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Entrevista | Diogo Melim fala de amor, resiliência e processo de criação do seu primeiro álbum solo, Rascunhos

O cantor mantém os pés no chão e o coração leve neste momento de estreia como solista

O álbum que inaugura a carreira solo do cantor Diogo Melim chegou às plataformas digitais no dia 15 de abril deste ano. Ex-integrante da banda Melim, formada por Diogo e seus dois irmãos, Rodrigo e Gabi Melim, o músico inicia uma nova fase em sua carreira musical com o álbum Rascunhos (2026), seu projeto de estreia bastante pessoal, sincero e divertido. 

Conhecido por suas composições românticas, Diogo conquistou um grupo fiel de fãs, que o acompanham desde seus tempos de Melim, quando o acústico do violão e a sensação good vibes dos shows ao vivo da banda reunía milhares ao redor do Brasil.

Nos dias 11 e 12 deste mês, após esperar com paciência e ansiedade pela estreia de Rascunhos, esses fãs ganharam listening parties no Rio de Janeiro e em São Paulo para ouvir o disco em primeira mão, antes do seu lançamento oficial. 

Foto: reprodução/Instagram @diogomelim

Composto por sete faixas, incluindo o single Mil Versões, que ganhou clipe com a participação da esposa do cantor, a influenciadora Nanda Caroll, Rascunhos mantém o estilo pop romântico característico do artista ao mesmo tempo em que surpreende com suas batidas mais eletrizantes, arranjos de orquestra e letras irônicas, trazendo novidade sem perder a essência pela qual Diogo Melim é conhecido. 

Ouça o álbum: 

Na última segunda-feira (13), Diogo concedeu uma entrevista exclusiva ao Entretetizei, em que o cantor e compositor fala sobre a criação de Rascunhos, o clipe de Mil Versões, suas colaborações com Tibí e com Vitão para o álbum, além de família, amor, muita resiliência e poesia dedicadas a essa nova fase. Confira: 

Entretetizei: Como você pensou no nome para o seu novo álbum?

Diogo Melim: O nome Rascunhos tem muito a ver com o processo pessoal que eu passei durante a construção desse álbum. Rascunhos seria talvez as nossas próprias versões, as nossas metas que ainda não realizamos e que, às vezes, paralisam a gente. A gente sempre se sente um rascunho, uma versão nossa em potencial e eu fiquei pensando nisso. Talvez a gente seja eternamente páginas em branco sendo escritas, e quanto antes a gente entender que nunca seremos uma coisa fixa, mais rápido vamos aproveitar esse processo que é a vida. 

E: O que fez você sentir que este era o momento ideal para lançar o seu primeiro álbum solo?

DM: Essa data foi o prazo em que eu consegui preparar tudo. Se eu tivesse talvez finalizado o álbum antes, a gente teria puxado o lançamento para antes, mas teve que casar o produto com a agenda de lançamentos da minha gravadora, que é a Universal Music. Então entendemos que passando o carnaval a gente tem um período perfeito para o tipo de som que eu faço, que é um pop mais romântico, né? Acho que abril foi bom por isso.

E: Quais são as suas expectativas para esse novo momento da sua carreira como solista? 

DM: As minhas expectativas são principalmente curtir cada parte do processo. Não é que eu não acredite; eu acredito muito no meu som e acho que está muito bom, mas independentemente disso vai ser o que tiver que ser. E quando a gente, às vezes, fica muito agarrado a uma meta, isso impede até de aquilo ser maior do que a gente imaginou. Eu lembro que na época do Meu Abrigo, no começo da banda Melim, eu conversei com o Rod e falei: “Não é sonhar muito não, mas imagina se a gente tivesse uma música com 10 milhões de views?”. Era o número máximo que eu conseguia pensar. E, no começo, a música ficou com um milhão, um milhão e meio, e depois ultrapassou muito isso, não sei se já passou de meio bilhão, mas está em um número assim. Então ter metas é muito bom para o curto e médio prazo, mas acho que a longo prazo não coloque uma meta, porque às vezes a vida pode te surpreender. Então eu estou fazendo tudo com carinho, com paixão, com excelência, e estou deixando a vida mostrar os melhores caminhos para mim. 

