De Anthony a Lady Danbury, selecionamos obras que refletem dilemas, paixões e segredos dos protagonistas
[Contém spoiler]
Lançada pela Netflix em 2020, Bridgerton rapidamente se tornou um fenômeno global. Baseada na série de livros homônima da escritora Julia Quinn, a produção conquistou o público apaixonado por romances de época ao unir intrigas sociais, grandes histórias de amor e figurinos deslumbrantes da alta sociedade londrina do século XIX.

Contudo, se nas telas acompanhamos os personagens tentando equilibrar convenções sociais e desejos pessoais, nas narrativas também é possível encontrar esse espelho da vida real. Afinal, os livros têm a capacidade de traduzir sentimentos, refletir dilemas e até validar as experiências que vivemos.
Foi pensando nisso que fizemos uma lista, selecionando as leituras que cada personagem de Bridgerton escolheria para ler, de acordo com os conflitos, as paixões e os dilemas que vemos eles enfrentando na série.
Anthony Bridgerton

Publicado em 1881, Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, é narrado por um defunto-autor, que revisita a sua própria vida com ironia, pessimismo e reflexões existenciais. A morte permeia toda a narrativa, transformando o leitor em cúmplice das divagações do protagonista.

Anthony, marcado pela perda precoce do pai e pelo peso da responsabilidade de se tornar visconde ainda jovem, carrega uma relação quase obsessiva com a ideia da morte. O medo de não viver tanto quanto Edmund molda as suas decisões, o seu modo de amar e até a sua visão de futuro. Ao ler sobre a trajetória de Brás Cubas, o visconde encontraria um espelho de suas angústias: a mortalidade como sombra constante, mas também a possibilidade de rir da vida mesmo em meio ao luto.
Kate Sharma

Um dos romances mais debatidos da literatura brasileira até os dias atuais é Dom Casmurro (1899). Na narrativa, Machado de Assis dá voz a Bentinho, que relembra de sua infância na Rua de Matacavalos e os percalços de seu relacionamento com Capitu. Nas páginas deste enredo machadiano, o leitor encontrará um protagonista dominado pelo ciúmes, que tenta, a todo custo, provar que foi traído por sua esposa.

Kate, considerada uma personagem que desafia as convenções sociais e muito espirituosa, mergulharia nessa leitura para defender Capitu. Assim como a personagem machadiana, ela enfrenta os olhares julgadores enquanto tenta impor a sua própria verdade diante de uma sociedade que insiste em controlá-la. Ler Dom Casmurro seria, para ela, uma forma de refletir sobre a manipulação de narrativas masculinas e de reafirmar a sua força como protagonista da própria história.
Benedict Bridgerton

Em Desculpe o exagero, mas não sei sentir pouco (2022), Geffo Pinheiro explora o amor em sua maior intensidade, a vulnerabilidade dos sentimentos e a coragem de se entregar sem medidas, mesmo quando isso traz dor.

Ao longo das três temporadas, Benedict se destacou como o Bridgerton mais apaixonado pela ideia do amor romântico em suas mais variadas formas. Esse fato fica evidente em sua conversa com Anthony, na segunda temporada, sobre o que significa realmente admirar uma mulher, o que revela a sua sensibilidade amorosa, que promete ser explorada na quarta temporada. No livro de Geffo Pinheiro, ele encontraria validação para sua alma romântica, capaz de sentir tudo com coragem e profundidade.
Sophie Beckett

Em Textos para Tocar Cicatrizes (2022), o autor brasileiro Igor Pires reúne poesias e reflexões sobre as marcas que as experiências deixam na alma, abordando temas como rejeição, dor familiar e a busca pela cura.

A protagonista da quarta temporada da série é filha ilegítima de um conde e, por isso, foi criada em meio a humilhações e rejeitada pela madrasta, tornando-a uma personagem cuja vida foi moldada por feridas emocionais. Textos para Tocar Cicatrizes dialogaria diretamente com a sua trajetória, oferecendo um espaço de acolhimento e reconhecimento. A leitura seria, para ela, quase terapêutica: uma maneira de transformar o seu sofrimento em força.
Colin Bridgerton

Publicado em 1991, o primeiro volume da série Outlander narra a história de Claire Randall, uma enfermeira que vive em 1945 e está passando uma segunda lua de mel com o marido em Inverness. Durante a viagem, ela é atraída para um círculo de pedras misteriosas e é transportada para a Escócia de 1743, dominada por highlanders em conflito com os ingleses. A protagonista se vê dividida entre dois amores e duas épocas, deixando os leitores ansiosos para saber qual será o seu destino.

