Entre flores, protestos e psicodelia, o espetáculo é o retrato de uma geração livre
Considerado um marco da contracultura dos anos 1960, Hair revolucionou a Broadway ao levar para os palcos discursos políticos, igualitários e espirituais, além da defesa da liberdade sexual. Escrito por James Rado e Gerome Ragni, o espetáculo acompanha um grupo de hippies estadunidenses que prega a paz e o amor livre em meio ao contexto da Guerra do Vietnã.
A Tribo politicamente ativa contra o conservadorismo estabelecido socialmente apresenta a história de Claude Hooper Bukowski, um jovem que precisa lidar com a pressão de ter que escolher entre seguir as regras da sociedade e viver sob os ideais de liberdade de seu grupo.
Este ano, Hair ganhou uma nova montagem brasileira, que teve estreia em julho no Rio de Janeiro e iniciou uma temporada em São Paulo, que ficará em cartaz até 30 de novembro. O elenco reúne trinta artistas, entre eles estão: Rodrigo Simas (Berger), Eduardo Borelli (Claude), Estrela Blanco (Sheila), Thati Lopes (Jeannie) e Beatriz Martins (Dionne).
A Era de Aquário (Aquarius)
Aquarius é um conceito astrológico e espiritual que carrega a simbologia de um novo tempo de transformação coletiva, fortemente marcado por ideais de liberdade e consciência universal. Astrologicamente, essa era funciona como um espelho das características do signo regente, sucedendo a Era de Peixes e iniciando um período de expansão mental e busca por uma sociedade mais justa e solidária.
Essa ideia é introduzida logo no início do espetáculo, com Aquarius, primeiro número musical da obra. Para além de apresentar e conduzir o público para o universo da história, a canção funciona também como um manifesto hippie e ultrapassou os limites dos palcos, tornando-se um hino da contracultura e ganhando versões de artistas como o grupo The 5th Dimension (1969) e Diana Ross & The Supremes (1969), ambas sendo um medley com Let the Sunshine In, outra canção popular do musical.
Confira a versão da montagem brasileira:
A Guerra do Vietnã
Ocorrida entre 1955 e 1975, a Guerra do Vietnã foi um conflito entre o Vietnã do Norte (comunista), apoiado pela União Soviética, e o Vietnã do Sul (capitalista), apoiado pelos Estados Unidos. Esse combate foi um dos mais emblemáticos da Guerra Fria, período em que as duas potências envolvidas não se enfrentavam diretamente, mas dominavam territórios que poderiam se tornar futuros aliados.
Mais do que uma disputa por território, o conflito simbolizou um embate ideológico entre o comunismo e o capitalismo, gerando impacto social, político e cultural no mundo inteiro.
Em um cenário de incertezas e medo, milhares de jovens estadunidenses foram convocados para servir no Vietnã. Dentro desse contexto, cresceu entre a juventude os sentimentos de revolta e contestação diante do movimento considerado injusto e sem sentido, e é nesse ambiente que se desenrola o enredo de Hair. Entre músicas icônicas, reflexões profundas e momentos de humor inteligente, o espetáculo apresenta o dilema do jovem Claude entre servir ao país ou continuar sua busca por autoconhecimento e liberdade ao lado da Tribo.
O grito por justiça, paz e igualdade de toda uma geração é traduzido no palco com doses de críticas sociais de um grupo que rejeita o conservadorismo e o militarismo, e celebra a diversidade.

Impacto social e cultural
Hair teve grande impacto no cenário cultural e também na sociedade da época. O espetáculo levou para os palcos temas que antes eram considerados tabus, como: liberdade sexual, uso de drogas alucinógenas, antimilitarismo, nudez e igualdade racial e de gênero.
Além das questões políticas e sociais, a obra também explora o campo da religião e da espiritualidade. Não há uma rejeição total à fé, mas os dogmas religiosos são fortemente questionados, visto que, muitas vezes, eles serviam como justificativa para guerras, repressão e desigualdades.

Essas abordagens inspiraram debates sobre moralidade, liberdade e direitos civis, tendo influenciado não só o teatro, mas também a música, o cinema e a moda, tornando-se um símbolo importantíssimo da contracultura e funcionando como uma espécie de manifesto do rompimento de padrões. Todo esse movimento gerado por Hair serviu como abertura de caminhos para que outras produções abordassem temas importantes de forma direta, dialogando com a realidade e os desafios de cada época.
Até hoje o musical é lembrado como um marco histórico e cultural, e suas mensagens continuam chegando em diferentes gerações. Mesmo depois de mais de 50 anos de sua estreia na Broadway, ele continua sendo o retrato de um recorte social de uma geração que questionou a sociedade à sua volta. Cada nova montagem reacende e mantém viva a sua mensagem.
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Texto revisado por Alexia Friedmann




















