O autor, cronista do cotidiano e das Helenas, um gigante da teledramaturgia brasileira, nos deixou no dia 10 de janeiro, transformando sua obra em um legado inestimável para os amantes de novelas do Brasil
Manoel Carlos, autor de novelas, cronista do cotidiano e das paixões intrínsecas ao ser humano, humanista convicto e autodidata, nos deixou no último dia 10 de janeiro aos 92 anos. O Entretetizei preparou uma homenagem para esse autor cujo legado permanecerá eterno em todos os corações daqueles que amam boas histórias.
Poucos souberam retratar o dia a dia como ele. Manoel Carlos escrevia refletindo a sociedade em suas obras como um espelho, amava as mulheres e criou personagens femininas fortes e detentoras de humanidade e complexidade como ninguém. Suas famosas Helenas e o Leblon, quase um personagem à parte em suas histórias, representavam uma parte da sociedade de elite do Brasil, sem jamais deixar de lado as pautas sociais, morais e existenciais em cada uma de suas histórias que paravam o país inteiro.
Maneco, como era apelidado, era um profundo conhecedor de almas, de conversas e das relações humanas. Suas tramas dispensavam grandes reviravoltas ou vilões caricatos. Apartamentos estonteantes, recortes das praias ensolaradas e bonitas do Rio de Janeiro, cafés e famílias repletas de afetos e conflitos profundos construíram um universo que marcou época e entrou para a história da teledramaturgia brasileira.
De Felicidade a Por Amor, passando por Mulheres Apaixonadas e Em Família, não houve uma obra de Manoel Carlos que não provocasse reflexão, debates e divisões de opiniões entre os brasileiros.
O começo de um grande ícone

Manoel Carlos Gonçalves de Almeida, mais conhecido como Manoel Carlos ou simplesmente Maneco, foi um autor de novelas, escritor, diretor, produtor e, no início da carreira, também ator. É pai da atriz Júlia Almeida e da roteirista Maria Carolina, sua colaboradora em diversas obras.
Iniciou sua trajetória na década de 1950, integrando o Grande Teatro Tupi, da extinta TV Tupi, dirigido por nomes como Sérgio Britto, Fernando Torres e Flávio Rangel. O teleteatro ficou no ar por dez anos e apresentou mais 450 peças de grandes autores nacionais e estrangeiros, com atrizes como Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, Glória Menezes e Beatriz Segall no elenco.
Paulista na certidão, Maneco se considerava carioca de coração. “Faço coisas muito fortes, sob um céu muito azul. As tragédias e os dramas acontecem, mas o dia está lindo. A praia e o espírito carioca dão uma coloração rosa ao contexto cinzento”, declarou em entrevista ao Memória Globo.
Absolutamente autodidata, nunca se viu como ator. Inspirado pelas radionovelas, começou a escrever suas primeiras histórias e consolidou seu estilo em dramaturgia, aprendendo muito nos bastidores do teatro e da televisão. Prezava pelo realismo em suas obras mas sem abandonar por completo a ficção “A mágica se dá nesse caminho entre o possível e o impossível“, contou ele ao Memória Globo. Ele sempre contava com uma equipe de pesquisadoras escolhidas a dedo que o auxiliavam na criação de suas histórias.
O seu caminho para chegar ao estrelato foi tortuoso. Aos 14 anos, foi auxiliar de escritório, mas já frequentava, desde essa época, os Adoradores de Minerva, um grupo de jovens que se reunia todos os dias na Biblioteca Municipal de São Paulo para ler e discutir literatura e teatro, refletindo que desde tenra idade já adorava a arte e a escrita. Entre os integrantes do grupo estavam Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Fábio Sabag, Flávio Rangel e Antunnes Filho.
Aos 17 anos, em 1952, escreveu sua primeira novela, Helena para a TV Paulista, uma adaptação do romance de Machado de Assis, seguida por Nick Chuck também para a TV Paulista, uma outra adaptação de Machado de Assis. Entre 1953 e 1964, participou da fase inaugural da TV Record, dirigindo e produzindo programas por lá. Depois passou pela TV Itacolomi, de Belo Horizonte, TV Rio e TV Tupi, onde adaptou mais de 100 teleteatros, lhe dando bagagem para o futuro promissor que viria a seguir.
Estreia na Globo

Manoel Carlos estreou na TV Globo em 1972, como diretor-geral do programa Fantástico. Durante esse tempo, participou também do Globo Gente, um programa de entrevistas comandado por Jô Soares.
Em 1978 viria sua virada de chave, escreveu sua primeira novela na TV Globo: Maria, Maria, trama das seis adaptada do romance Maria Dusá, de Lindolfo Rocha, a novela contava com Nívea Maria e Cláudio Cavalcanti como os protagonistas. “Um dia, o Fernando Sabin encontrou o Borjalo e disse que tinha um romance do século XIX chamado Maria Dusá, do Lindolfo Rocha, e que ele achava que dava uma boa novela das seis. Na época, a Globo tinha uma preocupação de adaptar romances brasileiros, então Borjalo chegou e passou essa ideia para mim. Eu gostei e fiz“, contou o autor em entrevista ao Memória Globo.

