Residente da maior festa de reggaeton do Brasil, Thaís tem experiência internacional e declara ter boas expectativas para o futuro do gênero em nosso país
¡Sazón, Batería y Reggaeton! É o que Thaís Queiroz vem entregando nas pistas de dança de todo o Brasil com o seu trabalho como DJ e divulgadora do reggaeton. Há 15 anos, Thaís trabalha como pesquisadora do gênero. Além de encarar como missão o impulsionamento do ritmo caribenho no Brasil, há dois anos ela é DJ e atualmente, uma das principais referências do gênero no país.
A DJ é residente de duas festas em São Paulo: a ¡SÚBETE!, maior festa de música latina no Brasil, e a La Chimba Club, casa noturna dedicada aos ritmos latinos, na qual muitos imigrantes marcam presença. Thaís já teve experiências internacionais, entre elas, apresentações com o DJ Pope — ninguém menos que o DJ de J Balvin — e Alejo Cardona e Bazekha, ambos DJ’s do Club Perro Negro, em Medellín, a balada de reggaeton mais famosa da Colômbia e talvez do mundo — sim, aquela referenciada por Bad Bunny e FEID na música PERRO NEGRO.

Em 2024, Thaís esteve em Medellín com a ¡SÚBETE! para tocar na Perro Negro junto a nomes consagrados do reggaeton, sendo uma das primeiras mulheres a tocar no evento. Ela está mostrando que veio para quebrar barreiras e representar!
Trajetória
Desde a sua adolescência, o coração de Thaís pulsa no ritmo do reggaeton. Como muitos de nós que somos apaixonados por música em espanhol, ela se interessou pelo idioma ainda na adolescência, quando começou a acompanhar Rebelde pelo SBT.
A porta de entrada para o reggaeton veio a partir da dupla porto-riquenha Wisin & Yandel, na época ainda juntos, depois de escutar a música Noche de Sexo, um dos hits mais famosos dos artistas. A partir daí, Thaís se animou a buscar outros cantores de reggaeton e se encantou cada vez mais pelo ritmo latino.
Em 2005, começou seu trabalho no mundo da música através da página Reggaeton Brasil, o maior portal de notícias de reggaeton no país, há 20 anos na ativa. Através desse trabalho na comunicação, Thaís Queiroz teve a oportunidade de entrevistar artistas de reggaeton e acompanhar os bastidores da cena no Brasil.
Ao longo dos últimos anos, ela participou em eventos e, além disso, seu nome foi citado em grandes veículos, o que prova o lugar que vem ocupando como referência no tema. O destaque vai para uma matéria realizada pelo O Estadão e para as entrevistas na Globo de Santa Catarina e TV Gazeta, em que ela comenta sobre a ascensão do reggaeton no mundo e mais recentemente, no Brasil.
Toda essa paixão e energia fizeram com que Thais, biomédica de formação, se interessasse pelo ofício de DJ e fizesse sua estreia em 2023. Desde então, ela não só fala do reggaeton, mas também com seu sorriso aberto e suas próprias mãos, o mostra a públicos Brasil adentro; e se orgulha do crescimento do gênero urbano nos últimos anos em nosso país.
Desde los 90 hasta el 2000 por siempre
O reggaeton, ritmo latino mais escutado do mundo, se originou do reggae e ao longo do tempo foi influenciado por outros estilos, como o rap, a música eletrônica e a salsa. É um gênero periférico, nascido no Panamá e popularizado em Porto Rico nos anos 90. É um ritmo underground com letras que falam da realidade das ruas, amor, e, claro, sexo e ostentação.
No início do milênio, o reggaeton explodiu ainda mais, levando ao topo nomes como Daddy Yankee, responsável pelo hit Gasolina, Don Omar (Dale Don Dale e Danza Kuduro) e a dupla Wisin & Yandel (Noche de Sexo), todos porto-riquenhos e com hits que se eternizaram em festas noturnas de toda a América Latina.
Hoje, os artistas mais escutados da América Latina são cantores de reggaeton Karol G e Bad Bunny levam o nome da Colômbia e de Porto Rico, respectivamente, aos ouvidos do mundo inteiro, com canções recheadas de latinidade e shows que mostram o que nós latinos temos de mais bonito: a alegria e o amor pelas nossas raízes.

