Na contramão dos vilões humanizados, o Rei das Maldições encarna uma força ancestral que não busca redenção e não oferece conforto ao público
[Contém spoiler]
Nos últimos anos, a ficção japonesa tem investido em antagonistas construídos a partir de feridas emocionais, traumas de origem e conflitos internos que aproximam o público de suas motivações. Figuras como Makima (Chainsaw Man, 2019), Shigaraki (My Hero Academia, 2016) e Muzan (Demon Slayer, 2020) carregam camadas que inspiram empatia ou, ao menos, compreensão.

Ryomen Sukuna, porém, surge como uma ruptura deliberada dessa tendência. Em Jujutsu Kaisen (2018), ele se impõe por representar um mal despido de justificativas, livre de qualquer estrutura psicológica capaz de suavizá-lo.

A maldade como escolha e não consequência
A recusa de Gege Akutami em atribuir traumas, histórias de sofrimento ou ideais distorcidos a Sukuna é justamente o que o torna tão desconcertante. Não há passado trágico, desejo de vingança ou tentativa de corrigir o mundo. Sua crueldade nasce de uma vontade própria, intacta e autossuficiente, que não pede explicações ao leitor e não se apoia em nenhum contexto redentor.

Essa autonomia moral faz com que sua violência exista quase como uma extensão natural de seu ser. Sukuna não age para responder a algo: ele age porque encontra prazer na dominação, interesse no caos e estímulo na sensação de poder. Nada disso é mascarado por dilemas internos. A monstruosidade é, em si, sua identidade.
Um antagonista que recusa o jogo do herói
Essa contundência também se manifesta com força no modo como Sukuna se relaciona com Itadori. Em muitas narrativas contemporâneas, há espaço para diálogos, negociações ou momentos em que herói e vilão compartilham, ainda que brevemente, algum tipo de compreensão mútua. Com Sukuna, no entanto, esse espaço simplesmente não existe. Ele observa Itadori com indiferença e como alguém que enxerga no outro não um interlocutor, mas um recipiente útil quando serve, descartável quando não.

O Arco de Shibuya evidencia essa dinâmica com brutal clareza. Quando Sukuna assume o controle do corpo de Itadori, ele não apenas desencadeia um massacre que devasta parte da cidade e mata dezenas de civis; ele faz isso de maneira calculada para intensificar o sofrimento do protagonista.

Ao consumir hambúrguer e refrigerante antes de liberar sua destruição, Sukuna garante que, no instante em que Itadori recuperar a consciência, seu corpo reaja fisicamente ao horror cometido. O vômito que se segue não é apenas biológico, é simbólico: Sukuna força Itadori a sentir, de forma visceral, o peso dos atos que ele não pôde impedir.

Esse momento se torna ainda mais devastador porque se encaixa em um período no qual Itadori já está emocionalmente desestabilizado pelas mortes de Nanami e, supostamente, de Nobara.
Nesse sentido, as ações realizadas em Shibuya não marcam apenas a crueldade de Sukuna, mas a intenção meticulosa de quebrar o protagonista em suas últimas defesas emocionais. Não há troca, não há abertura, não há fissura que permita a Itadori qualquer tentativa de aproximação moral. O distanciamento é absoluto e é nele que reside grande parte do terror que Sukuna inspira, sempre disposto a transformar a dor do herói em palco para sua própria afirmação de poder.
Sukuna e Mahito: dois tipos de maldade e duas filosofias de existir
O contraste entre Sukuna e Mahito reforça ainda mais a singularidade do Rei das Maldições. Mahito, embora cruel, é um vilão que cresce a partir do caos contemporâneo: ele aprende, experimenta, erra e se adapta. Sua maldade não é estática, mas quase infantil, moldada por curiosidade e descoberta. Ele testa limites porque quer compreender o que significa ser.

Já Sukuna opera em uma lógica completamente distinta. Enquanto Mahito busca entendimento, Sukuna encarna a certeza absoluta. Ele não precisa conhecer os humanos, ele simplesmente os domina. Sua crueldade não nasce de impulsos exploratórios, mas de uma convicção consolidada, arcaica, que não admite hesitação.

