Estreando como protagonista em Jersey Boys, o ator e cantor reflete sobre o mergulho na história de Frankie Valli, carreira e a bagagem de grandes musicais que o prepararam para o papel principal
Por Marina Menna
Henrique Moretzsohn vive um dos momentos mais marcantes de sua trajetória artística. Depois de brilhar em grandes produções da Broadway no Brasil, como Les Misérables, O Fantasma da Ópera e West Side Story, o ator e cantor celebra sua estreia como protagonista em um musical de grande porte. Em Jersey Boys, ele dá vida a Frankie Valli, a lendária voz do grupo The Four Seasons, em um desafio que exigiu não apenas técnica vocal apurada, mas também um mergulho profundo na história de vida e no estilo único do artista.

Entre ensaios intensos, apresentações com o trio Amazing Tenors e a rotina de pai e marido, Henrique encontra no palco um espaço de pertencimento e renovação. Nesta entrevista exclusiva, ele compartilha os bastidores de Jersey Boys, as transformações que cada musical trouxe para sua carreira, os sonhos que ainda almeja realizar e os novos caminhos que pretende trilhar no teatro, na música e no audiovisual.
Entretetizei: Interpretar um personagem real em Jersey Boys traz a responsabilidade de honrar sua história e, ao mesmo tempo, imprimir a própria identidade artística. De que forma você equilibrou a fidelidade à figura de Frankie Valli com a necessidade de trazer algo pessoal e único para o personagem?
Henrique Moretzsohn: Busquei equilibrar a fidelidade ao Frankie mergulhando em entrevistas, gravações e nos pontos da sua vida que o musical ressalta. Meu objetivo foi sempre ter empatia com sua humanidade, entendendo suas dores e sua busca. Essa empatia ficou ainda mais forte porque, guardadas as devidas proporções, também sou pai, artista, vivo turnês e concilio a vida profissional com a familiar. Além disso, atravessei recentemente o luto (meu pai faleceu ano passado) o que me aproximou muito do Frankie, que perdeu a filha, o casamento, a banda, mas seguiu resiliente.
Na parte vocal, mergulhei nas gravações originais e pesquisei muito para ser fiel ao timbre icônico dele, sem cair na caricatura. Busquei ressonâncias diferentes daquelas que escolho normalmente como cantor, justamente para aproximar minha voz daquela sonoridade tão marcante que fez história.
Imprimir algo pessoal não foi uma preocupação em si — isso acontece naturalmente, porque o material que tenho para servir à história é o meu próprio corpo, voz, mente e coração. Como ator me abro para ser veículo, só que, por mais que eu busque neutralizar para habitar outra personalidade, é sempre a minha consciência que está ali sustentando a cena. Por isso, faço um trabalho constante de entregar a mim mesmo e o espetáculo para que fluam as mensagens que precisam fluir, para que a história cumpra o seu papel.
Se há algo da minha personalidade que posso dizer que, conscientemente, busco trazer é uma entrega que faço de coração: no oculto, por trás das aparências, da história, das notas que emito e do texto que falo, eu ofereço tudo a uma supra-consciência através da minha fé, para que o espetáculo sirva a um bem maior, a todos nós que estamos ali — no palco, nos bastidores ou na plateia.
E: Você comentou que mergulhou em vídeos, entrevistas e registros de Frankie Valli para se preparar. Durante o período de estudo do personagem, teve algum registro específico que foi determinante para encontrar o personagem?
HM: Alguns registros foram muito importantes para mim. Um deles é uma entrevista da década de 60, quando o Frankie tinha acabado de chegar ao topo das paradas, ao lado do Bob Gaudio. Ali dá pra sentir o companheirismo deles, mas também me chamou atenção o fato de ele fumar em pleno programa de auditório, porque naquela época o cigarro era símbolo de status. Propus trazer isso para algumas cenas, e o diretor aprovou. O próprio gesto de segurar um cigarro já muda a corporalidade e me ajudou a distanciar da minha própria personalidade.
Outro registro marcante é uma entrevista nos anos 2000 em que ele fala sobre como vivia cercado pela máfia, sem nunca se envolver diretamente. Esse olhar mais maduro dele também me deu elementos para compor.
E, claro, assistir várias vezes a performance de Can’t Take My Eyes Off You foi fundamental. A forma como ele usa as mãos, como conduz o corpo junto à voz, são detalhes que me ajudaram a encontrar o Frankie no palco. No fim, foram muitos vídeos, mas esses três se tornaram referência especial no meu processo.
E: O repertório de Jersey Boys é extenso e cheio de sucessos que marcaram gerações. Qual música do espetáculo tem mais impacto pessoal para você no palco?
HM: A música que mais me toca pessoalmente é Fallen Angel. A cena retrata o luto do Frankie pela perda da filha, e isso sempre ressoa fundo em mim. Lidar com a impermanência da vida é um aprendizado constante — não porque eu seja apegado, mas porque sou bastante emocional, e as despedidas, grandes ou pequenas, sempre me marcam muito. No início dos ensaios, era inevitável pensar no meu filho. Essa é uma experiência que eu decreto, definitivamente, que não quero nem vou viver nesta vida, sob a proteção dos céus! Além disso, essa cena/música se conecta com o luto recente do meu pai, então é um momento que exige muito equilíbrio técnico, mas que nunca deixa de me atravessar emocionalmente.
