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Todo mundo quer ser asiático, mas só quando convém

 Fox eyes, kawaii, Asian fishing e a apropriação seletiva da estética asiática no entretenimento ocidental

Tem algo estranho no ar quando o mundo inteiro começa a copiar feições, estilos e comportamentos que por décadas foram motivos de chacota, racismo e marginalização. Do nada, olhos puxados viram padrão de beleza. Estética kawaii vira referência fashion. Clipes com visual de anime são considerados visionários. Mas o que acontece com as pessoas que nasceram com esses traços? Que cresceram sendo ridicularizadas, silenciadas ou empurradas para o papel do estranho e caricato? A resposta é simples: elas continuam invisíveis. Porque todo mundo quer parecer asiático até o momento em que ser asiático significa lidar com o preconceito, a exclusão e o racismo.

Enquanto isso, celebridades e influenciadores fazem procedimentos como o fox eyes, colocam perucas coloridas, usam filtros para aumentar os olhos e afinam o rosto, muitas vezes performando uma estética que lembra traços asiáticos sem qualquer conexão com a vivência dessas culturas. A internet até criou um nome para isso: Asian fishing. Uma prática preocupante que vai além do visual, porque carrega um histórico de apagamento. Nesse texto, a gente vai falar sobre esse fenômeno e por que ele é um problema que precisa ser levado a sério.

Fox eyes: o olhar desejado que já foi motivo de piada e racismo

Nos últimos anos, uma das cirurgias plásticas mais procuradas no universo da estética é o famoso fox eyes, um procedimento que levanta o canto dos olhos e cria um efeito levemente puxado, muitas vezes associado a um visual exótico, felino ou até mesmo etéreo. Esse visual virou febre entre celebridades e influenciadores, e recentemente até mesmo a cantora Anitta aderiu ao procedimento, surgindo com os olhos visivelmente modificados. O problema, no entanto, é muito maior do que uma simples tendência estética: o fox eyes tem raízes na exotificação de traços asiáticos, os mesmos que durante décadas foram alvo de piadas, exclusão e bullying.

O que antes era motivo de vergonha para crianças asiáticas, que cresciam sendo chamadas de zóio de japonês e olhinho puxado ou sofriam imitações racistas quando outros esticavam  os olhos com os dedos, hoje se tornou um símbolo de beleza, desde que não venha de um corpo asiático. A ironia é dolorosa: enquanto meninas asiáticas foram ensinadas a esconder seus olhos com maquiagem ocidental, cílios postiços e lentes de contato para parecerem mais europeias, agora celebridades fazem cirurgias para simular exatamente aquilo que antes era desprezado.

@anitta

Grrrr 😏 #Anitta #fyp

♬ GRR – Fantomel

Não se trata de criticar quem muda o rosto por questões estéticas ou autoestima. A crítica nasce quando o olhar asiático é apropriado como moda, enquanto as pessoas asiáticas continuam sendo desumanizadas. O problema não está nos olhos puxados em si, mas em quem pode usá-los para se embelezar e quem os carrega e sofre racismo por isso. É o recorte de privilégio que separa o cool do caricato.

O fox eyes se tornou, de certa forma, uma fantasia racial permitida. É uma forma de brincar com a aparência sem assumir a identidade. Influenciadores surgem em fotos com penteados inspirados no leste asiático, roupas de anime, maquiagem geométrica nos olhos, e tudo isso é considerado fashion. Mas quando uma pessoa asiática entra no mesmo espaço com suas feições naturais e seu visual tradicional, ela é taxada de estranha, engraçada ou diferente demais.

O caso da Anitta escancara esse debate no Brasil. Ela, que tem grande influência estética e midiática, não é a primeira a recorrer ao procedimento, mas sua imagem potencializa e legitima tendências. O que preocupa é que, em nenhum momento, ela ou sua equipe falaram sobre o que esse olhar representa para asiáticos, especialmente no país em que muitos ainda ouvem abre o olho como ofensa. É o clássico “pego o que gosto e ignoro o resto”.

