Ela nunca deixou de brilhar! Conheça a vida e a obra da incrível atriz Vera Fischer
Vera Fischer, atriz e modelo, é um dos ícones atemporais da televisão brasileira. Desde 1970, ela se tornou um dos maiores símbolos de beleza e sensualidade do país, mas também é reconhecida por sua força cênica e sensibilidade. A atriz completou 74 anos nesta última quinta feira e o Entretetizei preparou um especial para homenagear essa mulher que com seu talento, presença e beleza atravessa gerações.
O início

Nascida em Blumenau, Santa Catarina, em uma família de classe média de origem alemã, Vera é filha de Hildegard Berndt, uma brasileira neta de alemães, e de Emil Fischer, alemão natural de Karlsruhe. Em sua autobiografia, ela classificou seu pai como um nazista convicto, agressivo, rígido, que a obrigava a ler o Mein Kampf, obra do ditador Adolf Hitler. Segundo ela, a relação entre os dois era tumultuada, marcada por conflitos, embora ela o admirasse. “Meu pai morreu de câncer, foi duro para mim. Minha vida sempre foi muito dura, tive que encarar coisas com muita energia, muita coragem, desde a infância. Meus pais não tinham tempo para mim, tive que aprender a crescer sozinha. Não guardo mágoa, aprendi e cresci com isso”, disse ela em entrevista à revista Quem.
Até os cinco anos, falava apenas alemão, aprendeu português na escola. Seu pai era comerciante e sua mãe era uma costureira que trabalhava em uma fábrica de tecidos. Estudou em um colégio católico, frequentava cultos luteranos aos domingos e missas na igreja católica às sextas feiras, experiência que moldou sua vida espiritual. “Comigo aconteceu uma coisa muito interessante, porque meus pais eram protestantes luteranos, mas, aos cinco anos, me colocaram numa escola de freiras católicas. Então, às sextas eu frequentava as missas católicas e, aos domingos, o culto protestante. Aprendi duas religiões e fiquei craque, tirava dez em tudo, as freiras me adoravam e eu gostava. Para mim, religião sempre foi uma matéria humana, de estudar o ser humano”, contou em entrevista ao Altas Horas, programa da TV Globo.
Aos dezessete anos, Vera participou do concurso de modelo Miss Blumenau, do qual foi vencedora, e, em seguida, foi coroada Miss Brasil 1969, no Rio de Janeiro. Por outro lado, Fischer ainda não podia ser participante do Miss Universo, pois ainda não tinha dezoito anos. Ela mesma decidiu falsificar seus documentos para participar do concurso. “Durante muitos anos, o meu passaporte e a carteira de identidade tiveram um ano a mais. Atualizei há pouco tempo. Foi divertido!”, contou ela em entrevista à Folha de S. Paulo.
A década de 70, porém, foi bastante controversa. Vera era uma criança em um mundo de adultos em uma época onde o machismo era escancarado e sem pudores e onde as mulheres eram vistas apenas como objetos ou julgadas pela forma que se vestiam. “Comecei no início dos anos 70, quando o machismo estava gritando. Acho que, mais psicologicamente, fui abusada, e isso me doeu, me deixou muito para dentro. Eu era muito tímida e não era moda falar ou reclamar sobre isso naquela época”, refletiu a atriz.
Ela fala em diversas entrevistas que embora não tenha sofrido nenhuma violência física, levou marcas psicológicas que sofreu naqueles anos, algo que a moldou e a deixou psicologicamente abalada pelos assédios e estereótipos sofridos. Ainda assim, nunca deixou que isso determinasse sua carreira: “Não foi nada traumático fisicamente, foi mais o meu psicológico, gente dizendo que eu era uma loira burra gostosa, então podiam tudo, que eu usava minissaia, shortinho e que podiam atacar. Isso não dá o direito de passar a mão em mim. Você pode se vestir como quiser, ter a idade que tiver, dizer o que dizer. É a sua vida. Isso mexeu comigo, com a minha mente”, contou ela em entrevista ao Altas Horas da Rede Globo, refletindo sobre o machismo e o estereótipo de loira burra que rondava sua carreira na época.
Ela foi transgressora e não se deixou abater, deu a cara à tapa e continuou sua transição de carreira de modelo para atriz, o que não foi fácil mas que ela conseguiu com êxito, garra e muita força, provando que a resiliência, a vontade e o talento nos levam mais longe do que possamos imaginar. “Quando comecei no cinema e na televisão, as pessoas me cantavam mesmo. Eu sempre fui muito inteligente, graças a Deus, e tive muita criatividade para sair disso sem me mandarem embora. Porque muita atriz e ator cedeu a isso naquela época por ter medo da demissão”, contou ela sobre seu início na televisão.
Seus primeiros trabalhos como atriz foram no cinema, na época de ouro da pornochanchada. Essas obras a moldaram como atriz e reverberaram como grandes clássicos nacionais, destacando sua beleza e talento. “Me sinto privilegiada, porque o cinema novo, o da Atlântida e a pornochanchada são movimentos de cinema brasileiro, então me sinto orgulhosa”, contou ela em entrevista ao Gshow.
Nas telinhas da tv, estreou na telenovela Espelho Mágico (1977), interpretando Diana e Débora. Não foi fácil, a atriz enfrentou preconceito por vir das pornochanchadas e de concursos de beleza. Mesmo assim, consolidou-se rapidamente. “Eu ganhava bem, me impunha. Quando protagonista, eu ia conversar com o cara do dinheiro. Graças a Deus, minha família sempre foi muito forte, muito severa e humana. Então isso me deu um norte, fez com que eu me tornasse uma pessoa, aos poucos, mais compreensiva, corajosa e forte”, contou ela em entrevista ao Altas Horas da Rede Globo.
Carreira consolidada