Essa diferença se torna evidente nas interações entre eles. Mahito flutua entre o deboche e o pragmatismo, mas ainda reage ao mundo ao seu redor. Sukuna, por sua vez, não reage: ele impõe. A presença de Mahito revela o quanto Sukuna ocupa um patamar que transcende as maldições da era moderna. Onde Mahito busca sentido, Sukuna dispensa completamente a necessidade de significados. Ele é a expressão pura do poder e isso, paradoxalmente, o torna ainda mais aterrorizante do que os inimigos que se alimentam de traumas humanos.
Fukuma Mizushi: a expansão de domínio que confirma Sukuna como presença mitológica em Jujutsu Kaisen
A expansão de domínio de Sukuna, o Santuário Malevolente, amplia sua natureza ancestral e inatingível ao apresentá-lo não como um antagonista poderoso, mas como uma presença que opera fora das regras habituais da narrativa.
Diferentemente de outros personagens, que tratam suas expansões como técnicas complexas e exaustivas, Sukuna ativa a sua com a naturalidade de quem simplesmente manifesta aquilo que sempre esteve ali, como se o próprio espaço precisasse apenas ser lembrado de quem o controla.
Enquanto domínios comuns funcionam como extensões temporárias de poder, o Santuário Malevolente se impõe como um território absoluto. Ele não fecha o espaço: ele o reconfigura. A sensação não é de batalha, mas de demonstração, como se Sukuna estivesse reafirmando uma autoridade antiga e incontestável que precede a própria existência dos xamãs.

A precisão com que ele ataca, a tranquilidade com que observa a destruição e a ausência completa de esforço evocam algo quase mítico. A expansão não parece uma técnica, mas um estado natural, um lembrete de que Sukuna não compartilha o mesmo patamar que os demais. Ele age com a frieza de uma entidade que já compreendeu todas as regras e, agora, apenas as dobra à própria vontade.
O Santuário Malevolente não transforma a luta: transfigura a percepção do espectador sobre o que Sukuna realmente é. Ali, ele deixa de ser apenas o vilão mais perigoso da história e se aproxima de uma divindade perversa, cuja existência dispensa propósito, moral ou explicação.
Gege Akutami e a construção de um mal inabalável
Akutami não apenas evita a humanização de Sukuna, ele a combate. A narrativa, o visual e as interações reforçam sua presença como algo ancestral, impermeável e quase mítico. O sorriso que jamais sugere empatia, a postura sempre relaxada diante do perigo, a ausência completa de laços afetivos – tudo contribui para afastá-lo do campo humano para aproximá-lo de uma força primitiva que não precisa ser compreendida, apenas temida.

O design do personagem, marcado por elementos que evocam rituais antigos e brutalidade ritualística, intensifica essa sensação de que Sukuna não pertence ao mesmo universo emocional dos demais personagens. Ele está lá, mas não com eles.
Por que Sukuna funciona tão bem?
A sua presença rompe a lógica narrativa que o público já aprendeu a esperar. Não há promessa de mudança, possibilidade de reconciliação ou ponto de vulnerabilidade escondido. Sukuna não se oferece como um enigma a ser decifrado, ele é um fato bruto e uma força que existe sem procurar sentido. É justamente essa ausência de justificativas que torna sua figura tão perturbadora.

Ao contrário dos vilões contemporâneos que pedem compreensão, Sukuna exige apenas que o espectador reconheça sua existência como ameaça pura. Ele é o lembrete de que o mal pode ser inabalável, arbitrário e sem cura.
O poder do vilão sem freio
Sukuna resgata o arquétipo do antagonista que desestabiliza não só o herói, mas também a própria narrativa. Sua presença impede qualquer sensação de segurança e, por isso, cada aparição sugere que o pior está sempre ao alcance. É esse risco constante que o torna tão hipnotizante.
Ele não busca redenção, não pede afeto e não pretende ser entendido. Sukuna existe para ser temido. E, nessa perspectiva, Akutami o escreve com precisão para que isso nunca seja esquecido.

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Texto revisado por Cristiane Amarante @cris_tiane_rj