O cenário brasileiro
Ao contrário do que muitos pensam, o reggaeton não chegou ao Brasil recentemente. Dificilmente um brasileiro de até 40 anos não conhece o hit Gasolina. Para Thais, o brasileiro “sempre escutou reggaeton sem saber”. Um exemplo foi o hit Piriguete, do belga MC Papo, reggaeton em português que tocou muito por aqui nos anos 2000.
Thaís comenta que com as parcerias de Anitta, o Brasil entrou em uma nova fase de consumo com o reggaeton “ela conseguiu falar ‘olha, isso daqui é reggaeton, esse gênero musical existe’. A partir do momento que você dá nome a alguma coisa, você dá possibilidade à grande massa de se inteirar pelo que é aquilo.”
No momento, para Thais Queiroz, o reggaeton vive a sua melhor melhor fase no país. Ela acredita que o crescimento dos streams e das redes sociais ajuda a impulsionar o gênero no país e lembra ao brasileiro de que ele é latino e o reggaeton também faz parte da sua cultura.
Confira a entrevista na íntegra:
Entretetizei: Thaís, há 15 anos você trabalha como pesquisadora de música latina. Como começou essa paixão e em que consiste a sua atuação como pesquisadora?
Thais Queiroz: Minha paixão pelo reggaeton começou quando eu tinha mais ou menos 14, 15 anos, foi a época que eu comecei a aprender o espanhol na escola, e foi exatamente a época que passava Rebelde no SBT, aqui no Brasil. Então, nessa época, comecei minha paixão pelo idioma espanhol e, juntamente com isso, comecei a escutar várias músicas em espanhol.
Foi quando eu descobri uma música que se chama Noche de Sexo, de Wisin y Yandel e depois que eu escutei essa música, minha cabeça simplesmente explodiu! Eu não conseguia mais escutar outra música, outro gênero musical.
A partir daí, eu comecei a escutar mais música de Wisin y Yandel, e aí vendo quais cantores tinham músicas com eles e escutando esses outros cantores, enfim… Foi meio que sem fim minha pesquisa. Na época, acho que ainda era muito difícil você ter acesso a músicas, ter acesso aos cantores igual a gente tem hoje, com várias redes sociais.
Era uma época de Orkut, era uma época que você baixava música em foros, em plataformas online não legalizadas. Então, era uma coisa bem diferentes do que é hoje e a minha paixão começou por aí: comigo aprendendo espanhol, traduzindo as letras pro português, então, também era uma época que não tinha tradução nos sites. Eu baixava as músicas, imprimia e traduzia com o dicionário de espanhol-português na mão (risos).
Então, acho que mais ou menos minha pesquisa começou por aí: quando eu comecei a aprender o espanhol traduzindo as músicas, entendendo o que era o idioma espanhol. Entendendo o que eram as gírias de Porto Rico, entendendo como eles falavam, entendendo o jeito que era consumida essa música em Porto Rico, porque é uma música que ela foi criminalizada.
E eu acho que a minha maior atuação como pesquisadora, desde aquela época até hoje, é realmente falar com pessoas, entender o que as pessoas escutam de reggaeton aqui no Brasil. Apresentar o reggaeton para as pessoas aqui do Brasil. Então, acho que essa conexão que eu consigo fazer com as pessoas é muito importante.
Transmitir um pouco do que eu pesquiso, do que eu assisto, do que eu estudo, do que eu leio sobre o gênero e conseguir passar pras pessoas e falar assim: “olha, escuta essa música, talvez dessa música aqui você goste!”, “olha, você sei lá, você tem vontade de conhecer mais pessoas? vem aqui, ó, hoje tem a festa Súbete pra você fazer mais amizades”. Então, acho que sempre fui muito ativa com essa parte aqui no Brasil.
E junto com isso também, trabalhei por muitos anos na página Reggaeton Brasil, então eu fazia essa parte, não só com os fãs, mas também por trás dos bastidores, com parcerias, com conexões de artistas lá de fora com a página Reggaeton Brasil; então, eu acho que essa foi a minha maior contribuição até hoje para o Reggaeton aqui dentro.
E: Sabemos que a chegada do reggaeton no Brasil não é de hoje, mas nos últimos anos, o gênero tem sido cada vez mais escutado no nosso país. Tivemos shows de grandes nomes do gênero, como a diva Karol G e teremos Rauw Alejandro em outubro deste ano e Bad Bunny em 2026. Como você explicaria essa tendência?
