Obra com Marcélia Cartaxo tem a fotografia a seu favor, mas acaba patinando no roteiro
O novo filme de Renata Pinheiro, Lispectorante, chega aos cinemas na próxima quinta-feira (08). Estrelado por Marcélia Cartaxo, o longa-metragem busca contar a história de uma mulher em meio a uma crise existencial e financeira, utilizando-se de excertos sempre afiados da escritora Clarice Lispector. Aliado a isso, temos a cidade de Recife como pano de fundo que, assim como a protagonista, se vê em direção ao esquecimento e à ruína.
A produção, exibida pela primeira vez no Festival de Cinema do Rio em outubro de 2024, acompanha a jornada de Glória Hartman (Cartaxo), uma artista plástica que acaba de se divorciar. Sem emprego e sem ter onde morar, ela muda-se para a casa da tia idosa. Glória, meio sem rumo e buscando um novo propósito de vida, começa a vaguear pelas ruas de Recife, mais especificamente no bairro Boa Vista, onde viveu Clarice Lispector na infância e adolescência.

Em uma dessas andanças, a artista acaba sendo atraída pelo antigo prédio no qual a escritora morava com a família. Ao observar o edifício abandonado, Glória acaba estabelecendo uma espécie de ligação com ele e, a partir daí, começa a viver uma experiência onírica, na qual o mundo palpável e o sonhado se mesclam.
O filme todo tem um apelo nostálgico ao rememorar constantemente o passado glorioso do bairro Boa Vista. Assim como o bairro, Glória está sempre a recordar-se de um tempo passado em que era mais feliz. Isso ao menos em um primeiro momento, pois tudo muda quando ela conhece o nômade Guitar (Pedro Wagner) que lhe apresenta uma nova forma de ver o mundo, sem tantas amarras e julgamentos. Doravante, Glória começa a se reconhecer como mulher, ao mesmo tempo que explora a cidade que tanto ama.
Confira o trailer:
Lispectorante: uma homenagem à obra de Clarice Lispector?
Embora a película se venda como um tributo aos textos de Lispector, pouco da autora é realmente visto ao longo da narrativa. Na verdade, além da bela fotografia e da criação de uma identidade surrealista, o roteiro é no geral fraco e superficial, bem distante das histórias cheias de profundidade escritas pela autora em que se inspira.
O grande trunfo do filme, porém, é a escalação da atriz Marcélia Cartaxo, que há 40 anos interpretou a inesquecível Macabéa no longa A Hora da Estrela (1985), adaptação do livro homônimo de Lispector. Cartaxo dá vida a uma personagem sensível, que quer agarrar o seu direito de desejar, viver intensamente e ser amada. Glória, de fato, reúne muitas das características de muitas personagens de Clarice.
Isso, no entanto, não foi o suficiente para sustentar um filme de 1h30. Por mais que tenha um mote bem delineado, a narrativa se perde nela mesma, deixando a trama completamente sem rumo. Nem as belas paisagens de Recife foram capazes de deixar interessante um filme que aparentemente tem muito a dizer, mas que ao final não nos revela muita coisa.
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Texto revisado por Laura Maria Fernandes de Carvalho









