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Foto: reprodução/korea today

Coreia e Turquia: como uma guerra transformou um soldado turco e uma menina coreana em pai e filha

A história real de Ayla atravessou mais de seis décadas, aproximou Coreia do Sul e Turquia e inspirou um filme que levou essa emocionante trajetória para o mundo

Quando se fala na Guerra da Coreia, é comum que o conflito seja lembrado pela divisão entre Coreia do Norte e Coreia do Sul, pela disputa entre Estados Unidos e União Soviética durante a Guerra Fria ou pela fronteira que continua separando a península até os dias de hoje. No entanto, em meio aos combates que deixaram milhões de mortos e transformaram completamente a história da região, também surgiram histórias que mostram um lado muito diferente da guerra.

Uma delas começou quando um sargento turco encontrou uma menina de aproximadamente cinco anos caminhando sozinha entre os escombros deixados pelos bombardeios. Sem conseguir descobrir seu nome, ele passou a chamá-la de Ayla, palavra que significa “halo da lua” em turco. O encontro, que poderia ter sido apenas mais um episódio em meio ao conflito, acabou criando um vínculo tão forte que os dois passaram a se enxergar como pai e filha.

Embora tenham convivido por menos de um ano, a despedida forçada e o reencontro ocorrido mais de seis décadas depois, transformaram a história de Süleyman Dilbirliği e Ayla em um dos maiores símbolos da amizade entre Coreia do Sul e Turquia. Até hoje, a trajetória dos dois é lembrada em cerimônias oficiais, documentários, livros e museus, além de ter inspirado o filme Ayla: A Filha da Guerra, responsável por apresentar essa história a espectadores de diferentes partes do mundo.

Mais do que um relato emocionante sobre duas pessoas que se encontraram durante um conflito, conhecer a história de Ayla também ajuda a entender por que Coreia do Sul e Turquia cultivam uma relação tão próxima até os dias de hoje. Esse vínculo, frequentemente celebrado pelos governos dos dois países, nasceu em um dos períodos mais violentos do século XX e continua sendo lembrado como um exemplo de solidariedade em meio à guerra.

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Ficou curioso para entender como um dos conflitos mais importantes do século XX deu origem a essa história e aproximou dois países separados por milhares de quilômetros? Então a gente te conta todos os detalhes.

Antes da Guerra da Coreia começar, a península já vivia uma divisão que mudaria seu destino para sempre

Para compreender como um soldado turco acabou encontrando uma menina coreana em meio aos combates, é preciso voltar alguns anos no tempo. A história de Ayla não começou em 1950, quando a guerra teve início, mas décadas antes, em um período marcado por ocupações, disputas internacionais e decisões tomadas por potências estrangeiras que mudariam completamente o futuro da península coreana.

Entre 1910 e 1945, a Coreia viveu sob o domínio do Império Japonês. Durante esses 35 anos, o país deixou de existir como um Estado independente e passou por um intenso processo de colonização. Além da exploração econômica, a população enfrentou políticas que buscavam enfraquecer sua identidade cultural. Em diferentes momentos, o uso da língua coreana foi restringido, milhares de pessoas foram submetidas ao trabalho forçado e muitas famílias sofreram com a repressão imposta pelo governo colonial japonês.

A situação começou a mudar apenas em agosto de 1945, quando o Japão anunciou sua rendição na Segunda Guerra Mundial. Para os coreanos, aquele momento representava a esperança de recuperar a independência e reconstruir o país depois de mais de três décadas de ocupação. O futuro, porém, tomou um rumo muito diferente do esperado.

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Naquele mesmo período, Estados Unidos e União Soviética emergiram como duas grandes potências mundiais. Antes que os próprios coreanos pudessem decidir como reorganizar o país, as duas nações concordaram em dividir temporariamente a administração da península utilizando o paralelo 38 como linha de referência. Ao norte, o território passou a ser administrado pelos soviéticos; ao sul, pelas forças norte-americanas.

