Em entrevista ao Entretetizei, a escritora e artista visual Tieko Irii fala sobre memória, silêncio e identidade em As ruas sem nome, obra que transforma a experiência nipo-brasileira em um potente relato sobre pertencimento, racismo e herança familiar
Entre lembranças fragmentadas, silêncios herdados e a busca por pertencimento, a escritora e artista visual Tieko Irii transforma a sua história em arte e reflexão no livro As ruas sem nome (Editora Patuá, 2025). A obra atravessa três gerações de imigrantes japoneses e resgata vozes que por muito tempo permaneceram caladas, entre o peso da diáspora, o racismo e o desejo de existir fora das narrativas impostas.
Ao costurar memórias familiares e pessoais, Tieko expõe o impacto do silêncio como linguagem, da ausência como herança e da imagem como ferramenta de reconstrução. Sua escrita mistura passado e presente, Japão e Brasil, dor e reconciliação.
É nesse entre-lugar — o “não lugar” de quem vive entre duas culturas — que a autora encontra força para questionar estereótipos, desafiar o mito da minoria modelo e revisitar a própria infância marcada por invisibilidades e descobertas.

Com olhar sensível e crítico, Tieko fala sobre o processo de escrever a si mesma sem romantismo, tratando a escrita como confronto e não como cura. A conversa passa por temas como a relação com o corpo racializado, a influência das imagens na memória, o legado de seu pai e o papel da arte na reconstrução de pertencimentos possíveis.
Nesta entrevista ao Entretetizei, Tieko Irii reflete sobre as camadas de identidade, o silêncio como narrativa e o poder de transformar o pessoal em coletivo, um gesto que, mais do que literário, é profundamente político:
Entretetizei: Ao revisitar os silêncios familiares e as lacunas da memória, em que momento você percebeu que o silêncio também era uma forma de narrativa e que, talvez, contasse tanto quanto as palavras?
Tieko Irii: O silêncio sempre foi uma presença constante na minha família. Um silêncio que representava: respeito, humildade, harmonia e um lugar onde estaria segura, mesmo que ninguém falasse nada, mesmo que eu desejasse que falassem alguma coisa. Tinha que lidar com as coisas sozinha mesmo que não tivesse ferramentas suficientes para isso, que para nós, ocidentais, poderia ser confundido com um certo desamparo. E talvez fosse. Mas era assim: o silêncio como um porto seguro.
Quando comecei a resgatar as histórias da família, eu sabia que não seria fácil tirar algo dos meus familiares, mas esse silêncio era diferente. Eles tinham uma resistência e uma dificuldade enorme em rememorar as dolorosas experiências pelas quais haviam passado durante a infância: o trabalho na roça, as dificuldades, os sacrifícios, os sonhos roubados e durante a juventude, particularmente no período da Segunda Guerra: a perseguição, o medo de sair na rua e serem hostilizados, presos, de falar japonês em público, as duas vezes que meu avô foi preso. Eram muitas narrativas silenciadas pela vergonha. Na cultura japonesa, o coletivo é mais importante que o indivíduo, sempre em prol de um bem maior. O individualismo é considerado um traço negativo e egoísta. As experiências pessoais, os sentimentos e as emoções não são importantes. Demonstrar sofrimento era um tabu doloroso demais. Muitas vezes nas entrevistas eu não tinha coragem de ir mais fundo e só me restava compartilhar o silêncio deles.
Eu percebi que esse processo era exatamente o que aconteceu comigo quando comecei a escrever e fui obrigada a abrir o baú da memória: o que eu lembrava era o que mais queria esquecer. Uma história de bullying, racismo, silenciamentos, falta de pertencimento, vergonha, raiva e transgressões. Até as experiências boas, as alegrias, as descobertas e os mistérios pareciam ter apenas um valor pessoal, portanto sem valor nenhum.
E: Você menciona o “não lugar” de ser nipo-brasileira, nem totalmente aceita no Brasil, nem plenamente pertencente ao Japão. Hoje, depois de escrever o livro, esse “não lugar” ainda é ausência — ou se tornou uma espécie de morada simbólica?
