Autor diz que se sente feliz em escrever para a infância e aconselha pais e professores que querem fomentar o hábito de leitura
Jeff Kinney, autor da famosa série de livros infanto-juvenil Diário de um Banana, acaba de publicar o 20º volume – intitulado Festa Insana –, que chegou ao Brasil em novembro com tradução de Alexandre Boide. A obra aborda os dilemas da pré-adolescência e traz de volta personagens conhecidos, como o desafortunado protagonista Greg Heffley, sua família e amigos. Best-seller mundial, a franquia conta com quatro filmes live-action e um longa-metragem de animação.
Publicado nacionalmente pela VR Editora, o novo livro se desenrola a partir de um acontecimento bastante desagradável na vida de Greg: sua própria família se esquece do seu aniversário. O garoto decide, então, organizar a festa sozinho, mas nada acontece conforme o planejado. Isso porque as comemorações são tomadas de convidados indesejados, brincadeiras constrangedoras e um desejo quase impossível – ser presenteado com um card raríssimo, que tem feito a cabeça de todos na cidade. Além disso, Greg precisa lidar com a humilhação pública, já que sua festa desastrosa viralizou nas redes sociais.
A narrativa em formato de diário, já clássica nas mãos de Kinney, é carregada de humor e reflexões que permeiam a vida do pré-adolescente. Entre elas, o medo de crescer, o anseio pelo pertencimento, o amadurecimento, além das expectativas e decepções inerentes à idade.
Quando a gente é criança, precisa fazer cada aniversário valer a pena porque, quando você vai ver, já virou adulto e a festa acabou.
(Diário de um Banana: Festa Insana, p. 3)
No Brasil, a série de livros é um fenômeno. Desde a publicação do primeiro volume, em 2007, a coleção já ultrapassou a marca de 14,3 milhões de exemplares vendidos. Mas o sucesso também é global: as edições de Diário de um Banana foram traduzidas para 62 idiomas e já se comercializaram 275 milhões de cópias ao redor do mundo.
Jeff Kinney considera escrever para crianças uma grande responsabilidade e reflete sobre o seu papel na formação de novos leitores. O autor acredita que o êxito de suas histórias se deve ao fato de que os pequenos, seja em qual lugar estiverem no planeta, se identificam com Greg e seus dilemas. Em entrevista ao Entretetizei, Kinney fala sobre a literatura para infância, os desafios em atrair as crianças para o mundo dos livros e sua conexão com os fãs brasileiros. Confira!

Entretetizei: Greg sempre se encontra em apuros, mas desta vez precisa lidar com seu próprio aniversário esquecido. O que inspirou essa história em particular?
Jeff Kinney: Acredite ou não, minha própria família esqueceu meu aniversário. Eu não posso dizer quando foi (porque meus familiares não vão ficar felizes comigo). Mas aconteceu! Eu achei que seria uma maneira divertida de começar uma história sobre um aniversário – o que poderia ser pior para uma criança do que a própria família esquecer seu aniversário?
E: Após 20 livros, como você mantém a série com o mesmo frescor e diversão sem se repetir?
JK: Esse é um grande desafio! Eu já escrevi sobre tantos tópicos diferentes, e é muito difícil não me repetir. Felizmente, a infância é um universo enorme, e sempre há novos assuntos para abordar. Espero que eu continue trazendo histórias que surpreendam e agradem às crianças!
E: Quando você começou a série em 2007, você imaginou que chegaria ao vigésimo livro e se tornaria um fenômeno global?
JK: Eu acho que eu tinha um sonho de rockstar de me tornar um cartunista conhecido mundialmente, mas isso nunca pareceu realista para mim. Na verdade, eu tenho uma piada sobre isso no meu primeiro livro de Diário de um Banana, no qual Greg se imagina respondendo a perguntas de repórteres. E agora aqui estamos nós, tantos anos depois, e estou respondendo às perguntas de uma jornalista! Para mim isso é uma loucura!