Logo após, naquele mesmo ano, o autor adaptou o romance de Carolina Nabuco, A Sucessora, que contava a história de Marina (Susana Vieira), uma jovem de 20 anos criada em uma fazenda simples que se apaixona por um homem rico e viúvo, Roberto Steen (Rubens de Falco). Marcada por atuações fortes e inesquecíveis, a novela até hoje é lembrada e admirada pelos apreciadores da boa dramaturgia.
Em 1980, convidado pelo diretor Paulo Afonso Grisolli, escreveu alguns episódios do seriado Malu Mulher, protagonizado por Regina Duarte, entre os quais os polêmicos Até Sangrar e Duas Vezes Mulher. O seriado retratava a condição de ser mulher brasileira no final dos anos 70 através do cotidiano de Malu, uma socióloga paulista, divorciada e mãe de uma menina de 12 anos; um seriado transgressor e revolucionário para a época, abordando assuntos delicados como o divórcio, o aborto, a emancipação feminina e a angústia diante da primeira experiência sexual.
Nesse mesmo ano, atuou como colaborador de Gilberto Braga em Água Viva a partir do capítulo 51 da obra, sua primeira experiência no horário das 20h, em um clássico que aborda conflitos da burguesia e da classe média carioca, temática que sempre estaria presente nas futuras obras de Maneco.
O Horário Nobre

Em 1981, lançou Baila Comigo, sua primeira novela das oito e que contava com sua primeira Helena das muitas que viriam, se tornando sua marca registrada.
As Helenas, inspiradas pela paixão do autor pela mitologia grega, são como um símbolo da mulher forte, corajosa, guerreira e que é capaz de fazer de tudo em nome do amor até mesmo disposta a cometer sacrifícios impossíveis de se imaginar.
A trama conta a história da matriarca Helena, vivida por Lilian Lemmertz, mãe de gêmeos separados no nascimento e que não sabem da existência um do outro: Quinzinho e João Victor, interpretados por Tony Ramos. João Victor foi criado pelo pai, Joaquim Gama (Raul Cortez), e Quinzinho ficou com a mãe, Helena. Os gêmeos idênticos, de temperamentos opostos, acabam se aproximando sem querer por meio de uma série de pressentimentos e acontecimentos que não conseguem explicar.
Sol de Verão e outras obras

Em 1982, escreveria Sol de Verão, novela que ele deixou pela metade devido ao trauma da morte do ator protagonista da novela e um de seus melhores amigos pessoais, Jardel Filho. Essa novela relatava o dilema de Rachel (Irene Ravache), uma mulher que acabava de sair de um casamento infeliz e que vivia ao lado da mãe Laura (Beatriz Segall) e da filha Clara (Débora Bloch) e que acabava se envolvendo com Heitor (Jardel Filho), um mecânico boêmio que nunca havia vivido um relacionamento sério. A novela foi concluída por Gianfrancesco Guarnieri e Lauro César Muniz e saiu do ar antes do previsto.
Maneco deixou a Globo logo em seguida, escrevendo três tramas na Rede Manchete: a minissérie Viver a Vida, em 1984; o seriado Joana, no mesmo ano e exibido até 1985; e a novela Novo Amor em 1986. Em 1989, escreveu a minissérie O Cometa, na Rede Bandeirantes.
Manoel retornou para a Globo em 1991, quando escreveu o sucesso Felicidade, uma livre adaptação da obra de Aníbal Machado. O projeto foi idealizado por Maneco por mais de 12 anos e teve a primeira mulher à frente da direção geral, a diretora Denise Saraceni. Em Felicidade, Maneco deu vida à sua segunda Helena, dessa vez interpretada por Maitê Proença.
Enquanto esteve no ar, a novela foi esticada diversas vezes devido a indecisão sobre sua substituta. A novela também marcou a estreia de Vivianne Pasmanter na televisão, que se destacou interpretando a vilã neurótica e temperamental Débora. Também foi a primeira novela de Eliane Giardini, Maria Ceiça e Ana Beatriz Nogueira.
Felicidade fez um grande sucesso no exterior, sendo vendida para diversos países. Dividida em duas fases, a trama soube segurar o telespectador, atrair e encantar, conduzindo o público para dentro da narrativa, coisa que Maneco sabia fazer como ninguém. A identificação com os personagens acontecia de forma natural e imediata, sem rodeios e enrolações clássicas de novelas.
História de Amor e o nascimento de um ícone