A divisão tinha caráter provisório e fazia parte de um plano para organizar a transição política após o fim da guerra. A expectativa era que, em algum momento, eleições fossem realizadas e um único governo voltasse a administrar toda a Coreia. No entanto, o avanço da Guerra Fria transformou rapidamente essa proposta em um impasse diplomático.

Enquanto a União Soviética apoiava a criação de um governo comunista liderado por Kim Il-sung, os Estados Unidos fortaleciam um governo anticomunista comandado por Syngman Rhee, no Sul. Em vez de caminhar para a reunificação, a península passou a abrigar dois projetos políticos completamente diferentes, cada um reivindicando legitimidade sobre todo o território coreano.

Em 1948, essa divisão tornou-se oficial com a criação da República da Coreia, no sul, e da República Popular Democrática da Coreia, no norte. A partir desse momento, os confrontos na fronteira passaram a se tornar cada vez mais frequentes, alimentados por discursos nacionalistas e pela crescente rivalidade entre os dois blocos que disputavam influência durante a Guerra Fria. A guerra ainda não havia começado, mas o cenário deixava claro que bastava um único estopim para transformar aquela tensão em um conflito de grandes proporções.

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A invasão norte-coreana transformou uma disputa política em um conflito que mobilizou o mundo

Na madrugada de 25 de junho de 1950, o cenário de tensão que vinha se formando desde o fim da Segunda Guerra Mundial finalmente chegou ao limite. Tropas da Coreia do Norte atravessaram o paralelo 38 e iniciaram uma ofensiva em larga escala contra o Sul, dando início à Guerra da Coreia. O ataque foi rápido e surpreendeu tanto o governo sul-coreano quanto a comunidade internacional. Em poucos dias, cidades importantes foram ocupadas e milhares de civis precisaram abandonar suas casas às pressas para tentar escapar dos combates.

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A capital Seul caiu apenas três dias após o início da invasão. Enquanto as tropas norte-coreanas avançavam, a população civil enfrentava uma realidade cada vez mais dramática. Famílias eram separadas durante as evacuações, bairros inteiros foram destruídos pelos bombardeios e milhares de crianças acabaram órfãs ou desapareceram em meio ao caos. Muitas delas nunca mais voltaram a encontrar seus pais ou parentes, uma consequência da guerra que marcou profundamente toda uma geração de coreanos.

O conflito rapidamente deixou de ser uma disputa restrita à península. Em um contexto dominado pela Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética enxergavam a situação como parte de uma disputa muito maior entre capitalismo e comunismo. Poucos dias após a invasão, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou uma resolução condenando a ofensiva norte-coreana e autorizando a formação de uma força multinacional para auxiliar a Coreia do Sul. A medida só foi possível porque a União Soviética, que poderia vetar a decisão no Conselho de Segurança, boicotou as reuniões da organização naquele momento.

Ao todo, 22 países contribuíram para a missão da ONU. Dezesseis enviaram tropas para atuar diretamente nos combates, enquanto outros ofereceram apoio médico, hospitais de campanha, suprimentos e assistência humanitária. Entre as nações que decidiram participar estava a Turquia, um país localizado a mais de oito mil quilômetros da península coreana e que, até então, não possuía qualquer ligação direta com aquele conflito.

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A decisão da Turquia foi motivada por interesses estratégicos, mas acabaria criando uma ligação permanente com a Coreia do Sul

A participação turca na Guerra da Coreia costuma despertar curiosidade justamente pela distância entre os dois países. Afinal, por que uma nação localizada entre a Europa e a Ásia decidiu enviar milhares de soldados para lutar em um conflito tão distante de suas fronteiras?

A resposta está no contexto político da época. Após a Segunda Guerra Mundial, a Turquia buscava fortalecer sua relação com os países do bloco ocidental. O governo turco via com preocupação o crescimento da influência soviética na região e entendia que estreitar laços com Estados Unidos e Europa Ocidental era fundamental para garantir sua segurança. Participar da missão organizada pela ONU representava uma oportunidade de demonstrar esse compromisso e reforçar sua posição internacional.

