Resenha | Onde Fica o Paraíso: uma história emocionante e visceral, para ser assistida e amada

Onde Fica o Paraíso tem uma narrativa linda e comovente, envolve o público e implora por ser assistida e sentida

[Contém spoiler]

Se você se lembra do meme “não sei nem dizer, só sei sentir”, já está de coração pronto para assistir Onde Fica o Paraíso. Esse filme é lindo, comovente e visceral, com um roteiro feito para ser amado.

Com atuações exemplares, Onde Fica o Paraíso conta sobre Alice Lamb, interpretada por Gemma Arterton quando jovem e por Penelope Wilton na velhice. A protagonista mora em uma pequena cidade inglesa, sozinha, e é conhecida por ser insensível com as crianças e impaciente com os adultos.

Tudo muda com a Segunda Mundial e a evacuação das crianças da capital para o interior. Sem expectativa nenhuma de fazer parte daquilo, a Alice jovem recebe um menino em idade escolar em sua casa, o jovem Frank (Lucas Bond).

Mesmo não tendo se voluntariado para cuidar de nenhuma criança e repudiando a ideia de qualquer criança perto de si, ela aceita o menino quieto e educado que é deixado em sua porta.

Com tramas e mais tramas, Onde Fica o Paraíso entrega uma história de amor, delicadeza e superação.

Mitologia

Foto: divulgação

Alice Lamb é uma escritora de teses científicas. Ela escreve sobre os mitos antigos, como a fada Morgana, por exemplo, e dá explicações científicas para todas aquelas histórias que parecem contos de fadas.

Por causa disso, o filme conta vários trechos sobre contos mitológicos e explora algumas dessas narrativas para ilustrar o imaginário infantil.

O nome original do longa já indica isso ao público, já que se chama Summerland. É explicado, em certo momento da trama, que Summerland é o lugar para onde as almas vão, segundo o paganismo ancestral, depois da morte.

A gente já explicou um pouco sobre como o cinema retrata as bruxas naturais e a cultura pagã, mas esse filme passou despercebido na lista por não ser sobre bruxaria exatamente.

Alice é, constantemente, chamada de bruxa pelas crianças locais, e por isso faz tanto sentido ter esse tema no longa, mesmo que na verdade ela nem acredite em qualquer crença religiosa. Porém, Alice Lamb é uma mulher sábia e estudiosa, e usa de seus conhecimentos para falar sobre o paganismo de uma forma científica.

Summerland ainda é a Terra do Mortos para praticantes da religião Wicca, e é chamado assim porque é um lugar como o nosso, mas com um verão permanente, habitado por seres mitológicos e deuses, onde podemos renascer como seres de luz e de magia. E é exatamente assim que Frank aprende a lidar com a morte e com o que é feito com todas as vidas que estão sendo perdidas na guerra.

A delicadeza de escolher essa forma de falar sobre a perda é imensa, e nos apaixonamos pelo conceito de se falar assim para crianças que não entendem muito bem o que fazer com suas dores.

Um romance de tirar o fôlego

Foto: divulgação

Onde Fica o Paraíso é um filme sobre a Segunda Guerra, mas que só a usa de cenário para algo maior.

O filme fala sobre como era quase impossível uma relação homossexual na década de 1940, e enquanto eu via Alice contar ao Frank sobre o amor de uma forma leve, só era capaz de pensar em Virginia Woolf escrevendo sobre o mesmo tema seu livro Mrs. Dalloway. A representatividade era nula, o existir era impossível e o espaço era um sopro de desespero entre pessoas prontas para tentar viver em uma sociedade machista.

Mas passando por cima de tudo isso, Onde Fica o Paraíso expande os horizontes e prova que algumas pessoas não se permitem viver infelizes por causa de escolhas sociais ou conceitos. E mesmo com as cenas em que é deixado claro todo aquele peso de se ser lésbica em uma realidade muito mais homofóbica do que a que vivemos hoje, o preconceito é um tapa na nossa cara, mas de uma forma que reflete sobre enfrentamento e superação.

Onde Fica o Paraíso também prova que não existe nada mais forte do que o amor, e que um amor só pode ser superado por um sonho que envolva um amor ainda maior e mais incondicional, o que torna a narrativa ainda mais apaixonante.

A simplicidade com que Frank também é confrontado com aquela realidade homoafetiva também é doce, e chega a ser poética. Não tem como não amar a sutileza de Alice quando vemos seus muros começando a cair, e a vemos deixar a pele de alma solitária para se tornar alguém mais caridosa e gentil.

Maternidade

Foto: divulgação

É importante lembrar que Onde Fica o Paraíso é um filme sobre maternidade não planejada. Mesmo que Frank não tenha saído de Alice, ele foi entregue a ela por alguém que confiava nela mais do que qualquer outra pessoa, e que via nela uma segunda mãe para ele. E ela foi se tornando exatamente o que essa pessoa esperava dela.

Quando Vera (quando jovem interpretada por Gugu Mbatha-Raw) manda seu único filho para Alice, sua escolha é calculada. Foi ela quem abandonou aquela relação porque queria ser mãe, foi ela que escolheu ter uma vida socialmente aceita e heterossexual por seu sonho gerar um bebê. Mas Alice foi escolhida: antes por Vera, e depois pelo próprio Frank, que se apaixonou pela mãe postiça que lhe deram, e que a enxergou como a pessoa em quem ele mais poderia confiar.

Também podendo ser visto como um tipo de adoção tardia (que é um tema muito importante entre os casos de adoção), a relação dos dois cria esse impacto sobre o público de Onde Fica o Paraíso, e expande sua importância em uma sociedade que ainda preza pela adoção (quando a enxergam com bons olhos) apenas de bebês e crianças pequenas.

Vale ressaltar que a maternidade não é sempre uma escolha de todas as mulheres. Algumas de nós não se sentem desejosas desse papel e recusam as causas e efeitos de uma criança em suas vidas, porque nem toda mulher tem instinto materno. O filme lida com isso de forma gentil também, e apresenta uma Alice que nunca quis ser mãe, e que não entendia o ponto de vista de Vera, e mesmo sendo obrigada a adotar Frank, ela ainda não tinha o instinto maternal.

Se você assistir ao filme esperando que a adoção possa despertar em Alice esse instinto, vai se frustrar. Ela, na verdade, se torna uma amiga para o menino, e passa a vê-lo como um amigo também. No futuro, quando ela assume de volta o papel de importância que tinha na vida de Vera e então o adota como parte de sua família, ela ainda não sente que Frank despertou seu instinto materno (já que ela continua não gostando de crianças). Ela decidiu amar Frank como um filho, mas não de forma maternal, apenas por um amor anterior por sua mãe. E isso também é lindo!

Foto: divulgação

Agora conta pra gente se você já assistiu e o que achou do filme. Ou se essa resenha te inspirou para assistir a obra. Te esperamos lá nas nossas redes socais: Twitter, Insta e Face.

*Crédito da foto de destaque: divulgação

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