E: Em Rascunhos, você testa novos gêneros musicais ao mesmo tempo em que resgata muito da sua origem e do som que é característico seu, desde a banda Melim. Quais foram as suas principais influências musicais para a criação deste álbum? 

DM: Eu não pensei em nenhuma influência específica, eu fui mais por sensações e queria compor canções que o meu ouvido gostasse muito. Então, além dessas sete músicas, tiveram todas as outras composições que não foram gravadas e cada uma de um jeito. Todas são pop, mas eu acho que o pop sempre se agarra em algum outro estilo. E as influências são as minhas influências de uma vida inteira. Tenho o Lulu Santos, o Jota Quest, o Skank, o Natiruts, Tiago Iorc e tenho as bandas ou cantores gringos também que eu gosto, Shawn Mendes, Ed Sheeran, Justin Bieber, é uma mistura de muita coisa. 

E: Como foi para você voltar a compor com o seu irmão, Rodrigo Melim? 

DM: Foi ótimo, a gente nunca parou de compor. Eu vejo o Rod como um grande aliado para todos os trabalhos e já conto com ele para os próximos também. Ele é um compositor muito virtuoso e que consegue se moldar para a necessidade dos artistas, e eu sempre soube disso. A única coisa que muda é que, quando estou fazendo para o meu trabalho, quem orienta a canção sou eu e ele orienta quando está fazendo para o trabalho dele. Por exemplo, a Mil Versões era uma canção que a gente estava fazendo para o trabalho dele, e era uma música bem mais calma, no violão, mais melancólica, sofrida, e acabou que eu, ouvindo ela, falei que ele tinha que produzir ela mais pop, que ia ficar muito maneiro. Ele falou que não gostava dessa maneira e eu falei, “pô, então deixa eu gravar ela dessa forma”. Ele deixou e aí eu fiz da minha forma. Ele até ouviu e falou, “pô, ficou demais. Parece que ela tinha que ser isso. Não é verdadeiro para mim gravar dessa forma, mas para você é”. E também teve o contrário, teve algumas músicas que eu ia gravar que ele pegou para gravar no trabalho dele. 

E: Falando de Mil Versões, o clipe desse single conta com a participação especial da sua esposa, Nanda Caroll. O quão importante era para você que ela fizesse parte, de alguma forma, desse seu álbum de estreia solo? 

DM: Era muito importante, porque, na verdade, ela já faz parte. É a pessoa que está comigo todos os dias, que me dá força, que, enfim, eu amo e que me deixa feliz. As músicas são muito um reflexo e uma extensão de quem eu sou como pessoa, do meu momento, do meu estado psicológico e emocional. Então, de maneira indireta, ela já fazia parte. Eu não consigo imaginar, de forma nenhuma, esse álbum se eu não tivesse ela. Mas poder representar isso simbolicamente trazendo ela como protagonista do clipe foi muito maneiro, muito divertido.

E foi muito legal ver o comprometimento dela. Quando eu falei pra ela que tinha a possibilidade dela fazer parte, ela já se preparou. Então, isso mostra o quanto é o carinho dela por fazer parte e ela arrasou. Eu fico brincando que a minha participação no clipe é quase o coadjuvante, eu tô de óculos ali, fico só cantando as letras da música e ela que brilhou. E eu fiquei muito feliz de ter sido dessa forma, porque ela está super orgulhosa do clipe e eu mais ainda. 

Assista ao clipe de Mil Versões:

E: O álbum conta com letras introspectivas e bastante honestas. Qual é a diferença que você sente entre escrever para outros cantores, como Luan Santana, Ivete Sangalo, Jorge & Mateus, e escrever letras para o seu próprio álbum? 

