Como The Fragrant Flower Blooms with Dignity ressignifica a masculinidade no shonen contemporâneo
[Contém spoiler]
Publicado em outubro de 2021, The Fragrant Flower Blooms with Dignity é escrito e ilustrado por Saka Mikami e atualmente é serializado no Japão pela Kodansha. No Brasil, o mangá é publicado pela Editora MPEG, ampliando o alcance de uma obra que, desde o início, se destacou pela delicadeza com que trata os temas emocionais. A história também ganhou adaptação em anime, lançada pela Netflix, o que ajudou a levar essa narrativa intimista a um público ainda mais amplo.

Mesmo inserido no universo dos romances escolares, o mangá chama atenção por deslocar o foco do sofrimento emocional dentro de uma estrutura shonen. Tradicionalmente, obras voltadas a esse público tendem a associar protagonistas masculinos à ação, à resistência emocional e à superação através do conflito externo. The Fragrant Flower Blooms with Dignity (2021) rompe com essa lógica ao colocar Rintaro Tsumugi no centro de uma jornada marcada não pela força ou pela vitória, mas por insegurança, baixa autoestima e um profundo sentimento de não pertencimento.

Rintaro não é apresentado como alguém em busca de superação heroica. Desde o início, ele carrega o peso de uma desistência silenciosa, alimentada pelo preconceito que sofre por sua aparência intimidadora e pela má reputação da escola que frequenta. A obra, no entanto, jamais trata esse cansaço como falha de caráter. Pelo contrário: reconhece-o como resultado de um ambiente social que frequentemente nega aos homens o direito de sentir, duvidar e demonstrar fragilidade.

É nesse ponto que a família Tsumugi se torna um dos pilares mais importantes da narrativa. Kyoko, a mãe; Keiichiro, o pai; e Sotaro, o irmão mais velho, constroem um verdadeiro refúgio emocional para Rintaro. Enquanto o mundo exterior o julga e o rotula, sua família o acolhe sem reservas, oferecendo um espaço onde ele pode existir sem medo de rejeição.

Kyoko, em especial, se destaca como uma figura materna atenciosa e ativa. Seus conselhos não são impositivos, mas cheios de escuta e sensibilidade, ajudando Rintaro a refletir sobre suas escolhas e a desenvolver, pouco a pouco, sua autoestima e confiança. Esse cuidado se manifesta também em gestos concretos: quando Rintaro expressa o desejo de pintar o cabelo de loiro e furar as orelhas, Kyoko o apoia sem questionamentos e pinta, inclusive, seu próprio cabelo e fura a sua orelha para que o filho não se sinta culpado caso sua escolha afete a confeitaria da família.

Keiichiro, o pai, também exerce um papel fundamental ao transformar o afeto em aprendizado compartilhado. Quando Rintaro decide fazer um bolo de aniversário para Kaoruko, é com o pai que ele aprende, em um momento simples, mas carregado de significado. Já Sotaro, o irmão mais velho, aparece como uma presença constante desde a infância, sempre atento para que Rintaro não se sentisse sozinho – como nos momentos em que os dois assistiam juntos a filmes de terror. Esses detalhes cotidianos revelam uma família que não apenas ama, mas participa ativamente da construção emocional de Rintaro.

Além do núcleo familiar, as amizades também desempenham um papel essencial em sua jornada. Na escola Chidori, Rintaro constrói laços com Shōhei Usami, Saku Natsusawa e Ayato Yorita. Esses amigos não tentam moldá-lo nem exigem dele uma postura de força constante. Ao contrário, oferecem companhia, lealdade e um espaço onde ele pode ser inseguro sem ser ridicularizado. O pertencimento surge não da mudança forçada, mas da aceitação mútua.

Esse grupo se expande com a chegada de Subaru Hoshina, melhor amiga de Kaoruko Waguri e estudante da escola Kikyo. Ao se juntar ao grupo, Subaru amplia ainda mais esse espaço de acolhimento, mostrando que laços podem atravessar barreiras sociais e escolares. A convivência entre estudantes de escolas com reputações tão distintas reforça um dos temas centrais da obra: o preconceito social pode ser desarmado pelo contato humano genuíno.

É também no relacionamento entre Rintaro e Kaoruko que a obra atinge um de seus pontos mais sensíveis e simbólicos. O próprio título Kaoru Hana wa Rin to Saku funciona como um trocadilho delicado com os nomes dos protagonistas. Kaoru, presente em Kaoruko, carrega o significado de algo fragrante, perfumado; Rin, de Rintaro, remete à dignidade. A flor que floresce com dignidade é, portanto, o próprio vínculo entre eles, construído a partir da gentileza, do respeito e do apoio mútuo.

Essa simbologia se reflete diretamente na forma como o romance se desenvolve. Kaoruko não surge como solução para os conflitos internos de Rintaro, nem como recompensa por seu sofrimento. Ela oferece presença e escuta, permitindo que ele se veja com mais cuidado e menos severidade. Da mesma forma, Rintaro não ocupa o papel de protetor idealizado; ele aprende a se relacionar a partir da vulnerabilidade. Juntos, eles não apagam as dores causadas pelo preconceito social, mas criam um espaço onde é possível florescer apesar dele, com delicadeza, dignidade e tempo.

Kaoruko funciona como um espelho afetivo: ao se relacionar com ela, Rintaro passa a enxergar em si qualidades que antes ignorava. Ainda assim, o mangá evita romantizar o sofrimento masculino ou sugerir que o amor, por si só, resolve tudo. O que a obra propõe é mais sutil: o amor cria condições para que alguém escolha continuar, mesmo depois de ter desistido internamente.

Ao permitir que um protagonista masculino viva uma jornada de amadurecimento emocional tão delicada dentro de uma obra shonen, The Fragrant Flower Blooms with Dignity (2021) oferece uma reflexão potente sobre masculinidade. Crescer, aqui, não significa endurecer ou silenciar sentimentos, mas aceitar cuidado, reconhecer limites e compreender que sentir também é um ato de coragem.
Rintaro Tsumugi não se torna alguém melhor aos olhos do mundo: ele se torna alguém mais inteiro para si mesmo. E, ao fazer isso, a obra reafirma uma ideia simples e poderosa: o campo do sentir não é exclusivo das mulheres, ele também pertence aos homens, e há dignidade em florescer com delicadeza.

O que você acha sobre a construção desse personagem? Compartilhe com a gente através das nossas redes sociais – Instagram, Facebook e X – e, se gosta de trocar experiências literárias, junte-se ao Clube do Livro do Entretê!
Leia também: O peso de sentir: como a empatia se transforma em carga nas narrativas shonen
Texto revisado por Larissa Couto @larscouto









