O longa resgata com frescor o espírito das comédias familiares dos anos 2000 e estreia em sete de agosto nos cinemas brasileiros
Vinte e dois anos após o sucesso de Sexta-Feira Muito Louca (2003), Lindsay Lohan e Jamie Lee Curtis retornam aos seus papéis no que pode ser considerada uma das melhores continuações produzidas pela Disney nos últimos tempos. Dirigido por Nisha Ganatra (Late Night, Brooklyn Nine-Nine), Uma Sexta-feira Mais Louca Ainda aposta em uma abordagem atual, enquanto mantém a essência do filme original: relações familiares, empatia entre gerações e muito humor físico. Ao contrário de outras sequências recentes da Disney, como Abracadabra 2 (2022) e Desencantada (2022), que deixaram a desejar em crítica e público, este novo capítulo entrega mais do que nostalgia: ele emociona, diverte e conversa com espectadores de todas as idades.
Na nova trama, Anna Coleman (Lindsay Lohan) agora é uma mulher adulta, mãe solo da adolescente Harper (Julia Butters) e está prestes a se casar com Eric (Manny Jacinto). A filha dele, Lily (Sophia Hammons), entra em cena como a nova rival da futura enteada, criando uma tensão crescente entre as jovens. Mas tudo muda de lugar — literalmente — quando um novo feitiço provoca uma troca de corpos entre as quatro: Anna, Harper, Tess (Jamie Lee Curtis) e Lily. O resultado é uma sucessão de cenas caóticas e hilárias que, assim como no filme original, funcionam como metáforas para o amadurecimento, a empatia e a compreensão entre diferentes gerações.
O roteiro, assinado por Jordan Weiss (Dollface) e Elyse Hollander (Blonde Ambition), surpreende ao fugir de soluções fáceis. Há um cuidado em desenvolver os arcos emocionais de cada personagem, tornando o caos da troca de corpos não apenas engraçado, mas significativo. Anna não é mais a adolescente rebelde do primeiro filme, ela agora lida com a maternidade, traumas e novos desafios afetivos. Harper, por sua vez, representa os dilemas de uma nova geração de jovens, enquanto Tess traz o olhar de uma avó que precisa reaprender a se colocar no lugar do outro.
O elenco original está de volta e é um dos grandes trunfos do filme. Chad Michael Murray, Mark Harmon, Christina Vidal Mitchell, Haley Hudson, Rosalind Chao, Lucille Soong e Stephen Tobolowsky reprisam seus papéis com naturalidade e carisma. Suas participações pontuais dão coesão à narrativa e funcionam como presentes para os fãs do longa de 2003. A direção de Ganatra acerta ao incorporar essas figuras com delicadeza, sem apelar para fan service gratuito. A presença delas reforça o tom afetuoso da obra e ajuda a construir a ideia de continuidade dentro daquele universo.
Outro acerto importante da diretora está na condução da representatividade cultural. Se no original havia estereótipos problemáticos, como o uso de biscoitos da sorte mágicos e caricaturas asiáticas, nesta nova versão o cuidado é notável. A escolha de Nisha Ganatra como diretora já sinaliza essa mudança, afinal ela é de origem indiana. Cenas com as atrizes Rosalind Chao e Lucille Soong, por exemplo, são conduzidas com respeito e humor leve, atualizando a abordagem sem perder o tom familiar que consagrou o filme.

Em termos de atuações, Lindsay Lohan volta com segurança e carisma. Sua Anna é vulnerável, espirituosa e completamente diferente da garota impulsiva que conhecemos em 2003, e essa evolução é perceptível em cada cena. Lohan está confortável no papel, e sua química com Jamie Lee Curtis continua inegável. Curtis, por sua vez, reafirma seu talento como atriz cômica: seu timing é impecável e ela domina o humor corporal com precisão. É um prazer vê-la de volta ao papel que rendeu uma indicação ao Globo de Ouro na época.
Julia Butters, conhecida por Era Uma Vez em… Hollywood (2019), e Sophia Hammons, de Under Wraps: Uma Múmia no Halloween (2021), formam o novo núcleo jovem e se saem muito bem. Butters entrega uma Harper sarcástica e emocionalmente contida, enquanto Hammons surpreende com momentos de sensibilidade e autodefesa. O elenco se completa com Manny Jacinto, carismático como sempre, e com a presença discreta, mas certeira, de Maitreyi Ramakrishnan no papel de uma jovem cantora pop, empresariada por Anna. A personagem traz frescor à trama e ajuda a mostrar uma nova faceta da protagonista adulta, agora responsável por guiar talentos e construir uma carreira sólida no mundo da música.
A trilha sonora também merece destaque. Além de resgatar a icônica banda fictícia Pink Slip, agora com uma nova versão de Take Me Away lançada em julho de 2025, o filme trabalha referências musicais dos anos 2000 com atualizações criativas. O design sonoro é estratégico, evocando emoções sem ser intrusivo, e os fãs mais atentos vão perceber easter eggs, como um vinil de Britney Spears em destaque e frases que remetem diretamente ao primeiro filme.
Para quem acompanhou a carreira de Lindsay Lohan, há ainda uma participação surpresa que remete a outro filme da atriz. A cena, guardada a sete chaves durante as campanhas de divulgação, deve surpreender quem não assistiu aos trailers com atenção e representa um momento metalinguístico que provoca sorrisos sinceros no público que cresceu com seus filmes.
O visual acompanha essa renovação com toque retrô. A direção de arte mistura o estilo teen clássico com elementos contemporâneos, resultando em cenários e figurinos que fazem referência ao início dos anos 2000, mas sem parecerem datados. A fotografia aposta em cores vibrantes, em especial nos momentos de troca de corpos, que visualmente destacam a confusão e o ritmo frenético da narrativa.

A edição ágil e o uso de linguagem cinematográfica atual tornam a experiência dinâmica. Apesar do enredo inusitado, o filme jamais perde o foco emocional: é sobre família, reencontro e ouvir o outro. E, acima de tudo, sobre rir de si mesmo — uma habilidade rara em tempos de superproduções autocentradas.
Para quem sente falta das boas comédias familiares com personagens carismáticos, laços reais e humor para todas as idades, Uma Sexta-feira Mais Louca Ainda é um acerto raro. Tem coração, elenco afiado, direção consciente e roteiro envolvente. Talvez por isso funcione tão bem: entrega exatamente o que propõe, sem subestimar o público e sem esquecer do que o tornou tão querido em primeiro lugar.
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Texto revisado por Sabrina Borges de Moura @_itsbrinis
