Com muito couro, cortes secos e espelhos por todos os lados, o filme parece mais preocupado em homenagear o cinema de gênero do que em contar uma história com peso emocional
O Brilho do Diamante Secreto é um delírio audiovisual assinado pelos diretores Hélène Cattet e Bruno Forzani, dupla belga conhecida por mergulhar fundo em estéticas retrô, narrativas fragmentadas e um amor declarado ao cinema de gênero europeu, especialmente o giallo, os filmes B de espionagem e os quadrinhos pulp italianos. Neste novo longa, eles jogam todos esses elementos em uma espécie de liquidificador narrativo que gira entre passado, presente e imaginação.
A trama gira em torno de John Dimon, um homem idoso e melancólico (vivido por Fabio Testi) que vive em um hotel chique na Côte d’Azur, observando mulheres na praia e mergulhando em lembranças (ou alucinações?) de seus tempos como superespião, papel assumido na juventude por Yannick Renier.
Aos moldes de um James Bond vintage, o jovem John embarca em uma missão: proteger um figurão chamado Marcus Strand, envolvido com uma nova fonte de energia que atrai inimigos poderosos. No caminho, John se alia a uma femme fatale sem nome (Céline Camara), que usa um vestido espelhado como arma, e enfrenta a misteriosa Serpentik, uma vilã interpretada por várias atrizes, talvez representando todas as mulheres que já cruzaram o caminho do espião.
Mas o que parece uma trama clássica de espionagem logo se revela muito mais caótica e, infelizmente, muito menos interessante. O filme abandona rapidamente qualquer estrutura tradicional de começo, meio e fim para apostar em um estilo fragmentado, quase psicodélico, onde tudo parece ser memória, sonho ou devaneio. Pode ser que o que estejamos vendo seja, na verdade, o próprio filme Missão Serpentik, uma obra fictícia dentro do filme. Ou talvez apenas a mente confusa e nostálgica de John tentando reconstruir uma juventude idealizada. O roteiro se recusa a dar respostas, o que não seria um problema, se o caminho até o final fosse minimamente envolvente.

Estilo em primeiro, segundo e terceiro lugar… Não dá pra negar que visualmente o filme é marcante. Cattet e Forzani sabem construir imagens impactantes. O uso de cores vibrantes, os cortes secos, os quadros congelados, os espelhos por toda parte, os brilhos exagerados, as texturas do couro e das lâminas, tudo remete à estética pulp com um cuidado artesanal.
Em momentos isolados, essas cenas são um deleite para quem curte esse tipo de cinema-experiência. Só que O Brilho do Diamante Secreto não vive só de momentos. E quando você junta tudo, o que sobra é repetição.
A cada sequência, o filme insiste em reforçar seus truques visuais: closes dramáticos, cortes circulares, imagens duplicadas, sons estridentes, e aquela sensação de que já vimos isso antes… Umas dez vezes, inclusive dentro do próprio filme. O que deveria ser provocador vira exaustivo. A ausência de uma linha narrativa clara poderia ser uma escolha criativa poderosa, se houvesse alguma emoção sustentando tudo isso. Mas os personagens, além de serem rasos, parecem existir apenas para ilustrar o conceito visual da vez.
Em certo ponto, a experiência de assistir O Brilho do Diamante Secreto lembra a de ver um trailer de três minutos sendo estendido à força por mais de uma hora e meia. Você entende a proposta, reconhece os acenos aos clássicos, mas fica se perguntando: e daí? É bonito? Às vezes. É interessante? Nos primeiros vinte minutos. É envolvente? Raramente. O maior pecado do filme talvez seja esse: querer ser tantas coisas ao mesmo tempo e esquecer de ter alma.

Enquanto o filme brinca de colagem visual, a conexão emocional com os personagens e a história simplesmente não acontece. John Dimon, tanto velho quanto jovem, é uma figura que nunca se materializa de verdade e isso compromete qualquer tentativa de imersão.
Não há tensão real, não há drama interno, não há nem mesmo um arco narrativo. Só estilo.
Um experimento com prazo de validade curto. Se você é fã de cinema experimental, visualmente ousado e cheio de homenagens, pode até encontrar algum prazer em O Brilho do Diamante Secreto. Mas, para a maioria das pessoas, o filme provavelmente vai soar como uma obra esteticamente interessante, porém emocionalmente vazia. A ousadia da dupla de diretores é inegável, pois é preciso coragem pra fazer um filme como esse. Mas entre provocar e alienar o espectador, Cattet e Forzani acabam optando pela segunda opção.
No fim das contas, O Brilho do Diamante Secreto é como um diamante encrustado demais: brilha tanto por fora que ninguém lembra de olhar pra dentro.
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Texto revisado por Cristiane Amarante






