Nesse sentido, o espírito inquieto de Colin o torna um viajante nato, sempre pronto para descobertas além dos limites da sociedade londrina. A sua curiosidade e o desejo de explorar o mundo se refletiriam na narrativa de Outlander: A Viajante do Tempo, um livro que une viagem, amor e a possibilidade de escapar do previsível. Afinal, Colin se veria em Claire: sempre em movimento e em busca de algo maior — desde que isto envolva comida e a sua amada esposa, Penelope.
Penelope Featherington

A Hora da Estrela foi o último e mais surpreendente romance publicado por Clarice Lispector, em 1977. O livro acompanha Macabéa, uma jovem nordestina pobre que viaja para o Rio após a perda de sua tia. Vivendo em um quarto alugado e trabalhando como datilógrafa, ela se apaixona pelo metalúrgico Olímpico de Jesus, que a trai com uma colega de trabalho. Movida pela decepção amorosa e ansiosa por respostas, a protagonista busca o direcionamento de uma cartomante, que prevê um futuro diferente do que ela espera.

Nas primeiras temporadas, Penelope parece tímida e invisível, mas, dentro de si, carrega a poderosa voz de Lady Whistledown, que é capaz de revelar os maiores escândalos da alta sociedade. Assim como Macabéa, ela conhece a sensação de não ser notada e de viver à margem.
Contudo, principalmente na terceira temporada, Penelope encontra, mais do que nunca, a sua força na escrita e a coragem para se reconhecer em sua totalidade. Nesse aspecto, A Hora da Estrela seria, para ela, um lembrete da importância de dar voz a quem raramente é ouvido e uma história que certamente a prenderia por horas.
Eloise Bridgerton

Publicado em 1963, A Mística Feminina, de Betty Friedan, marcou a segunda onda do feminismo. A autora, a partir de um recorte social, denuncia o mal-estar das mulheres que são reduzidas ao papel de esposas e mães, incentivando-as na busca por identidade e realização pessoal.

Nessa perspectiva, temos Eloise que, além de sempre estar à frente de seu tempo, também questiona as convenções sociais e resiste à ideia de que o seu destino seja apenas o casamento. Durante a leitura, ela encontraria argumentos para fundamentar ainda mais as suas convicções, além de uma inspiração para seguir trilhando um caminho independente.
Daphne Bridgerton

Em Um Estranho nos Meus Braços (2023), acompanhamos a história de Lara Hawksworth, uma condessa jovem que tornou-se viúva após o marido sofrer um acidente em alto-mar. No entanto, tudo muda quando, um ano depois da tragédia, ela recebe a notícia de que Hunter Hawksworth não morreu. Mais surpreendente ainda é a transformação do conde: diferente do homem que a fez infeliz, este está completamente apaixonado por ela. Entre medos e inseguranças, ambos passam a reconstruir o relacionamento, antes abalado, fazendo com que Lara deseje que este estranho realmente seja o seu marido.

Entre os irmãos Bridgertons, Daphne é a personificação da esperança romântica: sonha com o amor verdadeiro e acredita na força dos laços emocionais, mesmo diante dos obstáculos. Essa experiência de leitura seria uma oportunidade de recordar a jornada amorosa com Simon, já que esta também foi marcada por percalços, desafios internos e, acima de tudo, a crença de que o amor pode transformar.
Simon Basset

No ensaio Tudo Sobre o Amor, publicado em 2021, a escritora e ativista bell hooks reflete sobre o amor em suas diferentes formas — romântico, familiar e espiritual —, defendendo-o como um elemento essencial para a cura pessoal e coletiva.