Em 1995, Maneco escreveria aquela que seria um divisor de águas em sua carreira: a novela História de Amor, trama considerada como uma comemoração dos trinta anos de carreira da atriz Regina Duarte, que pela primeira vez interpretava um papel no horário das 18 horas.
Aqui, Regina viveu a primeira de suas três Helenas: “Maneco foi o pai das Helenas, das antagonistas perfeitas e filhas marcantes. Registrou em nós, amantes da teledramaturgia, um amor inexplicável pela realidade de tantas histórias. As Helenas são espetaculares. Ele me ensinou muito sobre mim mesma. Grande Manoel Carlos, vamos sentir sua falta e amar para sempre o teu legado“, lamentou Regina Duarte em publicação nas redes sociais sobre a partida de seu grande amigo e incentivador.
“Escrevi essa novela para a Regina Duarte e para a Carolina Ferraz“, contou Maneco em entrevista ao Memória Globo a respeito de seu grande sucesso História de Amor. Helena integra aqui um triângulo amoroso: apaixonada por Carlos Alberto (José Mayer), ela tem como rival a ciumenta Paula (Carolina Ferraz), com quem o médico é casado, e Sheila (Lília Cabral), a ex obcecada por ele. Nesta trama, uma campanha social sobre o câncer de mama foi promovida por meio da personagem Marta, interpretada por Bia Nunes. A novela reforçou campanhas de prevenção e conscientização, reforçando mais uma vez o compromisso de Maneco de levar entretenimento com contexto social em suas tramas.
A história também girava em torno do conflito entre mãe e filha. Helena luta para criar a adolescente Joyce (Carla Marins), que vive um relacionamento conturbado com Caio (Ângelo Paes Leme). Irresponsável, o rapaz abandona a moça grávida para não arcar com as responsabilidades da paternidade. Além disso, Joyce ainda precisa enfrentar o pai, Assunção (Nuno Leal Maia), um homem conservador que não aceita o namoro da filha.
Por meio de Assunção, o autor abordou o machismo repressor e moralista. O ex-atleta vive em conflito com sua filha, sua ex e a atual esposa. No decorrer da novela, ele sofre um acidente de carro, fica paraplégico e entra em depressão. O autor abordou, pela primeira vez em sua obra, a questão da paraplegia e também como o esporte pode recuperar a vontade de viver de alguém, trazendo força e coragem. Para falar desse tema, a novela contou com a participação especial de Pelé, na época Ministro dos Esportes.
A partir da personagem Mariana (Monique Curi), Manoel Carlos também abordou o drama de mulheres que não conseguem engravidar, apesar de não serem estéreis, tratando de casos ligados a comportamentos neuróticos, por desejarem demais ter filhos.
A novela foi ambientada no Rio de Janeiro, nos bairros do Leblon, Jardim Botânico e Gávea, na Zona Sul, e Barra da Tijuca, na Zona Oeste, tendo Teresópolis também como pano de fundo, na região serrana. As cenas reforçavam o tom urbano, moderno, cotidiano e carioca das novelas de Maneco.
O autor lembra que História de Amor foi sua primeira novela a ter um grupo de discussão para avaliar a trama. A novela foi o primeiro trabalho de José Mayer nas tramas de Maneco, que ainda trabalharia em diversas obras do autor se tornando figurinha carimbada em suas novelas.
A atriz Lilia Cabral conta que Sheila foi um desafio em sua carreira, pois ela demandava uma carga emocional muito alta, sendo o oposto do que tinha feito até então. A atriz gravava as cenas com muita concentração e dedicação para que sua vilã não se tornasse superficial ou artificial.
Transmitido no final de 1996, o final de História de Amor parou o Brasil e rendeu à novela sua maior audiência. Foram 46 pontos no Ibope, algo inédito para uma trama das 18h, consolidando definitivamente o nome de Maneco por todo o país e na história da teledramaturgia nacional. No capítulo, Helena finalmente revela para Joyce que ela não era sua filha biológica, mas sim de sua irmã falecida, Maria Lúcia.
Por Amor e o divisor de águas

