Apesar de explorar temas familiares para as roteiristas, o K-drama não tem a mesma coerência de outros projetos das irmãs Hong
Contém spoilers
Quando o novo K-drama das irmãs Hong, O Amor Pode Ser Traduzido?, foi anunciado no final do ano passado, a expectativa era alta. Conhecidas por roteiros folclóricos e filosóficos, que tematizam identidade e mergulham no psicológico de personagens complexos, seus dramas costumam reverberar no público para muito além dos créditos do episódio final.
Em O Amor Pode Ser Traduzido?, contudo, a mágica das roteiristas dá espaço para uma trama inconsistente, que vitimiza boas ideias e parece não se decidir entre propostas completamente diferentes.
Confira o trailer abaixo:
Na série, acompanhamos Cha Mu-hee (Go Youn-jung) uma jovem atriz que sai do anonimato do dia para a noite após um acidente, e Ju Ho-jin (Kim Seon-ho), um intérprete multilíngue que a conheceu antes da fama. Quando Mu-hee aceita viajar pelo mundo em um reality show romântico ao lado do astro japonês Hiro (Sota Fukushi), Ho-jin é contratado para traduzir as conversas entre os dois.
De forma quase metaficcional, um dos maiores clichês das histórias de romance é evidenciado como fio condutor de O Amor Pode Ser Traduzido?, presente desde o título: a comunicação – ou melhor, a dificuldade de se comunicar. “Existem tantas línguas quanto existem pessoas,” explica um personagem em um dos diálogos mais memoráveis da produção. “Cada um fala sua própria língua. Por isso as pessoas se desentendem, se interpretam errado e se ofendem.”
O K-drama deixa claro, contudo, que esse desentendimento fundamental não se limita ao interpessoal: quantos de nós somos realmente fluentes no nosso próprio idioma? Quantas vezes sentimos, fazemos ou pensamos coisas que simplesmente não conseguimos interpretar? Se Ho-jin não consegue entender a língua de Mu-hee, logo percebemos que, às vezes, ela própria também não se entende.
Sob esse tema, acredito que se desenvolva uma das melhores reflexões da produção, que parece mostrar que o nosso idioma, assim como qualquer outro, só pode ser decifrado e aperfeiçoado em diálogo. É no relacionamento com outras pessoas, no ato da comunicação (seja ela platônica, fraternal ou romântica, falada ou não) que nos conhecemos e entendemos de fato.

Mas o maior diferencial, que depois se torna, na minha visão, o maior problema de O Amor Pode Ser Traduzido?, é Do Ra-mi, também interpretada por Go Youn-jung. No começo do K-drama, Mu-hee ganha o papel de uma zumbi, Do Ra-mi, na produção de terror chamada A Mulher Silenciosa. Durante as filmagens, ela sofre um acidente e, ao se recuperar, começa a ser assombrada por essa personagem.
Apesar do histórico das roteiristas, Do Ra-mi não é uma figura sobrenatural, mas representa, a princípio, o arquétipo da sombra junguiana, sendo assim uma manifestação dos medos, traumas e desejos reprimidos de Mu-hee. Nesse sentido, não é por acaso que o nome do filme seja A Mulher Silenciosa, tendo em vista que Do Ra-mi personifica esse aspecto obscuro e reprimido do subconsciente que não deve ser dito em voz alta.

E a ideia é ótima. Personificar as inseguranças da personagem como esse fantasma que a persegue e a boicota com o constante lembrete dos seus maiores medos, mas que também é seu próprio espelho, é interessante e rende diálogos e reflexões muito bons. Em particular, há uma cena em que Mu-hee conversa com Ho-jin (que é o único que sabe sobre Do Ra-mi) e percebe que é, ela própria, sua maior hater.
O problema é quando as roteiristas abandonam essa ideia para dar lugar a uma dinâmica de dupla personalidade, de forma que Do Ra-mi deixa de ser esse sabotador, essa sombra, e se torna um alter ego de Mu-hee.
Existe aqui um paralelo com histórias como Cisne Negro (2010) e até, por que não, Clube da Luta (1999), que trazem a cisão da personagem em duas personalidades diferentes e até opostas que elevam à superfície aquilo que por convenções sociais deveria permanecer reprimido. Na música, é como o Slim Shady do Eminem ou o Agust D, do Suga: uma alternativa criada para expor aquilo que há de mais pesado e que o seu Eu, por qualquer motivo, não consegue ou não tem coragem de verbalizar.
Assim, quando Mu-hee chega ao seu limite e não consegue lidar com as memórias, traumas e decisões que a pressionam, ela permite que Do Ra-mi assuma o controle e resolva seus problemas. Como um interruptor, a partir da segunda metade do K-drama, as duas alternam entre si, sem que Mu-hee se lembre do que disse ou fez enquanto Do Ra-mi estava à frente.

