político-social sobre o genocídio palestino, o fim da escala 6×1, vacinação e acesso à saúde, mudança climática e muito mais, assim como campanhas contra o PL1904, que equiparava o aborto ao homicídio, e o PL da Devastação, que impede que os bancos sejam punidos por crimes e danos ambientais cometidos por empreendimentos que eles financiam.
E é essa inquietude que levou o ARMY Help the Planet à Belém:
“Em nossos seis anos de história, nós realizamos diversas campanhas de sucesso, incluindo várias diretamente ligadas à defesa do meio ambiente e à justiça climática. Além disso, um trabalho muito importante que desenvolvemos de forma contínua desde 2021 é o acompanhamento do Congresso Nacional e do Poder Executivo”, comenta Mariana.

“Nosso objetivo é promover a conscientização sobre o que está acontecendo no cenário político brasileiro e incentivar a manifestação popular contra projetos de lei e decisões do Executivo que são prejudiciais às causas socioambientais e à justiça climática de forma geral. Em um desses momentos, após nossa manifestação contra o PL da Devastação virar notícia na revista Veja, nós recebemos um convite do Centro Cultural Coreano no Brasil.”
Até pouco tempo atrás, seria inimaginável enxergar fãs de K-pop, cujos interesses ainda são motivo de ridicularização por orientalismo e misoginia, ocupando lugares como a COP30. Espaços que continuam muito alienantes, sobretudo entre jovens, estão sendo conquistados por mulheres que tornaram seus interesses e paixões um motor para mudança real, e muito dessa transformação se deu pelo trabalho do ARMY Help the Planet e sua constante insatisfação e questionamento, com a recusa de viver inerte diante do ódio e de injustiças.
“Música e arte sempre foram formas de expressão, um modo que muitos artistas usaram e usam para criticar a sociedade, o capitalismo e a política”, diz Mariana ao Entretê. “O BTS não é diferente; eles sempre escreveram músicas com críticas à sociedade e aos problemas existentes em seu país. Isso motiva o ARMY a debater sobre essas questões e a usar as músicas do grupo como forma de se expressar. Um exemplo disso é que, na campanha contra o 6×1, muitos ARMYs usaram uma das canções do BTS, Silver Spoon, para criticar a jornada de trabalho.”
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Texto revisado por Alexia Friedmann

