Logo após esse sucesso, Maneco viria com talvez o seu maior marco na teledramaturgia nacional: a icônica e inesquecível Por Amor, exibida entre 1997 e 1998. A novela trazia novamente o tema de sacrifício que uma mãe faz por seus filhos, abdicando de tudo em prol da felicidade de suas crias. Mas, aqui, o sacrifício era algo muito maior e visceral.
Mãe e filha engravidaram na mesma época e vão para a maternidade terem seus filhos juntas. Eduarda (Gabriela Duarte) perde o útero no parto e dá à luz um bebê que morre logo em seguida. Helena tem uma criança perfeita e saudável em seus braços, seu filho. Fragilizada com o sofrimento de Eduarda e muito abalada pelo fato de a filha não poder mais ter filhos biológicos, ela implora para que o médico César troque os bebês. Chocado com o trágico momento, por amor à Eduarda e em nome de tudo que Helena já fez por ele durante a vida, ele faz a troca.
Essa cena emblemática da troca das crianças gerou debates por todo o país sobre os limites éticos do médico e os conflitos amorosos e sociais que envolveriam todo esse momento crucial para o desenrolar da trama. O que você faria por amor era a questão que norteava e centralizava a novela.
Helena diz a todos, inclusive para Atílio (Antônio Fagundes), pai do seu bebê, que a criança não resistiu. Eduarda passa a cuidar do próprio irmão como se fosse seu filho, dando a ele o nome de Marcelo Junior sem saber a verdade sobre o parto. A partir daí, César vive um transtorno pessoal, consumido pela culpa diariamente, enquanto Helena guarda o segredo, mesmo sofrendo ao ver tudo aquilo, chegando até mesmo a amamentar a criança, já que Eduarda não tinha leite suficiente. Ela vive no limite entre o amor pelo filho e o amor por Eduarda.
Somente no último capítulo o segredo é revelado, parando o país mais uma vez com o desfecho impactante de uma trama. Além desse motim forte inicial, Eduarda sofre, ao longo de toda a novela, com a perseguição de Laura (Vivianne Pasmanter), que tenta reconquistar Marcelo (Fábio Assunção) a qualquer custo. Obcecada, ela consegue até mesmo engravidar do ex-namorado, tendo filhos gêmeos, o que fere muito Eduarda.
Por Amor também abordava a trajetória de Orestes (Paulo José), ex-marido de Helena e pai de Maria Eduarda. Alcoólatra, frágil e derrotado, ele enfrenta uma longa jornada de sofrimento com o álcool até ser levado aos Alcoólicos Anônimos pela filha e pela neta Sandrinha (Cecília Dassi), no último capítulo da novela.

A vilã Branca Letícia de Barros Mota, vivida por Susana Vieira, também foi emblemática e é lembrada até hoje como uma das maiores vilãs da teledramaturgia brasileira. Petulante, arrogante e obsessiva, Branca vivia em uma relação conflituosa com sua filha Milena (Carolina Ferraz), que vive uma tórrida paixão com o piloto de helicópteros, Nando (Eduardo Moscovis), para o seu total desespero e horror. Milena e Nando fizeram muito sucesso com o público e são lembrados como um dos casais mais apaixonantes e sensuais de novelas, a repercussão foi avassaladora.
Branca também sempre rejeitou Leo (Murilo Benício), o considerando como o patinho feio da família, afirmando que estava satisfeita apenas com o casal de filhos Marcelo e Milena, deixando claro que ele não precisava ter nascido. Ela termina a novela sozinha, sem perder a pose e nem a soberba, mesmo diante da solidão.
A trama ainda abordou a bissexualidade por meio do personagem Rafael (Odilon Wagner) e o racismo através do drama da personagem Márcia (Maria Ceiça), esposa de Wilson (Paulo César Grande), um homem branco que não admitia ter um filho negro.
Maneco bateu o pé para conseguir emplacar a trama na Globo, que já havia sido descartada. Ele insistiu durante 14 anos para que a sinopse fosse aceita e levada para o ar. O autor apresentou a história pela primeira vez em 1983, mas o projeto acabou engavetado. Nesse período, Manoel escreveu Novo Amor na Manchete e El Magnate (1990) para a Telemundo, ambas baseadas nessa mesma sinopse.
A emissora queria que ele desenvolvesse a novela como uma trama das seis. Entretanto, Maneco queria que a história fosse ao ar às oito, por ser uma trama bastante forte e não queria cortar temas cruciais de sua obra. Quatro anos depois, ele foi escalado novamente para o horário das 18h e recusou usar a sinopse de Por Amor. Somente em 1997 foi promovido para o horário nobre e pôde desenvolver Por Amor do jeito que sempre desejou.
O autor afirmou que se inspirou no amor mais inquestionável e bonito de todos: o amor materno e a intensidade, a beleza e a dor das relações familiares.
“Foi o grande acontecimento da minha trajetória como atriz. Eu era muito jovem quando recebi a missão de encarnar a Eduarda. Ele confiou em mim“, contou a atriz Gabriela Duarte em entrevista à CNN Brasil, ressaltando a importância desse papel na sua carreira e a confiança mútua que existia entre ela e Maneco.
A novela até hoje segue provocando reações intensas no público e semeando diálogos e debates por diversas gerações se revitalizando através do tempo.
Laços de Família

