Muito antes de ser apropriado pelo nazismo, o manji já era um símbolo sagrado em diversas culturas asiáticas
Quando o líder do BTS, RM, apareceu em fotos vestindo sua farda militar sul-coreana, um detalhe chamou a atenção, um símbolo bordado em seu uniforme que, para muita gente fora da Ásia, parecia um sinal controverso: o manji (卍). No Ocidente, é comum associar essa imagem diretamente ao nazismo, pelo uso da suástica como símbolo de ódio e genocídio durante a Segunda Guerra Mundial. Mas a história do manji é muito mais antiga, profunda e bonita do que essa associação imediata pode sugerir.

O manji é um símbolo que tem milhares de anos, originário do subcontinente indiano e difundido por diversas religiões asiáticas, especialmente o budismo. Ele representa conceitos de equilíbrio, eternidade, harmonia e a interconexão de tudo. Sua apropriação distorcida pelo regime nazista de Hitler no século XX criou uma confusão enorme, que até hoje gera mal-entendidos e preconceitos em relação a um dos símbolos mais antigos e importantes da cultura asiática.
Neste especial sobre a cultura asiática, o Entretê te conta o que é o manji, qual seu papel no budismo e em outras tradições religiosas, como foi distorcido pela história recente e por que entender esse contexto é fundamental para um olhar mais respeitoso e informado. Confira:
O que é o manji? A forma, a origem e a confusão com a suástica
O manji é um símbolo gráfico formado por uma cruz com braços dobrados em ângulo reto, que podem apontar para a esquerda (卍) ou para a direita (卐). Na maioria dos contextos budistas e asiáticos tradicionais, o manji aponta para a esquerda, essa é a forma mais comum e usada para representar ideias de paz, harmonia e equilíbrio.
A palavra manji é japonesa, mas o símbolo é conhecido mundialmente pela raiz sânscrita svastika, que significa literalmente “aquilo que traz boa sorte” ou “bem-estar”. Arqueólogos encontraram versões desse símbolo em artefatos com mais de 5 mil anos, datados da antiga civilização do Vale do Indo (cerca de 3000–2500 a.C.), mostrando que ele é um dos ícones gráficos mais antigos da humanidade.

No budismo, o manji é onipresente: aparece em templos, estátuas, arte sacra, textos e mapas. No Japão, por exemplo, em mapas turísticos, o símbolo é usado para indicar templos budistas, algo natural para a população local, mas que pode causar choque ou mal-entendidos para visitantes ocidentais desinformados.
Visualmente, a diferença entre o manji e a suástica nazista está na direção e na inclinação. A suástica usada pelos nazistas, criada como um símbolo político em 1920, foi girada 45 graus e aponta para a direita (卐). Já o manji tradicional é reto e aponta para a esquerda. Essa diferença parece pequena, mas carrega significados e histórias completamente diferentes.
Manji no budismo: harmonia, compaixão e ciclo da vida
No coração do budismo, o manji representa o eterno ciclo do samsara — o ciclo de nascimento, morte e renascimento — e a interdependência de todos os seres. É um símbolo que evoca a busca pelo equilíbrio entre opostos: luz e sombra, masculino e feminino, espírito e matéria.
O budismo nasceu no século VI a.C., na Índia, com Siddhartha Gautama, o Buda. Ao longo dos séculos, espalhou-se por toda a Ásia, do Sri Lanka até o Japão, incorporando elementos locais e dando grande importância a símbolos visuais como o manji. Este símbolo é frequentemente encontrado em templos e obras de arte em países como Índia, China, Japão, Coreia e Sudeste Asiático.

Na simbologia budista, o manji muitas vezes representa a harmonia universal e a compaixão, valores centrais para a prática budista. A direção para a esquerda (卍) costuma ser associada ao caminho espiritual, à sabedoria e à paz interior. Já a orientação para a direita (卐), menos comum no budismo, pode simbolizar aspectos mais ligados à força e à proteção.
Além disso, o manji pode simbolizar os quatro Braços do Dharma, representando as quatro nobres verdades que o Buda ensinou, e os quatro pontos cardeais, significando a abrangência do ensinamento para todo o mundo. O símbolo remete à eternidade, à prosperidade e à continuidade do cosmos, carregando uma mensagem de esperança e equilíbrio.
O manji em outras tradições asiáticas: hinduísmo, jainismo e taoísmo
O manji não é exclusivo do budismo. Na Índia, o símbolo é parte importante do hinduísmo, onde é ligado a deuses como Vishnu e Ganesha, representando sorte, proteção e a energia cósmica. As famílias indianas costumam desenhar em portas e objetos para atrair boa fortuna.
No jainismo, religião antiga da Índia com raízes anteriores ao budismo, o manji simboliza os quatro estados da existência — divino, humano, animal e infernal — e a busca pelo caminho correto para escapar do ciclo de reencarnações.
Na China, o manji aparece em contextos taoístas e folclóricos, sendo um símbolo de proteção e equilíbrio. Na arquitetura tradicional, é comum encontrar o símbolo em templos e até em móveis, indicando um desejo por harmonia e bem-estar.
Como a suástica foi apropriada pelo nazismo
A reviravolta no significado do manji/svastika ocorreu no século XX, quando Adolf Hitler e o Partido Nazista adotaram a suástica como símbolo do movimento. Em 1920, eles escolheram o símbolo — girado para a direita e inclinado — para representar sua visão de raça ariana e supremacia branca.
No livro Mein Kampf (1925), Hitler explica que viu na suástica uma representação da luta racial e da vitória da raça alemã. Com isso, um símbolo milenar de paz e equilíbrio foi transformado em um emblema de ódio, genocídio e guerra.

O Holocausto, durante a Segunda Guerra Mundial, marcou o símbolo para sempre na memória coletiva do Ocidente como sinal de atrocidade. Após a guerra, a suástica nazista foi proibida em muitos países europeus e tornou-se um tabu visual, gerando medo e rejeição imediata.
Essa apropriação criou uma divisão simbólica complexa: para o Ocidente, a suástica é símbolo de ódio, enquanto para a Ásia, o manji mantém seus significados ancestrais de equilíbrio e espiritualidade. Essa tensão ainda gera conflitos, principalmente em produções culturais asiáticas que mostram o manji e sofrem censura ou críticas no Ocidente, como em animes, mangás e jogos.
Por que precisamos entender o manji antes de apontar o dedo?
O caso do RM e do manji expôs uma realidade clara: ainda existe muita desinformação e preconceito sobre culturas asiáticas e seus símbolos. Quando algo não é compreendido, a reação imediata tende a ser a rejeição — e isso acaba reforçando o apagamento cultural.
O manji é um símbolo de paz e espiritualidade para milhões de pessoas e apagar isso significa ignorar uma parte fundamental da cultura e da história asiática. É preciso diferenciar o símbolo milenar da distorção nazista para promover um diálogo mais aberto, empático e informado.
Esse é um desafio para educadores, jornalistas e fãs da cultura pop asiática, que podem ajudar a esclarecer esse contexto, trazendo informação e respeito para debates que, muitas vezes, nascem do desconhecimento.
No fim, entender o manji é um convite a olhar para o mundo com mais curiosidade, empatia e menos julgamento rápido. Afinal, símbolos são ferramentas que ganham sentido conforme o uso e o contexto, e só a partir do conhecimento podemos evitar preconceitos e então valorizá-los em sua verdadeira dimensão.
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Texto revisado por Cristiane Amarante






