Nos dois anos seguintes, deu vida às personagens Sula Montenegro e Helena Porto em Sinal de Alerta (1978) e Os Gigantes (1979). Em 1980, foi Vivian Ribas em Coração Alado. No ano seguinte, fez uma participação especial na série Obrigado, Doutor. Mas foi como Luiza, em Brilhante (1981), que recebeu sua primeira indicação no Troféu Imprensa e parou o país com sua elegância, seus lenços no pescoço, seus olhos verdes e beleza marcante. A ideia dos lenços veio como uma solução da figurinista Marília Carneiro para disfarçar o cabelo curto da atriz, que não agradava o público e que foi palco de polêmica, pois Tom Jobim escreveu uma música para a personagem enfatizando seus longos cabelos e ela apareceu com eles curtos. “Foi uma febre, todas as pessoas quiseram usar esse lencinho”, contou a figurinista ao Memória Globo.
Em 1987, interpretou Jocasta na polêmica Mandala, de Dias Gomes, personagem que marcou a década. A trama tinha a tragédia grega Édipo Rei como ponto de partida e explorava vários tabus como bissexualidade, misticismo, incesto e vicio em drogas. A novela ficou marcada também pelo início do conturbado romance entre Vera e Felipe Camargo. Os dois se conheceram nas gravações da trama e a paixão foi avassaladora, ganhando as manchetes com repercussão nacional dos jornais e revistas da época. O casamento ocorreu em 1988 e foi conturbado e polêmico até a separação ocorrida em 1994. Na época, ambos atuavam em Pátria Minha (1994), Vera vivia a protagonista Lídia Laport na trama e chegou a ser afastada duas vezes devido a constantes atrasos e outros motivos relacionados a comportamento, além das brigas constantes entre ela e Felipe, que resultaram inclusive em um antebraço quebrado. Ambos os personagens acabaram morrendo na história. Recheada de polêmicas, Mandala nunca foi reprisada pela Globo e não tem previsão de entrada no Globoplay.
Em 1990, deu vida a Eduarda na minissérie Riacho Doce e logo em seguida encarnou Anna de Assis em Desejo (1990). Em 1992, viveu Cidinha em Perigosas Peruas. Entre 1993 e 1996, interpretou Alice na minissérie Agosto (1991), Lídia Laport em Pátria Minha (1994) e Nena Mezenga em O Rei do Gado (1996). Encerrando a década, esteve no programa Você Decide (1997), em Pecado Capital (1998) como Laura e em O Belo e as Feras (1999) no episódio Casa de Malandro, Espeto de Chifre.

Ela já começou a década de 2000 com tudo! Interpretando Helena em Laços de Família, um dos seus papéis mais emblemáticos e lembrados pelo público brasileiro, Vera fez história. Helena é uma mulher firme, amorosa, doce, capaz de abdicar do amor de sua vida pela sua filha, Camila (Carolina Dieckmann). A história é repleta de sacrifícios, dilemas morais e revelações dolorosas. “Helena não se importava com o preconceito de nada, é culta, viajada, livre, bonita. O que mais posso querer em uma personagem. Foi a grande glória da minha vida”, lembrou em entrevista ao documentário O Leblon de Manoel Carlos. Por esse papel, ela venceu o prêmio Melhores do Ano de 2000, na categoria Melhor Atriz de Novela. No ano seguinte, brilhou como Yvete no hit global O Clone (2001), papel que lhe rendeu mais uma indicação no Troféu Imprensa. Em 2003, foi Antônia em Agora É que São Elas e, em seguida, viveu Vera Robinson em Senhora do Destino (2004) e Úrsula em América (2005).
Em 2007, participou de Amazônia – De Galvez a Chico Mendes, como Lola. Em 2008, atuou como a fotógrafa Dolores em Duas Caras e logo em seguida, fez uma participação como Vera em Casos e Acasos. Em 2009, foi Chiara em Caminhos das Índias e fez uma participação como Celeste na série Afinal, O que Querem as Mulheres (2010).
Em 2011, deu vida a Catarina Diniz em Insensato Coração e, em 2012, foi Irina em Salve Jorge. Voltou à televisão em 2018 como Ana Tanquerey em Malhação Vidas Brasileiras, como Haydée em Assédio e em Espelho da Vida, sua ultima novela, viveu Maria do Carmo e Gertrudes, a novela foi exibida até 2019.
Cinema