Após o grande sucesso de Por Amor, Maneco escreveria outra obra emblemática que marcaria ainda mais seu nome no coração dos amantes de teledramaturgia: Laços de Família (2000), ambientada no bairro carioca do Leblon. O centro da trama era o triângulo amoroso entre o jovem Edu (Reynaldo Gianecchini), Helena (Vera Fischer) e sua filha Camila (Carolina Dieckmann). A mãe acaba abrindo mão de seu amor em nome da felicidade da filha, reforçando o tema recorrente do sacrifício materno nos folhetins de Maneco.
No decorrer da trama, Camila descobre uma leucemia, e a única forma que sua mãe encontra para salvá-la é gerando um filho do mesmo pai que a menina, um homem que ela já não ama.
“A ideia surgiu de um fato real. Foi em 1991, vi uma história de uma mãe nos Estados Unidos que gerou um filho e doou as células-tronco do cordão umbilical do bebê para a filha com leucemia, eu fiquei sabendo pelo jornal. Pensei que se ninguém fizesse essa história eu faria. Em 1995, fiz a sinopse. O tema principal é uma mãe que engravida de um homem, já sem gostar dele, para salvar a sua filha. Novamente, a relação de amor de mãe com filha é fundamental”, contou Maneco ao Memória Globo.
“Fiquei tão feliz em interpretar Helena, o Manoel falava que era a Helena que ele tinha mais amor, mais encantamento”, relembra Vera Fischer em entrevista à CNN Brasil, sobre a felicidade de viver uma das Helenas mais marcantes das obras do autor.
A novela também trouxe núcleos importantes, como o de Capitu (Giovanna Antonelli), uma universitária que se prostitui para sustentar os pais e o filho de um ano, enfrentando um forte preconceito; Pedro (José Mayer), um homem rústico e disputado; da espevitada e rebelde Íris (Deborah Secco), apaixonada por Pedro, que a trata como criança; e o mulherengo e bon vivant Danilo (Alexandre Borges), sustentado pela esposa Alma (Marieta Severo) envolvido com a empregada Ritinha (Juliana Paes).

A abordagem da leucemia retratada na novela levou a Rede Globo a conquistar o mais importante prêmio de responsabilidade social do mundo, o Bitic Awards For Excellence 2001, na categoria Global Leadership Award. O chamado Efeito Camila provocou aumento no número de doadores de sangue, órgãos e medula óssea por todo o Brasil. A cena em que Camila raspa os cabelos parou o país e é lembrada até hoje como símbolo de conscientização para doação de medula, resultando em um aumento de mais de 100 novos cadastros de doadores na época da novela, segundo o Instituto Nacional do Câncer.
Além disso, a novela abordou temas sociais relevantes, como a inclusão de pessoas com deficiência, por meio do personagem vivido pelo ator Flávio Silvino, a impotência masculina, a depressão, a campanha Solidariedade e Cidadania e a importância da leitura.
Mulheres Apaixonadas e o culto ao feminino

