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Foto: reprodução/Instagram @verena__cavalcante

Entrevista | Verena Cavalcante reflete sobre literatura de horror e o feminino

Escritora comenta sobre as inspirações que motivaram seu primeiro romance, o qual une fantasmas e traumas familiares

A atmosfera caótica e um tanto hipnotizante da década de 1990 é o cenário de Como Nascem os Fantasmas, livro de Verena Cavalcante que acaba de ser publicado pela Editora Suma. A obra é o primeiro romance da autora, que já havia reunido uma série de contos sobre os horrores encontrados na infância em Inventário dos Predadores Domésticos (2021), lançado pela DarkSide.

Agora, Cavalcante apresenta ao leitor a trajetória de Beatriz, que, à sombra da mãe perfeita, deseja conquistar a aprovação da avó. Dona Divina é uma importante líder religiosa e criou a neta depois que a única filha, Ângela, faleceu ao dar à luz. No entanto, ela nunca superou a perda e coloca grandes expectativas na garota. Beatriz passa, então, parte da infância tentando replicar as características da mãe, mas está longe de ser uma figura recatada e semelhante à Ângela. 

Certo dia, se depara com o fantasma de uma criança, que lhe conta sobre um crime hediondo. Beatriz enxerga, nesse encontro, uma oportunidade para entrar no universo da avó e se libertar do espectro da mãe falecida. A partir daí, ela começará a trilhar um caminho pedregoso de autodescoberta, repleto de segredos e fantasmas. A obra ainda ecoa elementos da ditadura militar brasileira e, ao mesmo tempo, reflete sobre os horrores da existência feminina. 

Verena Cavalcante é uma das principais vozes do terror nacional, representante do chamado “gótico tropical”. Em entrevista ao Entretetizei, ela comenta sobre o fazer artístico, como é escrever terror no Brasil e o seu processo de escrita. Confira!

Entretetizei: Como Nascem os Fantasmas é seu primeiro romance. O que te motivou a expandir da narrativa curta para uma história longa?

Verena Cavalcante: Eu sempre tive o desejo de escrever um romance, fiz várias tentativas ao longo dos anos. Escrevi meu primeiro livro de contos em 2012, e a partir daí eu fui tentando, mas não encontrei nenhuma substância em nenhuma das tramas que desenvolvi. 

Com Como Nascem os Fantasmas foi diferente, porque ele surgiu como conto. A minha ideia era escrever mais um livro de contos, em que cada conto se passasse em um cômodo de uma casa. Comecei escrevendo esse conto que se chamava Vovó Recebia Espíritos. Eu fui tendo outras ideias, e aí eu pensei: ‘E se eu aumentasse, expandisse o universo e fizesse um romance de fato?’ 

Ele tem um viés meio autobiográfico também, então tinham certas questões ali que eu queria explorar. Da minha própria infância, do meu passado. E assim eu fiz um processo de escavação, de arqueologia da memória, e ele foi tomando forma, foi crescendo até se tornar o romance que está aí agora.

E: A história se passa no Brasil dos anos 1990, uma época cheia de contrastes. Por que escolheu esse período como pano de fundo?

VC: Eu sou cria dos anos 90. Eu nasci no fim da década de 1980, então, como eu ia falar da infância, pensei logo na que vivi, na minha própria infância. Os anos 90 foram muito especiais nesse sentido, todo um caldo de bizarrices e redemocratização do país, a televisão totalmente escatológica e, ao mesmo tempo, meio histriônica… 

Uma liberdade, um desejo de liberdade que beirava até a perversão. Essa questão mais obscena dos corpos, da sexualidade na televisão. E todos esses elementos dos anos 90, além de serem muito nostálgicos, me fascinam muito. Eu acho que não tem nada como essa década. Eu gosto muito dessa mistura kitsch, bizarra. Era um pano de fundo fantástico para contar essa história — e para um livro de horror, principalmente, porque tem esse toque meio macabro, né?

E: Beatriz é uma personagem complexa, cercada por expectativas familiares e fantasmas — literais e metafóricos. Como foi construir essa protagonista?

VC: A Beatriz foi se mostrando para mim aos poucos. A princípio, eu tinha decidido que ela ia ser uma figura trágica, mais vítima das situações, porque ela é uma criança. Mas, no meio do caminho, eu decidi que eu queria que ela fosse uma anti-heroína. Que ela tivesse uma intensidade maior, uma raiva, uma fúria. Esses aspectos dela foram aflorando aos poucos. Então, foi muito interessante, porque, apesar de ser um livro meio autobiográfico — as personagens têm uma base na vida real, por assim dizer — elas têm vida própria. 

Elas são sencientes, elas são totalmente autônomas. Então a Beatriz é a Beatriz. Ela simplesmente se desprendeu e saiu a galope. Eu queria que ela tivesse uma relação conflituosa, complicada, com a avó, para poder falar dessas questões familiares. Do fantasma enquanto essa ausência, essa falta, essa distância, essa negligência. O fantasma enquanto a idealização da mãe, da Ângela. E, ao mesmo tempo, eu queria que a Beatriz também tivesse outras questões envolvendo o corpo, essa transição da infância para adolescência, a puberdade, em que a gente se sente muito desconfortável dentro da própria pele. 

O tempo todo, ela não se encaixa. E essa sensação de não se encaixar traz consigo uma invisibilidade — que também tem relação com os fantasmas em si. No fim das contas, todos são fantasmas. A própria Beatriz é um fantasma dentro daquele contexto. É uma personagem que eu gosto bastante. Eu acho que criei várias camadas, várias questões que eu acho importantes de serem faladas.

E: O livro mistura amadurecimento, terror e crítica social. Como você equilibra esses elementos tão densos sem perder o ritmo da narrativa?

VC: Eu acho que essa parte é muito intuitiva. A história vai se desenrolando e as coisas vão surgindo e vão encontrando o seu caminho, como se fosse uma costura, que a gente vai tricotando, e elas vão se encontrando. Na questão da crítica social, tem uma cena de um trabalho de escola, em que eles falam da profissão de alguém da família, no Dia do Trabalho. Nesse momento, a Beatriz leva um cartaz em que ela fala da profissão do avô dela, que era policial militar aposentado. Essa situação aconteceu comigo de verdade. É uma lembrança muito específica da minha vida em que percebi que tinha alguma coisa errada envolvendo uma época histórica do país. 

Nos anos 90, a gente ainda tinha uma tradição muito nacionalista, vários resquícios da ditadura. Toda quarta-feira, a gente cantava o Hino Nacional. Essas coisas ficaram muito marcadas para mim. E eu acho que não só essa questão da ditadura nesse sentido de você conviver com esses fantasmas, de certa maneira, mas também como ela terminou. A presença e o fim da ditadura definem os anos 90, em certo modo. 

A gente tinha esse desejo maluco de liberdade, de expressar a própria individualidade e as próprias posições no mundo. Mas, ao mesmo tempo, o autoritarismo e o patriarcado continuavam. Por mais que hoje a gente viva numa época em que as pessoas querem que a ditadura volte — um grupo de pessoas quer isso, trabalha por isso — nos anos 90 ela ainda estava lá. A gente convivia com ela de maneira diferente, de maneira muito mais intensa do que hoje, por mais que ainda existam esses grupos. Porque era tudo muito recente ainda. Eu acho isso assustador, por isso eu não podia deixar de acrescentar na minha história.

E: O terror em sua obra parece muito enraizado na realidade brasileira. Por que acha que o Brasil é um terreno fértil para o horror?

VC: A gente tem um lado sombrio muito intenso e que, por muito tempo, ficou escondido atrás de uma fachada de cordialidade, de felicidade, de alegria, daquele jeitinho de celebrar, do “brasileiro cordial”. Mas, ao mesmo tempo, a gente vem de um passado colonialista, escravagista, de muitas violências, de muita dominação, de muita injustiça, de ditadura.

