Produção de Ryan Murphy parte de uma perspectiva promissora, mas se perde entre escolhas narrativas nada convincentes e um desenvolvimento fraco
A primeira impressão que Estilhaços deixa nos espectadores é de que estamos diante de uma série com todos os ingredientes para funcionar perfeitamente. A premissa chama muito a atenção, a produção carrega o nome de peso de Ryan Murphy, o cenário dos anos 80 e o elenco escolhido cativam e a história parece preparada para entregar a receita infalível de uma série de sucesso: personagens bonitos, complexos, situações desconfortáveis e uma narrativa que une entretenimento com reflexões profundas.
O problema é que uma boa ideia precisa de mais do que atores com rostinhos bonitos e uma atmosfera instigante para funcionar. E é justamente no desenvolvimento que Estilhaços começa a desmoronar.
Ambientada nos anos 1980, a série acompanha Bret (Igby Rigney) um adolescente escritor que está iniciando o último ano na escola de elite Buckley Prep. Com um grupo de amigos inseparáveis composto por Susan Reynolds (Kaia Gerber), Debbie Schaffer (Hayes Warner) e Thom Wright (Graham Campbell), ele divide a rotina luxuosa entre festas, relacionamentos conturbados, a paixão pela escrita e as responsabilidades como estudante.
Com a chegada de Robert Mallory (Homer Gere), um novo aluno, coincide o início de uma série de assassinatos que aterrorizam a cidade. Em meio ao mistério, Bret vê nos crimes uma fonte de inspiração para sua escrita e a possibilidade de construir seu livro.
Com elementos de suspense, erotismo e mistério, Estilhaços se propõe a acompanhar a aproximação entre a vida privilegiada daqueles jovens e a violência que começa a tomar conta da cidade.
No papel, a série tinha potencial para ser um suspense adolescente de sucesso. A questão é que o problema de Estilhaços não se concentra na premissa. Pelo contrário, a ideia escondida dentro do universo da série é envolvente e a pauta da violência e voyeurismo poderia render reflexões instigantes.
Mas a produção parece mais interessada em apresentar um número exagerado de acontecimentos sem explorar as consequências deles e sem oferecer ao público um desfecho convincente. Questões que poderiam ganhar profundidade são introduzidas e rapidamente deixadas de lado, enquanto a trama segue para a próxima revelação.
E isso se torna ainda mais evidente conforme os episódios avançam. Estilhaços quer ser tudo ao mesmo tempo, um thriller de suspense, uma história sobre amadurecimento, um drama adolescente, um romance e uma produção carregada de erotismo.
Não há problema em misturar gêneros, o que é típico do estilo de Ryan Murphy, a questão é não conseguir fazer com que todos esses elementos conversem entre si, o que faz parecer não saber quais são os reais objetivos da história.
Constantemente preocupada em entregar uma nova reviravolta, a sucessão de escolhas malfeitas causa a sensação de que a série está mais preocupada em surpreender o tempo todo e manter uma estética sedutora do que em construir uma atmosfera envolvente. Os figurinos, as festas, os cenários luxuosos e a fotografia são bem feitos, mas não conseguem compensar a fragilidade do roteiro.

A dinâmica mal elaborada se repete com os personagens, Bret que deveria ser a ponte de conexão entre os adolescentes e os crimes da cidade tem sua trajetória prejudicada por um desenvolvimento totalmente superficial. O fascínio pela violência e a transformação dos acontecimentos em literatura convergem com a fragilidade das consequências reais na vida do protagonista. O mesmo vale para o grupo de amigos, as relações parecem existir apenas para movimentar os episódios.
E esse é um dos maiores desperdícios de Estilhaços. A produção possui personagens complexos e com potencial para ser muito mais interessantes do que de fato são, mas acaba priorizando as reviravoltas mirabolantes em detrimento de suas construções.
Também é difícil ignorar o peso do nome de Ryan Murphy. O produtor é conhecido por histórias provocativas, personagens controversos e produções que transitam entre o exagero, o suspense e o drama. Em Estilhaços, essas características estão presentes, mas nem sempre parecem funcionar a favor da história.
A série peca pelo excesso de sensualidade e situações desconfortáveis, que não necessariamente acrescenta novas camadas à trama. O público espera esses elementos de uma produção do diretor, mas é frustrante como são demonstrados de maneira inconsistente.
Em Estilhaços, muitas das surpresas parecem existir apenas para provocar um novo choque, sem que isso necessariamente fortaleça o que veio antes. E quando a surpresa não está acompanhada de uma construção sólida, o resultado desaponta mais do que impacta.
No fim, o que torna Estilhaços decepcionante é justamente o potencial desperdiçado. Não se trata de uma série sem ideias ou sem qualidades. Existe uma boa premissa, uma identidade visual marcante e elementos suficientes para construir um thriller adolescente envolvente. O problema está na produção, que começa em um ponto e finaliza no mesmo lugar, sempre a um passo de se tornar alguma coisa.
Assista ao trailer completo aqui:
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Texto revisado por Angela Maziero Santana