Na primeira temporada de Bridgerton, conhecemos Simon, um homem aprisionado pelos traumas da rejeição paterna. O impacto dessa experiência é tão profundo que ele passa a acreditar não ser digno de amar ou de ser amado. Ao mesmo tempo, ele nutre secretamente o desejo de vingança contra o pai já falecido, planejando que o nome Hastings — tão valorizado pelo antigo duque — não seja passado adiante.
Em Tudo Sobre o Amor, Simon encontraria uma visão libertadora, capaz de mostrar que o afeto não é sinal de fraqueza, mas de força. Essa leitura poderia ajudá-lo a perceber que seu destino não precisa ser guiado apenas pela dor ou pelo ressentimento, mas que o amor — e a possibilidade de construir um lar ao lado de quem se ama — pode ser o início de um verdadeiro processo de cura.
Violet Bridgerton

O romance Persuasão (1817), de Jane Austen, conta a história de Anne Elliot, que, após ter sido persuadida a recusar o seu grande amor — o Capitão Frederick Wentworth —, o reencontra após oito anos, reacendendo sentimentos do passado.
Tendo o período napoleônico e todas as suas peculiaridades sociais como pano de fundo, a autora trata sobre a vulnerabilidade feminina nas construções sociais e sobre o dia a dia no meio rural inglês, no século XIX. Mesmo sendo um dos romances do período maduro de Austen, ela utiliza a ironia, com notas de humor, para narrar um romance de segundas chances.

Nesse sentido, Violet, a matriarca da família Bridgerton, sendo apaixonada por histórias de amor e tendo a convicção de que o casamento deve ser movido pelos afetos e não pela conveniência, se deleitaria na leitura de Persuasão. Afinal, a obra é uma reafirmação de suas crenças, além de um conforto romântico, que reforça a sua visão de que o amor verdadeiro sempre merece uma segunda chance.
Francesca Bridgerton

Notas Sobre o Luto (2021) é um relato autobiográfico da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, no qual ela compartilha as suas reflexões após a morte do pai durante a pandemia de COVID-19, em 2020. A narrativa explora o impacto devastador da perda, mas também a forma como a memória afetiva suaviza a dor, transformando o luto em lembrança. Trata-se de um convite à imersão nessa experiência universal, traduzido em uma prosa delicada e, ao mesmo tempo, arrebatadora.

Entre os Bridgertons, Francesca é conhecida por sua natureza reservada. Na terceira temporada, ela se casa com John Stirling, tornando-se condessa de Kilmartin. Seu futuro na adaptação da Netflix ainda é incerto — principalmente diante das mudanças sugeridas na trama, que já geraram grande indignação no fandom. Nos livros, porém, a sua trajetória em O Conde Enfeitiçado (2015) é marcada pelo luto em duas dimensões: a dupla perda afetiva e o renascimento após a dor, temas entrelaçados com reflexões sobre maternidade, cura e recomeço.
Dentro dessa perspectiva, Notas Sobre o Luto seria uma obra profundamente significativa para Francesca. Mais do que um livro, ela o teria como um companheiro íntimo, capaz de traduzir os sentimentos que escapam às palavras e de oferecer resiliência em meio à dor.
Lady Danbury

Lançado postumamente, em 2024, Em Agosto nos Vemos, de Gabriel García Márquez, acompanha Ana Magdalena, uma mulher casada que, todos os anos, viaja a uma ilha caribenha para visitar o túmulo da mãe e deixar sobre ele um ramo de gladíolos.
Durante essas visitas, ela sempre se hospeda no mesmo hotel e repete a mesma rotina. Até que, em uma noite, ao aceitar o convite de um homem para tomar um drink, ela deixa de lado o seu papel de mãe e esposa para viver uma experiência transformadora.

A partir desse encontro, Ana passa a esperar ansiosamente pela chegada de agosto, quando pode buscar um novo amante. Com sua prosa poética, Márquez desenha, com palavras, o retrato de uma mulher que redescobre o próprio desejo e reinventa a própria vida ao desafiar as convenções sociais.
Em Bridgerton — e especialmente na série derivada Rainha Charlotte (2023) — conhecemos a trajetória de Lady Agatha Danbury, uma personagem forte, imponente e com uma vida marcada por desafios. Símbolo de resistência feminina diante das expectativas de sua época, ela certamente se encantaria com a narrativa de Márquez, afinal há um diálogo com a sua essência e, ao decorrer da leitura, é possível encontrar um hino à liberdade, à sexualidade madura e ao direito de viver intensamente, mesmo quando o mundo insiste em impor limites e convenções, sobretudo às mulheres.
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Texto revisado por Ketlen Saraiva @lapidando_palavras











