A artista, que tem dois filmes no Festival do Rio, contou para o Entretê sobre atuais projetos e como eles dialogam como o passado brasileiro
Por meio de diferentes formatos e linguagens, Jade Mascarenhas é uma artista que se revela cada vez mais talentosa e interessada em assumir a responsabilidade de contar histórias. A atriz despontou através de curtas de comédia na internet, principalmente com o vídeo Panteras do Lula em 2022, e vem conquistando espaço na televisão, no teatro e no cinema.
Desde o começo de outubro, Jade está em cartaz com o espetáculo francês Toc Toc, que centraliza seis personagens diagnosticados com Transtorno Obsessivo-Compulsivo na sala de espera de um consultório médico. Além disso, nas últimas semanas, a atriz esteve presente no Festival do Rio para acompanhar a premiére de dois de seus projetos mais recentes: A Própria Carne e Homem de Ouro, filmes que retratam diferentes momentos históricos do Brasil.
Em meio a todas essas atividades, Jade conversou com o Entretê sobre ambições, desafios de fazer cinema no Brasil e a necessidade de continuar a contar histórias sobre o passado do nosso país.
Confira a entrevista abaixo:
Entretetizei: Com 26 anos, você já se revelou uma atriz muito versátil, participando de curtas de comédia, séries, novelas, espetáculos e filmes. Como é para você transitar entre esses diferentes meios de contação de histórias? E qual é, na sua visão, a principal diferença entre fazer cinema, televisão e teatro?
Jade Mascarenhas: Acho que a gente como ator deveria se interessar pela vida constantemente e por todas as formas de se contar histórias. Eu amo teatro, cinema, stand-up, dança, internet.
Achar que existe hierarquia entre as formas de se contar história, é a meu ver um pouco elitista. Existem, por exemplo, atrizes brilhantes na internet que nunca tiveram espaço no audiovisual, mas estão realizando suas missões de contar histórias com vigor, num lugar com tanto público quanto TV, mas é outra linguagem.
É legal ter feito de tudo um pouco, são coisas diferentes mas que se complementam enquanto prática. E eu comecei no independente, fazendo produção, edição, roteiro, atuação… Importante se auto produzir. Me sinto uma atriz mais forte depois de testar tudo.

E: A Própria Carne se passa durante a Guerra do Paraguai, e acompanha três soldados desertores que encontram uma casa cheia de segredos. Como o contexto político do filme impacta a história?
JM: A guerra do Paraguai foi a maior guerra da América do Sul e, assim como todas as guerras, nada resta para a população além do pânico. Os arruinados num país em guerra não são só os soldados, muitas vezes obrigados a servir, e sim toda a população – vemos o que tá acontecendo em Gaza, por exemplo.
Mas a tecla que batemos muito quando falamos sobre o filme é que a história não aconteceu, é ficção, mas poderia acontecer. Numa época em que a liberdade não é mais um direito, todos se tornam, ao mesmo tempo que vítimas, agentes de uma desgraça inevitável, mas estamos falando de dois soldados brancos e um preto, além de uma mulher e um idoso.
A Própria Carne é um terror inevitavelmente de época e racial. Acredito que por si só a guerra já é um terror e todos os filmes que a tratem deveriam automaticamente se enquadrar nesse gênero.
E: Grande parte das produções da sua carreira, até agora, foi conduzida pelo humor. Você já comentou que interpretar a Natália, em Elas por Elas, foi importante para sua transição para o drama. Agora, em A Própria Carne, você encara um novo desafio com um longa de terror. Como foi o processo de compor a personagem da Garota no filme? Houve algum desafio específico nesse papel?
JM: Quando passo num trabalho, nunca minha intenção inicial é brilhar, e sim ajudar o projeto, pois cada um é uma peça que que vai entrar no meio daquela engrenagem para girar melhor. Quando me chamaram pra fazer o filme dei o melhor de mim, porque além de tudo era uma oportunidade fantástica e sem igual de explorar um gênero novo, uma atuação diferente e me versatilizar como atriz. Foi divertido, ousado e desesperador.

E: A Própria Carne é um filme independente e sabemos que o Brasil ainda tem políticas frágeis e insuficientes de fomento à cultura nacional. Como você enxerga esse cenário e as dificuldades de contar histórias no nosso país?
JM: Tenho muito orgulho de fazer parte de um projeto independente, de nicho, em que os idealizadores se juntarem e, movidos pela paixão, fizeram um filme. Mas na prática não deveria ser assim. A gente tira dinheiro do próprio bolso quando no horizonte não tem nenhuma perspectiva.
O que acontece é que esses editais e leis não são simples: envolvem uma burocracia enorme, prazos longos, e nem sempre contemplam a diversidade de vozes e formatos que o país produz. E quando há períodos de desmonte, como a gente viveu recentemente, o impacto é devastador.
Fazer audiovisual no Brasil é um ato de insistência, resistência e fundamental para formação de uma narrativa plural.
E: Em Homem de Ouro, acompanhamos a história de Mariel Mariscot, um ex-policial envolvido com o crime organizado nas décadas de 1960 e 70. Como foi o seu processo para construir a personagem da Soninha?
JM: Sônia é uma pessoa real assim como as outras pessoas do filme, mas como não era midiática, poucos registros se tem dela. Confiei muito no diretor, Mauro, que me sugeriu a temperatura dela a partir das conversas que ele mesmo teve dentro das suas pesquisas intermináveis. Mas em geral, quis me divertir com essa adolescente debochada e revolucionária.
E: Homem de Ouro faz parte de um momento em que o cinema nacional parece interessado em revisitar o período da ditadura militar. Na sua opinião, por que é importante continuar contando essas histórias hoje?
JM: O Brasil ainda não parece ter elaborado o trauma da ditadura. Existe um apagamento histórico, marcas profundas, falta de responsabilização.
Contar essas histórias é uma forma de impedir que a violência ou a contravenção sejam normalizadas e manter a memória viva. Filmes são muito poderosos, no sentido de elaborar essas coisas.
E: Outubro está sendo um mês intenso para você: dois filmes no Festival do Rio e o espetáculo Toc Toc em cartaz, que vem sendo muito bem recebido. Como tem sido essa experiência de estar em cena com a mesma personagem por tanto tempo?
JM: Fazer teatro é um exercício de repetição.
Retornar aos palcos foi a melhor coisa que aconteceu esse ano. O teatro é um lugar do momento presente e eu adoro a magia que fazemos quando estamos juntos todo o elenco no palco. É muito divertido.

E: Como falamos no início, você é uma artista versátil e já participou de muitos projetos incríveis. Mas que tipo de projeto ainda te dá vontade de fazer? Tem algum spoiler do que vem por aí para dividir com a gente?
JM: Tem muita coisa acontecendo, mesmo. Não tenho vontade de fazer coisas específicas porque existem uma série de coisas que ainda não fiz. Cada projeto é um desafio. O que eu quero é ter sempre um projeto mais desafiador que o outro para eu não ficar na zona de conforto. Se bem que seria legal fazer uma vilã, mas acredito que é o sonho de toda atriz, porque de fato parece ser muito divertido.
Serviço
A Própria Carne – estreia 30 de outubro
Homem de Ouro – em breve nos cinemas
Espetáculo Toc Toc:
- 25 e 26 de outubro: Teatro Colinas – São José dos Campos (SP)
- 31 de outubro a 18 de janeiro: Teatro dos 4 – Rio de Janeiro (RJ)
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Texto revisado por Simone Tesser @simone_alleotti










