Escritora explica como faz para trazer a cultura sul-coreana para a realidade brasileira
A maranhense Tatielle Katluryn foi uma das primeiras autoras brasileiras a se aventurar pelo k-drama cristão – gênero que tem se popularizado entre os jovens e que traz tramas sobre paixão, esperança e fé. São narrativas que unem o formato dos dramas asiáticos, principalmente os sul-coreanos, com temáticas ligadas à significação espiritual. Formada em Psicologia, Katluryn também preza pela construção de histórias que abordem a saúde mental e a busca por ajuda.
Ambientada na época de Natal, Como Um Dia Sem Fim (2025) é a mais nova publicação da autora, inspirada em uma situação real que vivenciou anos atrás. Na obra, o leitor conhecerá Dominic, uma jovem prestes a pegar um voo de São Luís para São Paulo, mas que está cheia de inseguranças e medo de voar. Neste momento, conhece Jae-won, um coreano-brasileiro amável e divertido. Uma conexão imediata surge entre os dois que, lado a lado, enfrentarão feridas e traumas do passado. O livro ainda é permeado de tropes literárias, como enemies to friends, instalove e faith healing.
Tatielle Katluryn também é a autora dos títulos O Horizonte Mora em Um Dia Cinza (2024) e Se o Dia Não Estiver Sorrindo (2025). Em entrevista ao Entretetizei, ela explica como se inspira nos k-dramas para escrever e como a cultura sul-coreana se encontra com a brasileira. Confira!

Entretetizei: Como Um Dia Sem Fim mistura clima de k-drama com espiritualidade cristã. Como foi a construção dessa narrativa?
Tatielle Katluryn: A construção dessa história foi bem diferente das outras pelo fato dela ter fluido muito mais rápido. Eu escrevi a primeira versão em menos de 15 dias, após uma situação inusitada que vivi no final de 2023, em uma conexão de Brasília para São Paulo.
Num belo dia em que fui bastante fanfiqueira, um sorriso inusitado que recebi assim que entrei no avião me inspirou a escrever o livro. A segunda versão, eu escrevi em mais ou menos um mês e meio, mas foi um processo muito gostoso de escrita e de aprofundar mais a narrativa.
E: Dominic é uma jovem cheia de medos e inseguranças. Quanto dessa ansiedade veio da sua própria vivência e quanto foi criação literária?
TK: A Dominic é de longe umas das personagens mais parecidas comigo, pelo fato de que eu também tenho dificuldade em exercer minha fé e não criar cenários desastrosos na minha cabeça, além de que para mim é mais fácil pensar no pior e no que pode dar errado. A Dominic é exatamente assim.
E, diante de alguns problemas pessoais, acabei desenvolvendo a ansiedade e, assim como a minha personagem, foi muito difícil aceitar que eu não estava bem e precisava de ajuda. Mas graças a Deus consegui me cuidar e quis deixar essa mesma esperança com a Dominic no final do livro. A esperança de não estarmos sozinhos e de que precisamos buscar ajuda.
E: O que te inspira na cultura dos k-dramas e como você decidiu incorporar isso nas suas obras?
TK: Eu sou apaixonada pelos k-dramas desde 2019 e eles me deram um boom de criatividade! A partir do primeiro drama que assisti, eu sabia que queria escrever algo assim. Eu fiquei encantada com como eles colocavam uma trama profunda por trás dos romances e que nunca era apenas uma história de amor, sempre tinha algo a mais. E eu vi que poderia escrever algo nessa pegada com os princípios cristãos.
E: Qual trope literária você mais gosta de trabalhar – e qual ainda quer explorar?
TK: Essa é uma pergunta difícil, porque eu sou apaixonada por tantas! Mas a que eu mais uso é a de estranhos para amantes e amigos para amantes. Em Como um Dia Sem Fim, eu usei o de estranhos para amantes. E eu gosto muito de como os personagens tiveram aquela conexão instantânea, como um amor à primeira vista.
E: O Natal tem um significado especial para você como pessoa e como escritora?
TK: Quando eu escrevi o livro, foi perto da época do Natal e eu queria muito lançar em dezembro. Quando comecei a escrever, eu não pensei muito no significado dessa festividade para mim, mas, conforme eu fui escrevendo, eu vi que o Natal tinha tudo a ver com a magia do romance inesperado entre o Jae e a Dominic, era como estar assistindo a um filme clichê de romance natalino, mas com uma narrativa que pode ser lida em qualquer época do ano e que vai continuar tocando, curando e sendo encantadora.
E: O que mais te preocupa ou motiva quando escreve sobre saúde emocional para jovens leitoras?
TK: O que mais me motiva são os feedbacks que já recebi de leitoras, em que algumas até me mandaram áudio chorando ao falar o quanto se identificaram, se sentiram tocadas e curadas com as histórias. Apesar de que, na primeira obra que escrevi, recebi críticas por abordar a depressão em O Livro Perdido de Yerin Davies. Isso em 2020, mas hoje eu vejo que o propósito é maior e, como psicóloga, eu tenho responsabilidade em abordar a saúde mental nos meus livros e incentivar a busca por ajuda.
E: Qual personagem te desafiou mais durante a escrita?
TK: Em Como Um Dia Sem Fim, foi a Dominic Sanchez, uma personagem muito complexa, com várias camadas e traumas, mas ela tem ajudado muitas pessoas que passam pelo mesmo. Acredito que, nessa nova edição do livro, os leitores serão ainda mais tocados.
E: Você se tornou conhecida pelo termo k-dramas cristãos. Para você, quais elementos são essenciais no gênero?
TK: Comecei a escrever k-dramas em 2020. Na época, era tudo mato e praticamente ninguém escrevia este gênero. Apenas uma autora se aventurou a escrever k-drama cristão e junto comigo fomos pioneiras. Os principais elementos são colocar elementos culturais da Coreia do Sul, pesquisar bastante e respeitar a cultura deles, além de colocar elementos clichês dos k-dramas e escrever protagonistas sul-coreanos profundos.
E: Os k-dramas têm um jeito muito próprio de contar histórias, que podem se diferenciar bastante da literatura produzida no Brasil. Como você adapta essa essência dorameira ao nosso contexto?
TK: Eu nunca deixo de abordar a cultura brasileira, em especial a nordestina e maranhense nos meus livros. Para mim, é um prazer colocar frases típicas, músicas, comidas e até o refrigerante Jesus, como fiz em Se o Dia Não Estiver Sorrindo. O bom é que as pessoas riem, entendem as referências e ficam encantadas.
E: Jae-won é coreano-brasileiro. Quais cuidados você tomou para representar essa identidade de forma respeitosa e realista?
TK: Como em todas as minhas obras, eu sempre estudo muito sobre a história da Coreia e em especial sobre como foi o processo dos imigrantes sul-coreanos aqui no Brasil. É uma parte da escrita que eu amo fazer, que é a de pesquisar profundamente sobre a cultura sul-coreana para colocar nos livros.
E: Quais são os autores e autoras que mais te inspiram?
TK: Uma autora que ainda me inspira muito é a Jane Austen, pois a escrita dela é profunda, os personagens da Jane têm muitas camadas, até mesmo os secundários, e ela também aborda dramas familiares, além de ter princípios cristãos e sempre terminar suas histórias com um final feliz, que deixa aquele quentinho no coração.
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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz









