No primeiro volume do mangá, Suu Morishita constrói uma história sobre empatia, descoberta e os mil jeitos de se dizer “eu te amo” sem usar palavras
Há histórias que falam de amor e há aquelas que traduzem o amor. O mangá Um Sinal de Afeto pertence à segunda categoria. Neste primeiro volume, Suu Morishita nos convida a mergulhar no universo silencioso, mas profundamente expressivo, de Yuki, uma jovem com deficiência auditiva que descobre, em cada novo gesto, uma forma de se conectar com o mundo e com o sentimento mais universal de todos: o amor.

Yubisaki to Renren é um mangá escrito e ilustrado pela dupla Suu Morishita – pseudônimo que reúne Makiro (roteiro e storyboard) e Nachiyan (desenhos). A obra é publicada desde julho de 2019 na revista Dessert da Kodansha e rapidamente se tornou um fenômeno: durante muito tempo foi o mangá mais vendido da revista, sendo superado apenas por Uruwashi no Yoi no Tsuki, de Mika Yamamori.

Ainda assim, segue como um dos pilares do gênero, com 11 volumes e mais de 5 milhões de cópias em circulação. Além do sucesso comercial, o título foi vencedor do grande prêmio da 11ª edição do An An Manga Awards, 9º colocado no ranking feminino do Kono Manga ga Sugoi! em 2021, e concorreu a diversas outras premiações.
Um encontro que muda tudo
Yuki Itose é uma universitária surda que vive uma rotina tranquila, até o dia em que conhece Itsuomi Nagi, seu veterano, que a ajuda em uma situação corriqueira no trem. Diferente de muitos, ele não a trata com constrangimento ou piedade, mas com naturalidade e curiosidade genuína.

A partir desse encontro, Yuki começa a sentir o coração se abrir para novas possibilidades e a perceber que o mundo pode ser muito maior do que aquele que ela conhecia.
Um romance que cresce em silêncio
A relação entre Yuki e Itsuomi se desenvolve de maneira surpreendentemente rápida se comparada a outros shoujos, porém isso não a torna superficial, pelo contrário, é justamente essa naturalidade que dá força à narrativa. Desde o primeiro encontro, há entre eles um tipo de curiosidade mútua: Itsuomi se interessa genuinamente por Yuki, não por sua deficiência auditiva, mas pela forma única com que ela percebe o mundo; enquanto Yuki se encanta pelo modo como ele transita entre culturas, idiomas e experiências com uma leveza que contrasta com o seu cotidiano silencioso.

O romance nasce do gesto e da observação. Não há grandes declarações ou reviravoltas dramáticas, o que Suu Morishita oferece é a construção paciente de uma intimidade. Cada troca de olhar e tentativa de comunicação, carregam o peso e a ternura de quem está aprendendo a se expressar e a ouvir de novo, ainda que de outro modo.

O mais encantador é a forma como o mangá materializa o sentimento. À medida que Yuki compreende melhor as suas emoções e se permite vivê-las, os quadros se tornam mais abertos, claros e arejados, como se o próprio espaço da página respirasse junto com ela. Essa expansão visual é uma metáfora para o modo como o amor, aqui, não aprisiona, mas liberta. Itsuomi, com seu olhar atento e tranquilo, não invade o mundo de Yuki: ele apenas o ilumina, permitindo que ela o redescubra com novas cores.

Outro aspecto notável é o equilíbrio entre os dois protagonistas. Mesmo que Itsuomi pareça o catalisador da transformação, é Yuki quem conduz o leitor por essa jornada de descoberta, afinal é através de suas percepções, dúvidas e silêncios que o amor ganha sentido. E é justamente por isso que o romance soa tão sincero: não é sobre o salvador que chega para completar alguém, mas sobre duas pessoas que, por meio do afeto, aprendem a compreender os diferentes modos de existir e de se comunicar.
No fim, Um Sinal de Afeto mostra que o amor não precisa ser barulhento para ser intenso. Às vezes, ele floresce no espaço entre as palavras e é nesse intervalo que o mangá encontra sua beleza mais pura.
A representação da deficiência auditiva
Yuki é uma protagonista doce, introspectiva e poeticamente sensível. Ela faz faculdade e, à sua maneira, busca expandir o próprio mundo, aprendendo e se comunicando com quem a cerca. Sua forma de pensar e se expressar é sempre delicada, como se procurasse ver beleza até nas pequenas coisas.