Existe uma inconsistência nessa ideia. Quando essa mudança ocorre, Do Ra-mi deixa de tentar sabotar Mu-hee e ser, como ela mesma já tinha identificado, sua maior hater, e passa a querer o seu melhor e a realizar desejos que suas inseguranças (outrora alimentadas pela própria Do Ra-mi) a impediam de tentar, até dizendo em certo momento que ela faz aquilo que Mu-hee tem medo de fazer.
Ela vai, de uma hora para outra, de uma sombra, que perseguia Mu-hee, para um alter ego, que, quando a possui, a ajuda a superar suas limitações. E Mu-hee, que antes tinha medo de Do Ra-mi e paralisava frente suas aparições, começa a enxergá-la quase como uma amiga que a possui sempre que está triste.
O Amor Pode Ser Traduzido? não se decide sob que luz quer colocar Do Ra-mi. Sendo simbólico, muitas dessas incoerências até poderiam ser justificadas, mas o K-drama parece querer aproximar, de forma muito irresponsável e cientificamente falha, essa segunda personalidade de um Transtorno Dissociativo de Identidade.
Seja um recurso narrativo simbólico ou um transtorno, é muito triste como essa fragmentação é eventualmente superada ou amenizada uma vez que Mu-hee e Ho-jin conseguem se entender e ficar juntos, como se o amor ou uma única pessoa pudesse curar o transtorno ou afugentar os fantasmas de Mu-hee, ainda que a maioria deles sequer tivesse origem romântica.

Existe claramente a intenção de colocar Ho-jin como aquele que ama Mu-hee apesar de sua sombra, do seu passado e do seu maior segredo, sobretudo pela decisão de colocá-lo interagindo mais com Do Ra-mi que com Mu-hee na segunda parte, mas, no fim, o peso dos traumas reais da personagem acabam reduzidos diante de uma solução amorosa.
O K-drama até entende isso quando, no final, faz Mu-hee e Ho-jin terminarem para que ela possa sair em uma busca por si mesma, mas por deixar essa escolha no último episódio e reduzir esse intervalo em uma quebra de tempo que logo coloca os dois juntos novamente, dá menos atenção ao que poderia ser a elaboração e enfrentamento reais dos seus conflitos e mais ao final feliz do casal.
Ainda sobre o final, O Amor Pode Ser Traduzido? também sofre com um dos piores clichês de K-drama: o da grande reviravolta revelada no último episódio e que não tem tempo de ser desenvolvida de forma apropriada. Aqui, é um problema sintomático de uma produção que em muitos momentos não parece capaz de desenvolver as polêmicas que cria.
Apesar desses pontos, é preciso destacar a atuação de Go Youn-jung, porque a forma como ela transita e distingue as duas é impressionante, faz parecer que são atrizes diferentes. Há uma cena em que Mu-hee está chorando em uma exposição que o espectador consegue notar o momento em que Do Ra-mi assume por uma simples mudança de olhar.

Infelizmente, acredito que Kim Seon-ho esteja fraco como Ho-jin. Para ser justa, seu personagem também é pouco cativante e há pouco o que explorar no roteiro, mas ele não consegue trabalhar bem aqui.
A fotografia e o design de produção são grandes triunfos de O Amor Pode Ser Traduzido?. As composições de cena, o uso das cores e das sombras criam contrastes, divisões e símbolos próprios – como o momento em que Mu-hee se lamenta na cama do hotel enquanto Do Ra-mi dança ao seu lado sob um holofote e cores saturadas; ou quando, mesmo um de frente para o outro, Ho-jin e Mu-hee são iluminados por cores diferentes.
É evidente que as irmãs Hong têm um interesse em estudar a identidade. Em Alquimia das Almas (2022 – 2023), existe essa mesma proposta de ser possuído por uma versão “do mal” de si mesmo, inclusive, com muito sucesso e para resultados muito interessantes. Mas, apesar de muitas boas ideias, O Amor Pode Ser Traduzido? não desenvolve quase nenhuma de forma consistente, inclusive abortando muitas pela metade.

No fim, a coragem característica das irmãs de abraçar temas densos e mergulhar no psicológico de personagens fragmentados não veio, dessa vez, acompanhada da coesão e da atenção que estruturaram e garantiram a qualidade de seus projetos passados.
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Texto revisado por Angela Maziero Santana
































