A nova campanha do Centro Cultural Coreano no Brasil lembra que respeitar uma cultura começa por chamá-la do jeito certo, e que dorama não é sinônimo de K-drama
Dois anos atrás, quando publicamos no Entretê aquele texto explicando que K-drama não é dorama, muita gente achou que era implicância. Que era detalhe, que dava na mesma, que ninguém precisava ser “tão literal assim”. De lá pra cá, a cultura coreana só cresceu. Hoje é quase impossível passar uma semana sem ver uma nova série sul-coreana no top 10 da Netflix, uma receita de ramyeon viralizando no TikTok ou uma faixa do BTS tocando em algum comercial. O problema é que, junto com a expansão, veio também a repetição dos velhos equívocos, e o mais insistente deles ainda é o jeito errado de nomear o que se consome.
Agora, o Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB) resolveu puxar o assunto de volta para o centro da conversa. A instituição lançou a campanha Nomear é Respeitar, que marca o Dia do Hangul, a escrita coreana criada no século XV e celebrada todo 9 de outubro, data que acaba de ser incluída no calendário oficial do Estado de São Paulo. É um marco simbólico e institucional, mas também um lembrete: a cultura não se espalha só por produtos, e sim por linguagem. Chamar as coisas pelo nome certo é o mínimo que se espera de quem se diz fã.
Um país, uma língua, uma identidade, e nenhum deles é genérico
Quando o CCCB fala em “nomear é respeitar”, não é apenas sobre palavras soltas. É sobre reconhecer que a Coreia do Sul não é um apêndice de um grande bloco chamado “cultura asiática”. Cada país tem seu idioma, sua história e suas formas de expressão. No caso da Coreia, o Hangul é mais do que um alfabeto, é um símbolo de autonomia e reconstrução.
Criado em 1443 pelo rei Sejong, o Hangul foi pensado para ser simples, acessível e democrático, para que todos pudessem ler e escrever. É, portanto, uma invenção que nasce da ideia de que nomear o mundo é um direito coletivo. E é curioso como, séculos depois, o país precisa lembrar o público global que ainda hoje nomear as coisas com precisão continua sendo um ato de respeito.

O Brasil, claro, não é exceção. A popularização dos conteúdos coreanos chegou por aqui junto com uma avalanche de produtos de diferentes países asiáticos, e tudo isso desembarcou num mercado acostumado a generalizar. Por muito tempo, dorama virou sinônimo de qualquer série asiática, mesmo que o termo venha do japonês drama, usado para definir apenas produções do Japão. A confusão pegou, viralizou e virou hábito.
Mas hábito não é justificativa. Usar dorama para falar de série coreana é o mesmo que chamar novela brasileira de telenovela mexicana só porque ambas têm capítulos longos e histórias intensas.
E o ponto é esse: ninguém pede para o público saber coreano. O pedido é bem mais simples: entender que cada cultura tem o direito de ser reconhecida por sua própria voz.
Quando o respeito começa pelo vocabulário
O argumento central da campanha do CCCB é direto: chamar as coisas pelo nome certo é um ato de reconhecimento. Isso não é preciosismo linguístico, é responsabilidade cultural.
O diretor do centro, Cheul Hong Kim, explica que o objetivo é estimular o uso de palavras coreanas, não apenas para evitar confusões, mas como forma de “reverenciar a identidade cultural da Coreia”. Essa reverência se traduz em algo prático: a campanha produziu um guia de termos comumente confundidos, que será distribuído a comunicadores e disponibilizado ao público.

