Publicados no Brasil pela Risco Editora, os quadrinhos exploram as simplicidades das relações, mas sem ignorar suas complexidades
Um furto acidental, uma missão interdimensional, um trabalho suspeito em um cemitério e a pintura de um retrato são os elementos centrais das histórias da ilustradora e quadrinista francesa Lucie Bryon. E o que todas essas histórias têm em comum? Amor, pertencimento e mistérios. Publicados no Brasil pela Risco Editora, após campanhas de financiamento coletivo, Ladras (2024) e Happy Endings (2025) encantam os leitores pela fluidez dos traços de Bryon, o uso das cores e as narrativas simples, mas que evidenciam as complexidades das relações humanas.
Ladras: elas vão roubar seu coração (e outras coisas também)
Em Ladras, acompanhamos Ella, uma adolescente extrovertida que adora uma festa e está sempre atrasada para a escola, exceto às quintas-feiras, quando tem aula na mesma classe de Madeleine, a garota linda e misteriosa por quem tem uma quedinha.
O amor platônico, contudo, logo toma outros rumos, quando, após uma festa, Madeleine aparece na porta de Ella. Poderia ser algo incrível, se Ella não estivesse cercada de objetos furtados, dos quais não tem ideia de como foram parar em seu apartamento.
Este furto acidental une as garotas em uma jornada de autodescobertas e nos leva para um romance divertido que, ao mesmo tempo, aborda questões como pressão social, bullying e ansiedade. Ladras é uma história que joga os leitores na intensidade sentimental do limiar da adolescência.
A HQ, vale destacar, não é uma história sobre a descoberta da sexualidade. Ella já teve alguns relacionamentos e se entende como uma mulher bissexual, enquanto Madeleine é uma mulher lésbica. A narrativa prioriza a maneira como elas constroem esse relacionamento e a importância da honestidade – entre elas e consigo mesmas – para mantê-lo.
Com um roteiro que equilibra assuntos densos com a suavidade dos romances juvenis, Lucie Bryon apresenta personagens com personalidades bem desenvolvidas, tornando as interações sensíveis, engraçadas e fluidas – é impossível não rir com as diversas expressões da Ella e seu talento para o drama ou se angustiar com os traumas de Madeleine.
Além disso, personagens secundários, como a melhor amiga de Ella, também se destacam, abordando a importância de ser uma rede de apoio e as relações que não se restringem ao romance.

Happy Endings: mas, afinal, o que é um final feliz?
Desta vez, Lucie Bryon constrói três histórias em que o final feliz não é um final propriamente dito. Nesta obra, vemos diferentes pessoas fazerem escolhas que lhes permitem viver um final feliz naquele momento. Como na vida, em que vamos, cotidianamente, aproveitando finais felizes e começos infelizes, e vice-versa.
Em Oceano, a segunda narrativa da obra, dois agentes espaço-temporais são enviados para cumprir uma missão em um balneário francês, em meados dos anos 2000, mas se veem impossibilitados de retornar à sua base e precisam, de uma hora para a outra, sobreviver naquela realidade.
O conflito entre os personagens, que vão, aos poucos, construindo relações com vizinhos, dividindo um lar, estabelecendo um negócio e até adotando um gato, é pautado na questão do pertencimento e propósito. Como duas pessoas treinadas para serem algo sem qualquer possibilidade de afeto podem abraçar uma nova existência que contradiz tudo que aprenderam?
Ao fazerem uma escolha, os personagens caminham para o seu final feliz – e isso significa deixar algo para trás. Essa mesma questão aparece em Feliz Ano Novo, que abre o quadrinho, sendo a mais curta das histórias, com foco na relação entre um jovem que aceita posar para uma artista; e em Canção de um Dia de Verão, que fecha o volume com um bom mistério no cemitério, fantasmas e romance.
Ao ler Happy Endings, o leitor percebe que as histórias não acabaram ali, que os personagens vão lidar com muitas coisas e viver tantas outras. O que lemos é apenas um fragmento de todas as possibilidades do existir.
Em ambas as obras, os traços fluidos de Bryon aliados a narrativas cativantes e a um excelente uso de cores – quase um personagem próprio de cada história – deixam aquele gostinho de quero mais.
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Texto revisado por Ketlen Saraiva