Naquele momento, outro objetivo também fazia parte da estratégia do governo: ingressar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), criada em 1949 para reunir países aliados diante da expansão soviética. Embora a participação na Guerra da Coreia não tenha sido o único fator considerado, ela reforçou o papel da Turquia como parceira do bloco ocidental e antecedeu sua entrada oficial na aliança, concretizada em 1952.

Poucos meses após o início da guerra, a Brigada Turca desembarcou na Coreia do Sul. O primeiro contingente era formado por cerca de cinco mil militares, mas, ao longo dos três anos de conflito, aproximadamente 15 mil soldados turcos serviram na península em diferentes rotações. Muitos deles nunca haviam saído de seu país e precisaram enfrentar um cenário completamente diferente daquele que conheciam, desde o inverno rigoroso até a barreira do idioma e da cultura local.

Mesmo diante dessas dificuldades, a Brigada Turca rapidamente conquistou respeito entre os aliados. A disciplina dos soldados e a disposição para cumprir missões consideradas extremamente arriscadas fizeram com que a unidade ganhasse reconhecimento internacional, especialmente após sua atuação em uma das batalhas mais importantes de toda a Guerra da Coreia.

A Batalha de Kunuri colocou a Brigada Turca diante de uma das missões mais difíceis do conflito

No fim de novembro de 1950, poucos meses depois da chegada dos militares turcos à península, a guerra passou por uma mudança decisiva. Tropas chinesas entraram oficialmente no conflito ao lado da Coreia do Norte e lançaram uma grande ofensiva contra as forças da ONU. O avanço foi tão rápido que milhares de soldados aliados correram o risco de ficar completamente cercados.

Foi nesse momento que a Brigada Turca recebeu uma missão considerada essencial para evitar uma derrota ainda maior. Os militares deveriam conter o avanço das tropas chinesas e proteger a retirada das forças da ONU, permitindo que elas se reorganizassem em posições mais seguras. A tarefa era extremamente arriscada e acontecia em condições climáticas severas, com temperaturas abaixo de zero, neve intensa e um terreno montanhoso que dificultava qualquer deslocamento.

Durante dias, os soldados turcos enfrentaram combates intensos contra um inimigo numericamente superior. As perdas foram significativas, com centenas de mortos, feridos e desaparecidos, mas a resistência da brigada contribuiu para que milhares de militares aliados escapassem do cerco. Embora historiadores ainda debatam alguns aspectos estratégicos da batalha, existe um consenso de que a atuação da Brigada Turca foi um dos episódios que consolidaram sua reputação durante a guerra e fortaleceu o respeito conquistado entre seus aliados.

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Enquanto esses confrontos aconteciam em diferentes regiões da península, a guerra continuava produzindo uma consequência silenciosa e devastadora: o número de crianças que haviam perdido suas famílias não parava de crescer. Foi em meio a esse cenário que um dos soldados da Brigada Turca viveria o encontro que mudaria sua vida para sempre. Durante uma patrulha, o sargento Süleyman Dilbirliği encontraria uma pequena menina caminhando sozinha entre os escombros de uma cidade destruída, sem imaginar que aquele momento seria lembrado décadas depois como um dos maiores símbolos da amizade entre Coreia do Sul e Turquia.

Foi entre os escombros da guerra que Süleyman encontrou uma menina que havia perdido tudo

As batalhas continuavam espalhadas por diferentes regiões da península quando, durante uma patrulha realizada no fim de 1950, o sargento turco Süleyman Dilbirliği se deparou com uma cena que permaneceria em sua memória pelo resto da vida. Em meio aos destroços deixados pelos bombardeios, ele encontrou uma menina de aproximadamente cinco anos caminhando completamente sozinha. Assustada, desnutrida e sem conseguir explicar quem era ou onde estavam seus familiares, ela era mais uma das milhares de crianças que tiveram a infância interrompida pela Guerra da Coreia.

