Série revisita crimes reais com uma abordagem dramatizada que desloca a dor para o espetáculo
Recentemente, o Prime Video lançou a série Tremembé, que retrata o cotidiano do presídio conhecido como “a cadeia dos famosos”, por abrigar envolvidos em alguns dos crimes mais marcantes dos anos 2000. Com cinco episódios, a produção se estrutura em intrigas, alianças e afetos que se formam dentro do cárcere, muitas vezes com um tom dramático e novelizado.
No centro da narrativa está Suzane von Richthofen (interpretada por Marina Ruy Barbosa), mas a série também se apoia nas histórias de Elize Matsunaga e outros nomes condenados por crimes amplamente divulgados pela mídia. A obra é baseada nos livros de true crime Suzane: Assassina e Manipuladora e Elize Matsunaga: A Mulher que Esquartejou o Marido, ambos do jornalista Ullisses Campbell, obras que têm caráter documental e investigativo.

No entanto, a série opta por transformar esse material em drama emocional, e é justamente aí que surge a questão ética: onde termina a reconstrução histórica e começa a romantização do crime?
Desde o primeiro episódio, fica evidente que Tremembé busca provocar o espectador, mas é preciso perguntar: provoca para fazer pensar ou provoca para entreter?
Ao dramatizar relações, aproximar personagens e criar cenas de intimidade, beijos, carícias e olhares longos que constroem uma atmosfera de romance, a série desloca o foco do impacto dos crimes para a vida afetiva de seus autores. Esse recurso não aprofunda a compreensão psicológica dessas figuras; ao contrário, cria identificação onde ela não deveria existir.
A própria trilha sonora contribui para essa construção. Faixas como Vida Loka – Pt 1 do Grelo, Corpo Sensual de Pabllo Vittar e Perigosa da Ana Cañas, aparecem em momentos que moldam sensações e criam clima, produzindo empatia e estilo. E é simbólico e problemático que Suzane, uma figura envolvida em um dos crimes mais emblemáticos do país, ganhe praticamente um tema emocional na narrativa.
Quando você pega um crime real, que destruiu famílias e marcou gerações, e o transforma em entretenimento, o luto não é apenas relembrado, ele é reorganizado.
A dramatização pode suavizar, reinterpretar, até reumanizar quem cometeu violência, enquanto as vítimas aparecem apenas como contexto, como prólogo e como ausência. Isso não seria problemático se o objetivo fosse reflexão. Mas aqui, o tom tende mais ao consumo do que à análise.
Tremembé parece saber do fascínio público pelo crime real e usa esse fascínio como motor. Contudo, ao fazer isso, flerta perigosamente com a espetacularização da tragédia: provoca não para compreender, mas para prender a atenção.
Ao final, a pergunta permanece e talvez seja a única realmente necessária: qual é o limite entre documentar e entreter quando a matéria-prima é a dor de pessoas reais? E, depois de ver a série, ainda não temos essa resposta. Mas talvez a resposta seja justamente o desconforto.
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Texto revisado por Gabriela Fachin










