O espetáculo ganha humor e profundidade em adaptação da trajetória de uma jovem operária nos palcos brasileiros
Matéria por: Luana Chicol
Até o dia 31 de maio, o Teatro Claro MAIS SP receberá um musical já conhecido por muitos fãs de filmes dos anos 80 – especialmente os mais dançantes. Flashdance – O Musical, em curta temporada na cidade de São Paulo, investe na adaptação das músicas, coreografias e jornada dos personagens originais para o português. E o Entretetizei foi assistir e traz uma resenha exclusiva da nova obra inspirada no longa-metragem sedutor e eletrizante.
O sonho de Alex e a sua dura realidade
Uma atmosfera sóbria toma conta dos palcos, antes que a música comece. Mas, logo os muitos bailarinos que compõem o elenco talentoso do musical, roubam a cena com energia. Eles relatam o trabalho difícil nas fábricas de Pittsburgh, a remuneração escassa e as mudanças no ambiente de trabalho: o novo patrão, o misterioso herdeiro de todo o lugar, se prepara para assumir o cargo na empresa e se apresentar aos subordinados.
Em meio a isso, Alex Owens se destaca: uma das únicas mulheres trabalhando na siderúrgica, ela brilha no palco com a interpretação de Marisol Marcondes, que dá vida a uma jovem igualmente batalhadora e sonhadora. A protagonista é pura dualidade: ela trabalha em meio a homens, mas cuida com carinho de sua sábia mentora, Hannah (Adriana Fonseca). Além disso, ela trabalha duramente com o aço durante o dia, mas passa suas noites apresentando sua dança em uma boate famosa na cidade. Entretanto, seu sonho é outro: entrar em um prestigiado conservatório de balé e iniciar sua carreira tão sonhada nos palcos. Depois de reunir muita coragem (e um empurrãozinho de sua mentora), ela se inscreve para uma audição e começa seus treinos para a oportunidade da sua vida.
A atuação de Marisol Marcondes traz ares contemporâneos para uma personagem já amada pelo público. Em entrevista para o Entretê, ela compartilha que foi ideia sua Alex ter como marca-registrada a camiseta do Michael Jackson no figurino, e que participou de forma ativa na construção da protagonista em sua adaptação brasileira. Deste modo, fica claro que o espetáculo brasileiro também busca certo sentimento de autenticidade, tanto na produção pré-espetáculo quanto nas atuações em palco.
O amor chega, mas ele se sustenta?
Nick Hurley (Rhener Freitas) quebra a rotina das fábricas: o herdeiro se mostra um pouco mimado, mas aberto para conhecer as condições de trabalho e entender aquela realidade distinta. O que ele não esperava era ser surpreendido por alguém que não cede à hierarquia do lugar: Alex o julga por sua distração e o zomba por sua postura de playboy. Ele se encanta e, na mesma noite, se reencontra com ela no bar em que Alex se apresenta, ficando ainda mais encantado. Assim, eles iniciam uma relação apaixonada.
O casal tem muita química, mas ela continua questionando seu lugar no mundo – e, portanto, o lugar de seu relacionamento no mundo. Sua natureza crítica não a permite estar com Nick sem pensar nas consequências em seu trabalho e, de certo modo, ele não compreende a totalidade das suas dificuldades como mulher, operária e aspirante a bailarina.
A paixão encontra resistência nas mudanças da indústria de aço em Pittsburgh. A empresa de Nick sofre cortes, e parte dos colegas de Alex são demitidos subitamente, o que estremece o relacionamento e a faz compreender que os dois possuem duas vivências muito diferentes. Eles se afastam, e ela continua treinando para a sua audição, com o foco redirecionado.
Marisol Marcondes e Rhener Freitas demonstram muita versatilidade em seus papéis, alternando entre os momentos de vulnerabilidade apaixonada e autorreflexão acerca das jornadas únicas que os dois trilham individualmente. A autenticidade e o brilho de Alex são o destaque da peça, sustentados por uma presença de palco magnética e uma entrega física que traduz, com precisão, o conflito interno da personagem. Sua jornada é marcada pela tensão entre o desejo e a independência, entre o amor e a ambição – e é justamente nesse embate que a narrativa encontra sua força.