Asian fishing: quando a estética vira performance racial e apaga vivências reais

Asian fishing é o nome dado ao ato de indivíduos não-asiáticos adotarem estéticas e feições que se assemelham às de pessoas asiáticas, por meio de maquiagem, procedimentos estéticos, filtros, edição de fotos e até escolhas de moda e linguagem corporal. Não é sobre gostar de cultura asiática, é sobre parecer asiático o suficiente para ser cool, mas nunca ao ponto de realmente viver as consequências de ser uma pessoa asiática no mundo. E sim, é um problema cada vez mais comum no entretenimento.

A internet está cheia de exemplos. Celebridades brancas ou latinas que, de uma hora para outra, começam a adotar feições mais asiáticas, mudam o jeito de se maquiar, fazem os olhos parecerem menores e mais alongados, afinam o rosto com edição ou procedimentos estéticos, e aparecem com roupas de inspiração asiática. Isso se torna ainda mais preocupante quando essas mesmas pessoas negam ou ignoram as acusações, como se o ato de performar outra raça fosse apenas uma brincadeira estética inofensiva.

@bruna.tukamoto

Pessoas não-amarelas que usam da make/roupas/edição de fotos pra se parecerem amarelas! #foryou #fy #asian #asiaticas

♬ som original – Bruna Tukamoto

O Asian fishing funciona como um tipo de blackface moderno, com a diferença de que, no caso das culturas asiáticas, ainda há uma romantização do exótico que facilita a aceitação social. E isso é extremamente perverso: quem pratica Asian fishing se apropria de uma identidade que não é sua, transformando em tendência aquilo que é trauma para quem vive isso desde criança. Quando alguém se fantasia de asiático, está dizendo que é possível escolher quando esses traços são legais e quando não são.

Não é só uma questão de aparência. É também sobre oportunidade, espaço, voz. Criadores asiáticos são deixados de lado enquanto influenciadores que brincam de ser asiáticos ganham milhões de seguidores, contratos e visibilidade. O algoritmo ama uma estética asiática, desde que ela venha em um corpo branco. Isso reforça ainda mais o apagamento e o silenciamento das vozes que realmente deveriam estar liderando essas conversas.

Enquanto isso, pessoas asiáticas continuam enfrentando piadas racistas, xenofobia velada, hiperssexualização e estereótipos negativos. Não adianta dizer é só uma maquiagem quando o que está em jogo é toda uma história de exclusão. Asian fishing não é tributo, é usurpação. E quando você só quer a beleza da cultura de alguém, mas não a dor, você não está homenageando: está explorando.

A estética kawaii como fantasia para não-asiáticos e a exclusão de criadores reais

A estética kawaii, que engloba a fofura, a delicadeza, o exagero visual, as roupas coloridas e as poses que remetem a personagens de anime, se tornou um fenômeno global. Artistas pop como Ariana Grande, Pabllo Vittar, Doja Cat e até marcas de moda de luxo se apropriaram desse estilo, incorporando-o em videoclipes, editoriais e figurinos. A questão aqui não é usar referências culturais, mas ignorar suas origens enquanto criadores asiáticos continuam sendo deixados de lado no próprio movimento que ajudaram a criar.

Quando Ariana Grande aparece com roupas que lembram personagens de anime e maquiagem que a fazem parecer uma boneca japonesa, ela é aclamada como ícone fashion. Mas quando meninas asiáticas se vestem da mesma forma, ainda são vistas como esquisitas, fetichizadas ou chamadas de infantis demais. Há um duplo padrão que favorece quem pode brincar com o estilo sem carregar o peso cultural dele.