No cinema, estreou em 1972 como Ângela em Sinal Vermelho – As Fêmeas. No ano seguinte participou de três filmes: A Super Fêmea como Eva, Laura em Anjo Loiro (1973) e Fernanda em As Delícias da Vida (1973). Em 1974, interpretou Lígia em Essa Gostosa Brincadeira a Dois e Juliana na comédia Macho e Fêmea. Seu primeiro papel de destaque no cinema foi em 1976 no filme Intimidade, com a sua personagem Tânia Velasco, que roubou a cena com profundidade em dilemas emocionais, revelando uma atuação potente de Vera, que passou a ser enxergada além de sua beleza. A produção lhe rendeu um prêmio de melhor atriz no Troféu APCA. “Eu tinha muitas dúvidas em relação a ser atriz. Só depois dos 25 anos, que fiz Intimidade e que ganhei alguns prêmios, que tive noção de agora, sim, podia dizer: eu sou uma atriz”, disse a atriz em entrevista no Festival de Gramado de 2024.
Cinco anos depois, foi Judite em Perdoe-me por Me Traíres (1980). Em 1981, esteve em dois longas: viveu Ritinha em Bonitinha, mas Ordinária e Barbára Bergman em Eu te Amo. No filme ousado e controverso Amor Estranho Amor (1982), interpretou a prostituta Anna, papel que lhe garantiu prêmios de melhor atriz no Prêmio Air France e no Festival de Cinema de Brasília. Naquele mesmo período, foi a protagonista de Dora Doralina (1982). Dois anos depois, participou de dois longas: Anna em Amor Voraz (1984) e Ana de Ferro em Quilombo (1984). Vera encerrou a década de 1980 como Letícia de Doida Demais (1987). Em 1990, foi Sra Watts em O Quinto Marcado e Cristina em Forever. Em 1993, participou do filme Fala Baixo, Senão Eu Grito e em 1997 foi Neusa Sueli em Navalha na Carne. Em 2002, foi a Rainha Dara em Xuxa e os Duendes 2: No Caminho das Fadas, retornando para o cinema somente em 2019 como Gilda em Quase Alguém.
Consagrada profissionalmente e pessoalmente

No teatro, Vera fez diversas produções ao longo das décadas de 80, 90 e 2000, incluindo Negócios de Estado, Macbeth, Desejo, A Primeira Noite de um Homem e Porcelana Fria. Em 2022, celebrou seus 55 anos de carreira nos palcos, lugar sagrado e de ofício onde se encontra, se derrama e deleita. “Eu comecei pelo cinema, fiz televisão e vim para o teatro. Geralmente, a ordem é teatro, cinema e TV. Gosto do jeito como conduzi minha vida profissional. Teve um período em que fiquei um pouco parada na TV por causa da idade, mas logo engrenei no teatro e não parei mais. As pessoas adoram me ver ao vivo, pertinho. E teatro você pode fazer com qualquer idade e sempre”, completou.

Atualmente, ela brilha em cena com potência, luxo e elegância com sua peça O Casal Mais Sexy do Planeta que roda o Brasil em turnê. Peça escrita originalmente pelo norte americano Ken Levine, conta a história do reencontro de um casal de atores veteranos de Hollywood: Susan, vivida por Vera e Robert (Leonardo Franco), que se reconectam a partir do velório de um amigo em comum. O texto ganhou versão brasileira e direção de Tadeu Aguiar e está imperdível, com Vera mostrando mais uma vez porque é patrimônio da dramaturgia brasileira. Em entrevista ao site Heloísa Tolipan, a atriz destacou a prática da solitude, que ama ficar em paz consigo mesma e que isso é essencial para a sua vida. “Minha vida mudou muito. Eu era de festas, bares, boates, jantares. Hoje, moro em um apartamento menor, com meus gatinhos. Tenho poucos amigos e adoro ficar sozinha. Não é solidão, é solitude. Eu faço tudo no meu tempo, do meu jeito”, contou ela. Vera está solteira e afirma estar em seu melhor momento de vida pessoal, sexual e profissional: “paquero de vez em quando mas estar sozinha é melhor. Existe a masturbação que é saudável, estou em paz, cada idade tem sua beleza”, afirma ela destacando estar mais conectada consigo mesma e com seu prazer, provando que as mulheres podem ser livres, donas de si e que o amadurecer está cada vez mais bonito. “A maturidade traz leveza, você se livra do que não precisava”, concluiu Vera em entrevista ao Correio Braziliense.
Vera é uma atriz fantástica, uma jóia rara, uma leveza, uma beleza que não se apaga com o tempo, um raio de sol que ilumina a todos, um verdadeiro diamante lapidado com um brilho único e inesquecível e que merece ser lembrada, amada e adorada com todas as homenagens possíveis. Sua arte sempre permanecerá viva e pulsante. Viva Vera!
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Texto revisado por Angela Maziero Santana