Após Laços de Família, Manoel Carlos obteve grande sucesso com a minissérie Presença de Anita (2001), baseada em um livro de mesmo nome de Mário Donato. A produção foi responsável pela maior audiência de uma minissérie nos anos 2000, com média de 30 pontos no Ibope, algo muito grande para a época.
Em 2003, viria mais um de seus grandes sucessos em novelas, uma obra fascinante que aborda a força das mulheres para superar as dificuldades da vida, exaltando-as e coroando-as por meio de suas paixões, amores e vitalidade: Mulheres Apaixonadas (2003). “Acho que a mulher move o mundo, não só pelo fato dela ser geradora de um ser humano, mas porque eu acho a mulher mais forte, mais sofrida, e injustiçada. Tem mais dificuldade na vida e no trabalho e faz disso uma fortaleza”, contou o autor ao Memória Globo.
A trama girava em torno da diretora de uma escola de ensino médio, Helena, dessa vez interpretada por Christiane Torloni, que resolve viver uma nova paixão após 15 anos casada com Téo (Tony Ramos). Ela forma, ao lado de César (José Mayer) e Luciana (Camila Pitanga), o principal triângulo amoroso da história, marcada por segredos, amores e dramas familiares.

Entre um dos núcleos mais marcantes esteve o casal de idosos Flora (Carmem Silva) e Leopoldo (Oswaldo Louzada), maltratados pela neta Dóris (Regiane Alves). A história denunciou as violências e o abandono sofridos por idosos no Brasil e teve forte repercussão social, contribuindo para a aceleração da aprovação do Estatuto do Idoso, em 2003. A novela é vista como uma das maiores aliadas na conquista desse direito, e Regiane Alves chegou a ir até Brasília para apoiar o projeto.
Outro destaque foi Heloísa (Giulia Gamm), irmã caçula de Helena, cujo ciúme doentio que nutria por seu marido, Sérgio (Marcello Anthony) gerou uma das tramas mais comentadas da época. A personagem passou a frequentar as reuniões de um grupo de apoio chamado Mulheres Que Amam Demais Anônimas, repleto de histórias verdadeiras, que impulsionaram as mulheres de todo o país a buscar ajuda.
Outro tema abordado foi o da violência doméstica contra as mulheres por meio de Raquel (Helena Ranaldi), vítima do marido agressivo Marcos (Dan Stulbach). Ele agride Raquel de várias formas, inclusive com uma raquete de tênis. A trama evidenciou a fragilidade do sistema penal e do apoio às mulheres e resultou em um aumento de mais de 40% nas denúncias de casos de violência doméstica no Rio de Janeiro.
A novela ainda abordou temas como o desarmamento, após a morte de Fernanda (Vanessa Gerbelli), vítima de bala perdida, a doação de órgãos, o câncer de mama, o alcoolismo mais uma vez e a relação amorosa entre duas mulheres representadas pelo casal de adolescentes Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli), que enfrentam a resistência dos pais e o preconceito de colegas da escola para assumirem o seu amor. A abordagem foi considerada um avanço e obteve um enorme sucesso. Outro grande sucesso da trama foi o relacionamento entre Estela (Lavínia Vlasak) e o padre Pedro (Nicola Siri) que desafiaram as dimensões do amor, o preconceito e o plebiscito, com Pedro dividido entre a paixão e a batina de padre. A química dos dois era imensa e até hoje eles são lembrados como um dos melhores casais de novelas da televisão brasileira.

Christiane Torloni foi escolhida para interpretar Helena por representar o perfil desejado pelo autor: “uma mulher bonita, determinada, de nariz em pé com certa arrogância e atrevimento” , conforme contou em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, em 2002.
A novela foi um tremendo sucesso e impactou tanto o cotidiano brasileiro que gerou até mudanças em leis do país. Ela conquistou uma série de prêmios, incluindo troféus dos Prêmio Extra de Televisão, Melhores do Ano, Troféu Imprensa, Prêmio de Qualidade Brasil e Prêmios Contigo!, consolidando, mais uma vez, o poder de Manoel Carlos em transformar temas cotidianos em folhetins de grande relevância social.
Páginas da Vida

Em 2006, Manoel Carlos escreveu o sucesso Páginas da Vida, trazendo novamente Regina Duarte como Helena, uma médica forte e determinada que decide cuidar de uma criança com Síndrome de Down rejeitada pela avó, a perversa Marta, interpretada brilhantemente por Lília Cabral.
A trama acompanhava Nanda (Fernanda Vasconcellos), que engravida do namorado Léo (Thiago Rodrigues) durante um intercâmbio em Amsterdã. Após retornar ao Brasil, Nanda sofre um acidente e a obstetra Helena consegue salvar os bebês, mas a jovem morre. Marta fica com os netos, mas rejeita a menina com Síndrome de Down, o que leva Helena a lutar pela adoção da criança.
A novela se destacou pela discussão sobre a inclusão social de pessoas com Síndrome de Down e o preconceito enfrentado por elas através da personagem Clara (Joana Mocarzel). Regina Duarte buscou se aprofundar no tema, e a equipe usou como referência o documentário Do Luto à Luta (2005), de Evaldo Mocarzel.
Outros temas abordados foram a bulimia, por meio do drama de Giselle (Pérola Faria),o alcoolismo vivido por Bira (Eduardo Lago), além da discriminação racial e da Aids. Segundo o autor, o alcoolismo seria um tema recorrente em suas novelas porque ele o considerava a maior praga social, o maior dos vícios que existem, que deveria ser tratado com mais seriedade e rigor por ser uma droga lícita e amplamente comercializada.
A campanha de lançamento da trama contou com a participação do público e com livrarias disponibilizando um livro em branco para relatos pessoais.