Todo mundo quer ser asiático
Foto: reprodução/voice of frisco

Pabllo Vittar também já flertou com a estética kawaii em seus visuais, especialmente em performances que dialogam com o universo pop japonês. Ela é conhecida por ser uma kpopper dedicada, já demonstrou amar e saber muito sobre a cultura asiática, o que mostra sua conexão e respeito genuíno. No entanto, mesmo com esse conhecimento e admiração, quando não há reconhecimento das origens nem participação de criadores asiáticos no processo, o que sobra é uma estética vazia, que flutua entre o bonitinho e o diferente, sem contexto. O que era símbolo cultural vira acessório.

Todo mundo quer ser asiático
Foto: reprodução/extra online

A estética kawaii é muito mais do que um visual fofo. Ela carrega décadas de história no Japão, um país que viveu (e ainda vive) o trauma da guerra, da opressão americana e da tentativa de reconstrução por meio da arte e da cultura. O kawaii surgiu como uma forma de resistência cultural, de proteção emocional e até mesmo de crítica. Ignorar isso e tratar como modinha é desrespeitar todo um legado.

Para além disso, há o problema do fetichismo racial. Quando não-asiáticos incorporam o kawaii de forma hipersexualizada, com poses infantilizadas e vozes agudas, reforçam estereótipos perigosos sobre mulheres asiáticas como submissas, sensuais e bonequinhas. Essa fantasia não é apenas estética, ela afeta como pessoas asiáticas são tratadas no mundo real. E é por isso que brincar de kawaii sem entender o que está por trás é, no mínimo, irresponsável.

A diferença entre homenagem e apropriação (e por que isso importa)

Um dos maiores erros cometidos por figuras públicas e até mesmo por fãs de cultura pop é achar que toda referência a outra cultura é automaticamente uma homenagem. Nem tudo que parece inspirado é respeitoso. Existe uma linha tênue entre dialogar com outra cultura e se apropriar dela  e essa linha geralmente é cruzada quando quem consome ou recria esses elementos não está disposto a reconhecer, incluir ou dividir espaço com quem realmente vive aquela identidade todos os dias.

A apropriação acontece quando uma pessoa fora de determinado grupo dominante se apropria de símbolos, estéticas ou comportamentos de um grupo historicamente marginalizado, sem vivenciar suas dores, suas lutas e suas consequências sociais. E pior: quando lucra ou ganha status com isso. Ou seja, quando uma celebridade branca ou latina faz fox eyes, se veste com referências asiáticas, usa termos do vocabulário do K-pop ou se maquila como uma personagem de anime e é elogiada, mas pessoas asiáticas fazem o mesmo e são ridicularizadas, estamos diante de uma apropriação racial.

Já a homenagem real exige contexto, escuta e intenção. Envolve aprender com a cultura que se admira, dar crédito, contratar artistas asiáticos, fazer colaborações reais e se posicionar contra o racismo antiasiático. É muito diferente de usar elementos isolados porque estão na moda ou porque renderão curtidas. O problema da estética asiática no mainstream não é o fato de ela estar sendo usada, mas sim o jeito como ela é esvaziada, transformada em produto e jogada no liquidificador das tendências globais.

Além disso, quando uma cultura é apropriada constantemente, ela corre o risco de perder sua força de origem. O kawaii, por exemplo, está virando uma estética neutra, que todo mundo usa, mas poucos entendem. Isso não seria um problema se a cultura de origem estivesse recebendo os frutos dessa visibilidade, mas o que vemos é exatamente o oposto. Os criadores asiáticos são empurrados para as margens, enquanto influenciadores ocidentais se tornam ícones por fazerem cosplay daquilo que não vivem.

A questão é simples, mas desconfortável: se você admira uma cultura o suficiente para copiá-la, você deveria amá-la o bastante para protegê-la. E proteger significa escutar, dividir espaço e combater os estereótipos que ainda atingem milhões de pessoas asiáticas ao redor do mundo. Homenagem sem responsabilidade é só mais uma forma de disfarçar o oportunismo.

A cultura asiática só é legal quando não tem asiáticos por perto?