DM: A diferença está principalmente na mensagem e na linguagem. Quando a gente vai fazer uma música para um trabalho de um outro artista, a gente tenta entender o que aquele artista gosta de comunicar. Então, melodicamente é muito diferente e a letra também. Eu acho que o sertanejo, ele tem as “sacadinhas” das músicas, elas são um pouco mais intencionais. Exemplo, quando o Luan Santana lança uma música, ou o Jorge & Mateus, não é incomum a gente ouvir, “essa é hit”. As pessoas têm essa questão da relação do sucesso com esse universo sertanejo. E o pop tem isso também em algum lugar, mas não é tanto assim. Eu acho que as pessoas vão ouvir uma música pop e vão falar, “nossa, que música linda” ou “nossa, que música animada”. Eu sinto que as “sacadas” das minhas músicas autorais são um pouco mais sutis. Tem ali um trocadilho, mas é um trocadilho que soa mais como uma poesia do que como uma sacada esperta, uma gracinha para fazer a pessoa rir e se divertir. Enfim, é totalmente diferente, mas igualmente difícil de serem feitas. Eu, como compositor, acredito que tem muitos compositores bons em todos os meios e acho que é uma ingenuidade pensar que tem algum segmento musical que é mais fácil do que outros; cada um tem as suas características. 

E: Diferente das três primeiras faixas de Rascunhos, Desamor sai desse sentimento apaixonado e dá espaço a uma composição mais irônica de superar um amor terminado. Existe alguma diferença no seu processo criativo quando você escreve músicas de amor comparado com as de desamor? 

DM: Eu acho que a única diferença de fazer as músicas para o lado do desamor, que não é tão comum para mim, é pegar um pouco mais leve. Quando a gente tá falando de amor, o céu é o limite. Você pode falar que você é extremamente apaixonado pela pessoa e tentar o máximo possível trazer essa linguagem para uma coisa atual e que as pessoas se identifiquem. Mas quando você vai fazer uma música de desamor, eu acho que você tem que ser um pouco mais estratégico nas palavras para a música entregar a mensagem e gerar identificação, senão você acaba talvez soando raivoso. Se você perder a ironia, eu acho que a música perde a graça. Então, foi um desafio maneiro de fazer. Não sei se vou fazer outras músicas assim, mas eu gostei bastante.

E: Como foi trabalhar com o Vitão em Quebra-Cabeça quatro anos depois da última colaboração de vocês em Mais Que Ontem? 

DM: Cara, foi muito legal. Adoro o Vitão e queria muito fazer alguma coisa com ele pra esse álbum. Essa canção, Quebra-Cabeça, da qual ele é um dos compositores, é um tipo de música que eu sempre quis fazer. É romântica, mas é um romântico um pouco mais apimentado. E eu acho que o Vitão é muito bom com esses trocadilhos nesse lugar mais sensual. E eu aproveitei essa minha vontade de fazer a música nesse caminho. Sempre que a gente se junta saem músicas boas. E a gente sempre conversa só que ele está sempre viajando e eu também, mas é sempre uma alegria encontrar com ele.

E: Procurando Rosas é, ouso dizer, a música mais romântica do álbum. Você sentiu que era uma necessidade para esse álbum ter uma faixa em que o piano e a orquestra são protagonistas no lugar do violão, que é tão característico seu? 

DM: Eu não comecei pensando pelo piano. A primeira produção que a gente fez dessa música foi no violão e o resultado ficou o que eu esperava, só que ele não conseguiu trazer a força da canção. Aí eu mostrei o álbum para alguns amigos e o Tibí, que é um dos compositores do meu álbum e toca piano, perguntou: “pô, você não tentou fazer ela no piano? Porque eu achei ela mais profunda”. E aí foi o meu produtor do disco que chamou ele para fazer, não fui eu que pedi, inclusive eu nem sabia que ele tinha gravado. Quando eu escutei, eu falei “quem é?”. “É o Tibí”. E aí eu senti que a música ganhou outro tamanho e ficou muito mais profunda. 