Inicialmente convidada para viver Marta, Renata Sorrah recusou o convite e a personagem ficou para Lília Cabral, considerada por Maneco como a sua antagonista perfeita: “As pessoas muitas vezes me perguntam por que ela nunca fez uma Helena. Porque ela, para mim, é a antagonista ideal. Ela é muito boa antagonista. Ela é a que combate a heroína, a rival da heroína, ela tinha razões pra ser como era, nunca foi vilã. Ela sempre se destaca, não adianta dar papel pequeno pra ela, ela fica grande”, explicou Maneco em uma carta feita por ele para Lilia, lida por ela no especial Tributo, da Rede Globo.
Em 2009, o autor escreveu a minissérie Maysa: Quando Fala o Coração, uma biografia da cantora Maysa, que obteve grande sucesso de público e reconhecimento da crítica.
Viver a Vida e a primeira Helena negra

Ainda em 2009, Manoel Carlos escreveu Viver a Vida, novamente ambientada no Leblon e com Taís Araújo como a Helena da vez, tornando-se a primeira protagonista negra de uma novela das oito da TV Globo e a primeira Helena negra do autor. A escolha foi um marco na teledramaturgia brasileira, embora a passagem tenha enfrentado forte rejeição do público logo no início da trama, refletida em pesquisas que apontaram racismo estrutural e resistência à ascensão social da personagem.
O próprio autor admitiu que errou na construção do perfil de Helena, o que acabou criando uma antipatia por parte do público em vez de humanização e empatia, como ele havia planejado. Devido aos problemas, o triângulo amoroso formado por Helena, Bruno (Thiago Lacerda) e Marcos (José Mayer) acabou perdendo força, enquanto a trama passou a girar em torno de Luciana (Alinne Moraes), que se torna tetraplégica após um acidente, e forma um triângulo amoroso com os irmãos gêmeos Jorge e Miguel (Mateus Solano).O romance dela com Miguel é arrebatador, puro e encantador levando o país todo á se emocionar com o desabrochar do amor deles que nasce aos poucos e é a coisa mais linda!
“Era difícil aceitar uma negra bem posicionada sem justificar o porquê de ela estar ali, eu recebi uma enxurrada de críticas de todos os lugares e lados. Aquilo bateu diretamente em mim e hoje eu vejo o que a gente errou em achar que o Brasil não era o Brasil que se apresenta hoje. Na época, era um Brasil que a gente acreditava muito que éramos todos iguais, que éramos vistos da mesma forma, quando na verdade, não era assim”, contou Taís em entrevista ao especial Tributo, da TV Globo.
A trama acompanha Helena, uma jovem modelo de sucesso, que decide se despedir das passarelas para se casar com o empresário Marcos. O romance não é bem visto pela filha dele, a modelo Luciana, que conta com o apoio da mãe, Tereza (Lília Cabral).

O drama de Luciana ganhou centralidade e foi amplamente elogiado por abordar superação, inclusão social e acessibilidade. A novela exibiu depoimentos reais ao final dos capítulos e apresentou projetos de inclusão e uma série de produtos criados para cadeirantes, como o projeto itinerante Praia Para Todos, além de adaptações domésticas, o desafio de acessibilidade, o transporte público para cadeirantes, o preconceito e os desafios cotidianos enfrentados por pessoas com deficiência.
Manoel, juntamente com Jayme Monjardim, diretor da trama, ainda chegou a criar um blog da personagem, batizado de Sonhos de Luciana, idealizado para receber e responder mensagens de internautas reais e que obteve grande repercussão. A trama também discutiu temas como o alcoolismo, incluindo a anorexia alcoólica, vivida pela personagem Renata (Bárbara Paz). Apesar da repercussão social e do sucesso comercial, a novela teve repercussão crítica dividida, mas rendeu prêmios para o autor e para a produção.
Em Família, a última novela e a última Helena