Esse talvez seja o ponto mais cruel de todo esse cenário: a cultura asiática virou um produto altamente consumido, mas as pessoas asiáticas continuam sendo excluídas da conversa. É uma contradição constante. O K-pop domina premiações, o Japão é considerado o epicentro da moda jovem, a Coreia do Sul dita tendências de skincare, o anime pauta o audiovisual e o TikTok é cheio de filtros baseados em personagens asiáticos. Mas onde estão os asiáticos nessas cadeiras de poder?

A lógica é perversa: tudo o que é asiático é legal quando vem diluído, quando é estético, quando não exige escuta. O ramen é hype, mas a presença de um asiático no restaurante causa estranhamento. O K-beauty é revolucionário, mas modelos coreanas ainda não desfilam em passarelas brasileiras. O mangá é cultuado, mas quem fala com sotaque é alvo de piada. É o consumo sem conexão, o uso sem pertencimento.

Esse fenômeno tem nome e acontece com vários grupos marginalizados: é o fetichismo cultural. A ideia de que uma cultura só é boa quando é editada para consumo ocidental. E o que mais dói é perceber que, muitas vezes, até as críticas feitas por pessoas asiáticas são ignoradas como se elas não tivessem o direito de se ofender com o uso irresponsável de seus próprios símbolos. Quando os asiáticos falam, muitos preferem silenciar do que ouvir.

A internet, infelizmente, tem facilitado ainda mais esse processo. Influenciadores performam asiaticidade com maquiagem, poses e filtros, enquanto criadores asiáticos têm seus conteúdos barrados por não se encaixarem no padrão estético que o algoritmo favorece. O asiático real é demais, diferente demais, japonês demais. Já o asiático de mentira, editado em tempo real, é palatável, consumível, viralizável.

É preciso enfrentar essa contradição de frente. Se o mundo ama tanto a cultura asiática, por que não ama também as pessoas asiáticas? Se somos bons o suficiente para inspirar figurinos, playlists e estilos, deveríamos também ser bons o bastante para ocupar espaços de visibilidade e respeito. A cultura não pode ser uma festa em que os donos não são convidados.

A luta de criadores asiáticos por espaço em um mundo que copia tudo deles

Enquanto celebridades e marcas continuam lucrando com a estética asiática, criadores asiáticos independentes lutam todos os dias para serem reconhecidos. Em plataformas como o TikTok e o Instagram, artistas, designers, maquiadores e músicos de origem asiática denunciam constantemente o roubo de suas ideias, muitas vezes replicadas por influenciadores brancos que viralizam com versões diluídas e descontextualizadas do conteúdo original.

Esses criadores estão cansados de verem suas ideias copiadas sem crédito, seus rostos excluídos dos trends e suas vozes ignoradas nas discussões que mais lhes dizem respeito. Muitos relatam que, quando tentam expor a apropriação, são acusados de serem sensíveis demais ou ciumentos. Mas o que está em jogo não é ego, é sobrevivência em um espaço que diz amar a cultura, mas rejeita quem a carrega.

Outro ponto sensível é que esses criadores ainda enfrentam estereótipos racistas mesmo dentro das próprias comunidades criativas. São constantemente questionados, desacreditados ou enquadrados em nichos. Não importa o quão talentosos sejam, o algoritmo, as agências e o público ainda enxergam corpos asiáticos como personagens secundários no cenário global. A luta por espaço é dupla: primeiro para existir e depois para não ser apagado.

Alguns criadores estão respondendo com força e inovação, criando movimentos de resistência digital, colaborando entre si e denunciando os casos de apropriação. Hashtags como #StopAsianHate e #AsianCreatorsMatter ganham força nas redes, trazendo à tona não apenas o racismo estrutural, mas também os danos da apropriação estética e cultural. Eles não estão pedindo piedade, estão exigindo respeito.

