A diretora Marcia Paraiso constrói um drama sensível e contundente, conduzido pela força emocional de Denise Fraga, que entrega uma das performances mais completas de sua carreira
Livros Restantes é um filme que transborda humanidade, às vezes em sutilezas quase imperceptíveis, às vezes em explosões necessárias. Marcia Paraiso conduz a narrativa com maturidade rara, enquanto Denise Fraga cria uma personagem que respira verdade em cada gesto. Um longa bonito, imperfeito e profundamente significativo.
Marcia Paraiso demonstra um domínio narrativo que equilibra lirismo e dureza em doses precisas. A diretora entende o poder do silêncio, do espaço e dos detalhes, construindo uma obra que confia no espectador e o convida a observar, não apenas a história, mas as rachaduras emocionais que a sustentam. Seu olhar é delicado sem perder força, e político sem perder intimidade.
No centro dessa sensibilidade está Denise Fraga, que entrega uma atuação de brilho incomum. A atriz cria uma personagem profundamente humana, evitando qualquer caricatura e trabalhando nuances emocionais com precisão quase cirúrgica. É um desempenho que cresce a cada cena, capaz de comover mesmo nos momentos mais contidos, justamente porque a atriz sabe que vulnerabilidade não precisa ser barulhenta para ser imensa.
O filme brilha ao explorar temas como memória, perda, ausência e reconstrução de identidade. A diretora costura essas camadas com segurança, utilizando a metáfora dos livros como elemento condutor de forma elegante. Nada é gratuito: cada movimento de câmera, cada pausa e cada objeto em cena carrega peso simbólico e emocional. É cinema pensado, sentido e articulado.

Entre os pontos mais positivos, destacam-se a direção de arte, que reforça o estado emocional da protagonista por meio de espaços que parecem guardar histórias, e a fotografia, que aposta em tons suaves para traduzir a melancolia que move a narrativa. O trabalho sonoro também merece elogios por nunca se sobrepor, mas sempre acompanhar a respiração interna da personagem.
Ainda assim, Livros Restantes não está isento de fragilidades. Em alguns momentos, a narrativa se estende mais do que o necessário, especialmente no segundo ato, onde a repetição de algumas situações enfraquece o impacto emocional. Há também cenas que desejam soar contemplativas, mas acabam sendo alongadas, prejudicando um pouco o ritmo e comprometendo parcialmente a fluidez do enredo.
Outro ponto que pode dividir o público é o uso constante de metáforas visuais. Embora a estética proposta por Paraiso seja consistente, há instantes em que sua carga simbólica se aproxima do excesso, não por falta de qualidade, mas pela densidade acumulada. Ainda assim, a diretora demonstra domínio suficiente para que essas escolhas funcionem no conjunto e reforcem o caráter poético do filme.
A trama se impõe como um dos trabalhos mais maduros de Marcia Paraiso e uma das grandes interpretações da carreira de Denise Fraga. O filme emociona, provoca, abraça, incomoda e, justamente por isso, permanece imperfeito, como as histórias que mais importam: é um drama que encontra beleza no que sobra, no que fica e no que resiste. Um cinema que valoriza a humanidade, mesmo quando ela parece fragmentada.
Livros Restantes já está em cartaz nos cinemas. Ansiosas para assistir? Comente nas redes sociais do Entretetizei – Instagram, Facebook e X – e siga a gente para não perder as notícias do mundo do entretenimento e da cultura.
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Texto revisado por Gabriela Fachin