E essa música é muito importante porque é o instrumental que a Nanda entrou no nosso casamento. Foi a única música que eu não escolhi da cerimônia. As outras a gente escolheu em conjunto, mas essa ela queria escolher sozinha e foi muito bonito. Sempre gostei dessa música porque é uma música dedicada a ela, apesar de todas serem eu acho que essa, por ser romântica, gera essa curiosidade. Mas o fato de ela ter entrado no casamento com essa música é impossível desassociar e ela ganhou um sentido muito mais profundo, então ela tinha que estar no álbum de qualquer jeito. 

E: Qual é a sua faixa preferida do álbum e qual você pensa que será a favorita dos fãs? 

DM: Eu já estive com os fãs do Rio de Janeiro e de São Paulo para eles escutarem o álbum em primeira mão, então eu já sei essa resposta, pelo menos por amostragem. Eu até brinquei com eles, eu falei: “pô, a gente é do Melim, uma banda good vibes, e vocês, fãs good vibes, a que mais gostaram foi Desamor? Que é uma música totalmente ácida? Aí você vê quem é quem”. Então talvez Desamor seja a música que as pessoas gostem mais. 

Eu gosto muito da Mil Versões, obviamente. Gosto muito da Nem Sei também. Eu fiquei entre essas três para ser a faixa foco: Nem Sei, Mil Versões e Desamor. Aí eu escolhi a Mil Versões porque eu já tinha uma ideia pronta do clipe, mas musicalmente eu queria também dar oportunidade para a Nem Sei e para Desamor. Desamor era a primeira opção antes de produzir, mas depois que produzi a Nem Sei, ela ficou muito maior porque o Pedro Breder, que também faz muita coisa com o Pedro Sampaio e tem essa veia muito pop, deixou a música maior do que ela era, aí eu comecei a gostar dela e depois veio a Mil Versões. Enfim, eu acho que essas três são as que as pessoas vão gostar mais, e a Procurando Rosas também por ser mais romântica. 

E: O que você gostaria que as pessoas sentissem ao escutar Rascunhos? 

DM: Cara, eu gostaria que elas sentissem uma verdade. O amor de uma maneira verdadeira, sem muita maquiagem. Eu acho que, no contexto em que a gente tem muita coisa artificial agora com inteligência artificial, a qual eu não sou contra, inclusive sempre gostei muito de tecnologia, mas eu acho que é importante começar a pensar em equilibrar o quanto a tecnologia realmente traz benefícios e o quanto a parte humana, a parte orgânica, também tem sua importância. E eu acho que a música também está sofrendo muito com o impacto das novas tecnologias. Então eu queria que as pessoas, ao escutarem essas músicas, lembrassem que ainda tem pessoas preocupadas em fazer letras e melodias que sejam criativas e profundas. E acreditar que isso tem valor, que relacionamento tem valor, que essa profundidade tem valor, que é algo que eu acredito. 

E: Existe algum spoiler que você possa nos dar sobre a turnê de Rascunhos? 

DM: Eu não pensei na turnê ainda. Estou esperando lançar o álbum para pensar qual caminho tomar, vai depender muito de como as pessoas vão receber esse álbum, quais vão ser as faixas favoritas, como os próprios artistas também, parceiros, amigos, vão receber esse álbum. Estou esperando isso. Eu considero que ainda não estou nessa etapa e estou respeitando muito bem as etapas, ao contrário do que eu fazia antes. Eu planejava tudo para a frente, mas percebi que esse planejamento excessivo se torna uma amarra muito grande. E essa amarra é um peso para a gente viver e acaba sendo fonte de muita ansiedade. Eu não quero isso para a minha vida, eu quero viver uma vida mais tranquila. Então eu estou planejando com um pouco mais de leveza e deixando as coisas acontecerem para aí sim, quando estiver um pouco mais perto e o senso de urgência bater um pouco mais forte, aí eu decido. 

Assista a entrevista. 

Já ouviu Rascunhos? O que achou da entrevista? Conta tudo para a gente nas redes sociais do Entretetizei (Facebook, Instagram e X) e nos siga para não perder nenhuma novidade!