Outro momento especial é Can’t Take My Eyes Off You. Ali existe uma verdadeira sinergia entre público, orquestra e elenco. É um ponto de explosão, mas ao mesmo tempo de entrega, que eu vivo todos os dias com muita reverência e gratidão. Esses dois momentos resumem bem a intensidade e a beleza de estar em cena com essa história.
E: Sua trajetória inclui grandes produções da Broadway no Brasil, como Les Misérables e O Fantasma da Ópera. Qual aprendizado dessas experiências você carrega para este momento de protagonismo?
HM: Todos os espetáculos e musicais que fiz me trouxeram aprofundamentos técnicos e uma bagagem artística muito rica. Essa experiência me preparou para o protagonismo, mas também reforçou algo que sempre esteve claro para mim: a dicotomia do protagonismo — o eixo não gira sem a roda toda. O teatro é coletivo e cada pessoa é essencial. Ao longo da minha trajetória, muitas vezes como cover de protagonistas, tive a oportunidade de aprofundar atributos que sempre valorizei e que continuam sendo meu norte, tanto na vida pessoal quanto profissional: humildade, reverência e a consciência de que somos todos um.
Hoje, ocupando o protagonismo, trago toda a bagagem cênica e também essa visão filosófica e espiritual da caminhada. Para mim, não se trata de brilhar sozinho, mas de colocar meu trabalho a serviço de uma obra coletiva capaz de tocar o público de forma profunda.
E: Ao longo da carreira, você já passou por personagens de grande peso e simbolismo no teatro musical. Existe algum papel da Broadway que você considera um sonho ainda não realizado e por quê esse personagem em especial te atrai?
HM: Me considero um idealista e, desde pequeno, sonho em ser alguém que de alguma forma ajuda a transformar o mundo.
Tento ser o melhor que posso, no oculto ou no que mostro: praticando veganismo, respeitando a natureza e tudo ao meu redor, buscando harmonia nas ações, nos pensamentos e na arte. Ao mesmo tempo, sei que sou só um ser humano cheio de falhas, um grão de areia nesse universo enorme, que a vida é muito plural.
É por isso que personagens como Aladdin e Hércules me atraem tanto. São arquétipos poderosos: o Aladdin tem um coração puro, e ainda sendo um humano simples, encontra força na virtude, liberta o gênio deixando que algo maior o guie; o Hércules se torna herói ao colocando os outros em primeiro lugar, “vencendo distâncias”! Essas virtudes e a pureza da criança interior que esses personagens despertam, me inspiram profundamente.
Talvez eu nunca tenha a chance de interpretar esses personagens — os musicais podem nem vir ou eu nem estar no perfil quando vierem — mas admiro demais suas histórias, suas mensagens e adoro ouvir e cantar suas músicas.
E: Além dos palcos dos musicais, você também se dedica ao trio Amazing Tenors, que tem levado clássicos para plateias de todo o Brasil. Você sente que o trabalho com o trio influencia ou complementa sua atuação nos musicais?
HM: Com certeza complementa. Trabalhar com o trio Amazing Tenors me dá uma experiência única de canto, interpretação e interação com o público que reforça muito o que faço nos musicais. É uma outra dinâmica, mais intimista em alguns momentos, que me ajuda a explorar nuances vocais, presença de palco e conexão com a plateia. Todo esse aprendizado acaba refletindo na minha atuação nos musicais, tornando minha performance mais viva e orgânica.
E: Você está vivendo um momento de expansão na carreira, equilibrando teatro, música e novas oportunidades que se desenham no audiovisual. O que você ainda espera realizar como artista nos próximos anos — seja no teatro, na música ou no audiovisual?
HM: O mercado artístico tem um antigo costume de nos setorizar em nichos, o que nem sempre é bom para o desenvolvimento do artista. Felizmente isso tem mudado, e hoje vemos cada vez mais profissionais transitando entre TV, teatro, cinema, musicais, dublagem etc.
Tenho tido ótimas oportunidades ao longo da carreira — shows, musicais, peças de teatro, dublagens — e sou muito grato por isso.
Nos próximos anos, espero que continuem surgindo testes e oportunidades em todas essas áreas. Tenho muito amor e respeito pelo trabalho do ator em todos os gêneros e espaços, e quero seguir explorando e expandindo minha atuação em diferentes linguagens artísticas.
Novas perspectivas na jornada
Em sua primeira experiência como protagonista, Henrique Moretzsohn entrega uma performance que traduz talento, dedicação e emoção, reafirmando sua força como uma das vozes mais marcantes do teatro musical brasileiro. Jersey Boys se despede dos palcos neste último fim de semana em São Paulo, e o artista já vislumbra novos desafios, tanto nos musicais quanto na música e no audiovisual. Entre conquistas e expectativas, ele segue guiado pela mesma paixão que o levou, ainda criança, a se encantar pelos palcos — agora com a certeza de que está apenas no começo de uma nova e promissora fase de sua jornada.
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Texto revisado por Angela Maziero













































