Cultura e entretenimento num só lugar!

Foto: divulgação / Karina Heid

Entrevista | Karina Heid reflete sobre mercado de livros independentes no Brasil e a escrita de romances históricos

Escritora acredita que o cenário atual para autores nacionais é positivo, mas ainda há muitas dificuldades ao se publicar de forma independente 

Karina Heid é autora independente e já conta com mais de 40 livros publicados pela Amazon. Entre eles, narrativas que retratam amores contemporâneos, mas, principalmente, romances de época. Nos últimos anos, histórias ambientadas em tempos passados têm feito bastante sucesso entre os leitores de romances românticos. Um exemplo é a série Os Bridgertons, de Julia Quinn, que virou série no streaming. Escritoras como Lisa Kleypas, Tessa Dare e Carina Rissi também escrevem histórias ambientadas em determinado período histórico. 

Heid começou a escrever aos 14 anos, mas foi ao mudar de país que começou a enxergar a paixão como um modo de ganhar a vida. Passando pelas faculdades de Comunicação e Psicologia, ela constrói em seus livros tramas que mesclam história, questões sociais e sensualidade. Além disso, a autora mantém um projeto de escrita terapêutica — denominado O Caminho Interior —, no qual realiza artigos para blogs e cursos. 

Em entrevista, Karina comenta sobre a sua trajetória como escritora, a sua perspectiva sobre o mercado de livros independentes no Brasil e as descobertas ao escrever um romance histórico. Confira. 

Entretetizei: Como começou a sua jornada como escritora? 

Karina Heid: Aconteceu porque em 2014 eu me mudei para a Romênia e, sem poder trabalhar, resolvi escrever. Lá eu escrevi a minha fantasia A Jornada das Bruxas (no momento, fora da Amazon) e assim começou.

E: Quais autores ou obras marcaram sua formação como leitora e influenciaram o seu estilo?

KH: Não sei se tenho um estilo… Bem, devo ter, porque todo autor tem, mas não sei dizer quem me influenciou. Acho que ler Lauren Oliver me fez entender que eu gostava muito de uma prosa mais poética (ela escreve livros juvenis e se destaca de outras por essa característica). Também sempre adorei Margaret Atwood e Clarice Lispector por suas metáforas inteligentes e entendi, enquanto lia Cheryl Strayed, que sou apaixonada por certos temas (liberdade, empatia, força). 

E: Qual foi o maior desafio que você enfrentou ao começar a escrever profissionalmente?

KH: Aprender que não bastava escrever, eu teria que vender também. 

E: Como é o seu processo de criação?

KH: Ele vai mudando, não é estático. Às vezes a história vem inteira, como em A Última Peça. Às vezes ele sai mais lento, e preciso insistir. Normalmente, tudo começa com uma cena — imagino um pedaço de diálogo, de interação entre os personagens e, a partir daí, a história vai se expandindo. 

Depois, vem a parte mais difícil, que é sentar e colocar essa história no papel. Tenho ainda que reservar um bom tempo para a edição, porque nunca gosto da primeira coisa que digito. Sempre acho que há maneiras mais bonitas e simples de dizer a mesma coisa. Ou formas mais impactantes, então eu edito muito. 

E: Você escreve romances de época ambientados em outros países, como a série Damas de Aço, que se passa na Alemanha. O que te atrai nesses diferentes cenários e como faz a pesquisa histórica para dar verossimilhança às narrativas?

KH: Eu amo história. Amo o passado, a forma como as coisas se desenrolaram, as consequências do que aconteceu nos dias de hoje. Mas confesso que quando estou escrevendo um romance no passado, esta visão desaparece e eu me movo ali, no passado, sem prestar atenção ao que gosto de perceber quando estou de fora. É estranho pensar nisso, mas funciona assim.

Quanto à forma de fazer pesquisa, recorro ao bom e velho Google. Muitas vezes, compro livros também para me ajudar a ter uma visão mais completa, como fiz com as tribos de Andaman, onde um personagem meu morou por um tempo. 

E: Quais elementos culturais ou históricos você acha que ajudam o leitor a se conectar emocionalmente com um romance de época?

