Tudo sobre o futuro das novelas em meio à onda de remakes de clássicos como Vale Tudo
Se os remakes de novelas tão bombando, a gente precisa falar sobre isso! A real é que a Globo está numa vibe super nostálgica, resgatando novelões que marcaram época nos anos 80 e 90, tipo Pantanal (1990/2022), Renascer (1993/2024) e, agora, Vale Tudo (1988/2025)! Aí rola aquela chuva de comentários, né? “Ahn, não tem criatividade pra inventar história nova!”. Mas peraí, será que essa onda é só falta de ideia ou uma jogada de mestre pra tocar na nossa nostalgia e nos deixar grudados na tela?

Para desvendar esse mistério, nós do Entretetizei fomos atrás de um expert no assunto: Pedro Curi, coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da ESPM, que entende tudo da cultura de fã. Ele abriu o jogo sobre essa “febre” de reviver tramas clássicas e ainda explicou o desafio de modernizar um novelão antigo sem perder a vibe original. E não para por aí! Falou dos perrengues e das chances de um remake dar certo tanto na crítica quanto na audiência.
Na entrevista, Pedro também deu uma dica de como essa onda de remakes e reprises pode turbinar o aprendizado da galera que quer trabalhar com audiovisual. Já a postos pra entender por que a Usurpadora não sai da telinha do SBT e qual o futuro das novelas inéditas nesse turbilhão de passado revisitado? Então cola com a gente, que a entrevista está imperdível e vai te dar uns insights superlegais sobre o universo das telinhas!
Entretetizei: Observamos uma crescente onda de remakes de novelas que marcaram as décadas de 80 e 90, como Pantanal, Renascer e, agora, Vale Tudo na Globo. Paralelamente, reprises como A Viagem (1994) no Vale a Pena Ver de Novo também alcançaram grande audiência. A que o senhor atribui essa “febre” de revisitar narrativas já consagradas? Seria uma falta de criatividade na teledramaturgia atual ou uma estratégia comercial para capitalizar a nostalgia do público?
Pedro: Essa tendência crescente de remakes e reprises de novelas icônicas dos anos 80 e 90, como Pantanal, Renascer e, agora, Vale Tudo, não pode ser vista apenas como uma questão de “falta de criatividade”. Na verdade, é uma estratégia comercial e narrativa bastante sofisticada. O que estamos assistindo é uma resposta das emissoras, principalmente da Globo, a uma mudança importante no consumo de entretenimento: a convergência de gerações na frente da tela.
De um lado, há o resgate emocional de públicos que cresceram com essas novelas. Existe um forte elemento de nostalgia que, em termos de marketing, é extremamente poderoso. Ela cria uma conexão afetiva imediata, reativa memórias positivas, e traz de volta um público que muitas vezes se afastou da programação tradicional em direção ao streaming ou outras formas de mídia.
Por outro lado, há também um esforço para apresentar essas histórias consagradas para novos públicos. As narrativas clássicas são atualizadas em ritmo, estética, representatividade, para dialogar com as gerações mais jovens, que não viveram o impacto original dessas obras, mas que têm interesse em boas histórias contadas de forma moderna.
Isso gera um encontro entre gerações: quem viu originalmente sente o prazer da memória afetiva e quem vê pela primeira vez encontra uma dramaturgia forte, embalada com a linguagem atual.

E: Considerando que o cinema e a televisão são mídias com linguagens e ritmos distintos, quais são, na sua opinião, os principais desafios e oportunidades ao transpor uma narrativa originalmente concebida para o formato de telenovela para uma nova versão, seja ela mais moderna ou com outra roupagem?
P: O primeiro desafio é entender que o ritmo de consumo mudou. As telenovelas dos anos 80 e 90 são narrativas mais lentas, com tramas se desenvolvendo ao longo de muitos capítulos. A audiência muitas vezes interferindo nos roteiros. Hoje, o público espera um andamento mais dinâmico. Então, o grande desafio é enxugar a narrativa sem perder a profundidade emocional que é marca registrada das novelas brasileiras.
Também há uma expectativa maior de qualidade cinematográfica, com direção de fotografia mais elaborada, cenários mais realistas, e uma preocupação com diversidade e representatividade nas tramas. Trazer essas atualizações sem descaracterizar a alma da história é relevante.
E: Remakes frequentemente geram debates acalorados entre o público, com comparações inevitáveis com a versão original. Quais elementos o senhor considera cruciais para que um remake seja bem-sucedido, tanto em termos de crítica quanto de audiência? A fidelidade à obra original é sempre um fator determinante?
P: Essas histórias já têm um valor afetivo consolidado e provaram sua força junto ao público. Vai um pouco do que comentei na questão anterior, o remake é a chance de reler esses clássicos à luz dos novos tempos, promovendo debates contemporâneos sobre temas como inclusão, identidade de gênero, relações familiares e sociais, dentro de estruturas narrativas já muito potentes.
O segredo está em equilibrar respeito à obra original com ousadia criativa para fazer com que essas narrativas continuem vivas, relevantes e emocionantes para o público de hoje.
O conceito de fidelidade é, em algum nível, vago. O que é fidelidade em um remake: seguir a história exatamente do mesmo jeito que ela foi feita anteriormente ou fazer as adaptações necessárias ao novo contexto, mantendo a ideia central?
Tenho visto um movimento de comparar as duas versões de Vale Tudo, por exemplo, com vídeos com tela dividida no TikTok e no Instagram, por exemplo. Isso acaba reforçando a ideia de que precisa haver um jeito “certo” de recontar uma história, sendo que, ao longo das últimas décadas, acompanhamos uma série de histórias sendo recontadas, sem que precisássemos ter essa ideia de “gabarito”.
As obras devem estar abertas à revisão, da mesma forma que olhamos para pontos negligenciados da história do nosso país e nos permitimos recontá-la, entendendo que as versões se comunicam e devem ser vistas em conjunto em uma análise mais aprofundada, sem apagamentos.
A simples comparação superficial entre versões, assim como entre as atuações dos atores presentes em cada uma delas, não contribuem para o debate mais importante, que, no caso de Vale Tudo, é sobre como, mesmo com quase 30 anos de diferença, os temas abordados continuam atuais em um contexto bem diferente.