No fim, tudo se resume a isso: visibilidade não é o mesmo que poder. Os criadores asiáticos não querem ser apenas fonte de referência, querem ser protagonistas da própria cultura. E isso só vai acontecer quando o entretenimento parar de copiar e começar a incluir, discernir e reconhecer. Até lá, toda vez que alguém performar asiaticidade sem viver a realidade por trás disso, a ferida segue aberta.

O uso da cultura coreana em clipes e editoriais ocidentais e a ausência de coreanos nessas produções

Nos últimos anos, o fenômeno da cultura coreana se tornou um verdadeiro furacão no ocidente. Do K-pop ao K-drama, da culinária às tendências de beleza, tudo que vem da Coreia do Sul passou a ser consumido em larga escala por públicos do mundo todo. É uma virada cultural importante, mas que vem sendo explorada de forma problemática por alguns artistas e marcas que se apropriam de símbolos visuais coreanos sem sequer incluir pessoas coreanas no processo criativo.

Vários clipes de artistas ocidentais, como Cardi B, Doja Cat e até grupos de pop europeu, já se apropriaram de elementos da cultura coreana: letreiros em hangul, figurinos com referências ao hanbok, paletas de cores associadas à estética dos doramas e até coreografias que remetem ao K-pop. Em muitos desses casos, não há sequer um coreano envolvido. Os visuais são tratados como temáticos, como se a Coreia fosse um parque de diversões estético e não uma nação com identidade, cultura e história.

Esse fenômeno reflete a ideia de que é possível pegar o que convém da cultura de um povo e deixar de lado o resto, especialmente as pessoas. É como se o sucesso do K-pop tivesse aberto a porteira para a estética coreana, mas sem abrir espaço para artistas coreanos de fato. As referências visuais estão ali, mas a representatividade não acompanha. O problema não é querer dialogar com a cultura coreana, mas fazer isso sem trazer coreanos para a conversa é mais um tipo de apagamento.

Pior ainda são os casos em que a cultura coreana é tratada como fetiche, com visuais que reforçam estereótipos de submissão, robótica ou infantilização, especialmente das mulheres. Em editoriais de moda, por exemplo, é comum ver modelos ocidentais usando hanboks estilizados com poses sexualizadas, sem qualquer respeito pelo simbolismo da roupa. O hanbok não é apenas algo fofo ou exótico, é um traje que carrega tradição, valores e memória.

Esse tipo de apropriação não só invisibiliza coreanos, como também lucra com um imaginário moldado para o consumo global. É o capitalismo transformando culturas vivas em tendência temporária. E no meio disso tudo, a Coreia continua sendo tratada como estética e não como sujeito. Se você ama a cultura coreana, mas não escuta vozes coreanas, há algo profundamente errado nesse amor.

STFU! de Rina Sawayama: a resposta musical ao apagamento asiático

Lançada em 2019, a música STFU! de Rina Sawayama não é apenas um single de estreia com energia explosiva, é um grito de denúncia contra o apagamento e a fetichização que pessoas asiáticas enfrentam diariamente, especialmente mulheres. A faixa mistura nu metal com pop alternativo de forma visceral, traduzindo em som o incômodo de ser tratada como uma fantasia exótica. Rina, que é japonesa-britânica, usa sua arte para dizer o que muitos têm medo de dizer: a indústria ama o fetiche asiático, mas não os asiáticos de verdade.

A música faz alusão direta a experiências reais que Rina enfrentou com homens brancos que a fetichizavam ou tratavam sua cultura com desdém. Não é uma crítica generalista, mas sim profundamente pessoal, e justamente por isso, tão potente. O título, STFU! (abreviação de shut the f** up*), é o recado cru e direto de alguém que cansou de ouvir piadinhas, imitações de sotaque e comentários sobre comida japonesa como se isso resumisse toda sua identidade.

No clipe oficial, ela ironiza essas situações: aparece em um jantar com um homem branco que faz comentários ofensivos enquanto ela sorri de forma contida, até que tudo explode em uma estética surreal e caótica, cheia de violência simbólica. O visual é hiperbólico, propositalmente exagerado, e se transforma em uma caricatura invertida: é como se Rina dissesse “vocês acham isso normal? Então engulam a versão grotesca da própria fantasia que vocês projetam”.

