Quadrinista Ing Lee revisita a infância ao lado do irmão autista em obra autobiográfica marcada por afeto, humor e descobertas do cotidiano
Algumas histórias nascem de pequenos momentos que, com o tempo, ganham novos significados. É desse lugar íntimo que surge João Pé-de-Feijão, nova HQ da ilustradora e quadrinista Ing Lee, publicada pela VR Editora.
Na obra, a autora revisita o crescimento do irmão caçula, João, diagnosticado com autismo ainda na infância, e transforma memórias familiares em uma narrativa delicada, cheia de sensibilidade e descobertas. A história é conduzida a partir de um olhar fraterno – menos comum em relatos sobre o tema – e revela como a convivência entre irmãos foi fundamental para compreender o menino para além de rótulos e expectativas.
Entre episódios marcantes, a HQ apresenta desde as primeiras dúvidas da família sobre o desenvolvimento de João até momentos espontâneos e bem-humorados do dia a dia. Um dos exemplos é quando o garoto surpreende ao dizer sua primeira palavra – “urso” – ou ao cumprimentar desconhecidos com a sinceridade típica da infância.

Ao longo das páginas, o leitor acompanha não apenas o crescimento de João, mas também o processo de aprendizado da própria família. A narrativa mostra como, pouco a pouco, todos passam a enxergar o autismo não como definição, mas como parte de uma trajetória única, com seu próprio ritmo.
O vínculo entre os irmãos ganha destaque em diversos momentos, especialmente através do desenho, uma paixão compartilhada. Ing Lee conta que sempre incentiva o irmão a desenhar durante as visitas e guarda com carinho as criações que recebe, muitas delas enviadas pela mãe. Algumas dessas ilustrações, inclusive, foram eternizadas pela artista em sua própria pele.
O título da obra também carrega um significado simbólico. Inspirado na fábula João e o Pé de Feijão, o crescimento da planta funciona como metáfora para o desenvolvimento do menino. Diferente da história clássica, porém, aqui não há pressa para alcançar grandes feitos, o foco está em valorizar cada etapa, respeitando o tempo e as particularidades de João.
Outro destaque é o traço da autora, que combina delicadeza e expressividade para traduzir emoções cotidianas com leveza. O estilo visual reforça o tom da narrativa, equilibrando humor, ternura e atenção aos detalhes que constroem a convivência familiar.

Ing Lee também traz para a obra aspectos de sua própria vivência como pessoa surda oralizada, contribuindo para a construção de um olhar voltado à empatia, à diversidade e às diferentes formas de se relacionar com o mundo. O livro convida o leitor a repensar a forma como enxerga as diferenças, acompanhando uma trajetória construída em seu próprio ritmo.
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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz










