Cultura e entretenimento num só lugar!

Foto: divulgação / João Roberto

Entrevista | Rafaela Tavares Kawasaki reflete sobre deslocamentos Brasil-Japão e seu novo romance dekassegui

Escritora fala sobre a experiência de imigração e como a literatura carece de obras que aprofundem o tema

Natural do interior de São Paulo, a escritora Rafaela Tavares Kawasaki tem ascendência japonesa e ama escrever sobre identidade, memória, imigração e família. Em seu projeto mais recente, o livro Venha Ver a Revoada, a autora decidiu abordar a experiência dekassegui

Dekassegui é um termo japonês utilizado para designar as pessoas que saem da sua terra natal para trabalhar em outro lugar. Mas a palavra também se refere a um fenômeno que se iniciou na década de 80, no qual descendentes de imigrantes japoneses no Brasil mudaram-se para o Japão para trabalhar e conquistar melhores condições de vida. 

Foi esse o caso de Rafaela, que viveu no Japão com a família durante 14 anos da sua infância, adolescência e início da fase adulta. Kawasaki, inclusive, chegou a trabalhar em fábricas da província de Gunma-ken. A trajetória da autora se equipara com a de 286.557 brasileiros documentados que moram hoje no Japão, segundo dados do país. No entanto, o número de obras de ficção que enfocam essa realidade ainda é escasso. 

Para desenvolver Venha Ver a Revoada, projeto selecionado e apoiado pelo Itaú Cultural no edital Rumos 2023-2024, Rafaela se dedicou a uma intensa pesquisa. Além de revisitar a região de Kanto, onde está localizada a cidade de Gunma-ken, conversou com pessoas que passaram pela experiência da ida ao Japão e leu obras relacionadas ao tema. Ainda compartilhou entrevistas, relatos e reflexões sobre a condição dekassegui nas redes sociais e na newsletter Plano de Voo.

Na obra, são apresentadas relações afetivas e existenciais no fluxo migratório Brasil-Japão. A narrativa é dividida em quatro partes — estruturadas como novelas interligadas — e acompanha personagens em diferentes fases da vida, suas jornadas de deslocamento, fragmentações familiares, conflitos de identidade, situações de vulnerabilidade e cotidiano fabril. 

Rafaela também é autora de Enterrando Gatos (2019), Peixes de Aquário (2021) e Memórias de Água (2025). Venha Ver a Revoada tem previsão de chegar às livrarias em 2026. Em entrevista, ela discorre sobre a sua experiência como imigrante e como isso influenciou a escrita do romance. Confira!

Foto: divulgação / João Roberto
Entretetizei: O que te levou a escolher a experiência dekassegui como eixo central para um romance?

Rafaela Tavares Kawasaki: A experiência de imigração já era um tema que se refletia na minha escrita em outros trabalhos, por meio que narrativas que lidam diretamente com o deslocamento e vivência com outros países que não o seu.

Meu primeiro romance, Peixes de Aquário, se concentra na história de uma família japonesa no Brasil; meu livro de poesia Memórias de Água trata dos efeitos de estar entre dois territórios nos mecanismos de lembrar e esquecer. Também acredito que eu ter sido uma criança e adolescente estrangeira influencia a atmosfera de isolamento e alienação em alguns contos que já escrevi, mesmo que não eles não tivessem personagens literalmente imigrantes.

Sinto que há algum tempo sou assombrada pela vontade de escrever sobre a experiência dekassegui, por eu mesma ter vivenciado isso, mas que atravessei apenas lugares periféricos ao tema até então, quase como se eu estivesse ensaiando. Provavelmente, porque é um tema muito caro para mim. 

Conscientemente, eu tenho a vontade de escrever sobre personagens dekassegui porque percebo que, apesar de milhares de brasileiros terem vivido e ainda viverem no Japão como migrantes econômicos, não há muitos livros de ficção protagonizados por essa população. E há tantas dimensões a serem trabalhadas. Depois de já ter alguma experiência com ficção e poesia, me senti encorajada a escrever um romance sobre dekasseguis.

E: Como foi o processo de revisitar suas próprias memórias e cruzá-las com as histórias de outras pessoas migrantes?

RTK: Minha intenção com Venha Ver a Revoada sempre foi trabalhar especificamente uma história ficcional sobre as protagonistas Mieko, Haneko e Akemi e os arcos que eu tinha delineado para elas, mesmo que de forma mais tênue no início do projeto. Mas eu sabia que revisitar minhas memórias e ouvir outras pessoas migrantes traria mais verossimilhança para a trama e, principalmente, camadas para a estética da escrita do livro. 

No campo das memórias, eu havia começado a escavar algumas experiências por meio de diários de lembranças e estudo de fotografias de arquivo familiar para as investigações de Memórias de Água. Eu aprofundei esse processo para Venha Ver a Revoada e o cruzei com leituras sobre a migração dekassegui brasileira de não ficção que pudessem inflamar mais essas lembranças. 

Criei cadernos e anotações com essas experiências. Também busquei conversar muito com pessoas que foram ou são dekasseguis para ter uma dimensão da diversidade e das recorrências nas famílias que passaram por esse processo. A ideia sempre foi ter um esforço para escrever uma trama fictícia, separada da minha biografia e da vida das pessoas que entrevistei, mas que tivesse empréstimos de experiências sensoriais, relação com lugar, com trabalho, com estação e com a linguagem. 

Esses procedimentos me ajudaram a trabalhar na escrita do livro, também uma réplica do dekasseguês, variante do português presente na fala desses migrantes. Queria muito desenvolver uma prosa que tivesse uma infiltração poética desse tipo de linguagem e que também transmitisse, para quem ler, qual a sensação de ser confrontada por essa fricção entre os dois idiomas.

E: Durante a pesquisa em Gunma e Tóquio, houve algum encontro ou situação que transformou como você encarava a narrativa?

RTK: Voltar para Gunma e ir para Tóquio trouxe ou aprofundou alguns elementos na escrita do livro, como a recorrência do vento, a experiência do cotidiano no Japão de hoje e a escuridão das noites japonesas. O que eu tinha mais vívido eram memórias de quando morei em Gunma, há mais de 15 anos. Eu sabia que o Japão tinha mudado. Eu sabia que havia sensações que já escapavam das memórias, principalmente relacionadas a sons e tato. E foi realmente assim. Essa pesquisa também foi decisiva para a recriação de ambientes que existem nas cidades habitadas por personagens. 

Estar nesses locais fez com que eu escrevesse sobre alguns lugares que não só abrigam os acontecimentos do livro, como também os influenciam. Outra questão que a pesquisa transformou na forma que eu encarava a narrativa em si é que conversar com brasileiros que continuaram lá me trouxe noções sobre como as visões de mundo, a relação com o país, com o trabalho, com a família são muito variadas. Isso se traduziu em uma polifonia maior entre os personagens, como eles lidam com a comunicabilidade e a incomunicabilidade da vida dekassegui. Acredito que a pesquisa trouxe muito mais dimensionalidade e profundidade tanto à linguagem quanto aos personagens.

E: Que papel a mistura de idiomas desempenha na construção da identidade das personagens?

RTK: Em comum, as personagens de Venha Ver a Revoada são, em sua enorme maioria, pessoas nipo-brasileiras que moram ou moraram no Japão. Para começar, elas são filhas, netas ou bisnetas de japoneses que migraram para o Brasil. Sua identidade já tem essa demarcação do contato com o idioma japonês, mesmo que filtrado, fragmentado e composto pelo uso de umas poucas palavras. 

Conviver com mães, pais, baachans ou jiichans (tradução: avós ou avôs) traz uma afetividade a essa relação com o idioma japonês. Quem, além disso, passa anos no Japão, vive no país, trabalha em suas fábricas, estuda em suas escolas tem uma existência muito marcada pela percepção de se estar em um entrelugar. Esse entrelugar tem sonoridade, signos e grafia que mescla duas linguagens. Há dekasseguis que dominam português e japonês. Há dekasseguis que têm um conhecimento superficial do japonês, embora cotidiano. Há filhos de dekasseguis que têm mais familiaridade com japonês que o português. 

Tudo isso molda muito sua existência, sua expressão de individualidade. Misturar palavras das duas línguas pode aproximar e afastar as pessoas, pode situar ou gerar uma insegurança sobre o provisório e o permanente na vida da pessoa. As palavras manifestam saudade, participação social ou isolamento.

Foto: divulgação / João Roberto
E: O que a literatura pode oferecer quando se busca dar corpo a experiências de fronteira linguística e cultural?

RTK: Eu não sei se o que eu vou falar tem a ver com uma parcialidade com a escrita, que é meu trabalho e minha forma de expressão artística. Mas a literatura tem uma potencialidade sem limites de dar corpo a qualquer experiência, porque ela se apoia na palavra e num imaginário que vai além do apelo à lembrança que temos de todos os sentidos. 

Narrar uma história, estruturar a linguagem com a qual a narramos desperta o imaginário. E, de todas as artes, a literatura é uma das que mais se apoia no verbal, na linguística. Eu sinto que isso traz muitas possibilidades de confrontar, torcer, embaçar, desfazer margens de fronteiras linguísticas e culturais, seja em cada trama de uma narrativa, seja na sua construção poética e estética.

E: Por que escrever uma narrativa dividida em quatro novelas interligadas?

RTK: Essa divisão da narrativa foi uma estrutura que se desenvolveu quando o projeto já estava mais avançado, com muitos rascunhos de capítulos, diálogos e passagens escritas. Talvez a divisão tenha influência do fato de que encontrei, durante a pesquisa, dekasseguis com experiências e olhares muito diferentes para o que significa estar, trabalhar, sentir falta, se relacionar com família e com outra sociedade enquanto se é imigrante.  

Eu queria que o livro expressasse essa polifonia. Inclusive, que sua linguagem tivesse variação de vozes e perspectivas. Enquanto escrevia, percebi que essa divisão também permitiria trabalhar melhor temporalidades diferentes, criar suspenses e as contradições que fazem parte de um drama familiar. As personagens de partes diferentes pensam de formas muito distintas sobre sua própria experiência e a vida das outras pessoas com quem cruzam. 

Assim, foi possível escrever quatro microcosmos com experiências muito diferentes de se contar situações dessa migração: a infância em outro país e a impotência de ser uma criança que testemunha a fragmentação familiar enquanto também é migrante; o início do trabalho, o desalinhamento entre vontade própria e necessidade, e o princípio de desilusões com o começo da vida adulta; a volta a um país diferente em meio à maternidade mesclada pelo medo de se repetir as dores da própria família; e uma experiência de cuidar dos pais que se deterioram enquanto a pessoa que cuida reflete sobre seus medos com o próprio envelhecimento entre países, sem nenhuma segurança sobre o futuro em qualquer um deles. 

Dividir a narrativa em quatro novelas interligadas permite contar uma história maior, fazer prenúncios disfarçados, trazer revelações e trabalhar ora uma terceira pessoa onisciente, ora uma primeira pessoa introspectiva, ora uma primeira pessoa que é um diálogo com o silêncio do outro.

E: O cotidiano aparece com grande importância no romance. Qual é a significação de narrar acontecimentos ordinários?

RTK: Eu sempre tive um fascínio pelas narrativas do cotidiano. O cânone da literatura valoriza muito romances, contos, peças e poemas épicos que tratam do extremo, da guerra, do sagrado e de famílias em posições de distinção social. Muitos deles são mesmo extraordinários. Mas eu me atraio muito pela grande potência de universalidade na experiência cotidiana e até doméstica. 

É algo que me move como leitora e espectadora – tanto que para a pesquisa do tom do livro assisti muitos filmes que tratam desses espaços, da atenção com pequenos objetivos e da vida que acontece em meio à rotina. Curiosamente ou não, muitos filmes eram de diretores japoneses, como o Ozu, o Naruse e o Koreeda. 

Lendo estudos de pesquisadores da estética do cotidiano, como a Yuriko Saito e Soetsu Yanagi, como parte da investigação do livro, senti também que os acontecimentos ordinários, que a relação com lugares e objetos ordinários inflam, corroem e transbordam muito a existência do dekassegui

Grandes acontecimentos, angústias e realizações afetivas do imigrante se concentram em pequenos apartamentos, em fábricas, no contato com objetos domésticos, em game centers ou parques. Narrar o cotidiano em Revoada, para mim, significou tratar da grandiosidade do que parece pequeno e da profundidade do que aparenta vazio.

E: Como foi a experiência de construir uma personagem que retorna a um lugar da infância, mas o encontra completamente transformado?

