Narrativa de Rashid Benzine usa a literatura como memória e enfrentamento
A Faixa de Gaza, há décadas, se tornou símbolo de um conflito que ultrapassa disputas territoriais e se inscreve no cotidiano de um povo marcado por perdas, deslocamentos e violência contínua. Nesse cenário, narrativas como a de O Livreiro de Gaza (2026) ganham ainda mais força: não apenas como registro, mas como resistência. Ao transformar a experiência palestina em literatura, Rashid Benzine evidencia o poder das histórias como ferramenta de memória, denúncia e, sobretudo, humanidade diante da desumanização.

Em meio à devastação de Gaza, um fotógrafo percorre as ruas e vielas em busca de registros para “tranquilizar” o Ocidente. Quando chega a um bairro menos afetado, se depara com uma cena que parece inusitada: entre ruínas empoeiradas e páginas amareladas, um senhor está sentado diante de uma vitrine repleta de livros, lendo serenamente, como se esperasse. Mas o que ele espera? Talvez alguém que finalmente pare e o escute. Os livros que ele segura não são meros objetos, mas, sim, fragmentos de uma vida, ecos de memória, as cicatrizes de um povo.
Ao apontar a lente da câmera para esse homem, embora com receio de quebrar o encanto do momento, o jovem fotógrafo não percebe que está prestes a atravessar o espelho. O livreiro nota a presença do estranho e, antes de se deixar ser fotografado, pede a ele que ouça sua história. “O senhor não concorda que um retrato é melhor se soubermos o que está por trás dele?”, diz o velho. Assim começa a odisseia de um palestino que escolheu as palavras como seu refúgio, sua resistência e sua pátria.

Do êxodo à prisão, do engajamento à desilusão política, do teatro à descoberta do amor, das infâncias atravessadas pela guerra às tragédias que nos arrancam aqueles que amamos, a voz do livreiro nos guia pelos labirintos de sua vida, que é o retrato da história de um povo que sofreu décadas de ataques e opressão. Em um mundo em que as bombas ameaçam ter a última palavra, O Livreiro de Gaza (2026) nos lembra de que os livros são nossa maior chance de sobrevivência – não para escapar da realidade, mas para habitá-la plenamente. Um testemunho de que, nesse cenário desiludido, em meio ao caos, uma pessoa que lê parece a mais radical revolucionária.
Há algo profundamente inquietante na forma como a narrativa se constrói. Não se trata de uma leitura difícil do ponto de vista da linguagem – pelo contrário, a escrita é fluida, quase convidativa, como se pedisse para ser lida de uma vez só. O que torna a experiência densa é o peso do que está sendo contado. A realidade exposta é brutal, visceral e acompanha a devastação de Gaza desde muito antes do que hoje ganha destaque nas manchetes, reforçando a ideia de um sofrimento prolongado, contínuo e muitas vezes ignorado.

A escolha narrativa também intensifica esse impacto. Em determinado momento, o texto passa a operar em segunda pessoa, aproximando o leitor de maneira quase desconcertante. O “você” não é apenas um recurso estilístico, ele funciona como um chamado, um deslocamento de lugar. A dor, a revolta e o luto deixam de ser apenas dos personagens e passam a atravessar quem lê. Essa imersão faz com que o desfecho seja ainda mais devastador, especialmente quando já se conhece a trajetória daqueles que foram apresentados com tanta humanidade.
Outro ponto central da obra está na forma como ela discute a literatura em si. Em meio ao cenário de guerra, os livros surgem como instrumento de sobrevivência simbólica. Não como fuga, mas como possibilidade de existência. Ler, aqui, é um ato político. É preservar histórias que poderiam ser apagadas, é manter vivas identidades que o conflito insiste em fragmentar. O livreiro, que continua lendo mesmo diante da destruição, encarna essa ideia com força: ele não apenas resiste, como também insiste em narrar.

A relação com o fotógrafo também é essencial para essa construção. Mais do que um observador, ele se torna uma espécie de extensão do leitor dentro da história – seus olhos, seus braços, sua presença. É por meio dele que a narrativa acontece, mas também é ele quem precisa aprender a escutar, a ir além da imagem superficial. A fotografia, que inicialmente buscava capturar um instante, se transforma em portal para uma vida inteira.
No fim, O Livreiro de Gaza é o tipo de leitura que permanece. Ecoa depois da última página, não apenas pelo que conta, mas pela forma como nos envolve. É um lembrete duro, necessário, de que por trás do que hoje se configura como um genocídio contra o povo palestino existem histórias individuais, memórias e afetos que insistem em sobreviver à tentativa sistemática de apagamento.
Ao encarar essa realidade sem desviar o olhar, a obra de Rashid Benzine não apenas humaniza aqueles que frequentemente são reduzidos a números, mas também tensiona o próprio papel de quem observa de fora. Em meio à destruição, narrar deixa de ser apenas um gesto simbólico e torna-se um ato de resistência contra o esquecimento. Ler, por sua vez, exige responsabilidade: é atravessar essas histórias e reconhecer que o que está em jogo não é abstrato, mas profundamente humano.

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Texto revisado por Cristiane Amarante

