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Foto: divulgação / M.G. Ferrey

Entrevista | M.G. Ferrey: “O livro de fantasia não serve para escapar da realidade, mas para olhá-la de outro ângulo”

Autora é a mente criadora de Aquorea, reino subaquático repleto de mistérios

M.G. Ferrey, escritora portuguesa, escolheu o Brasil para ambientar a romantasia Aquorea: Inspira — obra que se passa em um universo fantástico e subaquático. O livro, sucesso de vendas em Portugal, acaba de chegar às livrarias brasileiras pela Editora Galera e promete fisgar os amantes de fantasia e de romances mágicos. 

Ferrey, na verdade, é formada em Psicologia Clínica, mas seu sonho era viver da escrita. Intrigada pela mente humana, afirma que este histórico profissional a acompanha no momento de desenvolver suas histórias e personagens. “A minha escrita é muito emocional — e isso vem, em parte, da escuta ativa, da empatia e da observação clínica que a psicologia me ensinou”, explica. 

Nas páginas de Aquorea, o leitor conhecerá Arabela, uma jovem que vê seu mundo virar de cabeça para baixo ao desvendar segredos familiares. A trama se desenrola a partir do momento que Arabela realiza uma viagem ao Brasil para o funeral do avô. Quando ela acorda após sofrer um acidente — é arrastada pelas cataratas da Garganta do Diabo — acaba se surpreendendo ao encontrar o avô que deveria estar morto. Arabela tem, assim, a sua vida revirada, tendo que descobrir e se adaptar a uma realidade completamente diferente.

A garota será resgatada pelo estranho Kai, um guerreiro subaquático e mal-humorado que a levará para conhecer Aquorea, mundo milenar que prosperou a milhares de metros abaixo do nível do mar. Embora tenham algumas diferenças entre eles, os dois precisarão abandoná-las, já que uma onda de misteriosos assassinatos chega para desestabilizar o reino.

Em entrevista, M.G. Ferrey discorre sobre a construção de universos fantasiosos, mitologia e a importância de se preocupar com a complexidade psicológica dos personagens. Confira!

Foto: reprodução / Galera Record

Entretetizei: Como surgiu a ideia de ambientar a história num reino submarino situado no Brasil?

M.G. Ferrey: A ideia de Aquorea nasceu da vontade de criar um mundo que fosse simultaneamente mágico e possível. E quando comecei a desenvolver o universo da saga, quis que fosse o Brasil — pela sua riqueza cultural, biodiversidade e força simbólica — a acolher um portal para este mundo escondido sob as águas. Quis ligar o real ao imaginário de uma forma emocionalmente poderosa, e isso ressoava com o que eu queria construir: um lugar onde a vida pulsa de forma visceral.

E: A Arabela vive uma experiência transformadora logo no início do livro. O que representa essa jornada para si, enquanto autora?

M.G. F: Para mim, a jornada da Arabela é também a jornada de quem escreve — e de quem lê. Ela é empurrada para um abismo, para um mundo que desconhece, mas onde, de alguma forma, pertence. A sua transformação representa a coragem de se desfazer das certezas, de questionar tudo o que sempre acreditou, e de mergulhar — literalmente — no desconhecido. Como autora, escrever essa queda e essa reconstrução foi quase terapêutico. Foi como revisitar os meus próprios medos e confiar que, mesmo nas profundezas, há sempre um caminho de volta à luz.

E: O Kai, o guerreiro subaquático, é uma personagem enigmática e cheia de camadas. Como foi o processo de criação desta figura?

M.G. F: O Kai foi uma espécie de tormenta criativa. Queria que ele não fosse “descodificado” facilmente. Era uma personagem que guarda tanto dentro de si, que me obrigou a escrever com mais silêncio, nas entrelinhas. Criei o Kai como um espelho quebrado — alguém que, por fora, parece forte e contido, mas por dentro carrega dores, perdas e um senso de dever que beira a obsessão. Foi uma das personagens mais desafiadoras de escrever… e das mais recompensadoras.

E: Consegue equilibrar elementos de fantasia com temas mais profundos, como o luto e a descoberta pessoal. Foi algo intencional desde o início?

M.G. F: Totalmente intencional. Para mim, a fantasia não serve para escapar da realidade — serve para a olhar de outro ângulo. Sempre quis que Aquorea fosse mais do que um lugar mágico: que fosse um reflexo das dores humanas, das nossas lutas internas, daquilo que tentamos esconder até de nós mesmos. O luto, a identidade, a pertença, a perda — tudo isso está ali. A magia é apenas o veículo. O que move a história são as emoções.

E: Há uma presença muito forte de mitologia e magia em Aquorea. Inspirou-se em mitologias existentes ou criou uma mitologia original para este universo?

