Entre montagens autorais, adaptações aguardadas e um musical inspirado em Paulo Gustavo, o criador reflete sobre pertencimento, redes sociais e o desafio de transformar universos já amados em experiências vivas no teatro
O teatro musical brasileiro vive um momento de expansão criativa — e poucos artistas transitam por universos tão diferentes quanto Daniel Salve. Enquanto acompanha a chegada de Nautopia a Londres, mergulha na construção brasileira de Percy Jackson e participa do desenvolvimento de Meu Filho é um Musical, inspirado na trajetória de Paulo Gustavo, o artista atravessa linguagens, fandoms e públicos distintos sem perder de vista aquilo que considera essencial: a conexão emocional.
Em conversa exclusiva ao Entretetizei, Daniel refletiu sobre o impacto das redes sociais na relação entre plateia e espetáculos, o desafio de adaptar universos que já vivem no imaginário coletivo e a potência única que o teatro ainda possui em tempos dominados por telas e consumo instantâneo.
Daniel fala sobre musical Nautopia
Sobre Nautopia, projeto autoral que começou de forma independente no Brasil e agora alcança novos territórios, o criador revelou que a percepção de que a obra poderia atravessar fronteiras surgiu quando viu a peça finalmente viva diante do público.
“Uma coisa é imaginar a obra durante anos; outra muito diferente é vê-la respirando, gerando identificação, emoção, conversa”, explica. Segundo ele, o processo de internacionalização também trouxe um reencontro com a própria criação. “Uma obra muda quando atravessa novas culturas, novas línguas, novos olhares”, afirma.

O desafio de dirigir uma saga de sucesso
Ao mesmo tempo, Daniel também encara o desafio oposto: dirigir um fenômeno já consolidado no imaginário pop. A montagem brasileira de Percy Jackson chega ao Brasil em outubro, no Teatro Liberdade, em São Paulo, cercada por uma base de fãs extremamente conectada ao universo criado por Rick Riordan — algo que, para o diretor, exige equilíbrio entre respeito e personalidade própria.
“Não faz sentido cair no óbvio por medo de ousar. O teatro pede uma experiência viva, presente, com identidade própria”, comenta.
A relação intensa entre fandoms e teatro musical, aliás, aparece como um dos temas centrais dessa nova geração de espetáculos. Para Daniel, as redes sociais mudaram completamente a forma como o público acompanha as produções.
Hoje, segundo ele, a audiência não observa apenas o resultado final, mas acompanha bastidores, processos criativos, escalações e adaptações em tempo real. “Existe um envolvimento muito mais contínuo e afetivo”, analisa.

Longe de enxergar isso como um problema, o artista acredita que essa participação ativa fortalece o próprio mercado. “O teatro musical sempre dependeu de paixão coletiva para crescer. Uma arte só mobiliza fandom quando ela consegue criar pertencimento, identificação e afeto real nas pessoas.”
Uma delicada obra sobre Paulo Gustavo
Essa busca por afeto também atravessa Meu Filho é um Musical, espetáculo inspirado na vida e no legado de Paulo Gustavo. Segundo Daniel, um dos maiores cuidados da equipe foi justamente fugir de uma visão superficial do humorista.
“A peça procura olhar para o ser humano por trás da figura pública”, conta. Para ele, que assina a autoria das letras e composições originais, o vínculo entre Paulo Gustavo e Dona Déa se tornou um dos elementos mais emocionantes do processo criativo. “No fundo, a peça fala muito sobre pertencimento, afeto e sobre alguém que encontrou na própria arte uma forma de entender quem era.”
Teatro: um local de conexão e encontro
Mesmo lidando com projetos tão distintos — de uma fantasia pop cercada por fandoms globais até uma obra autoral mais poética e intimista — Daniel acredita que sua forma de criar muda menos do que parece. “Independentemente do perfil do público, existe uma necessidade de conexão emocional que atravessa tudo. O mais importante talvez seja criar um espaço honesto de encontro”, explica.
Ao falar sobre a força específica do teatro diante do cinema, da literatura e da internet, ele relembra um dos elementos visuais de Nautopia: uma grande vela manipulada pelo elenco que se transformava em mar, memória e ausência ao longo da narrativa.
Para ele, esse recurso simboliza exatamente aquilo que torna o palco único. “O teatro não compete tentando reproduzir o que outras linguagens fazem melhor. A potência dele está justamente no encontro ao vivo, no símbolo, na presença e na capacidade de transformar algo simples em uma experiência profundamente emocional”, reflete.
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Texto revisado por Thaís Figueiredo