T: Eu acho que a maior contribuição que a gente teve para essa crescida do reggaeton aqui no Brasil, com certeza um dos nomes é a Anitta. Ela conseguiu fazer grandes parcerias e trazer, apresentar, na verdade, o reggaeton para a grande massa no Brasil. Porque apesar do gênero ser muito estourado lá fora, algumas pessoas escutavam reggaeton aqui no Brasil, como, por exemplo, a música Periguete de MC Papo, e não sabiam que aquilo era reggaeton.
Quando a Anitta trouxe as parcerias dela com Maluma, com J Balvin, fez o álbum dela com várias músicas em espanhol e cantando reggaeton, ela conseguiu falar: “olha, isso daqui é reggaeton, esse gênero musical existe.” A partir do momento que você dá nome a alguma coisa, você dá possibilidade à grande massa de pesquisar o que é aquilo, de se inteirar do que é aquilo.
Então, eu acho que a Anitta, sim, foi uma grande contribuidora para o gênero crescer aqui no Brasil. Mas além disso, também, a crescente das plataformas de streams, da rede social, da gente conseguir se comunicar com outras pessoas que gostam das mesmas coisas que a gente, também contribuiu bastante para a crescida do reggaeton aqui no Brasil.
Então, a partir do momento que você dá oportunidade para alguém pesquisar algo que sabe do nome, ter aonde pesquisar, conseguir se conectar com pessoas do mesmo gosto, eu acho que isso forma uma grande comunidade.
Você consegue elevar muito, fazer a publicidade, um marketing, trabalhar em cima dos nomes. Não só isso, você mostrar também para o mercado, para os empresários, que têm pessoas que se interessam por aquele assunto e tem por onde trabalhar e fazer negócio no Brasil, apesar da gente ainda ter essa falsa impressão de que a língua é uma barreira dentro do nosso país para o reggaeton crescer.

E: Com a internacionalização do funk e do reggaeton, é perceptível a integração de artistas brasileiros com latinos de outros países. Podemos ver brasileiros cantando reggaeton e hispânicos cantando funk, além de diversas colaborações em ambos os gêneros. Como você enxerga esse diálogo entre o funk e o reggaeton?
T: Essa integração dos dois gêneros, eu acho que é uma coisa muito inevitável. Uma coisa que, independente de qualquer ideologia que tenha nos dois gêneros, era uma mistura inevitável de se acontecer, tanto pela história do funk quanto a história do reggaeton, de como eles nasceram, ser muito parecida, e eles literalmente parecerem primos e irmãos. Eu acho que o jeito que esses dois gêneros tocam dentro da gente, que é um jeito dançante, que é um jeito que realmente leva a latinidade das periferias dentro do gênero, era muito difícil, em algum momento da história não ter essa mescla.
Há muitos anos a gente fala da possibilidade da entrada do reggaeton no Brasil através do funk ou do funk ser exportado através do reggaeton. Isso a gente costuma até dizer que é “funketon”, essa mistura dos dois. Eu acho que isso era muito inevitável. Acho que é importante ter essa mescla, visando atingir públicos de ambos os lados, tanto dos hispânicos quanto dos brasileiros.
Mas eu acho que é muito importante a gente não esquecer que ainda assim são gêneros diferentes. A gente tá falando de um reggaeton que tem uma batida mais lenta e a gente tá falando do funk que é uma batida mais acelerada quando a gente fala de BPMs.
E não só isso, mas também lembrar que quando você tem um não-brasileiro fazendo funk e uma pessoa que não é hispânica fazendo reggaeton, você tem que lembrar de onde que tá vindo esses gêneros e respeitar como se é feito.
Por mais que quando o reggaeton saiu de Porto Rico e foi, por exemplo, para a Colômbia, ou saiu de Porto Rico e foi para Argentina, e cada um desses países ganhou uma identidade, ainda assim, não se abandonou a originalidade do gênero, que é um gênero das ruas, que a gente fala que o reggaeton é “de calle”. Então, quando ele chega aqui no Brasil, eu acho muito importante a gente continuar ressaltando essa originalidade do reggaeton.
Lembrar da onde ele veio, não transformar isso em pop, não transformar isso em qualquer outro gênero, mas sim mesclar. A mescla, eu acho que é muito bem-vinda, sim, mas sempre a partir da originalidade. Eu acho que isso é um dos grandes desafios quando a gente fala de produção musical e artística aqui no Brasil quando o reggaeton vem para cá, da gente conseguir manter a originalidade do reggaeton e colocar essências brasileiras nele e dizer :“olha agora a gente tem uma marca do reggaeton aqui dentro do Brasil”.