E: O estilo de diário escrito à mão e os desenhos de traços simples tornaram-se a sua marca. Você acha que esse formato ajuda os leitores mais jovens sentirem-se mais conectados aos livros?
JK: Quando uma criança abre um dos meus livros, ela pode perceber que eles parecem com algo divertido, não massante. Eu acho que o formato de diário ajuda – uma criança pode mergulhar diretamente dentro da mente de Greg e ver as coisas do ponto de vista do personagem. Eu tento inserir ilustrações suficientes para fazer a criança sobreviver à história inteira – os cartoons são uma recompensa visual.
E: Muitos fãs dizem que Diário de um Banana foi o primeiro livro que leram por diversão. Como você vê o seu papel em ajudar a criar novas gerações de leitores?
JK: É um privilégio escrever para crianças. Eu acho que é muito importante para uma criança sentir que teve sucesso ao ler um livro. Porque se uma criança tem esse sentimento de sucesso, existem grandes chances dela procurar outra leitura. Me faz muito feliz saber que meus livros pavimentaram o caminho para algumas crianças tornarem-se leitoras para a vida toda.
E: Em um mundo cheio de telas e distrações, o que você acha que ainda faz um livro capturar a imaginação de crianças e jovens?
JK: Eu acho que os livros são únicos, porque permitem que os leitores olhem dentro da mente do personagem principal. Nada mais faz isso tão bem. Quando uma criança consegue ver algo a partir do ponto de vista de outra pessoa, desenvolve empatia pelo outro. E talvez por alguém que seja diferente dela.

E: Que conselho você daria para pais e professores que estão tentando incentivar as crianças a lerem mais?
JK: É muito importante saber onde a criança está na sua jornada como leitora. Às vezes, os pais e professores oferecem livros que são muito desafiadores para os pequenos. Isso pode produzir efeitos negativos. Devemos conhecer os interesses da criança e oferecer livros que foquem nesses interesses. Isso vai promover uma conexão positiva entre livros e diversão.
E: O humor do Greg frequentemente esconde sentimentos profundos de insegurança e dores crescentes. O que você aprendeu sobre adolescência após tantos anos escrevendo sob a perspectiva do personagem?
JK: Aprendi que crianças são iguais em qualquer lugar do mundo. Meus leitores na China, Brasil, Nova Zelândia e Turquia amam Diário de um Banana, e isso é porque eu seguro um espelho para a vida deles. Os jovens se veem no Greg, e eles veem suas famílias nos Heffleys. A linguagem da infância é universal.
E: Você também é pai. Como você enxerga a maneira que as crianças de hoje lidam com pressão social, popularidade e autoimagem – temas que aparecem em Festa Insana?
JK: Eu acredito que as crianças são iguais, não importando a geração em que estão crescendo. Eu tento escrever sobre temas que as crianças experienciam ao redor de todo o planeta, independente da cultura na qual estão inseridas.
E: Diário de um Banana é um grande sucesso no Brasil, com mais de 14 milhões de cópias vendidas no país. Como você se sente sobre essa conexão com os leitores brasileiros?
JK: Para mim é uma conexão incrivelmente especial. Meu primeiro contato com o Brasil foi nos anos 1990, quando a Xuxa tentou estabelecer um show nos Estados Unidos. Eu fiquei fascinado pelas cores, pelo caos, pela música. Eu não consigo acreditar que as crianças do Brasil gostam de algo que eu criei. Até conheci a Xuxa, já que a filha dela leu meus livros!
E: Se o Greg pudesse visitar o Brasil, o que você acha que ele acharia de mais “insano” sobre o país?
JK: Eu acho que ele ficaria encantado pela cultura de praia, especialmente no Rio. Ah, e o Fogo de Chão – ele amaria ter a sua carne servida em espetos de metal! Isso não é tão comum nos Estados Unidos!
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Texto revisado por Larissa Couto @larscouto