KH: Para a conexão, os pequenos e específicos. O tipo de loja que vendia especiarias na rua central de uma certa cidade. A forma de selar um cavalo. A ordem das roupas nas mulheres. Os cheiros que as pessoas sentiam naquela rua. O tecido que os vestidos da época usavam, etc.

E: Para você, qual a parte mais difícil em se escrever um romance de época?

KH: Pesquisar. Saber se tal coisa já era usada ou não. 

E: Há algum detalhe histórico ou cultural que você descobriu em suas pesquisas e que te surpreendeu a ponto de mudar o rumo de uma história?

KH: Sim! Acontece muito. Por exemplo, em Damas de Aço, tentei escrever o livro entre 1850-60, mas havia tanta guerra e revolução acontecendo por toda parte que optei pelo ano da Unificação alemã (por Bismarck). Acabou que isso foi incorporado na história da família e, a partir daí, decidi todas as outras datas de todos os outros livros que escrevi.

E: O romance romântico ainda é visto por alguns leitores com certo estigma, como “literatura menor”. Como você enxerga esse preconceito?

KH: Não me abala nem um pouco. Olhem os números, é tudo o que digo. O romance é puro sucesso. Não me abala mesmo, a ponto de nem notar. Sei que existe, reconheço o estigma que alguns têm, mas não discuto com quem pensa assim e não me importo com nada do que digam. Os números do romance romântico falam por si. Quem reclama é uma minoria perto do número de pessoas que ama.

E: Como você enxerga o espaço atual para autores independentes no Brasil?

KH: A aceitação de livros comerciais (ficção de gênero) escritos por autores nacionais vem crescendo bastante nos últimos anos (até que enfim!). Hoje temos fantasias nacionais sendo publicadas por editoras grandes, além de romances, suspenses, thrillers e por aí vai. Ainda vemos muitas editoras resistindo a ampliar o catálogo de nacionais, mas sou positiva quanto à mudança. 

Acho que, cada vez mais, vamos deixar para trás aquela ideia de “o que vem de fora é bom, o que é daqui nem tanto”. O mais importante (e isso tem a ver com a sua pergunta) é que hoje é possível ter uma carreira 100% independente de uma editora. Nesse ponto, já não sou totalmente otimista: vejo o cenário por dois lados. 

O lado positivo é que publicar nunca foi tão democrático. Você pode escrever seu livro e colocar na Amazon. A venda depois tem suas dificuldades, claro, mas o ato de publicar se tornou acessível, e isso é uma grande conquista. O lado negativo é que estamos diante de um monopólio, e estar nas mãos de uma única empresa nunca é saudável, porque passamos a depender demais dela. Há muito mais a ser dito sobre o mercado e sobre esses dois pontos que coloquei, mas isso já seria papo para um mês inteiro. 

E: O que você acredita ser a maior vantagem de publicar de forma independente? E a desvantagem?

KH: Acho que a resposta dessa pergunta se cruza com a anterior. A maior vantagem é poder publicar a sua história, e a maior desvantagem é justamente o fato de que todos podem fazer o mesmo, e, por isso, você precisa se diferenciar para não ser apenas mais um na enxurrada de livros que chegam à Amazon todos os dias. 

Sabia que ela [Amazon] tem novas regras, que limitam a publicação a apenas três novos títulos por dia? Segundo o que li, a medida busca combater o abuso da criação massiva de conteúdo pouco qualificado. Mas eu te pergunto: quem realmente consegue publicar três livros por dia? E de que forma estão escrevendo esses livros?

E você, já conhecia os livros de Karina Heid? Conta para a gente em nossas redes sociais — Insta, Face e X. E, se você gosta de trocar experiências literárias, venha participar do Clube de Leitura do Entretê, para conversar sobre leituras incríveis!

Leia também: Entrevista | Ray Tavares fala sobre seu novo livro, que une o universo do cinema e da literatura

 

Texto revisado por Cristiane Amarante 

plugins premium WordPress

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdo de seu interesse. Ao utilizar nossos serviços, você concorda com tal monitoramento. Acesse nossa política de privacidade atualizada e nossos termos de uso e qualquer dúvida fique à vontade para nos perguntar!