Os registros da época não permitem afirmar exatamente o que aconteceu com a família da menina, mas tudo indica que ela havia sido separada dos pais durante os combates ou os perdido em um dos ataques que atingiram a região. Situações como essa eram comuns durante a guerra. Com cidades inteiras destruídas e deslocamentos constantes da população, milhares de crianças acabaram vivendo em orfanatos improvisados ou simplesmente vagando sozinhas pelas áreas afetadas pelo conflito.

Sem encontrar qualquer responsável pela menina e sem conseguir descobrir seu nome verdadeiro, Süleyman tomou uma decisão que mudaria a vida dos dois. Ele a levou para a base da Brigada Turca, onde acreditava que teria alimento, abrigo e segurança. Como ela não conseguia dizer como se chamava, o militar passou a chamá-la de Ayla, palavra que significa “halo da lua” em turco. Anos mais tarde, ele explicaria que escolheu esse nome porque, quando a encontrou, o rosto da criança parecia iluminado pela luz do luar, uma imagem que jamais saiu de sua memória.

O que começou como um gesto de proteção rapidamente ultrapassou a relação entre um soldado e uma criança resgatada da guerra. À medida que os dias passavam, Süleyman passou a assumir espontaneamente o papel de pai, enquanto Ayla encontrava nele uma figura de segurança em um momento em que havia perdido praticamente tudo.

A pequena Ayla devolveu um pouco de esperança aos soldados que conviviam diariamente com a dureza da guerra

A presença de uma criança dentro de uma base militar estava longe de fazer parte da rotina da Brigada Turca. Ainda assim, Ayla foi acolhida não apenas por Süleyman, mas por praticamente todos os soldados que conviviam com ela. Em um ambiente marcado por ordens militares, patrulhas constantes e notícias de combate, a menina acabou se tornando um símbolo de esperança para homens que enfrentavam diariamente a violência da guerra.

Os militares dividiam parte das refeições com Ayla, providenciavam roupas, improvisavam brinquedos e faziam o possível para que ela tivesse uma rotina minimamente parecida com a de qualquer criança. Mesmo sem compartilhar o mesmo idioma, a comunicação acontecia naturalmente por meio de gestos, sorrisos e demonstrações de carinho. Aos poucos, a menina passou a reconhecer cada um dos soldados, criou laços de amizade e começou até mesmo a aprender algumas palavras em turco.

Entre todos eles, no entanto, era com Süleyman que Ayla mantinha a relação mais próxima. Sempre que o sargento precisava sair para alguma missão, ela aguardava ansiosamente seu retorno. Quando ele voltava à base, era comum que a menina corresse para encontrá-lo. O militar, por sua vez, aproveitava cada momento livre para brincar com ela, alimentá-la e garantir que estivesse protegida. A convivência diária fez com que ambos passassem a se enxergar como uma família, ainda que soubessem que aquela realidade dificilmente seria permanente.

Anos depois, ao recordar aquele período, Süleyman afirmaria que Ayla havia devolvido um pouco da humanidade que a guerra insistia em apagar. Em meio às perdas, ao medo constante e às consequências dos combates, cuidar daquela criança representava uma lembrança de que ainda existiam motivos para acreditar em um futuro diferente.

Quando a missão chegou ao fim, a despedida se tornou a batalha mais difícil para os dois

No início de 1951, a Brigada Turca recebeu ordens para retornar ao seu país. Depois de meses atuando na Guerra da Coreia, os soldados começariam a deixar a península, encerrando a primeira missão do contingente enviado pela Turquia. Para Süleyman, porém, aquela notícia significava muito mais do que o fim de uma operação militar.