A representação da surdez aqui é feita com enorme respeito: Yuki não é reduzida à deficiência, mas mostrada como uma jovem cheia de sonhos, desejos e curiosidade. Essa abordagem confere à obra uma dimensão importante de representatividade, especialmente para leitores surdos, que encontram uma personagem complexa, independente e inspiradora.
Entre laços e gestos: personagens secundários e suas conexões
Além do casal central, o primeiro volume introduz um elenco cativante que torna o mundo de Yuki ainda mais vivo e o entorno de Itsuomi cheio de novos contatos e experiências.

Rin Fujishiro, a melhor amiga de Yuki e digitadora de aulas da mesma, é uma jovem extrovertida e carismática que oferece o contraponto perfeito à natureza reservada de Yuki. Rin, assim como Itsuomi, faz parte do Clube de Intercâmbio Cultural, um projeto universitário que se propõe a expandir as fronteiras dos alunos, além de estabelecer pontes para conhecer outros idiomas.

Outro personagem é Kyouya Nagi, que é primo paterno de Itsuomi, proprietário do Rockin’ Robin bar – estabelecimento onde ambos trabalham – e o interesse romântico de Rin. Sua presença adiciona novas dinâmicas ao grupo e traz uma perspectiva leve, mas madura, sobre os acontecimentos.

Temos ainda Oushi Ashioki, amigo de infância de Yuki, que nutre sentimentos não resolvidos por ela, o que traz um toque sutil de tensão emocional à narrativa. O personagem é o único do núcleo principal que sabe, de fato, a língua de sinais japonesa, podendo estabelecer uma comunicação efetiva com Yuki, sem o uso de recursos tecnológicos como o celular, por exemplo.

Há também Emma Nakazono, amiga de escola de Itsuomi, que contribui com nuances e olhares sobre o protagonista, além de nutrir um sentimento romântico unilateral pelo mesmo. Por fim, há Shin Iryuu, cabeleireiro e melhor amigo de Itsuomi, cuja leveza e bom humor escondem, talvez, sentimentos mais profundos do que aparenta.

Essa pluralidade de personagens enriquece o enredo, tornando cada interação significativa e contribuindo para a atmosfera de doçura e amadurecimento emocional que permeia toda a obra, além de proporcionarem momentos engraçados.
A edição da NewPOP: um cuidado que se sente
A edição brasileira, lançada pela Editora NewPOP, é um exemplo de como um bom trabalho editorial pode ampliar a experiência de leitura. O acabamento é de excelente qualidade, e o volume traz notas e textos da própria autora explicando aspectos da língua de sinais japonesa.
Além disso, a editora manteve um detalhe gráfico importante: as falas dirigidas a Yuki aparecem em balões cinzentos, e quando ela não compreende o que está sendo dito, algumas letras aparecem invertidas. Essa escolha – explicada no início do volume – permite que o leitor vivencie parte da percepção da protagonista, reforçando a imersão emocional da narrativa.
Do papel para a tela: a adaptação em anime
O sucesso de Um Sinal de Afeto foi tanto que a obra ganhou uma adaptação em anime, exibida na Crunchyroll, que preserva a atmosfera suave e contemplativa do mangá. A animação valoriza os gestos e expressões, dando atenção especial às cenas em língua de sinais – um detalhe essencial para manter o respeito e a beleza da comunicação entre Yuki e Itsuomi.

Com uma trilha sonora delicada e uma paleta de cores suaves, o anime reforça o tom de ternura e introspecção da história, tornando-se uma porta de entrada ideal para novos leitores conhecerem a obra original.
O afeto como linguagem universal
Um Sinal de Afeto é mais do que um romance: é uma reflexão sobre o poder da empatia e a beleza de se comunicar além das palavras. Suu Morishita transforma o silêncio em poesia visual, e a NewPOP entrega uma edição à altura dessa sensibilidade.
Entre gestos, olhares e pequenas descobertas, o leitor é convidado a experimentar um amor que não precisa ser dito, apenas sentido.

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Texto revisado por Cristiane Amarante @cris_tiane_rj