Quando analisada com afinco, a narrativa inteira é repleta de amores imperfeitos. O núcleo de amigas dançarinas de Alex apresenta, em cada personagem, uma relação complexa entre sonho, desejo e realidade. Gloria (Giovana Brandão) idealiza a fama, mas é constantemente puxada para baixo por inseguranças e pelos sacrifícios exigidos dentro do contexto dos clubes noturnos de Pittsburgh. Seu número com a música de Laura Branigan é sensível e impactante.
Enquanto isso, Tess (Marião) inverte a dinâmica usual dos relacionamentos da época com a performance elétrica do hit Manhunt, reforçando o tom girl power da peça e a independência feminina dos anos 80 ao destacar mulheres assumindo o controle sobre a própria vida amorosa e sobre a performance da própria sensualidade. Por fim, I Love Rock & Roll, interpretada por Carla Leilane no papel de Kiki, é uma ode ao gênero com atitude e emoção e, em todos os números musicais, a potência vocal é alinhada com um ótimo trabalho dos bailarinos em se adaptar tanto às coreografias clássicas de balé quanto ao mix de gêneros de dança que acompanham as canções do musical.
Em suma, o musical não se restringe à representação de um romance improvável, mas de um retrato sensível sobre escolhas, identidade e pertencimento. Enquanto Nick começa a questionar os privilégios que sempre moldaram sua visão de mundo, Alex reafirma a necessidade de não abrir mão de si mesma, mesmo diante de um sentimento avassalador. A peça, assim, convida o público a refletir sobre até que ponto é possível conciliar realidades tão distintas sem que alguém precise se perder no processo.
O teste final
No clímax da narrativa, o aguardado teste de Alex funciona como síntese de tudo o que veio antes: entrega, frustração, desejo e disciplina. Ao entrar na sala de audição, ela não leva apenas uma coreografia ensaiada, mas uma história marcada por renúncias e resistência. Cada movimento carrega o peso de sua rotina na fábrica e, ao mesmo tempo, a leveza do sonho que nunca abandonou.
A performance em si rompe com a expectativa tradicional do balé clássico. Alex mistura técnica e impulso, precisão e instinto, criando algo que não se encaixa perfeitamente nas normas, mas que pulsa com originalidade. Esse momento reafirma um dos temas centrais da obra: a legitimidade de trajetórias não convencionais. Ela não tenta apagar suas origens para se adequar; ao contrário, transforma sua vivência em linguagem artística, provando que sua identidade é justamente o que a torna única.
Já a icônica cena da água com a cadeira carrega um significado que vai além do impacto visual. Quando a água despenca sobre seu corpo, há ali um gesto de controle e libertação simultâneos. É como se ela determinasse o momento de ser atravessada por tudo aquilo que a define – o suor, o cansaço, a pressão – e, ao mesmo tempo, emergisse renovada.
Essa imagem se tornou emblemática justamente por condensar o espírito de Alex: força, sensualidade e autonomia. Não é um olhar externo que a molda ou a expõe, mas uma escolha consciente de se expressar nos próprios termos. Assim como no teste final, ela não pede permissão para ocupar aquele espaço — ela o transforma. Juntas, essas cenas reafirmam que sua conquista não está apenas na aprovação de uma banca, mas na afirmação plena de quem ela é e de quem escolhe se tornar.
A produção brasileira do musical de Flashdance cria novas camadas de significado sobre a obra, tanto na adição de humor genuíno dentro da construção dos personagens coadjuvantes, quanto nas adaptações das músicas originais típicas dos anos 80. Vale a pena assistir – seja você um grande fã dos dramas musicais ou não!
Te convencemos a assistir? Compartilhe com a gente a sua experiência no espetáculo de Flashdance e nos marque nas nossas redes sociais – Instagram, Facebook e X – e, se você gosta de trocar experiências literárias, junte-se ao Clube do Livro do Entretê!
Leia Também: Dica Cultural: Flashdance – O Musical já está em cartaz em São Paulo
Texto revisado por Sabrina Borges de Moura