E, tirando toda essa parte histórica do país, a gente também tem uma veia folclórica muito forte, especialmente nas cidades do interior de todos os estados. A gente tem essas histórias que as avós contavam, que os mais idosos costumavam narrar para família, especialmente nas noites em que não havia eletricidade — que fazem o imaginário ir longe. Então, eu acho que a gente tem muito potencial e um material infindável para criar narrativas de horror.

Foto: Editora Suma
E: Como você encara a relação entre o horror e o feminino?

VC: Eu acho que ser mulher é experimentar o horror do cotidiano, é viver o horror todos os dias. Desde que a gente nasce, somos ensinadas a ter medo, a nos proteger. Somos ensinadas que o mundo é perigoso por causa do nosso corpo, nossa carne. Porque a gente tem uma ferida aberta entre as pernas, que sangra e que atrai predadores, de certa maneira. 

Então, eu acho que ser mulher no mundo é terrível. É aterrorizante. É pavoroso. E, por pensar o horror todos os dias, por sentir o medo, por, na puberdade, sentir que o corpo de certa maneira está nos atacando, por conviver com sangue, com dor… Eu acho que as mulheres conseguem criar histórias muito intensas. As mulheres sempre escreveram horror, mas agora elas estão sendo lidas, tendo mais atenção. 

Mas é por isso que as mulheres escrevem horror: porque a gente sente o horror no corpo todos os dias, desde que a gente nasce até o dia que a gente morre.

E: Você enfrenta algum desafio como escritora de terror? Quais?

VC: Encontro alguns desafios não só dentro da minha própria rotina, porque eu sou mãe — tenho uma filha de seis anos, então eu preciso conciliar o trabalho formal, a maternidade e a escrita. E eu me sinto maluca. Muitas vezes eu não consigo dar conta. É muito difícil. 

Na questão da divulgação do meu trabalho, da recepção do trabalho, eu sinto que ainda tem muito preconceito. Se um autor lança um livro de horror e uma autora lança um livro de horror, homens e mulheres vão ler o livro do autor, mas só mulheres vão ler o livro da autora. Na maioria das vezes o livro da mulher é lido por mulheres. E o livro do homem é lido por ambos, né? Existe uma espécie de estigma, um preconceito, um estereótipo de que o livro escrito por mulher vai ser romântico ou fraco, que não vai ter a intensidade necessária, não vai ter a frieza ou a violência necessária. 

Inclusive, quando eu lancei meu primeiro livro de contos, em 2014, em que eu narro as violências da infância, uma pessoa me perguntou: “ Você vai publicar um livro? Que bom! Mas ele é romance? É de amor?” E eu falei: “Não. É um livro de horror.”’ E a reação foi: “Nossa! Mas você escrevendo um livro de horror?”

A reação imediata das pessoas é essa: de que os livros escritos por mulheres são livros mais fracos, de menor qualidade, ou menos intensos. Por mais que hoje tenha um destaque um pouco maior, também existe esse fenômeno da literatura latino-americana feita por mulheres sendo exaltada. Inúmeras pessoas louvam, idolatram, querem consumir essa literatura, mas, ao mesmo tempo, rechaçam a literatura produzida por mulheres no Brasil. Ou ignoram. Ou nem têm interesse. E aí entra também essa questão do complexo de vira-lata. Se vem do Brasil, é cópia, é menor. 

E: Como surgiu a primeira faísca para esse romance? Foi a Beatriz, o fantasma ou a avó quem apareceu primeiro?

VC: Quando comecei a escrever Como Nascem os Fantasmas, a personagem que apareceu primeiro foi a Dona Divina. A Dona Divina é uma figura muito forte, muito poderosa. E eu gosto do que ela representa — quase como se fosse uma divindade.

Quando comecei a pensar em escrever, sem dúvida nenhuma, foi a Dona Divina que me veio em mente. Além dessa questão de quem ela é e do que ela representa na história, ela também traz essas histórias paralelas que vai contando ao longo do livro.  

E: Você cresceu no interior de São Paulo, como Beatriz. Quanto da sua vivência pessoal influencia suas histórias?