O material não é um dicionário chato, mas um lembrete didático de que o vocabulário molda a forma como enxergamos o mundo. Quando o público insiste em chamar hanbok de kimono ou kimbap de sushi, reforça uma ideia simplista de que tudo na Ásia é igual, e isso apaga histórias, tradições e até valores que são únicos.
Afinal, admirar uma cultura sem respeitar seus nomes é como gostar de alguém sem nunca aprender a pronunciar o nome dessa pessoa. Parece carinho, mas soa descuido.
Da Hallyu à confusão linguística
A chamada Hallyu — ou onda coreana — é hoje um dos movimentos culturais mais fortes do planeta. Não é exagero dizer que a Coreia do Sul virou referência global em praticamente todas as áreas do entretenimento: música, cinema, literatura, games, moda, gastronomia e até filosofia.
O K-pop redefiniu padrões estéticos e de produção musical; o cinema coreano mudou o jeito como Hollywood olha para o cinema de fora; e a televisão sul-coreana transformou o streaming com formatos que misturam realismo emocional, estética refinada e críticas sociais afiadas. Tudo isso enquanto a literatura do país ganha reconhecimento global com autoras como Han Kang, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura.

Mas quanto mais global a Coreia se torna, mais urgente fica a necessidade de preservar sua singularidade. É o paradoxo do sucesso cultural: quanto mais popular, mais propenso a ser diluído. E é nesse ponto que o erro de vocabulário vira um sintoma maior.
Porque quando o mundo inteiro começa a consumir os mesmos símbolos, mas não se importa em entender suas origens, o intercâmbio vira apropriação e o respeito se perde pelo caminho.
K-drama é K-drama e não, não é só uma questão de semântica
O k-drama é um gênero próprio. Produções como Pousando no Amor, Round 6, Itaewon Class, Goblin e Tudo Bem Não Ser Normal carregam temas, estruturas narrativas e estéticas que refletem a experiência coreana contemporânea: o contraste entre tradição e tecnologia, o peso da hierarquia, o luto, a solidão urbana e o desejo por redenção. São histórias que dialogam com o mundo, mas nascem de um contexto muito específico.

Quando o público chama essas séries de dorama, não é apenas um erro técnico, é uma forma de apagar o que as torna únicas.
A palavra dorama vem da pronúncia japonesa de drama, e se refere, originalmente, a produções japonesas de TV. É um termo legítimo dentro da cultura japonesa, mas não tem relação direta com a coreana. O termo globalmente reconhecido é k-drama, usado inclusive pelos próprios coreanos e pelas plataformas internacionais.
Então, não é sobre “corrigir alguém na internet”. É sobre lembrar que cada nome carrega uma história, e que o mínimo que podemos fazer, enquanto consumidores de cultura, é tentar chamá-la pelo nome certo.
Nomear é respeitar: quando a palavra certa muda o olhar
“A campanha tem o objetivo de apresentar e estimular o uso de palavras coreanas, não apenas para evitar confusões, mas também como forma de reconhecer e reverenciar a identidade cultural da Coreia. Aproveitamos as comemorações do Dia do Hangul para lançar e chamar atenção para o tema”, afirma Cheul Hong Kim, diretor do Centro Cultural Coreano no Brasil.
A fala é simples, mas resume uma questão muito mais ampla: a ideia de que a forma como nomeamos as coisas molda a forma como as enxergamos. E que, quando o público confunde termos, o problema não é apenas semântico, é simbólico. O nome é o que dá existência, e mudar o nome, mesmo sem querer, é mudar o sentido. Por isso, o CCCB preparou um guia explicativo com alguns dos termos mais confundidos da cultura coreana. A proposta é que as pessoas — principalmente quem comunica cultura — passem a usar o vocabulário correto. O guia é leve, direto, mas cheio de contexto histórico e cultural. E ele ajuda a perceber o quanto o idioma carrega a alma de um país.
Entendendo as diferenças: um mergulho no essencial
O primeiro exemplo é o hanbok, o traje tradicional da Coreia. Ele tem linhas suaves, curvas elegantes e é composto por partes separadas, o jeogori e a chima ou baji. Muita gente, no entanto, ainda chama o hanbok de kimono, por puro reflexo. Mas o kimono é japonês, feito de uma só peça. Confundir é natural para quem está começando, mas repetir o erro sem se importar já é descuido.

O mesmo vale para o k-drama, talvez o termo mais repetido (e mais distorcido) do vocabulário pop coreano. É assim que se chamam as produções audiovisuais da Coreia do Sul. O termo dorama vem da romanização japonesa da palavra “drama”, e se refere apenas às produções japonesas. A confusão pegou, mas o termo correto, usado inclusive pelas plataformas, é k-drama.