 

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Texto revisado por Cristiane Amarante

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Cinema Crítica

Crítica | Hokum: O Pesadelo da Bruxa transforma ceticismo em horror

O longa equilibra atmosfera, lenda e drama psicológico através de uma narrativa inquietante

[Contém spoiler]

Mesmo com décadas de exploração no cinema, histórias de bruxas e lendas locais seguem encontrando espaço quando conseguem ir além do básico. Em meio a um subgênero já bastante saturado, Hokum: O Pesadelo da Bruxa (2026) prova que ainda há fôlego – desde que a atmosfera, a narrativa e o personagem caminhem juntos. E, aqui, eles caminham.

Dirigido e roteirizado por Damian McCarthy, o longa acompanha Ohm (Adam Scott), um escritor de ficção que viaja à Irlanda após a morte dos pais. Em busca de algum tipo de encerramento emocional, ele acaba se hospedando no mesmo hotel em que seus pais passaram a lua de mel e que está cercado por histórias locais envolvendo uma figura sombria: uma bruxa que assombra a região e atrai aqueles que cruzam seu caminho. O que começa como um deslocamento físico logo se transforma em um mergulho psicológico e sobrenatural.

Foto: reprodução/Filmow

McCarthy, que já havia demonstrado domínio na construção de atmosferas inquietantes em Oddity – Objetos Obscuros (2024), retorna aqui ainda mais interessado em explorar o desconforto psicológico – não necessariamente pela ambiguidade entre real e imaginário, mas pela forma como o sobrenatural se impõe sobre personagens que se recusam a encará-lo. Embora parte da recepção do filme aponte para uma possível leitura ambígua, Hokum parece mais interessado no oposto: em tornar o horror inegável. A ameaça existe, segue regras e deixa marcas – e o verdadeiro conflito está menos em questioná-la e mais em acompanhar um protagonista incapaz de aceitá-la.

Há algo curioso já no título. “Hokum”, termo em inglês que remete a algo falso, enganoso ou até mesmo charlatanesco, dialoga diretamente com o ceticismo do protagonista. Ohm é um escritor que, ironicamente, rejeita qualquer possibilidade de que as histórias contadas pelos moradores possam ter um fundo de verdade. Essa contradição não só constrói o personagem como também sustenta a tensão narrativa: quanto mais ele desacredita, mais o filme prova o contrário.

Foto: reprodução/Diamond Films

A força de Hokum está, antes de tudo, na sua atmosfera. A fotografia trabalha com uma sensação constante de desconforto, pois, mesmo em espaços abertos, há sempre algo opressivo. É como se o interior conturbado do protagonista fosse muito mais assustador do que as assombrações em si, mostrando que essa escolha não é apenas estética, mas profundamente ligada ao estado emocional de Ohm. Ele carrega um trauma que se revela ao longo da narrativa e vive um luto ainda mal resolvido pela mãe. Isso fica evidente em momentos simbólicos, como na cena em que ele espalha as cinzas dos pais: há cuidado e delicadeza no gesto direcionado à mãe, enquanto o pai recebe um descarte quase displicente. Pequenos detalhes que conduzem o espectador a estruturar uma ideia do que tenha acontecido nessa família. 

Foto: reprodução/AdoroCinema

Esse aspecto psicológico também se manifesta em momentos mais subjetivos, como nos pesadelos envolvendo a figura materna e na presença de um perturbador programa de televisão, carregado de um surrealismo que parece existir apenas no campo do inconsciente. São inserções que ampliam o desconforto e sugerem que, mesmo antes de encarar o sobrenatural, o protagonista já estava sendo consumido por algo interno.

Essa construção visual também se transforma ao longo do filme. A paleta alterna entre tons frios e quentes de maneira sutil, acompanhando a jornada interna do protagonista. À medida que ele se aproxima de respostas – ou de algum tipo de aceitação –, a imagem parece respirar junto com ele.