E acho que é a mesma coisa do funk quando vai lá para fora, eles entenderem como é feito o funk, qual é a origem do funk, quais são os vários tipos de funks que existem no Brasil e conseguir mesclar com o que tem dentro do seu país. Então, assim, eu vejo de uma forma muito positiva, mas desde que, não abandone as origens do que realmente é, caso você queira realmente levar o nome do reggaeton e do funk. Se você quiser fazer uma mistura e levar isso com outro nome, por exemplo, chamando de funketon, então é muito importante você realmente dar nome àquilo que é.
E: Qual foi a experiência mais marcante que você teve através do seu trabalho?
T: Nossa, essa pergunta é muito difícil, porque eu digo que não tem como falar de mim sem falar do reggaeton, então nesses anos todos trabalhando com reggaeton, com a divulgação, com a pesquisa, tive muitos momentos marcantes e muitos momentos felizes. Assim, é uma coisa que faz muito parte da minha vida, então é muito difícil, mas eu consigo lembrar assim de alguns recentes.
Eu acho que, como DJ, hoje que sou DJ de reggaeton, a experiência mais marcante que eu tive, foi realmente tocar no Perro Negro que é uma das casas de reggaeton mais importantes que existe, e ela fica em Medellín. Eu fui junto com a Festa Súbete, a festa da qual eu sou residente hoje, que é a maior festa de reggaeton brasileira. Então, eu toquei nessa casa lá em Medellín.
Foi um dia muito especial para mim, porque acho que eu me preparei a vida toda para esse momento acontecer. Mesmo sabendo, mesmo na verdade não tendo ideia, como, quando e onde isso ia acontecer, aquele momento foi exatamente o momento que eu me preparei a vida toda. Então, foi um momento extremamente especial. Além disso, estar ali no Perro Negro, em Medellín, com mais de 50 brasileiros que foram acompanhando a gente com a Súbete, para fazer essa festa lá, foi assim, um momento inesquecível. Assim, foi realmente muito marcante, gratificante.
E eu acho que um dos outros momentos também, assim, que eu considero muito importante na minha carreira como pesquisadora e divulgadora do reggaeton aqui no Brasil, acho que é quando a gente chega em ambientes que a gente nem espera, ou a gente está transitando em lugares que a gente não faz ideia que é reconhecida, vem alguém, me fala assim: “nossa, eu acompanho o seu trabalho, eu já vi tal coisa que você fez e achei interessante”.
Eu acho que não há recompensa maior do que essa, porque eu trabalho hoje para fazer o reggaeton ser conhecido no Brasil. Eu trabalhei ontem com essa mesma motivação. Então, assim ver que realmente eu atingi pessoas e consegui chegar no meu objetivo, que é fazer a divulgação do reggaeton; escutar isso das pessoas é realmente uma experiência, assim, indescretível.
E: Quais foram os artistas que mais influenciaram sua trajetória?
T: Eu acho que, como eu sendo mulher e trabalhando no reggaeton, com certeza a Ivy Queen é uma das minhas maiores referências. Assim como trajetória mesmo de persistência, de luta, de se fazer presente num meio que é majoritariamente dominado por homens, então, ela é uma das minhas grandes referências.
Em termos musicais, falando quem eu acho que mais me influencia até hoje, com certeza, é Wisin y Yandel, com eles eu comecei escutando reggaeton e eu sigo até hoje escutando eles. Eu acho que como influência, eu acho que hoje, maior, presente e atuante no gênero, é o Bad Bunny. Bad Buynny é um artista que flui muito entre os gêneros, desde o trap, reggaeton, agora também com salsa… Mas a história do Bad Bunny é uma coisa que realmente me toca muito, do jeito que ele trabalha, a forma que ele honra as raízes dele… É uma coisa que faz muito parte de mim, eu me identifico muito com ele.
Dentro disso tudo, também eu sou uma pessoa muito fã do Residente, ele é o ex-integrante da banda Calle 13. Eu acho muito inteligente a forma que ele escreve as letras das músicas, então eu sou muito influenciada por ele também. E não tem como a gente falar de reggaeton hoje em dia sem citar a Karol G. Então, ela é uma grande inspiração para mim hoje também.