Em 2014, após projetos engavetados, Maneco escreveu Em Família, sua última novela, trazendo a derradeira Helena, interpretada por Júlia Lemmertz e Bruna Marquezine em duas fases distintas. A escolha de Lemmertz foi uma homenagem à sua mãe, a também atriz Lilian Lemmertz, que viveu a primeira Helena do autor em Baila Comigo, de 1981. “Acho que viver Helena não é fazer uma protagonista qualquer, é um grande desafio, um trabalho emocionante, é lindo pensar que dentro da novela tem essa homenagem à minha mãe, a todas as Helenas, mas especialmente essa conexão com ela, pelo fato de ter sido a primeira Helena”, disse a atriz em entrevista ao portal Na Telinha, do Uol.

A trama acompanhava a história marcada por amor, ciúme e obsessão entre os primos Helena e Laerte (Eike Duarte, Guilherme Leicam, Gabriel Braga Nunes). Virgílio (Humberto Martins) era amigo dos dois e também um dos motivos para a constante briga do casal. No dia do casamento dos dois, Laerte é preso por tentar matar Virgílio. Helena não perdoa o noivo, se muda para o Rio de Janeiro e casa com Virgílio. Com três fases, indo dos anos 1980 até 2014, a trama começa em Goiás e se desenrola vinte anos após a separação dos dois no Leblon, bairro do Rio de Janeiro que é o pano de fundo de grande parte das obras de Maneco.
Laerte, que havia ido morar na Europa para estudar flauta após um ano de prisão, retorna ao Brasil e demonstra interesse por Luiza (Bruna Marquezine), filha de Helena, que possui grande semelhança com a mãe, que desaprova o namoro entre eles. A trama abordava duas famílias movidas por amor, ciúme, culpa e inveja.

Entre os destaques da trama, esteve a relação homoafetiva entre Clara (Giovanna Antonelli) e a fotógrafa Marina (Tainá Muller). Clara é casada com Cadu (Reynaldo Gianecchini) e se vê dividida entre o comodismo de sua relação e a paixão avassaladora que começa a nutrir por Marina. A relação é bonita, natural, bem desenvolvida e um marco na história da representação LGBTQIA+ na teledramaturgia nacional com grande aceitação do público!
A novela também abordou alcoolismo, doença de Parkinson e conflitos familiares confusos .Apesar de ditar moda e levantar debates relevantes, Em Família foi um fracasso de audiência e recebeu críticas por seu ritmo lento e enfadonho, encerrando a trajetória de Manoel Carlos nas novelas.
Legado

Manoel Carlos criou personagens memoráveis, vilãs inesquecíveis e tramas do cotidiano que refletiam como um espelho da alma do telespectador, que habitam a memória afetiva do país, com amores reais, conflitos carregados de dor e beleza, sentimentos avassaladores e a família acima de qualquer coisa.
O sacrifício materno atravessava suas obras e pulsava como sua essência viva. Suas obras, quase sempre ambientadas no Leblon, embaladas pela bossa nova e pelo autêntico jeito Maneco de ser, eram carregadas de poesia e autenticidade e um olhar sensível de um autor que enxergava beleza no cotidiano. Havia ali uma mágica alucinante e singular, a sensação de sermos capazes de nos teletransportar e de nos fazer imaginar caminhando descalças pelo calçadão de Copacabana como uma de suas Helenas, pensando na vida enquanto o mar observava em silêncio, um universo só dele.
Poético e cronista das emoções humanas, Manoel Carlos deixa um legado inestimável para a história da teledramaturgia brasileira, transformando a realidade por meio de suas tramas, sem jamais abandonar o caráter social e legítimo, o compromisso humano das suas obras. Manoel Carlos nos dava tempo para refletir, debater, nos emocionar e nos apaixonar como nunca.
O Brasil se despede de um autor atento a cada gesto, do drama ao amor, das paixões ao silêncio, cujo legado seguirá vivo como uma parte de nossa própria história. A história de quem cresceu, se reconheceu e se refletiu em cada uma de suas obras inesquecíveis em cada um de nós.
E aí, gostou de saber mais sobre esse grande ícone brasileiro? Conta para gente nas redes sociais do Entretê! Nos siga no X, no Facebook e no Instagram e não perca as novidades.
Leia também:
Texto revisado por Larissa Couto @larscouto e Cristiane Amarante @cris_tiane_rj