RTK: Essa experiência tem muitos empréstimos da minha própria viagem de volta para Gunma: reencontrar lugares quase intactos, mas desbotados; ou, ao contrário, não conseguir encontrar lugares que já foram íntimos, porque eles não existem mais; inflamar lembranças fortes, mas soterradas; retomar relações com pessoas que não faziam parte do meu dia a dia há anos, mas são muito próximas. 

Tudo isso traz espanto, alegrias e angústias. Eu anotei ao máximo que pude essas experiências para exercitar como trabalhá-las em linguagem literária, porque tinha essa intenção de construir uma personagem com essa vivência. 

A infância e a vida familiar nessa fase tem muitas lacunas, mistérios, dúvidas e certezas mais frágeis do que aparentam. Todos os elementos do retornar a um lugar de infância podem gerar o confronto com situações dormentes e a percepção de suas reverberações. Levei muito em conta na construção dessa personagem essas experiências, que são algo muito poderoso na nossa condição de humanos que crescem, que têm traumas, obsessões e afetos com o passado.  

E: Embora milhares de brasileiros tenham vivido no Japão, ainda são poucas as obras literárias que abordam essa realidade. Por que você acha que essa experiência demorou a aparecer na ficção?

RTK: Tenho algumas suposições. A primeira é que, para esse tipo de experiência aparecer na ficção, as pessoas que as vivenciam precisam se sentir encorajadas a contar e seguras para serem ouvidas. Muitos brasileiros que migram para o Japão vivem em bolhas que podem ter o tamanho de uma pequena comunidade regional ou se limitar à sua família. 

Há pesos de muitas expectativas na migração dekassegui. Um deles é a pressão de se mudar para o Japão e ter uma história de sucesso, enriquecer, reencontrar o país de antepassados. Acontece que, nos anos 1990 e 2000, quando esse movimento foi mais intenso, migrar para o Japão significou trabalhar em fábricas em atividades pesadas, sujas e sofridas; significou enfrentar discriminação, significou ser a parte mais afetada por crises econômicas. 

Algumas pessoas conseguiram estabilidade, outras não. Devido a questões culturais que pressionam parte das famílias nipo-brasileiras, era comum que essa vivência de dificuldades se traduzisse não em uma consciência de classe, um questionamento sobre identidade, mas em frustração e vergonha. Principalmente quando a pessoa migrante não conseguia guardar recursos para voltar bem ao Brasil, enquanto parentes e amigos conseguiam. 

Acho que isso gera uma camada de silêncio. Outra coisa é que muitos dekasseguis são desencorajados de contar sua história pela incomunicabilidade da relação com os dois idiomas, pelas experiências de xenofobia afetando sua autoestima, pelo esgotamento do trabalho pesado.

E tem outro contexto muito forte, quando pensamos em literatura, o que o próprio mercado editorial valoriza. É relativamente recente uma valorização de narrativas que cruzem com temáticas de identidades fora de um eixo Rio-São Paulo, fora da expressão de branquitude. 

Isso vem mudando e cada vez mais vejo pessoas discutirem, na literatura e fora dela, a racialidade amarela interseccionada com outras temáticas, com outras identidades. E, mesmo hoje, em que o mercado editorial passou a se interessar mais pelas possibilidades dessas narrativas que tratam de personagens com identidades que não a do branco paulistano ou carioca, a própria academia lida com o regional, com o racial como se fosse exótico, como se fosse menos literário, como se fosse algo mais preocupado com conteúdo que estética. 

Precisamos romper muita coisa para que romances dekasseguis comecem a se tornar mais frequente e que autorias que tiveram ou têm experiência dekassegui entendam que suas histórias têm força para ser contadas e lidas.

E você, já conhecia os livros de Rafaela Tavares Kawasaki? Conta para a gente em nossas redes sociais — Insta, Face e X. E, se você gosta de trocar experiências literárias, venha participar do Clube de Leitura do Entretê para conversar sobre leituras incríveis!

Leia também: Entrevista | Monge Han reflete sobre identidade racial, processo criativo e carreira de ilustrador

plugins premium WordPress

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdo de seu interesse. Ao utilizar nossos serviços, você concorda com tal monitoramento. Acesse nossa política de privacidade atualizada e nossos termos de uso e qualquer dúvida fique à vontade para nos perguntar!