A repercussão de STFU! foi intensa. Enquanto muitos fãs entenderam o protesto, outros apenas celebraram o estilo musical ou a vibe agressiva da faixa, sem captar sua mensagem. E esse é exatamente o ponto: estamos tão condicionados a consumir versões estilizadas do que é asiático que não sabemos o que fazer quando alguém nos mostra a verdade crua. O que era para ser apenas entretenimento vira denúncia. E Rina faz isso sem pedir desculpas.

O que Rina Sawayama faz com STFU! é raro: ela confronta o sistema de dentro, usando o pop, a moda e a performance para desmascarar o racismo e a apropriação cultural. Ela não tenta se adequar ao molde ocidental; ela estoura esse molde e joga os cacos de volta na audiência. Em vez de suavizar sua identidade para agradar o mercado, ela escancara o desconforto de ser asiática num mundo que ama a sua cultura, mas não o seu povo.

Campanhas de moda e beleza usam estética asiática, mas ignoram modelos asiáticos

Não é preciso olhar muito longe para perceber a contradição nas campanhas de moda e beleza internacionais. Enquanto a estética oriental é amplamente usada com elementos como flor de cerejeira, arquitetura asiática, fontes em kanji e cenários que remetem a templos japoneses ou ruas de Seul, a presença de modelos asiáticos é quase inexistente. A campanha está inspirada na Ásia, mas quem representa são sempre corpos brancos ou mestiços que mal se identificam com a cultura em questão.

Essa ausência não é acidental. Ela está enraizada em uma lógica de apagamento que prioriza o consumo da ideia oriental como algo místico, elegante e exótico, mas sem confrontar o público com rostos asiáticos reais. É uma forma de manter o fascínio sem a responsabilidade. A cultura é desejada, mas o corpo asiático ainda é lido como demais, diferente ou não vendável. É como se o rosto asiático real atrapalhasse a fantasia que a marca quer vender.

Um exemplo frequente são campanhas de perfumes ou maquiagens que usam a palavra geisha no nome, fazem comerciais com pétalas de flor voando e trilhas sonoras com instrumentos orientais, mas colocam uma modelo loira no centro da imagem. Essa prática reforça estereótipos e transforma símbolos culturais profundos em acessórios para uma narrativa ocidentalizada, sem nenhum interesse em fidelidade ou respeito.

O mais grave é que essa escolha se repete inclusive em países com populações asiáticas expressivas, como o Brasil e os Estados Unidos. Modelos asiáticos-brasileiros, por exemplo, são raramente vistos em comerciais de produtos que se beneficiam da estética asiática, como marcas de cosméticos com fórmulas inspiradas na Coreia ou no Japão. Isso mostra que o problema não é só global, mas também local, e que há uma resistência concreta a aceitar rostos asiáticos em espaços de protagonismo.

É urgente repensar essas estratégias e começar a ouvir as pessoas que realmente vivem essa cultura. Representar não é apenas usar os símbolos, é incluir os sujeitos. Se a estética asiática vende, então os asiáticos também devem estar nas capas, nas passarelas, nas campanhas e nos contratos. Qualquer outra coisa é só mais uma forma de consumir sem respeitar, copiar sem incluir e lucrar sem dividir.

Não basta parecer, é preciso respeitar

No fim das contas, o que está em jogo não é a estética em si, mas tudo o que ela carrega. Quando celebridades e influenciadores brincam de ser asiáticos por um dia, seja com maquiagem, procedimentos como o fox eyes, figurinos inspirados em animes ou campanhas de moda com símbolos orientais, eles estão se apropriando de uma identidade que, na vida real, ainda é alvo constante de racismo, piadas e exclusão. Eles podem tirar a maquiagem no fim do dia. Pessoas asiáticas não têm esse privilégio. E é aí que mora a diferença entre admiração e apropriação: a primeira exige respeito, escuta e inclusão. A segunda só precisa de um bom engajamento.