Ao longo dos meses em que viveram juntos, ele havia construído uma relação tão forte com Ayla que não conseguia imaginar deixá-la para trás. Determinado a permanecer ao lado da menina, tentou encontrar uma maneira de levá-la consigo para a Turquia e adotá-la oficialmente. A ideia, entretanto, esbarrou na realidade burocrática de um país devastado pela guerra.

Sem documentos que comprovassem sua identidade e sem qualquer informação sobre familiares, Ayla não podia deixar a Coreia. Além disso, as regras militares da época não permitiam que um soldado estrangeiro adotasse uma criança encontrada durante o conflito. Apesar das tentativas feitas por Süleyman e do apoio de companheiros da Brigada Turca, a autorização nunca foi concedida.

Sem outra alternativa, Ayla foi encaminhada para um orfanato sul-coreano. A despedida aconteceu sob lágrimas dos dois lados. Enquanto o sargento embarcava de volta para casa, a menina permanecia na Coreia sem compreender por que aquele homem que havia se tornado seu pai precisava partir.

Süleyman retornou à Turquia carregando a esperança de que um dia conseguiria reencontrá-la. Naquele momento, porém, ele sequer sabia qual era o verdadeiro nome de Ayla ou se ela ainda estaria viva nos anos seguintes. Mesmo assim, jamais deixou que a história dos dois fosse esquecida.

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Sessenta anos de distância não foram suficientes para apagar uma história que atravessou gerações

Depois de voltar para a Turquia, Süleyman Dilbirliği retomou sua vida, constituiu família e seguiu a carreira militar. Ainda assim, havia uma lembrança que nunca o abandonou. Sempre que tinha oportunidade, contava para amigos, familiares e jornalistas sobre a menina que havia encontrado durante a Guerra da Coreia. Em todas as entrevistas, repetia o mesmo desejo: descobrir o que havia acontecido com Ayla e saber se ela havia conseguido reconstruir a própria vida depois do conflito.

Do outro lado do mundo, a menina também seguiu seu caminho. Após ser encaminhada para um orfanato, foi adotada por uma família sul-coreana e passou a viver com o nome Kim Eun-ja, identidade que só seria conhecida décadas mais tarde. Embora sua infância tivesse sido marcada pela guerra, ela jamais esqueceu o período em que viveu ao lado da Brigada Turca e do soldado que passou a chamar de pai.

Durante muitos anos, no entanto, os dois acreditaram que nunca mais voltariam a se encontrar. Süleyman conhecia apenas o apelido que havia dado à menina, enquanto Kim Eun-ja não tinha informações suficientes para localizar o militar turco. A distância entre os dois parecia definitiva, até que a história começou a ganhar repercussão na imprensa.

Reportagens exibidas na Turquia chamaram a atenção de jornalistas e autoridades sul-coreanas, que decidiram ajudar na busca. A procura envolveu emissoras de televisão, veteranos da Guerra da Coreia e órgãos públicos dos dois países. Depois de uma investigação baseada em registros históricos e depoimentos de pessoas que participaram do conflito, foi possível confirmar que Ayla era, na verdade, Kim Eun-ja.

O reencontro aconteceu em 2010, em Seul, mais de seis décadas após a despedida.

As imagens daquele momento rapidamente circularam pelo mundo. Assim que se viram, Süleyman e Kim Eun-ja se abraçaram por vários minutos, emocionando não apenas as pessoas presentes, mas milhões de espectadores que acompanharam a cena pela televisão e pela internet. Mesmo depois de tantos anos, os dois demonstravam o mesmo carinho construído durante os meses em que viveram juntos na Guerra da Coreia.

O reencontro acabou ultrapassando o aspecto pessoal. Para muitos sul-coreanos e turcos, aquele abraço representava também uma homenagem aos milhares de soldados que participaram do conflito e às famílias que tiveram suas vidas transformadas pela guerra. A história de Ayla passou a ser vista como um símbolo da solidariedade que nasceu em um dos períodos mais difíceis da história da península.

A amizade entre Coreia do Sul e Turquia continua sendo celebrada mais de sete décadas depois da guerra

A participação da Turquia na Guerra da Coreia ocupa um lugar de destaque na memória histórica sul-coreana. Além dos memoriais dedicados aos soldados estrangeiros que participaram do conflito, os militares turcos são frequentemente homenageados em cerimônias oficiais realizadas no país. Para muitos veteranos e suas famílias, esse reconhecimento representa uma forma de preservar a lembrança daqueles que viajaram milhares de quilômetros para defender um povo que até então lhes era completamente desconhecido.

Essa proximidade também se reflete nas relações diplomáticas entre os dois países. Não é raro que autoridades sul-coreanas e turcas utilizem a expressão “países irmãos” em discursos e encontros oficiais, destacando que o vínculo entre as duas nações foi construído durante a Guerra da Coreia. Ao longo das últimas décadas, essa relação se fortaleceu por meio de acordos comerciais, intercâmbios culturais, cooperação acadêmica e iniciativas voltadas à preservação da memória do conflito.

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Embora existam diversos episódios que expliquem essa aproximação, poucos se tornaram tão conhecidos quanto a história de Ayla e Süleyman. O encontro entre os dois acabou personificando uma relação construída não apenas por decisões políticas ou alianças militares, mas também por gestos individuais de solidariedade em um momento de extrema vulnerabilidade.

Até hoje, veteranos da Brigada Turca e familiares de soldados que participaram da guerra costumam visitar a Coreia do Sul para participar de homenagens e reencontros. Da mesma forma, instituições sul-coreanas frequentemente promovem cerimônias para agradecer a atuação dos países que integraram a força da ONU, mantendo viva a memória daqueles que contribuíram para a defesa do país durante o conflito.

Curiosidades sobre Ayla e a relação entre Coreia do Sul e Turquia
  • O nome Ayla significa “halo da lua” em turco e foi escolhido por Süleyman porque, segundo ele, o rosto da menina parecia iluminado pelo luar quando eles se encontraram.
  • Aproximadamente 15 mil soldados turcos serviram na Guerra da Coreia entre 1950 e 1953, tornando a Turquia um dos países que mais contribuíram com tropas para a força da ONU.
  • O verdadeiro nome de Ayla era Kim Eun-ja, informação que Süleyman só descobriu quando os dois se reencontraram, m ais de 60 anos depois.
  • A Turquia tornou-se membro da OTAN em 1952, durante a Guerra da Coreia, período em que sua participação no conflito reforçou o alinhamento com o bloco ocidental.
  • A expressão “países irmãos” continua sendo utilizada por autoridades sul-coreanas e turcas para destacar a amizade construída durante a guerra.
Uma história real que emocionou o mundo também ganhou vida nos cinemas

Uma trajetória como a de Süleyman Dilbirliği e Kim Eun-ja dificilmente permaneceria restrita aos livros de História. Em 2017, a emocionante relação entre os dois inspirou Ayla: A Filha da Guerra, longa-metragem dirigido por Can Ulkay que levou essa história para o cinema e apresentou o episódio a um público muito maior.

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Baseado em acontecimentos reais, o filme acompanha o momento em que o sargento encontra a pequena Ayla durante a Guerra da Coreia, retratando a convivência entre os dois e as dificuldades enfrentadas quando chega a hora da despedida. Embora algumas situações tenham sido adaptadas para a narrativa cinematográfica, a produção preserva o elemento que tornou essa história conhecida internacionalmente: o vínculo criado entre um soldado estrangeiro e uma criança que havia perdido tudo por causa da guerra.

O longa foi escolhido para representar a Turquia na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar e recebeu reconhecimento em diversos festivais ao redor do mundo. Mais do que contar uma história emocionante, Ayla: A Filha da Guerra ajudou a apresentar às novas gerações um capítulo pouco conhecido da Guerra da Coreia e reforçou a importância da memória de um conflito que continua influenciando as relações entre os dois países até hoje.

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Texto revisado por Angela Maziero Santana

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