VC: Eu morei em cidades muito pequenas, com 60, 50 mil habitantes. Então eu tive uma infância muito livre, bucólica até. De ficar na natureza, no mato, de brincar com animais. Essa relação com a natureza é muito importante para mim. Faço questão de imprimir isso na minha escrita. A natureza é praticamente uma personagem nas minhas histórias, porque acho que ela é intrínseca à vida, ao ser humano. 

E eu gosto desse ciclo caótico de vida e morte na natureza. Por exemplo, eu cresci numa cidade muito pequena chamada Amparo, no interior de São Paulo. Eu morava perto de um campo, um lugar onde colocavam parque de diversão, circo.  E, quando eu conto isso pras pessoas, ninguém acredita — porque hoje é muito fora da realidade. Mas, quando eu era criança, e o circo estava na cidade, a gente podia passar a mão no elefante. 

O elefante ficava comendo do lado de fora do circo, e o tratador deixava a gente passar a mão, dar pena pro elefante, dar comida, ração… Então, foram momentos muito mágicos — coitado do elefante, né? É horrível. Eu sou contra elefante em circo — mas foram momentos muito mágicos que viver no interior me proporcionou, especialmente esse contato com a natureza.

E: Além do terror, há outros gêneros que você gostaria de explorar?

VC: Então, é engraçado porque, quando eu comecei a escrever, eu não tinha em mente que eu escrevia horror. Foi muito intuitivo. Aconteceu que eu queria contar aquelas histórias. Mas eu não escrevi pensando que era uma história de horror ou que era um livro de horror. 

Quando eu escrevi Como Nascem os Fantasmas, eu já tinha em mente que o que eu fazia era horror — porque me disseram que era. Eu me interesso por histórias que escancaram as angústias, as dores de ser gente. Tenho interesse por histórias que flertam, que brincam com o sobrenatural também. Mas, ao mesmo tempo, eu também gosto muito de humor. No momento, estou trabalhando em algumas ideias para livros futuros, tenho alguns projetos. Ainda não sei em qual vou me debruçar. Mas um deles é bem terrível… Tem um viés mais humorístico.

E: Quais autoras ou autores influenciam sua escrita hoje?

VC: Quando eu comecei a escrever, eu lia muito, muito mesmo: Clarice Lispector, Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles, Angela Carter. Hoje em dia eu tenho lido bastante as minhas contemporâneas brasileiras. Posso citar: Irka Barrios, Isabor Quintiere, Juliana Cunha, Cecília Garcia. São algumas autoras que, há bastante tempo, estão escrevendo dentro do insólito e do horror. Tenho lido bastante também a produção de mulheres de língua espanhola ou hispano-americana. Gosto muito da María Fernanda Ampuero, Fernanda Melchor.  Gosto muito da Mariana Enríquez, que não posso esquecer. A Samanta Schweblin — contista maravilhosa. 

E eu também adoro o trabalho da Mona Awad, que é uma autora canadense. Enfim, é muita gente. Eu sempre falo um milhão de nomes e depois tem mais um milhão que eu esqueço de falar — aí eu fico super chateada porque não falei (risos).

E: Quando o(a) leitor(a) terminar o livro, o que você gostaria que ficasse com ele(a) por mais tempo?

VC: Eu gostaria que a pessoa leitora se sentisse emocionalmente devastada, porque foi como eu me senti. Era o que eu pretendia. Gostaria que a leitora conseguisse refletir sobre as suas próprias dores. E que ficasse com alguns questionamentos depois da leitura: “O que é verdade?”, “O que não é verdade?”’, “É metafórico?”, “É literal?”’, “Aconteceu ou não aconteceu?”. Eu já recebi perguntas assim e eu sempre falo que, se está na história, aconteceu. 

Além desses questionamentos, dessas perguntas, eu gostaria que a pessoa se sentisse meio assombrada pelo livro. Que ela carregasse os personagens com ela por um tempo… Para sempre. Para o resto da vida. Para puxar o pé dela à noite, quando ela estiver tentando dormir.

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Texto revisado por Ketlen Saraiva

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