Da mesma linha da Ivy Queen, sendo uma mulher, a Karol G também vem fazendo coisas incríveis. E eu me identifico com ela, porque ela rompeu muitas barreiras que, eu no meu mundinho também sinto a mesma luta que ela rompendo barreiras, então Karol G é uma grande inspiração pra mim.
E: Quais são os principais desafios de divulgar um gênero não-brasileiro em um país com uma tradição musical nacional tão forte?
T: O maior desafio de fazer essa divulgação é mostrar para o brasileiro que, sim, esse gênero faz parte de nós, porque, sim, somos latinos! É muito engraçado a gente pensar que a grande massa brasileira não se identifica como latina, e junto a isso, não identifica o reggaeton como parte de suas raízes também. Então, eu acho que isso é meu maior desafio.
Junto com isso, também chegar com respeito e dizendo que, apesar de eu divulgar o reggaeton, eu sigo valorizando a nossa música nacional. Eu sou completamente apaixonada pela riqueza brasileira musical que nós temos. Eu tenho o maior respeito pelo que o Brasil representa na música internacional também, porque a gente exporta muita coisa.
Fazer essa tradução de que reggaeton e música brasileira têm a mesma diáspora é um dos meus papéis acho que mais difíceis, porque a galera enxerga muito como coisas separadas. E eu viro e falo: “olha, o reggaeton, ele tem a mesma diáspora que muitas músicas brasileiras”. Se você pegar muitas músicas nortistas, nordestinas, você vai ver que tem a mesma diáspora do reggaeton. Então, se você pegar o funk, como a gente já conversou aqui antes, né, tem a mesma história do reggaeton, então tem muita coisa parecida. Esse é meu maior desafio.
E além disso, o tempo todo, eu ser mulher, gritando essas coisas o tempo todo, é muito difícil por que tem que ter um jogo de cintura, de se fazer ser ouvida o tempo todo. E muitas vezes eu me pego muito no lugar de escuta e de me calar para entender como naquele momento, eu me faço ser ouvida sem que as pessoas me ignorem. Então, é um jogo de paciência assim, enorme, que eu tenho que ter durante muito tempo. Mas é um jogo de paciência que me dá muita alegria no final.
E: Como você prepara um set para conquistar tanto quem já conhece reggaeton quanto quem está ouvindo pela primeira vez?
T: Essa é uma pergunta um pouco difícil de responder, confesso. Porque como que eu faço para conquistar quem está ouvindo pela primeira vez, eu acho que depende muito quem é essa pessoa. Então eu costumo, quando eu vou tocar em algum lugar que eu nunca toquei e nunca frequentei, perguntar qual é o público. Qual é o tipo de público, então a idade, a nacionalidade, para eu entender mais ou menos para que lado eu posso ir, quais músicas eu posso resgatar para tocar essas pessoas e mostrar o que é reggaeton.
Pra conquistar quem já conhece, aí não é difícil (risos) porque aí o meu coração e o da pessoa bate na mesma frequência do reggaeton. Então é só entender mesmo qual que é a vibe aquele dia da festa. Mas se eu falar para você que chega o dia da festa e eu preparo um set música por música, sequência por sequência, eu vou estar mentindo 100% para você.
Eu geralmente não vou com sets prontos para as festas. O que eu costumo fazer apenas é separar algumas músicas que eu sei que pode ser interessante para aquele dia, separar algumas músicas que eu sei que, eu, como DJ quero escutar aquele dia, e tentar encaixar no set de acordo com o que a pista vai me levando.
Porque não adianta nada eu separar para tocar música x y z e na hora que eu começar a tocar, eu ver que aquela pista não está na vibe daquele estilo de reggaeton que eu estou colocando, aí eu tenho que ir para outra linha musical e criar uma outra história ali na pista.
Enfim, eu acho que é isso mais ou menos que eu costumo fazer: sentir a pista entender qual é meu público e fazer o máximo possível para o meu coração vibrar na mesma energia que eles estão sentindo ali na pista para a gente conseguir fazer uma festa muito boa e gostosa.

E: O que o reggaeton representa para você além da música — culturalmente ou até politicamente?
T: O reggaeton na minha vida hoje é mais do que música. Na verdade, um estilo de vida. Não tem como eu olhar pra minha vida hoje e não ver o reggaeton. Então, assim, falando bem pessoalmente, ele define muito as pessoas que eu converso, e não é nem por isso, por preferência, e sim porque é exatamente o que faz parte da minha vida hoje.