T: Eu acho que continuo habitando esse “não lugar”, uma vez que a noção de pertencimento está muito ligada ao olhar do outro, que te acolhe ou não como igual. A experiência de estrangeiridade permanece em qualquer lugar que eu esteja, no Brasil, no Japão, no fim do mundo. Minha viagem ao Japão foi um resgate étnico identitário, mas não um lugar único e fixo, e sim um ponto de partida. Somos feitos de múltiplas camadas. Conforme o território onde meu corpo circula, a identidade se transforma em algo fluido e transitório, dependendo da forma contextual e relacional que estabelecemos.
Nesse sentido, eu gosto de pensar no Ma, uma noção japonesa de tempo e espaço. O ideograma ma (間), é formado pelos kanji portal 門 e sol 日, que nos aquece e ilumina todas as coisas e o portal é um espaço vazio cheio de potencialidades, um “entre espaços”, uma fronteira entre dentro e fora, que separa, mas ao mesmo tempo ata. É esse lugar que habito, a beleza de ser brasileiro é isso, ser tudo ao mesmo tempo. Sou samba, rock, soul, bossa nova e sushi. Mas também é um lugar de estranhamento do artista.
E: Como artista visual, você trabalha com colagens e arquivos familiares. Que papel teve a imagem — fotográfica, imaginada ou fragmentada — na reconstrução de uma memória que foi, em muitos momentos, negada ou esquecida?
T: Quando eu comecei a escrever, as pessoas questionavam como ia ser a capa, se eu ia fazer ilustrações para o livro, mas eu achava que meu trabalho não tinha nada a ver com o livro. Um dia, meu mentor, Marcelo Carnevale, sugeriu que eu resgatasse as fotos familiares e trabalhasse visualmente as memórias para ajudar no processo da escrita, foi aí que comecei a construir algumas narrativas e iniciei um ateliê de colagem com a artista Renata Cruz, no Tomie Othake, que me abriu para o esse universo maravilhoso.
Foi assim que consegui ressignificar muitos aspectos da minha família e da minha vida, principalmente da minha criança, a desconstrução do meu pai, a importância dos meus avós. Um dos arquivos mais simbólicos que trabalhei foi uma foto minha com uma boneca loira nas mãos. Era muito difícil manipular as imagens: recortar, dividir, amassar, estilhaçar, desconstruir, adicionar, subtrair… parecia que estava fazendo uma heresia. Mas foi dessa forma que consegui me reconciliar com minha mãe, por exemplo, com quem tive uma relação tumultuada durante a adolescência. Era muito doloroso cortar a fotografia dela, mas foi só a partir desse processo que consegui escrever algo sobre ela.

E: Você fala sobre a exotificação e o racismo contra corpos amarelos. De que maneira a consciência do próprio corpo transformou sua escrita e como essa escrita também transforma o modo como você habita esse corpo?
T: O livro foi se escrevendo conforme eu fui tomando consciência do meu corpo. Eu me via como uma pessoa quase branca. Constatar que queria ser a mais branca possível e como isso implicou uma série de auto violências no meu modo ser e agir foi muito doloroso. Acho que faz pouco tempo, que nós, amarelos, nos percebemos como corpos racializados. Conforme fui me inserindo na história do mundo, dentro da visão colonizadora eurocêntrica que dividiu o mundo em cores e raças; no mito da democracia racial brasileira que não existe; que apesar de não sermos vistos como totalmente brasileiros, ocupamos um lugar de privilégio que aprofunda ainda mais a diferença que compõe as cores desse cenário e me fez perceber que fazíamos parte do racismo estrutural brasileiro, eu pude discriminar e nomear as experiências pelas quais passava: o preconceito, as pequenas violências, o racismo recreativo, os estereótipos ligados às mulheres amarelas consideradas exóticas, dóceis, submissas ou associadas à imagem hipersexualizada da gueixa, que a maioria de nós passa até hoje, que nos essencializa, tira a nossa humanidade e nos transforma em um objeto. Foi um choque. Mas ao mesmo tempo, foi libertador descobrir que essa história não era só minha, que eu fazia parte de uma história coletiva. Por outro lado, foi muito difícil assumir minha própria história, principalmente validar as minhas escolhas, os meus desejos e os meus sonhos. Somos frutos da história, mas também sujeitos da nossa história e por mais doloroso que possa ter sido, hoje posso me ver como parte do mundo.