E: A reprise de novelas clássicas, como A Usurpadora (1998) no SBT (em sua décima segunda exibição), demonstra um apelo duradouro por certas narrativas. Como o senhor analisa esse fenômeno de “ressurreição” constante de tramas antigas? Que aspectos dessas novelas continuam a ressoar com o público contemporâneo?
P: Eu não sei se consideraria um fenômeno, já que é um recurso do mercado que não é de hoje. Sempre tivemos reprises de novelas ou a transmissão de programas de TV por décadas, como aconteceu com Chaves (1973), no SBT, ou com diversas séries na TV por assinatura. Friends (1994), por exemplo, assim como outras sitcoms, era transmitida no horário do almoço em canais fechados por vários anos após o fim da série e, mesmo assim, foi um dos títulos mais disputados entre as plataformas de streaming.
Há vezes em que as tramas continuam atuais e há também casos em que as pessoas sentem conforto em ver alguma coisa que já conhecem e que não exige muito esforço. Costumamos recorrer ao que conhecemos e ao que nos traz conforto, quando precisamos disso. Filmes, séries e novelas podem trazer esse conforto em tempos de excesso de informação. Além disso, é uma forma de nos conectarmos ao nosso passado e experimentar não apenas a revisão de uma obra audiovisual, mas também da nossa história e vida no momento em que tivemos contato com ela pela primeira vez.
É como encontrar um amigo de infância que nos lembra de tempos mais tranquilos e felizes. Temos a tendência, também, a editar as memórias de modo que as positivas se sobressaiam e, quando comparadas ao momento atual, fica a sensação de que as coisas já foram melhores. A mesma coisa acontece quando comparamos um remake à obra original.
E: Do ponto de vista da formação de novos profissionais de audiovisual, como o estudo comparativo entre as versões originais e os remakes de novelas pode enriquecer o aprendizado sobre roteiro, direção de arte, atuação e outros aspectos da produção televisiva? Que tipo de análise crítica pode ser estimulada?
P: O estudo comparativo entre versões originais e remakes de novelas permite entender como algumas frentes do audiovisual se transformaram como o roteiro, a direção de arte e a atuação, que evoluíram para se adequar aos novos ritmos, estéticas e valores sociais. Além de desenvolver habilidades técnicas, essa análise estimula uma leitura crítica sobre as mudanças culturais e históricas refletidas nas produções. Assim, o estudante aprende a unir técnica, criatividade e sensibilidade às transformações da sociedade contemporânea. É preciso, no entanto, separar a experiência de um estudante ou profissional do audiovisual da experiência de um espectador leigo.
Essas comparações, em um ambiente acadêmico, podem ser exploradas com profundidade e embasamento. No senso comum, acabam ficando mais superficiais e entram em uma lógica muito ligada à uma técnica que pode prejudicar a experiência do espectador comum.
A linguagem audiovisual está cada vez mais presente na vida das pessoas e é normal que elas tenham interesse em saber como as coisas são feitas, mas a vivência acadêmica é diferente de assistir a uma obra no sofá de casa para relaxar, se divertir ou compartilhar com outras pessoas.

E: Diante desse cenário de intensa revisitação do passado na teledramaturgia brasileira, qual o futuro que o senhor vislumbra para a produção de novelas inéditas? Existe o risco de uma estagnação criativa ou essa onda de remakes pode, paradoxalmente, impulsionar novas abordagens e narrativas originais no futuro?
P: Esse medo de uma estagnação criativa é, em si, um remake de vários medos que tivemos no passado. Há quase um século, pesquisadores viam o cinema como uma arte interior que dependia diretamente da literatura e trazia pouca novidade. No início da TV foi a mesma coisa. Hoje, temos esse medo pela quantidade de janelas e produções diferentes, mas esquecemos que o mercado tem espaço para todas essas possibilidades. Não acho que uma novela que é adaptada de um livro é inferior a uma com história original. Pelo contrário, acho que podemos explorar mais a nossa literatura, que é extremamente rica, assim como revisitar histórias que podem fazer sentido novamente.
O remake é um recurso muito usado pelo mercado e isso não irá mudar. Acredito que tenha mais a ver em como as pessoas olham para os remakes procurando as ausências, em vez de buscar as novas contribuições.
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Texto revisado por Laura Maria Fernandes de Carvalho