Não é errado amar a cultura asiática. Não é errado consumir K-pop, usar skincare coreano ou se inspirar na moda de Harajuku. Mas é errado lucrar em cima disso sem dar espaço para quem realmente constrói, representa e vive essas culturas. É errado usar traços faciais como fantasia, enquanto ignora o que esses traços significam para quem cresceu sendo chamado de chinês no pátio da escola como se fosse xingamento. É errado transformar vivências em conceito visual, especialmente quando essas mesmas vivências são apagadas ou ridicularizadas no dia a dia.

O que precisamos é de um novo pacto cultural, um que envolva responsabilidade. As marcas precisam parar de se inspirar em culturas que não contratam. Os artistas precisam refletir antes de colar símbolos asiáticos em seus visuais. Os influenciadores precisam entender que brincar de fofo ou exótico pode reforçar estereótipos que matam, excluem e silenciam. E os consumidores — sim, todos nós — precisamos aprender a identificar quando algo ultrapassa a linha do aceitável. Porque às vezes, o que parece apenas bonito é, na verdade, uma ferida antiga sendo tocada sem permissão.

Todo mundo quer ser asiático até que ser asiático signifique viver o racismo antiasiático, a xenofobia pós-pandemia, o silenciamento na indústria e o apagamento sistemático. Todo mundo quer o look do K-pop, o estilo do anime, a estética do dorama. Mas ninguém quer ouvir quando uma pessoa asiática diz que isso machuca. Enquanto essa escuta não for parte do processo, toda e qualquer homenagem continuará sendo apropriação, fantasia, exploração.

Por isso, da próxima vez que alguém surgir com olhos puxados artificialmente, roupas de mangá e uma legenda com hangul mal traduzido, a pergunta que fica é simples: você ama mesmo essa cultura ou só ama o que ela pode te render no Instagram?

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Texto revisado por Angela Maziero Santana @angelasantana481

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GOAT, nova produção de Jordan Peele, ganha trailer

Filme vai estrear nos cinemas brasileiros no dia 2 de outubro

GOAT é um filme dirigido por Justin Tipping (Kicks: Defendendo O Que é Seu, 2016) e produzido por Jordan Peele (Corra!, 2017). É estrelado por Marlon Wayans (Air: A História por Trás do Logo, 2023) e Tyriq Withers (Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, 2025). O longa chega aos cinemas no dia 2 de outubro.

Além disso, o elenco também conta com Tim Heidecker (Nós, 2019) e Jim Jefferies (Férias Muito Loucas com o Papai, 2022). A produção vai ser a estreia no cinema de Maurice Greene, lutador peso-pesado de MMA e os fenômenos do hip hop, Guapdad 4000, e a indicada ao Grammy, Tierra Whack.

Utilizado no mundo do esporte, GOAT significa The Greatest of All Times (O Melhor de Todos os Tempos). O longa vai revelar uma jornada aterrorizante pelo santuário íntimo da fama, da idolatria e do desejo de alcançar a excelência a qualquer custo.

A trama vai acompanhar o quarterback em ascensão Cameron Cade (Tyriq Withers). Na véspera do Combine, o mais importante evento anual de avaliação e seleção de atletas para o futebol profissional, ele é atacado por um fã desequilibrado. Dessa forma, acaba sofrendo um trauma cerebral com potencial de destruir sua promissora carreira. 

Todavia, quando tudo parece perdido, Cam se apega a um tênue fio de esperança: seu ídolo, Isaiah White (Marlon Wayans), um lendário quarterback octacampeão e ícone cultural. Pois ele se oferece para treiná-lo em seu ginásio isolado, um enorme complexo que divide com sua esposa, a famosa influencer Elsie White (Julia Fox). 