E: A autobiografia secreta de seu pai foi um ponto de partida para o livro. Que tipo de espelho — ou de abismo — você encontrou entre a narrativa dele e a sua? O que ficou herdado e o que precisou ser rompido?
T: A história do meu pai era cercada de mistérios e segredos que ele nunca contou para ninguém, nem para minha mãe. Dentro da família diziam que ele fugiu para o Brasil, porque ele era um filho bastardo ou porque ele não gostava da mãe e isso me incomodava. Um dia, em sua velhice, eu pedi para que ele contasse sua história e imaginei que ele não falaria nada, mas para minha surpresa ele me contou toda sua saga até chegar ao Brasil. Uma história singular e comovente de um jovem japonês com uma infância marcada por tragédias familiares, que fugiu de casa aos 16 anos, logo após a morte de seu pai, para escapar da pobreza e das imposições familiares. Perambulou pelo Japão devastado com o término da Segunda Guerra e se envolveu em mil aventuras. Fiquei abismada e perguntei por que ele nunca havia contado para ninguém e ele disse: “Triste demais, quem se interessaria?”
Foi revelador conhecer um homem, para além do meu pai, em suas errâncias, falhas e incompletude. Um jovem irrequieto, corajoso e transgressor, sem fazer um julgamento moral ou um juízo de valor, mas depois daquela tarde nunca mais tocamos no assunto e sua história provavelmente morreria comigo.
Após a sua morte, foi uma surpresa enorme quando eu descobri, no fundo de sua gaveta, a sua autobiografia, que ele escreveu um ano antes de sofrer um derrame, parecia um acerto de contas com o passado. Eu gosto de pensar que o livro começou naquele encontro, com a provocação que fiz, mas a todo momento eu fazia a mesma pergunta do meu pai, quem vai se interessar por essa história, sobretudo de uma garota asiática?
Assim como foi difícil ter aquela conversa com meu pai, foi muito difícil romper o silêncio da família, o meu próprio silêncio e enfrentar o meu caos, mas aos poucos fui me reconciliando com minha história e assim como ele tentei ser a mais honesta possível. Nossas vidas se entrelaçam no livro e fui percebendo o quanto nossas histórias eram parecidas, de como fomos movidos pelo desejo e não nos conformamos aos lugares aos quais estávamos destinados. De alguma forma, fui seguindo os seus passos mesmo não sabendo nada da sua vida. Um verdadeiro mistério. O interessante é que meu pai encontrou no Brasil, no exílio o seu lugar de pertencimento, assim como eu.
E: Você diz que achava sua história “banal”, e que entender isso como uma forma de silenciamento foi libertador. Que conselhos daria para outras mulheres racializadas que ainda duvidam da importância de suas próprias histórias?
T: Entender que as mulheres sofreram séculos de opressão e de silenciamento do patriarcado, ver que nossas histórias eram sempre contadas por homens, ler e ouvir escritoras mulheres me ajudou a superar a barreira de não valorizar a minha história, mas não totalmente. São muitas as opressões internalizadas, confesso que até publicar o livro eu tinha uma certa vergonha de dizer que o livro se tratava sobre mim, pois eu toco em traumas, violências e temas íntimos e delicados, que são tabus até hoje. Eu dizia apenas que era um resgate de histórias familiares, mas eu fui em frente, é preciso ter coragem. O desejo de quebrar o paradigma de uma narrativa única sobre as mulheres asiáticas, sobre o Japão e sobre a diáspora japonesa era maior e, de fato, foi e tem sido libertador na medida que recebo o retorno das leitoras e leitores.
