Referenciado no MV 2.0, filme de Park Chan-wook segue como uma das obras mais influentes do cinema asiático e peça-chave na ascensão global da Coreia do Sul
O novo clipe de 2.0, lançado pelo BTS, não chamou atenção só pela sonoridade mais pesada ou pela construção visual mais fechada. O que realmente movimentou fãs e espectadores foi a forma como o vídeo aciona um repertório específico do cinema coreano, com uma referência direta a Oldboy.
Dirigido por Park Chan-wook, o longa de 2003 é frequentemente citado como um dos títulos mais importantes da chamada virada do cinema sul-coreano. E não apenas por sua narrativa impactante, mas por um conjunto de escolhas estéticas e estruturais que ajudaram a consolidar a Coreia do Sul como um polo criativo relevante no audiovisual global.
A relação entre o clipe e o filme aparece logo de início, na forma como o espaço é organizado. Corredores estreitos, deslocamento lateral e a sensação constante de avanço sob pressão remetem diretamente à famosa sequência de luta de Oldboy. No entanto, o que o BTS faz não é uma reprodução literal, mas uma releitura dentro da lógica do K-pop, onde performance e narrativa visual caminham juntas.
O filme que mudou o jogo
Quando Oldboy chegou aos cinemas, a indústria coreana já passava por um momento de expansão, mas ainda buscava reconhecimento internacional consistente. Filmes circulavam em festivais, alguns diretores começavam a ganhar projeção, mas faltava uma obra que realmente rompesse essa barreira de forma mais ampla.
Foi nesse cenário que Park Chan-wook apresentou um filme que combinava violência estilizada, construção psicológica e uma narrativa que exigia atenção ativa do espectador. A história de Oh Dae-su, preso por 15 anos sem explicação, funciona como ponto de partida para algo mais complexo: uma investigação sobre memória, culpa e manipulação.

Ao contrário de muitos thrillers convencionais, Oldboy não organiza sua narrativa simplesmente de forma linear. Informações são distribuídas em camadas, e o que parece claro em um momento ganha novos significados depois. Esse tipo de estrutura aproxima o filme de um quebra-cabeça emocional, em que o espectador precisa reorganizar constantemente o que está vendo.
O reconhecimento veio rapidamente. Em 2004, o filme conquistou o Grand Prix no Festival de Cannes, ampliando sua visibilidade e colocando o cinema coreano em um novo patamar. A partir dali, falar de produções sul-coreanas deixou de ser algo restrito a nichos.
A cena do corredor e sua influência
Entre todos os elementos que marcaram Oldboy, a cena do corredor se tornou o mais reconhecível. Filmada em um plano-sequência de forma lateral, ela acompanha o protagonista enfrentando vários adversários em um espaço estreito, sem cortes evidentes e sem o dinamismo típico do cinema de ação ocidental.
O que torna essa sequência tão relevante é a forma como ela lida com o corpo. Não há fluidez idealizada. O movimento é pesado, repetitivo, cansativo. O personagem erra, recua, insiste. Essa abordagem cria uma sensação física muito específica, que se diferencia de coreografias mais estilizadas.

Esse modelo visual acabou se tornando referência em diferentes áreas. No caso do BTS, ele aparece adaptado à lógica da performance. O combate se transforma em coreografia sincronizada, mas a ideia de progressão contínua permanece. O grupo avança, ocupa o espaço e constrói uma narrativa de movimento que ecoa a estrutura do filme.
Por que Oldboy continua sendo tão citado?
Mais de duas décadas depois, Oldboy ainda aparece com frequência em discussões sobre cinema asiático. Parte disso vem da sua capacidade de combinar impacto visual com uma narrativa que não se esgota na primeira exibição.
O filme trabalha com temas que permanecem atuais, especialmente quando se pensa em como histórias são construídas e reinterpretadas. A relação entre passado e presente, por exemplo, é central. O protagonista não busca apenas respostas externas, mas também uma compreensão sobre si mesmo.

Outro ponto importante é o controle formal de Park Chan-wook. Cada enquadramento, cada escolha de cor, cada movimento de câmera contribui para a construção de um ambiente que mantém o espectador em estado de tensão constante. Esse tipo de direção influenciou não só outros cineastas, mas também criadores de diferentes áreas, incluindo videoclipes e produções de streaming.
Do cinema ao K-pop
A presença de Oldboy no MV de 2.0 também diz muito sobre o momento atual da cultura coreana. O que antes circulava em campos separados agora aparece de forma integrada. Cinema, música e estética visual passam a dialogar de maneira mais direta.
No caso do BTS, essa escolha reforça uma construção de identidade. Ao recorrer a um clássico do cinema coreano, o grupo não apenas amplia seu repertório visual, mas também se conecta a uma tradição cultural que vai além do K-pop.
Essa movimentação revela um cenário em que referências deixam de ser apenas citações e passam a funcionar como ferramentas narrativas. O clipe não usa Oldboy apenas como estética, mas como base para construir uma ideia de transição, avanço e reposicionamento.
E talvez seja justamente por isso que o filme continua tão presente, porque ele não se limita ao seu tempo, mas permanece disponível para ser reinterpretado, relido e incorporado em novas linguagens.
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Texto revisado por Cristiane Amarante @cris_tiane_rj