Se a atmosfera constrói, o ambiente reforça. O hotel onde Ohm se hospeda carrega uma energia inquietante desde o primeiro momento. Não apenas pela estrutura, que remete ao clássico espaço assombrado, mas pelo comportamento dos próprios funcionários. A cena de chegada é exemplar: uma cabra morta, um dono que narra histórias macabras para crianças… tudo soa deslocado, quase como um aviso ignorado.

Foto: reprodução/Filmow

E então há a bruxa. Embora utilize elementos já conhecidos – o choro perturbador, a risada dissonante e o som de correntes –, o filme acerta na execução. O design da criatura é eficaz, mas são suas ações que realmente causam desconforto. A ideia de que ela guarda souvenirs de suas vítimas é particularmente inquietante, pois amplia o horror: não basta morrer, é preciso permanecer. Preso. Fragmentado. Quase eternizado naquele corredor subterrâneo.

Outro ponto interessante é a coerência com a própria lenda. As regras existem, são apresentadas e funcionam. O detalhe do círculo de giz como proteção é um ótimo exemplo disso. Simples, quase banal – e, justamente por isso, mais interessante. O filme sugere que nem sempre são necessárias grandes armas para enfrentar o desconhecido. Às vezes, basta escutar.

Foto: reprodução/Diamond Films

E Ohm escuta, ainda que resista. O protagonista é, talvez, o elemento mais provocador da narrativa. Amargo, ríspido e frequentemente desagradável, ele não tenta ser carismático e o filme também não força isso. Sua personalidade se reflete até mesmo em sua escrita: a história que desenvolve no início apresenta um desfecho brutal e quase cruel. Mais tarde, ao cogitar um final em aberto, reforça um certo desprezo pelo próprio público. É um personagem difícil, mas coerente.

Por isso, seus momentos de ruptura têm impacto. A tentativa de suicídio surge de forma abrupta e, mesmo que existam sinais prévios, não deixa de chocar. É um ponto de virada silencioso, que prepara terreno para a transformação final. Após os eventos no hotel, há uma mudança perceptível – não exatamente uma redenção completa, mas uma abertura, um abrandamento. Algo que se reflete, inclusive, no novo desfecho de sua obra.

No campo do terror, os sustos dividem opiniões. O filme foge do timing previsível dos jump scares, o que pode funcionar muito bem para espectadores mais sensíveis. Por outro lado, a frequência pode se tornar cansativa para alguns. Ainda assim, há mérito na tentativa de quebrar o padrão – embora, na reta final, essa construção perca força. O ritmo se desorganiza levemente e o horror, até então bem sustentado, acaba cedendo espaço para uma abordagem mais voltada à ação, diminuindo o impacto das aparições sobrenaturais.

Foto: reprodução/AdoroCinema

Sem se apoiar em pausas excessivas ou longas construções, o filme mantém uma progressão constante, quase inquieta, como se não desse ao espectador tempo suficiente para se recompor entre um momento de tensão e outro. Esse fluxo contínuo contribui para a sensação de desconforto e curiosidade que atravessa toda a obra, reforçando a ideia de que, assim como o protagonista, não há exatamente um espaço seguro para respirar.

Nesse percurso, os personagens secundários não apenas cumprem função narrativa, eles enriquecem o filme. Fiona (Florence Ordesh) e Jerry (David Wilmot) são os grandes destaques, trazendo um carisma que contrasta diretamente com a aspereza de Ohm. A subtrama envolvendo Fiona e Mal (Peter Coonan) se destaca por acrescentar tensão e estranhamento ao ambiente do hotel. A existência da suíte nupcial – sempre trancada e sob constante vigilância a mando de Cob (Brendan Conroy) – reforça a sensação de que há algo profundamente errado naquele espaço. Mais do que um desvio, essa linha narrativa amplia o peso das lendas locais e insere uma dimensão ainda mais inquietante à história.

Foto: reprodução/Cinépolis

Alby (Will O’Connell) representa quase um espelho invertido do protagonista: um aspirante a escritor que ainda enxerga possibilidade onde Ohm só vê desgaste. Já Jerry, mesmo envolto em uma aura quase cômica por seu comportamento constantemente alterado, carrega uma história brutal e perturbadora. Nesse sentido, os personagens secundários são um conjunto que funciona bem, dando textura ao ambiente e evitando que o filme se restrinja apenas à jornada individual do protagonista.

Falando nele, Adam Scott (Ruptura, 2022-2025) entrega uma atuação que surpreende justamente por fugir do que se espera de sua trajetória. Conhecido por papéis mais leves ou irônicos, aqui ele mergulha em um personagem denso, amargo e emocionalmente fragmentado. No início, há quase uma impressão de que Ohm será uma espécie de Bruce Wayne do terror – um homem rico, isolado e blindado por sua própria indiferença. Contudo, à medida que a narrativa avança, essa camada se rompe. O que emerge não é apenas o luto, mas uma culpa corrosiva, muito mais devastadora do que qualquer elemento sobrenatural. E é justamente essa dimensão mais humana e brutal  que o persegue de forma inescapável.

Foto: reprodução/Diamond Films

No fim, Hokum: O Pesadelo da Bruxa não reinventa o gênero, mas entende suas ferramentas e sabe como usá-las. Entre o ceticismo e o sobrenatural, constrói uma experiência que inquieta mais pela atmosfera do que pelo choque e que encontra, na jornada interna de seu protagonista, o seu maior trunfo.

E, no meio de tudo isso, deixa uma ideia curiosamente simples ecoando: às vezes, o que parece absurdo demais para ser verdade é exatamente aquilo que deveria ser levado mais a sério. O filme estreia nos cinemas brasileiros em 21 de maio de 2026.

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Leia também: Especial | Quem cuida de quem cuida? 

 

Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz

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Música Notícias

Hayley Williams traz turnê solo para o Brasil em apresentação única

A pré-venda para os fãs terá início no dia 4 de maio e a venda geral começará no dia 6 de maio

A artista estadunidense Hayley Williams, vocalista da banda Paramore, trará a turnê The Hayley Williams Show ao Brasil em show único. A primeira apresentação solo da artista no país está marcada para o dia 12 de novembro, no Espaço Unimed, em São Paulo. 

Nos últimos meses, a cantora tem viajado com a turnê do seu álbum mais recente, Ego Death at a Bachelorette Party, lançado em 2025. O novo projeto de Hayley conta com 20 faixas e foi apresentado na íntegra em cada noite da tour, com datas na América do Norte, no Reino Unido e na Europa.

Agora, a artista anuncia uma nova fase: a The Hayley Williams Show reunirá músicas dos três álbuns solo da cantora, incluindo surpresas especiais. Além do álbum mais recente, Hayley apresentará canções do FLOWERS for VASES / descansos (2021) e Petals for Armor (2020).

Com setores que incluem Pista, Pista Premium, Mezanino e Camarote, os valores dos ingressos variam entre R$ 282,50 a R$ 995. A pré-venda para fãs começará no dia 4 de maio, às 10h, com duração de 48 horas, e a venda geral terá início em 6 de maio, às 10h, pelo site da Eventim.

O cadastro verificado para a pré-venda pelo HW HQ começa hoje 27 de abril, às 10h, e também dura 48 horas. 

 

The Hayley Williams Show em São Paulo

Data: 12 de novembro de 2026 (quinta-feira)

Local: Espaço Unimed – Rua Tagipuru, 795, Barra Funda – São Paulo, SP

Horário de Abertura da Casa: 19h

Classificação Etária: entrada e permanência de menores de 16 anos somente acompanhados dos pais ou responsável legal.