E, culturalmente falando, como um todo, acho que o reggaeton é uma forma de se expressar o que se vive nas ruas, o modo como as pessoas conversam com a sociedade, e politicamente falando, é uma resistência assim, porque o reggaeton passou por momentos de silenciamento, em Porto Rico principalmente.
Já foi considerado um crime você ser reggaetonero. Então assim, se hoje o reggaeton existe, é por muita resistência de muitos cantores, muitas pessoas que lutaram lá atrás para ser o que ele é hoje, tão grande do jeito que é.
E: Você acredita que o gênero pode alcançar o mesmo nível de popularidade aqui que já tem em outros países da América Latina?
T: Com toda certeza do mundo! Eu tenho essa convicção comigo, que o reggaeton pode sim, ser tão grande quanto é nos outros países da América Latina. A gente tá vivendo hoje uma das melhores fases do reggaeton. Na verdade, acho que é a melhor fase do reggaeton do Brasil, e eu acho que com a crescente dos streams, das mídias sociais, o reggatón caminha, sim, para ser tão grande quanto é lá fora.
E acho que mais do que isso, não falando só do crescimento da música, mas eu acho que da forma que a gente luta para o brasileiro se enxergar como latino, ver que o reggaeton também sempre fez parte da nossa cultura, eu acho que a tendência é só crescer. E também com o apoio dos cantores de reggaeton brasileiros que têm se esforçado bastante para poder levar o nome do reggaeton dentro do Brasil. Então, a tendência, com certeza é só crescer.
E: Tocar reggaeton para os outros é a sua profissão. Mas quais artistas lideram suas playlists pessoais?
T: (risos) Os artistas que lideram minha playlist, com certeza são os artistas de reggaeton. Eu acho que não é nem por uma profissão, porque, realmente é o que eu vivo e o que eu gosto. Tenho escutado muito De La Rose, que é uma cantora porto-riquenha, então ela é o que está dominando, acho que uns dois três meses o topo dos meus mais escutados.
Tenho escutado, obviamente, Bad Bunny, não tem como não escutar Bad Bunny. Por incrível que pareça tenho escutado muito Anuel AA também ultimamente. Então, eu acho que esse ano assim, de uns três meses para cá, então, esses três que estão liderando minhas playlists.
E: Na sua visão, o que podemos esperar do futuro do reggaeton no Brasil?
T: Eu acho que a gente pode esperar que ele continue nessa crescente. A gente está vivendo sim a melhor fase do reggaeton no Brasil olhando para trás, mas olhando para a frente eu acho que essa é só a ponta do iceberg das coisas boas que vem por aí, que a gente pode acrescentar no reggaeton.
Eu acho que daqui pra frente, a gente pode esperar mesclas, sim, do que a gente pode fazer junto com os nossos ritmos locais. E eu acho que vai chegar o momento que talvez dê uma estabilizada nessa crescente. Aí nesse momento vai ser a hora da gente atacar e produzir, para que os outros países vejam que aqui também tem reggaeton, vejam que a gente também produz reggaeton, que a gente tem nosso modo de fazer as coisas. A gente tem muito o que acrescentar na cultura do reggaeton lá fora também. Então, essa é a minha projeção para o futuro.
E: O que você diria para DJs e produtores que querem entrar para esse movimento?
T: Eu diria que não entre por hype, entre por amor. Eu tenho muito respeito, na verdade, pelo movimento do reggaeton, principalmente quando se fala no Brasil. Então, se você entra no mundo do reggaeton sendo DJ ou produtor, achando que você vai fazer muito dinheiro, que você vai lucrar para caramba, visando só o dinheiro, isso não rola. Porque, na verdade, é uma luta. Hoje eu vejo como uma luta mesmo fazer o gênero crescer, fazer o movimento acontecer. Então, entre por amor, sabendo que você vai contribuir de uma maneira genuína para a crescente, e não de uma forma de interesse.
Se dedique também a estudar, respeitando os cantores que estão há muito tempo nessa batalha e também conhecendo os novos talentos que vem surgindo. Então, eu acho que estudo é uma parte muito importante. Porque a gente entra competindo com quem, literalmente, nasceu escutando reggaeton nos rádios e na TV, então a gente começa muito do zero até não sabendo diferenciar alguns ritmos, se é ou não reggaeton. Então, assim, entre por amor, com dedicação e com respeito. Eu acho que esse é o meu recado. E também bem-vindo, né?
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Texto revisado por Angela Maziero Santana


