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Foto: reprodução/Lagoa Nerd

Crítica | Dois Procuradores e a justiça esmagada pelo totalitarismo

O longa mais recente de Sergei Loznitsa expõe a violência institucionalizada durante o Grande Terror

[Contém spoiler] 

Dois Procuradores (2025) é um filme austero, denso e profundamente incômodo, que mergulha o espectador na engrenagem opressiva do regime stalinista. Dirigido por Sergei Loznitsa (Babi Yar. Contexto, 2021), o longa abandona qualquer traço de sentimentalismo para construir uma narrativa fria e meticulosa sobre o funcionamento da injustiça quando ela se torna política de Estado.

Foto: divulgação/Retrato Filmes

Ambientado na União Soviética de 1937, durante o chamado Grande Terror, o filme se insere em um dos períodos mais violentos da história do regime de Stalin. Diferentemente da repressão praticada nos anos de Lênin – ainda vinculada à guerra civil e à consolidação do poder bolchevique –, o Grande Terror marca o momento em que a violência deixa de ser um meio e passa a existir como fim. Não se trata mais de punir culpados, mas de produzir culpados, instaurando um sistema paranóico no qual ninguém está realmente seguro.

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A trama acompanha o jovem promotor recém-nomeado Alexander Kornyev (Aleksandr Kuznetsov), que, ao entrar em contato com uma carta escrita pelo prisioneiro político Stepniak (Alexander Georgijewitsch Filippenko), decide investigar possíveis abusos cometidos pela polícia secreta, a NKVD. A partir desse gesto aparentemente simples, o filme revela o abismo entre a legalidade formal e a realidade brutal do totalitarismo. O protagonista acredita na lei, mas logo percebe que ela opera apenas como fachada, um instrumento de legitimação do poder, não de justiça.

Loznitsa expõe com rigor a autonomia quase absoluta da NKVD, herdeira direta da Cheka revolucionária, cujos agentes atuam acima de qualquer instância legal. O filme não retrata a repressão apenas como instrumento político, mas como um mecanismo que passa a existir por si só, típico do Grande Terror stalinista, quando a violência se converte em procedimento administrativo. O Estado não reage a ameaças reais: ele as fabrica. Todos que tentam identificar ou denunciar essas distorções tornam-se, inevitavelmente, novos alvos do sistema.

Foto: divulgação/Retrato Filmes

A encenação acompanha essa lógica implacável. Planos longos, diálogos contidos e uma mise-en-scène (tradução livre: colocar em cena) rigorosa constroem uma atmosfera de claustrofobia e paralisia moral. A quase total ausência de trilha sonora intensifica o silêncio opressor que domina os corredores do poder, tornando cada deslocamento do personagem principal um exercício de tensão e expectativa. Não há espaço para heroísmo: o sistema é maior, mais forte e absolutamente indiferente à moral individual.

A atuação contida de Aleksandr Kuznetsov como o jovem promotor acompanha com maestria o clima do longa. Sua interpretação evita explosões emocionais ou gestos excessivos, apostando em um corpo rígido, em olhares breves e em uma dicção controlada que traduzem a tentativa constante de se manter dentro da norma. Essa contenção não reduz o impacto dramático, ao contrário, evidencia o conflito interno de um personagem que acredita na racionalidade da lei e se recusa, por mais tempo do que deveria, a aceitar sua falência. 

Foto: divulgação/Retrato Filmes

O elenco ao redor atua na mesma chave, compondo figuras quase burocráticas, mais próximas de engrenagens do sistema do que de indivíduos plenamente formados, uma escolha que reforça a desumanização progressiva imposta pelo regime.

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O filme se destaca justamente por sua recusa em oferecer catarse. O longa não busca confortar o público, mas confrontá-lo. O jovem promotor não funciona como herói, mas sim como símbolo de uma crença ingênua na possibilidade de justiça dentro de um regime que não admite fissuras. Sua trajetória é marcada por um processo lento e devastador de desilusão, conduzido sem explosões dramáticas, apenas pela frieza dos procedimentos burocráticos.

Foto: divulgação/Retrato Filmes

O desfecho, no qual o próprio promotor é preso por ter levado sua investigação longe demais, não surge como reviravolta, mas como consequência lógica. No universo retratado por Loznitsa, pensar juridicamente já é um gesto subversivo. A lei só é tolerada enquanto instrumento de obediência; quando levada a sério, torna-se uma ameaça ao sistema que a proclama.

Em termos críticos, o ritmo deliberadamente lento pode afastar parte do público habituado a narrativas mais dinâmicas. Ainda assim, essa escolha estética se revela coerente com a proposta do filme: fazer o espectador sentir o peso da burocracia, do medo e da estagnação moral que definem a experiência do totalitarismo.

Dois Procuradores (2025) é um filme político no sentido mais profundo da palavra. Ao revisitar um período histórico específico, Sergei Loznitsa constrói uma reflexão inquietantemente atual sobre a fragilidade da justiça quando submetida ao autoritarismo. Trata-se de uma obra rigorosa, desconfortável e necessária, que exige atenção e reflexão – e que permanece ecoando muito depois do último plano.

Foto: divulgação/Retrato Filmes

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Texto revisado por Alexia Friedmann

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