Mestre na escrita de dicionários, o escritor e intelectual brasileiro lança nova obra que une o acadêmico ao popular
Qual o significado de termos como “decolonialidade”, “Estado democrático de direito” e “lugar de fala”? Embora amplamente difundidos nas redes sociais e em ambientes acadêmicos, ainda podem ser mal compreendidos. É por isso que uma obra como Dicionário dos Direitos Humanos e Afins, escrita pelo intelectual brasileiro Nei Lopes, ocupa um lugar chave para traduzir tais expressões para a linguagem cotidiana.
O livro acaba de chegar às livrarias pela Editora Civilização Brasileira e oferece quase 500 verbetes que deslindam e passam para a fala popular conceitos e práticas do âmbito dos direitos humanos.
Neste dicionário, Lopes reúne ferramentas pensadas para expandir a leitura de mundo de ativistas, pesquisadores, estudantes e educadores. Não são apenas palavras reunidas em uma folha: são significações que reverberam na vida prática. Debater sobre os direitos humanos é fundamental para assegurar a dignidade de todos, principalmente aos grupos que ainda são marginalizados.
Desse modo, por meio de uma linguagem extremamente acessível, os vocábulos ligados a esse enorme campo teórico apresentam uma nova maneira de pensar o mundo atual. A obra também traz verbetes mais populares, como “periferia”, “samba” e “discurso de ódio”, mostrando o elo entre oralidade e academicismo.
Outras obras de referência do autor são Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (2004), Novo Dicionário Banto do Brasil (1999) e Dicionário da Antiguidade Africana (2021). Nelas, o autor busca sempre difundir conceitos importantes de forma clara, porém sem perder a profundidade.
Vencedor do Prêmio Jabuti e bacharel em Direito e Ciências Sociais pela UFRJ, Nei Lopes é considerado um dos principais intelectuais brasileiros em atividade. Além de se dedicar à escrita de dicionários, já escreveu mais de 40 livros, entre ficção e poesia. É também um compositor premiado, acumulando parcerias e obras que foram interpretadas por nomes como Alcione, Candeia, Clara Nunes, Dona Ivone Lara e Zeca Pagodinho.
Em entrevista ao Entretetizei, Nei Lopes fala sobre o processo de elaboração da obra, assim como a fusão entre linguagem cotidiana e acadêmica. Confira!

Entretetizei: Por que criar um dicionário que traduzisse conceitos de direitos humanos para a linguagem cotidiana?
Nei Lopes: Os motivos foram meu amor pelo Direito e minha preocupação com a humanidade, como escrevi no prefácio. Sinceramente!
E: Como foi o processo de selecionar os quase 500 verbetes? Houve termos que você considerou indispensáveis desde o início?
NL: Já estou acostumado, pois sou autor de vários dicionários e até de uma Enciclopédia da Diáspora Africana, que escrevi sozinho, recebendo apenas algumas colaborações de amigos e amigas. E os verbetes deste são curtos. Neste, o primeiro que vislumbrei como necessário foi o do “Ensino Cívico Militar”.
E: Como foi balancear termos populares e acadêmicos?
NL: Meu trabalho é exatamente esse equilíbrio. E quem me conhece sabe que meus interesses estão mais no “samba” e na “periferia” do que no mundo acadêmico. Eu sou apenas um bacharel em Direito, que se desiludiu com a advocacia, mas ama o Direito, sobretudo no que diz respeito à humanidade. Tanto que mantenho ativa minha inscrição na OAB-RJ.
E: Houve algum desafio ao transformar um campo teórico denso em um material acessível para qualquer leitor?
NL: Eu escrevo e publico livros há meio século. E não só dicionários, como romances, poemas, infanto-juvenis e peças de teatro. E não me meto em nada que eu não conheça. Nunca me imaginei escrevendo sobre economia, por exemplo.
E: Como você enxerga a função política desse dicionário no Brasil de hoje?
NL: Ele está chamando bastante atenção, e a editora é boa. Então, pode chegar onde eu quero, ou seja: desmistificar toda essa “enganação” que anda por aí, pra gente botar o país “na régua”.
E: Qual o papel da oralidade e da fala cotidiana na defesa dos direitos humanos?
NL: A oralidade tem que aprender a botar a boca no trombone e não comer gato por lebre.
E: Em sua opinião, por que os direitos humanos, que deveriam ser consenso, ainda sofrem tanta resistência e distorção no debate público brasileiro?
NL: O Brasil, lamentavelmente, é um país colonizado do ponto de vista cultural. Por isso, o povo acha que qualquer coisa que venha de fora é melhor do que qualquer produto nacional.
E: Que papel a cultura e as expressões populares, como o samba, desempenham na construção e na prática dos direitos humanos?
NL: O papel está escrito na Constituição Federal, que tem muito mais do que apenas “quatro linhas”. E, com relação ao samba, quando se confunde com carnaval, também atrapalha.
E: Qual o lugar da literatura na preservação e no fortalecimento da democracia?
NL: O papel da literatura é trabalhar para não deixar o povo ser enganado. É ensinar os bons caminhos, do presente e do passado.
E: Em tempos de desinformação e ataques às instituições, como a escrita pode contribuir para a formação de leitores mais críticos e conscientes?
NL: Estamos precisando de mais inteligência de verdade e menos inteligência artificial!
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Texto revisado por Sabrina Borges de Moura @_itsbrinis