Setores e preços:

Pista – R$ 282,50 (meia-entrada) | R$ 565,00 (inteira)

Pista Premium – R$ 432,50 (meia-entrada) | R$ 865,00 (inteira)

Mezanino – R$ 472,50 (meia-entrada) | R$ 945,00 (inteira)

Camarote A – R$ 497,50 (meia-entrada) | R$ 995,00 (inteira)

Camarote B – R$ 497,50 (meia-entrada) | R$ 995,00 (inteira)

Venda geral: 6 de maio, às 10h

Vendas online em: eventim.com.br/HayleyWilliams

Bilheteria oficial – 6 de maio

Espaço Unimed – Endereço: Rua Tagipuru, 795, Barra Funda – São Paulo, SP

Bilheteria oficial – A partir de 7 de maio

Allianz Parque – Endereço: Rua Palestra Itália, 200, Portão A, Perdizes – São Paulo,SP

Funcionamento: Terça a Sábado, das 10h às 17h. Não há funcionamento aos domingos e feriados. Em dias de eventos na casa, a bilheteria só funciona para o evento do dia.

 

E aí, ansiosos para o show? Contem para a gente nas redes sociais do Entretê! E nos sigam no X, Facebook e Instagram para não perder nenhuma novidade do mundo do entretenimento.

 

Leia também: Conheça Fcukers: a banda de abertura dos shows de Harry Styles no Brasil

 

Texto revisado por Sabrina Borges de Moura

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Cinema Livros Notícias

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho ganha adaptação em HQ e evento de lançamento em São Paulo

Com presença dos autores, noite no Cinesesc terá sessão de autógrafos e exibição do filme que inspirou a obra

Dez anos após a sua aclamada estreia nos cinemas, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho ganha uma nova versão, agora em quadrinhos. Com roteiro de Daniel Ribeiro e ilustrações de Bruno Freire, a adaptação será lançada em um evento especial no dia 28 de abril, a partir das 19h, no Cinesesc, em São Paulo.

Foto: divulgação/Instagram @editoraseguinteoficial/Entretetizei

A programação da noite inclui sessão de autógrafos com os autores, às 19h, seguida pela exibição do longa-metragem que deu origem à HQ, às 20h30. Os ingressos para a sessão são gratuitos e devem ser retirados na bilheteria do cinema com uma hora de antecedência, sujeitos à lotação.

Foto: divulgação/Instagram @editoraseguinteoficial/Entretetizei

Publicada pela Seguinte, selo jovem do Grupo Companhia das Letras, a obra revisita a história que conquistou o público ao abordar, com sensibilidade e naturalidade, temas como o amor entre dois garotos, a descoberta da sexualidade, a deficiência visual e os desafios da adolescência, sempre longe de estereótipos.

Sinopse

As férias de Leo seguem um roteiro previsível: dias tranquilos ao lado da melhor amiga, Giovana, entre mergulhos na piscina e sonhos sobre um futuro mais emocionante. Enquanto ela deseja viver um grande amor, ele sonha com a possibilidade de fazer intercâmbio – um plano que parece distante para um adolescente cego.

Foto: reprodução/fora de quadro

Com a volta às aulas, também retornam antigos obstáculos: a mãe superprotetora, os colegas hostis e a sensação constante de não pertencimento. Mas tudo começa a mudar com a chegada de Gabriel, o aluno novo. Entre passeios de bicicleta, idas ao cinema e conversas leves, Leo descobre o que é, pela primeira vez, ser visto em sua totalidade.

Foto: reprodução/Vitrine Filmes

Nesta narrativa doce e envolvente, acompanhamos a jornada de um jovem em busca de seu lugar no mundo e entendemos junto a ele que ser amado é, acima de tudo, ser reconhecido por quem se é.

Sobre os autores

Daniel Ribeiro é diretor e roteirista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho marcou sua estreia em longas-metragens e foi premiado com o Teddy Award de Melhor Filme com temática LGBTQIA+ no Festival de Berlim, em 2014. 

Bruno Freire, natural de Salvador, vive em São Paulo desde 2013, onde se formou em design gráfico. Seu trabalho se destaca pelo traço autoral e pela valorização de narrativas cotidianas com representatividade LGBTQIAP+.

Foto: reprodução/Editora Seguinte

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Leia também: Musical O Diabo Veste Prada estreia no Brasil em fevereiro de 2027: veja o elenco principal

 

Texto revisado por Luana Chicol

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