Porém, à medida que o treinamento de Cam se intensifica, o carisma de Isaiah começa a se transformar em algo mais sombrio. De tal forma que leva o seu protegido a uma espiral de confusão e perplexidade que pode lhe custar muito mais do que ele imaginava.

Confira os pôsteres:

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Texto revisado por Cristiane Amarante @cris_tiane_rj

 

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Garota do Momento e Duda Santos são finalistas do Seoul International Drama Awards

Novela das seis e sua protagonista concorrem nas categorias de Melhor Série e Melhor Atriz em premiação internacional na Coreia do Sul

Garota do Momento (2024/2025), da TV Globo, é finalista na categoria Melhor Novela/Série do Seoul International Drama Awards, premiação da Coreia do Sul que reconhece as melhores produções televisivas internacionais. A protagonista Duda Santos, que deu vida à personagem Beatriz, também foi indicada como Melhor Atriz. Garota do Momento é uma novela de Alessandra Poggi com direção artística de Natalia Grimberg e direção geral de Jeferson De. A produção é de Juliana Castro e a direção de gênero de José Luiz Villamarim. A premiação, concedida anualmente pelo Seoul Drama Awards Organizing Committee, está prevista para outubro, em Seul.

“Estamos muito felizes com essa indicação e por saber que uma história brasileira e tão potente como Garota do Momento ultrapassou fronteiras e está alcançando espectadores ao redor do mundo. Ainda que ambientada na década de 1950, a novela aborda temas atuais e relevantes para a sociedade, que ganharam vida de forma consistente através do nosso elenco. Também celebro a merecida indicação de Duda Santos, que prova ao mundo ser a própria Garota do Momento”, vibra a autora Alessandra Poggi.

“Garota do Momento foi uma novela muito especial e marcante que nos deu a oportunidade de refletir e sonhar junto. E saber que isso aconteceu não só no Brasil, nos emociona e alegra bastante. E Duda Santos, realmente, confirma que é uma estrela de nível internacional”, completa a diretora artística Natalia Grimberg.

Exibida entre novembro de 2024 e junho de 2025, a trama mostrou a jornada de Beatriz (Duda Santos) em busca de identidade e de reconciliação com o passado ao reencontrar a mãe, por quem acreditava ter sido abandonada na infância. Nomes como Carol Castro, Lilia Cabral, Fábio Assunção, Pedro Novaes, Palomma Duarte, Maisa, Cauê Campos, Letícia Colin, Maria Flor, Eduardo Sterblitch e Klara Castanho também fizeram parte do elenco.

Foto: divulgação/Globo

“A ficha ainda não caiu, parece um sonho. É uma novela que fiz com tanto carinho, e sou muito grata a todos que estiveram ao meu lado e lutaram para que eu pudesse dar vida à Beatriz. Garota do Momento é uma novela carregada de significados, acho muito importante que o mundo conheça essa e tantas outras produções brasileiras. A Beatriz é uma personagem riquíssima, que traz à tona temas extremamente relevantes. Ela é uma princesa e vê-la ganhando o mundo com tanta representatividade é uma sensação de dever cumprido”, celebra Duda Santos.

A novela concorre com produções de Singapura, Hong Kong, Turquia, Coreia do Sul, Filipinas e Grécia. Na categoria Melhor Atriz, Duda Santos concorre com artistas da Coreia do Sul, Japão, Taiwan e Austrália.

Essa não é a primeira vez que uma produção da Globo disputa o prêmio. A  emissora já recebeu o Grand Prize com a série Justiça 2 (2024) e com a novela Órfãos da Terra (2020) e levou o Silver Bird Prize com Passione (2011). Em 2007, Sinhá Moça foi finalista.

E aí, ansiosos pra ver o resultado? Comente nas redes sociais do Entretetizei — Instagram, Facebook e X — e siga a gente para não perder as notícias do mundo do entretenimento e da cultura.

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Texto revisado por Gabriela Fachin @gabrieladfachin

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