Autor detalha como foi criar um livro que se assemelha a um filme
Imagine um livro construído quase inteiramente por diálogos, como um roteiro de cinema: essa foi a ideia do autor José Cristovam ao escrever Retratos no Espelho. A obra conta com diálogos contínuos, estrutura de roteiro e até trilha sonora para compor a narrativa de uma família que vive na região do ABC paulista. Definido pelo escritor como “um filme de romance escrito”, o título procura que o leitor sinta o ritmo de uma produção cinematográfica.
Aqui, Cristovam narra a história de um psicólogo que decide voltar a um caso marcante em sua trajetória profissional: o da família Lebazi Estevam. Desse modo, por meio de um relato não linear, o livro apresenta lembranças de diferentes épocas – dos anos 1960 ao início de 2020. São momentos determinantes na vida dos personagens, que se dão como cenas de um filme.
Entre os eventos retratados na obra, estão conflitos no casamento, tensões entre pais e filhos, expectativas frustradas, reencontros inesperados e mágoas que perduram por anos. Retratos no Espelho ainda carrega temas como traumas, culpa, perdão e superação de perdas. O formato não usual – sem descrições detalhadas dos personagens e dos cenários – é uma forma de instigar a imaginação de quem lê. Além disso, a trilha sonora é integrada com QR codes, trazendo canções de nomes como Cazuza, Gilberto Gil, Lulu Santos, Rita Lee e Legião Urbana.
José Cristovam é natural de Santo André, no ABC Paulista, é empresário, consultor e palestrante. Em entrevista ao Entretetizei, ele conta como foi o processo de escrita do livro, como surgiu a ideia do formato e como sua trajetória pessoal influenciou sua escrita. Confira!

Entretetizei: Em que momento percebeu que queria construir um romance inteiramente apoiado em diálogos, quase como um roteiro sem cortes?
José Cristovam: Apesar de muitos considerarem a estrutura dialogal mais complexa, ela permite ao autor externar sentimentos, expressar opiniões e até mesmo vício de linguagem sob a ótica de cada personagem. A cada mergulho em um personagem eu pescava uma camada de força ou fragilidade, possibilitando ao leitor interatividade com seus próprios dilemas e pré-julgamento de formas diferentes do mesmo personagem conforme contexto. O biotipo, forma de falar, tom de voz, e mais alguns detalhes são oriundos da imaginação do leitor, o que gera sinergia e um certo suspense.
E: Como você decidiu o ritmo dessas “cenas” e o que guiou a montagem não linear da narrativa?
JC: Eu gosto muito de cinema e observo roteiros, gosto da forma como Dan Brown escreve. Certamente, estes fatos me inspiraram e a quebra de paradigma me atrai nos projetos que desenvolvo na área que eu atuo profissionalmente (reciclagem de resíduos tecnológicos). Uma montagem não linear pode parecer um pouco ousada, todavia, considero isto como o que é mais fascinante no ser humano, pois a dinâmica de viver, tão somente é viver.
E: Qual foi o maior desafio ao criar uma família que parece tão viva quanto imperfeita?
JC: O desafio de contar histórias que não pareçam autobiografia e, ao mesmo tempo, que seja comparável com a maioria das famílias, onde os leitores consigam enxergar pessoas, relacionamentos e casos da vida real, é com certeza a imersão em cada personagem. Eles me levaram para o mundo deles e no tempo deles, eu apenas dei voz, usando um pouco de humor misturado com suspense e drama.
E: Você integrou QR codes e uma trilha sonora que acompanha as cenas. Como selecionou as músicas?
JC: Em algumas falas de determinados personagens são usados fragmentos de verdadeiras poesias musicais. Ao escrever eu me perguntava: “onde foi mesmo que escutei isto?”. Ex: “O futuro não é mais como antigamente”, “O tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece”.
Como sou amante de música e também componho, praticamente tudo que eu faço coloco uma música de fundo, é automático. Um filme de romance, por exemplo, precisa ter uma trilha sonora. E, como um retrato que cria memória atemporal, escutamos uma música e ela nos transporta para uma determinada memória.
Dessa forma, procurei homenagear alguns artistas que sou completamente apaixonado, as ideias e mensagem em formato de notas musicais casam e criam uma atmosfera envolvente.

E: Você cresceu no ABC Paulista, região presente na trama. O quanto desse território permeia suas histórias internas?
JC: Principalmente as periferias de Santo André e Mauá. Uma das características da região é sua diversidade de origem, poder econômico e culturas diferentes dos seus habitantes. Só como curiosidade, no ABC tem pessoas do todo Brasil e do mundo; muitas descendem de imigrantes vindos nas décadas de 50 e 60 por conta das indústrias montadoras de veículos aqui instaladas, uma verdadeira salada cultural.
E: Qual a sua história como escritor? Por que decidiu escrever um livro?
JC: Este é o meu primeiro livro, gosto muito de escutar e contar histórias e, ao longo de minha vida, escrevi algumas mensagens, músicas e palestras. Talvez por isso fui incentivado por minha família e amigos a escrever, então decidi escrever Retratos no Espelho.
E: Quais são os escritores e escritoras que mais te inspiram?
JC: Honestamente, li muita coisa na minha vida acadêmica voltada ao meu desenvolvimento profissional. Gosto muito de Dan Brown e diversos compositores de músicas. Quando vejo compositores sendo reconhecidos pela Academia Brasileira de Letras, fico muito feliz. Entendo que a música é um pouco mais acessível do que determinados livros. Despertar nas crianças e jovens a magia da leitura pode ser um grande desafio, principalmente para as camadas da sociedade que lutam pela sobrevivência (como foi boa parte de minha vida).
E: Na sua opinião, qual a importância da interseção entre cinema e literatura?
JC: Escrevi há um tempo atrás em uma das minhas músicas: “assim como a teoria está para o teorema, a poesia está para o poema”. E na literatura, a imersão das cenas, as pessoas, a natureza e seus biomas, são conforme a imaginação do leitor, são como poesia ou teoria que se sente. O cinema materializa esta imaginação, transformando e condensando os sentimentos, cores, músicas, biotipos, paisagens, como um poema ou teorema. Considero que a interseção é muito complementar entre literatura e cinema.
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Texto revisado por Alexia Friedmann