M.G. F: Criei uma mitologia original, mas fui buscar inspiração a várias tradições. A ideia era construir uma cosmogonia própria — uma explicação simbólica da origem e funcionamento deste mundo subaquático — com uma lógica interna que respeitasse o equilíbrio entre natureza, poder e espiritualidade. É um sistema com regras, marcado por feridas antigas e memórias profundas. Quis que a magia fizesse parte do ecossistema, e não fosse apenas um adorno estético.

E: Os assassinatos misteriosos em Aquorea introduzem um elemento de suspense na narrativa. O mistério sempre fez parte do seu estilo de escrita, ou foi um novo desafio?

M.G. F: Foi um delicioso desafio. Sempre gostei de leituras que me deixam desconfiada, atenta, a tentar montar o quebra-cabeça. Quis trazer esse elemento de mistério para Aquorea como uma forma de manter o leitor alerta, mas também para mostrar que nem tudo o que parece mágico é inofensivo. A fantasia torna-se mais interessante quando tem sombras, quando há segredos perigosos e perguntas sem resposta. O suspense é um convite à curiosidade, à dúvida, à inquietação — e é isso que faz virar página atrás de página.

E: É formada em Psicologia Clínica. De que forma essa formação influenciou a criação das personagens e dos seus conflitos internos?

M.G. F: Influencia tudo. Costumo dizer que escrevo de dentro para fora. A formação em Psicologia ajudou-me a compreender as camadas do comportamento humano, os silêncios que dizem mais do que as palavras, os traumas que moldam quem somos. Gosto de criar personagens com profundidade, contradições, feridas que não são óbvias. A minha escrita é muito emocional — e isso vem, em parte, da escuta ativa, da empatia e da observação clínica que a psicologia me ensinou.

E: O que a levou a trocar o consultório pela escrita? Foi uma decisão repentina ou algo que amadureceu com o tempo?

M.G. F: Foi um processo. A escrita sempre esteve comigo, desde criança. Mas durante muito tempo, foi apenas um refúgio — um lugar onde eu podia ser livre. O consultório ensinou-me muito, mas também me drenava emocionalmente. Chegou um momento em que percebi que queria falar ao mundo de outra forma. A escrita não foi uma fuga. Foi um reencontro. Um lugar onde posso continuar a explorar a alma humana — mas através da ficção, com liberdade criativa e voz própria.

E: Já conquistou milhares de leitores em Portugal. Como tem sido a recepção do público brasileiro ao lançamento do livro no Brasil?

M.G. F: Está a ser um momento muito especial. O livro chegou ao Brasil há muito pouco tempo — foi lançado a 30 de junho — e os leitores estão agora a começar a recebê-lo, a mergulhar nesta história e a partilhar as primeiras impressões. Tem sido emocionante ver esse início de conexão. Sinto uma curiosidade genuína e uma abertura muito bonita para este universo. Claro que ainda é cedo, mas começo a sentir o calor e o entusiasmo do público brasileiro — e isso deixa-me profundamente grata e esperançosa. Mal posso esperar para acompanhar essa viagem com eles.

E: Como é o seu processo de escrita? Tem uma rotina definida ou escreve consoante a inspiração?

M.G. F: Tenho disciplina, mas não rigidez. Escrevo quase todos os dias, mesmo que sejam apenas frases soltas, ideias, diálogos que surgem. A inspiração, para mim, é uma consequência do hábito — aparece mais facilmente quando me sento e dou espaço para ela surgir. Claro que há dias em que tudo flui… e outros em que parece que estou a escrever com pedras. Mas faz parte. Escrever é resistência e entrega.

E: Que autores ou obras marcaram a sua formação como leitora e influenciaram a sua escrita?

M.G. F: Muitos. Clarice Lispector ensinou-me o poder do silêncio e do subtexto. V. E. Schwab, a construir mundos com alma. Margaret Atwood, a usar a ficção como faca política. Também me influenciam autores portugueses como Lídia Jorge, Dulce Maria Cardoso e José Luís Peixoto, cuja escrita me tocou em diferentes fases da vida. E, claro, o cinema, a música, a poesia… tudo o que me emociona e me faz pensar acaba por deixar marcas naquilo que escrevo.

E: Qual foi o maior desafio ao escrever Aquorea: Inspira — e qual foi o momento mais gratificante do processo?

M.G. F: O maior desafio foi manter o equilíbrio entre o mundo fantástico e a dor real que atravessa as personagens. Queria que os leitores se envolvessem emocionalmente, mas sem perder o ritmo da aventura. O momento mais gratificante? Quando comecei a receber mensagens de leitores a dizer: “Este livro salvou-me num momento difícil.” Aí percebi que Aquorea tinha deixado de ser só meu — e isso é o que dá verdadeiro sentido à escrita.

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Texto revisado por Simone Tesser @simone_alleotti

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