O guia também fala sobre o webtoon, tipo de quadrinho digital coreano feito para leitura vertical e otimizado para celular, diferente do mangá japonês, impresso e em preto e branco. O webtoon moldou uma geração inteira de artistas e deu origem a títulos como Sweet Home e True Beauty.

Os jeotgarak, talheres tradicionais coreanos, também são citados: feitos de metal, mais longos e achatados que os hashis japoneses. Já o kimbap é um rolinho de arroz temperado com óleo de gergelim, diferente do sushi, que leva vinagre no arroz. E o ganjang (molho de soja fermentado) não é o mesmo que shoyu, assim como o doenjang (pasta fermentada de soja) é diferente do miso japonês.

A culinária coreana ainda tem o ramyeon, o famoso macarrão instantâneo, símbolo do K-food, frequentemente confundido com o ramen japonês. Mas o ramyeon é industrializado e afetivo, enquanto o ramen é artesanal. Outros exemplos incluem o mandu, semelhante ao guioza, e o soju, destilado transparente que muitos confundem com o saquê japonês. Cada termo carrega séculos de história e identidade.

Entre o consumo e a consciência
A popularização da cultura coreana no Brasil, especialmente com o avanço do streaming, fez muita gente se aproximar da língua, da música e até da comida. Mas também deixou claro que interesse sem escuta pode virar superficialidade.
Gostar de k-drama, usar skincare coreano e postar fotos tomando soju pode ser divertido, mas isso não é o mesmo que compreender uma cultura. A campanha Nomear é Respeitar aponta exatamente para esse ponto cego: a tendência de transformar o diferente em produto, sem perceber que cada produto carrega um contexto.
A crítica não é moralista, é educativa. Porque, no fim, ninguém nasce sabendo. Mas o que o CCCB provoca é uma mudança de postura: parar de achar que “tudo bem chamar de dorama, todo mundo entende o que eu quis dizer” e começar a pensar que talvez o esforço de nomear corretamente seja parte da empatia.
Respeitar não é repetir palavras estrangeiras de forma automática. É querer entender o que elas significam, de onde vieram e o que carregam. É o que diferencia o fã interessado do espectador distraído.
O idioma como afeto e o nome como fronteira
A campanha chega num momento simbólico. A inclusão do Dia do Hangul no calendário oficial de São Paulo é um gesto institucional que legitima o espaço da cultura coreana no Brasil. É também uma forma de reconhecer o impacto da comunidade coreana no país, especialmente em São Paulo, onde está concentrada uma das maiores diásporas da América Latina.
Mas o que mais chama atenção é o tom da campanha: não é defensivo, é pedagógico. Nomear é respeitar soa quase como um convite à curiosidade, uma provocação gentil que pede um olhar mais atento.
Porque o nome não é só uma palavra. É fronteira, identidade, reconhecimento. É o que separa a cultura do estereótipo. E é isso que o CCCB tenta lembrar: não existe amor sem nome. E, no caso da cultura coreana, chamar de k-drama é o mínimo gesto de cuidado com algo que você diz admirar.
A diferença entre consumir e compreender
Quando o Entretê publicou aquele texto, lá atrás, explicando que k-drama e dorama não eram sinônimos, a intenção nunca foi patrulhar o vocabulário de ninguém. Era propor reflexão. Agora, com a campanha Nomear é respeitar, o debate volta em outro nível, mais maduro, mais institucional e, principalmente, mais necessário.
Porque o respeito cultural começa nas pequenas coisas: na legenda, no nome, na forma de falar. A cultura coreana conquistou o mundo, mas continua pedindo o que qualquer cultura merece: ser chamada pelo próprio nome. Isso, no fim das contas, é o que diferencia o consumo automático da experiência real de troca.
Afinal, se a gente gosta tanto das histórias que a Coreia conta, o mínimo é aprender a dizer o nome delas direito.
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Texto revisado por Larissa Couto