Eu diria que é muito importante contar a nossa história. Ouvir. Ouvir as histórias da família, de seus pais, pode ser revelador. No entanto, a memória é falha e movediça e como diz a escritora Rosa Monteiro, temos a oportunidade de preencher essas lacunas com a nossa imaginação e que somos palavras em busca de sentido para dar uma aparência de destino ao caos da vida. Recordar, isto é passar pelo coração, por mais difícil que seja, nos dá a possibilidade de completar a experiência, elaborar e trazer algo de novo. Mudar o ângulo, ver por outra perspectiva, isso pode ser transformador e mudar a sua vida.

E: O processo de escrita foi, nas suas palavras, um confronto, não uma cura. Depois desse enfrentamento, o que mudou na forma como você olha para o passado — e o que ainda permanece em aberto?
T: Muitas pessoas me perguntam e se referem a escrita de si como um processo de cura, mas me parece muito e muito pouco ao mesmo tempo, pois é um processo que não tem fim. O livro me deu muitas respostas, aprendi muito. Eu tive que enfrentar muitos fantasmas, ir a lugares muito profundos e dolorosos, colocar em palavras todos os fragmentos indesejados que coloquei naquele sótão escuro e abafado e confrontar tudo isso com o real, com o meu desejo, com o mundo.
Sem dúvida, foi um processo de transformação, muitas fichas caíram, chorei muito, tive muitos insights. Uma operação mental e emocional enorme para dar sentido a tudo e, por fim, ser grata à vida. Olhar para trás e ver que está tudo certo, apesar de. Transformar a minha percepção em relação a mim mesma e a minha relação com o mundo e como tudo isso pode mudar, ao mesmo tempo que vão surgindo muitas outras perguntas que eu vou procurar responder. A identidade e o pertencimento são questões complexas, penso no filósofo Édouard Glissant, que propõe a utopia de inventar um “povo ausente”, não comprometido com a ideia de uma identidade fixa. Ainda bem que não alcancei o nirvana, continuo a mesma pessoa curiosa, cheia de inquietações, dúvidas, medos e incertezas.
E: As ruas sem nome amplia a experiência individual para uma história coletiva da diáspora japonesa no Brasil. Que futuros você imagina para as próximas gerações amarelas e mestiças? E que papel a arte pode desempenhar nessa reconstrução de pertencimento?
T: É muito irritante quando uma pessoa me vê e diz “Ah! Eu amo o Japão, a cultura japonesa, queria ser japonês” é difícil fazer entender que não somos o Japão, que nós somos brasileiros. Muitas pessoas se surpreendem quando digo que sofremos racismo, é uma discussão muito nova.
Eu fico muito emocionada ao conversar com os leitores que querem saber mais sobre nossas histórias ou jovens que querem entender mais sobre suas origens. Diferente de mim, que neguei, por conta do racismo, a minha origem, eles partem de um outro lugar, partem da ancestralidade e têm orgulho de serem o que são, asiáticos nipo-brasileiros, mas também querem achar o seu lugar. Acho que o mais importante foi o momento que começamos a nos perceber como amarelos ou miscigenados e todas as implicações e atravessamentos diversos que sofremos, como os negros-amarelos, ainda mais complexo. O racismo nos coloca em certas caixinhas pré-estabelecidas, tira o nosso lugar e a nossa singularidade. A representatividade, sem dúvida, é importantíssima para as gerações futuras. Existem vários movimentos nos quais atrizes, atores e artistas buscam abrir espaço no mainstreming, por isso a ideia de identidade e pertencimento é importante para os grupos se organizarem politicamente e lutarem pelos seus direitos. Hoje, já vemos atores e atrizes amarelos nas novelas da Globo, mas tem que ser uma luta conjunta com outras minorias marginalizadas.
Por isso, a arte, o cinema, o teatro, a literatura são tão importantes, um lugar por onde podemos ir pelas frestas e criar um espaço de escuta. É a possibilidade de conhecermos outras realidades, de nos colocarmos no lugar do outro e criarmos um mundo com mais alteridade.
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Texto revisado por Cris Rodrigues










