Num cenário de ameaças à democracia, indicamos leituras que iluminam os caminhos e dilemas desse sistema em transformação
No dia de hoje, é comemorado o Dia Internacional da Democracia, data que busca chamar a atenção mundial para a necessidade de defender os princípios fundamentais da inclusão, liberdade, igualdade, paz e desenvolvimento.
Em tempos de crescentes desafios aos regimes democráticos ao redor do mundo, é essencial compreender os mecanismos que os fortalecem ou os enfraquecem. Pensando nisso, a editora Tinta-da-China Brasil selecionou obras fundamentais, que abordam a trajetória da democracia, os perigos do autoritarismo e as lições históricas que não podemos esquecer.
Veja a seleção completa:
Salazar e o poder: A arte de saber durar (2025)

Por que durou tanto o regime de Salazar, a mais longa ditadura europeia do século XX? É isso que o professor, pesquisador e político português Fernando Rosas, especialista na história dos fascismos, procura explicar neste livro, que marca o apogeu da sua obra historiográfica. O livro, vencedor do prêmio PEN de ensaios, em Portugal, supre uma lacuna na bibliografia publicada sobre o ditador no Brasil.
Com prosa fluida e pesquisa rigorosa, buscando ir além do senso comum, Rosas identifica cinco fatores estruturais da durabilidade do salazarismo: a violência contra as oposições; o controle político das Forças Armadas; a cumplicidade da Igreja; o corporativismo; e a investida cultural no “homem novo”.
Em tempos de retorno dos fascismos, urge compreender como triunfaram seus experimentos, para que possamos combater suas novas mutações.
A lei da bala, do boi e da Bíblia: Cultura democrática em crise na disputa por direitos (2024)

Em meio a um cenário internacional de erosão democrática, quatro pesquisadoras do Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo (Laut) se propõem a investigar como se construiu, nas últimas décadas, o discurso jurídico de grupos conservadores e reacionários no Brasil.
Entre a bala, o boi e a Bíblia, os temas em debate podem variar, do Estatuto do Desarmamento à descriminalização do aborto, passando pela tese do marco temporal. O que se mantém, entretanto, é a estratégia BBB de usar a linguagem política e jurídica, especialmente noções associadas a pautas progressistas — como garantia de direitos, laicidade, separação de poderes e vontade popular —, em sentidos antipluralistas e fragmentados, que favorecem sua própria agenda política.
Este é o segundo livro da coleção Laut, na Tinta-da-China Brasil, e conta com prefácio de uma das principais vozes no combate ao autoritarismo na Europa, Renáta Uitz.
Despotismo tropical: a ditadura e a redemocratização nas crônicas de Julia Juruna (2024)

No calor do momento e na distância do exílio, uma correspondente desconhecida deu notícias sobre a ditadura brasileira, na França. Em 1976, o Le Monde Diplomatique começou a publicar sólidos artigos de uma tal Julia Juruna, que tratavam de assuntos como as raízes violentas e o aparato repressivo do nosso país, a participação dos Estados Unidos no Golpe de 1964 e a dependência econômica em relação ao mercado internacional.
Quem estava por trás do pseudônimo indígena era o jovem Luiz Felipe de Alencastro, que, em temporada de estudos e pesquisa na França, se tornaria um dos mais importantes historiadores brasileiros.
Reunidos pela primeira vez em livro, com organização do também historiador Rodrigo Bonciani, os artigos retomam os acontecimentos-chave da abertura política e do processo de redemocratização. Com os olhos no passado colonial e vivendo no presente da ditadura (1964-1985), Alencastro projeta o leitor para os tempos atuais. Em sua apresentação, Bonciani indaga se, diante da violência de Estado que persiste até hoje, a nossa jovem democracia não passaria de um “enxerto” no antigo conhecido “despotismo tropical”.
O caminho da autocracia: Estratégias atuais de erosão democrática (2023)

Como democracias consolidadas permitiram a instalação do caos social, cultural e político através da eleição de governantes extremistas? Os pesquisadores do Laut expõem as táticas de regimes autocráticos em diferentes países do mundo, inclusive no Brasil.
Os atos de 8 de janeiro de 2023 deram prova de que o extremismo não se dobra a derrotas eleitorais: é preciso responsabilizar os autores dos ataques à democracia para interromper o caminho da autocracia na política brasileira.
Esquerda e direita: Guia histórico para o século XXI (2024)

Pontos cardeais da política, eixos da modernidade, a esquerda e a direita têm quase dois séculos e meio de história — e um futuro. Este livro segue essa história e defende, na contracorrente, que não só a esquerda e a direita ainda fazem sentido hoje, como são mais relevantes do que nunca.
Os novos desafios da democracia perante as escalas europeia e global ditam a necessidade de reinventar a política e recuperar os seus conceitos de base. Inspirado em dois diálogos com estudantes e escrito em tom coloquial, este Guia histórico para o século XXI explica por que é possível outra soberania, e como construir o movimento para consegui-la.
Salazar e os fascismos: ensaio breve de história comparada (2023)

Nas discussões sobre o fascismo, costuma-se deixar de fora dessa classificação o Estado Novo português, que teve António Salazar à sua frente, a partir de 1933. Será que esse governo ditatorial, que só caiu na Revolução dos Cravos, de 1974, está mesmo distante das outras experiências europeias?
Em Salazar e os fascismos: ensaio breve de história comparada, premiado pela Academia Portuguesa da História, Fernando Rosas investiga a tradição autoritária que elegeu líderes como Adolf Hitler e Benito Mussolini, detendo-se sobre o salazarismo, numa análise à luz de tais fascismos europeus. A reflexão sobre esse momento histórico o lança para a atualidade, num esforço de apreender as semelhanças com a onda conservadora que toma o mundo nos anos recentes.
Lira Neto, autor da celebrada trilogia sobre Getúlio Vargas e de biografias de outras importantes figuras da cultura nacional, assina a orelha da edição.
Diante do fascismo: crônicas de um país à beira do abismo (2022)

O jornalista e editor Paulo Roberto Pires observa, nestas 34 crônicas publicadas em sua coluna nas revistas Época e Quatro Cinco Um, a ascensão de Bolsonaro à Presidência da República e a implantação de sua política de perseguição às artes, à universidade, ao jornalismo e aos direitos humanos.
A partir de episódios do dia a dia do governo, como a nomeação de Regina Duarte — a noivinha do Brasil fascista — para a Secretaria Especial de Cultura, Pires mostra como a autoproclamada isenção de intelectuais, jornalistas, políticos e outras figuras do debate público ajudou na instauração de um fascismo à brasileira.
Sobre a Tinta-da-China Brasil
É uma editora de livros independente, sediada em São Paulo, gerida, desde 2022, pela Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos. Sua missão é a difusão da cultura do livro.
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Texto revisado por Ketlen Saraiva @lapidando_palavras










